Grã-Bretanha: crise econômica, pandemia e as lições do movimento Black Lives Matter

Dados de 9 de julho, divulgados pelo Ministério da Saúde da Grã-Bretanha, apontam um total de 44.602 mortes por Covid-19 e 287.621 infectados no Reino Unido. Ao mesmo tempo, o governo do conservador Boris Johnson continua relaxando as medidas de contenção da propagação do vírus, flexibilizando as regras de quarentena, estimulando o consumo e facilitando as regras de viagens oriundas da Alemanha, França, Espanha, Itália, entre outros países, para incentivar a retomada do turismo. 

No dia 4 de julho, enquanto o país abria lojas, bares etc., a cidade de Leicester, na região de East Midlands, se confinava em um lockdown iniciado após um pico de contaminação por coronavírus. 

A razão para esse repentino aumento de casos se deve a vários fatores. Entre as principais razões, estão as condições péssimas de trabalho nas empresas e fábricas em toda a cidade – principalmente na indústria de têxtil –, a falha do governo em publicar resultados de testes, o que impossibilitou o acompanhamento do aumento de casos a tempo de tomar as medidas necessárias, e  as péssimas condições de vida em bairros proletários.

Com a chegada da pandemia, as grandes varejistas de roupas, que realizam vendas online, aumentaram a demanda. De acordo com denúncias de trabalhadores da indústria têxtil de Leicester, o aumento da contratação de funcionários na área não veio acompanhado de medidas de proteção aos trabalhadores, que estavam sendo confinados no mesmo espaço que antes abrigava a metade deles.  De acordo com matéria da BBC2, um “trabalhador, que não pode ser identificado, disse que as empresas que ‘costumavam ter 50 pessoas trabalhando confortavelmente, agora tinham 80 ou 90 pessoas na mesma área’”.

Investigações sobre a situação destes trabalhadores expuseram casos de empresas que não oferecem Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e chefes que desconsideram casos em que os trabalhadores testaram positivo para a Covid-19. Os patrões continuaram a forçar as pessoas infectadas a trabalhar, proibindo subsídios por doença e acesso ao regime de licença do governo, deixando-os sem opção a não ser continuar trabalhando.

Enquanto os capitalistas podem desfrutar do isolamento social em suas mansões, seus funcionários são forçados a se submeter à intensificação da exploração sem condições mínimas para garantir a sua sobrevivência. O desprezo que a classe dominante detém pela classe trabalhadora é flagrante. Boris Johnson afirmou que o surto em Leicester foi devido à incompreensão das pessoas sobre o que fazer, ou seja, a culpa é dos trabalhadores por não entenderem as orientações do governo. Também há a hipocrisia da burguesia, que pressiona pela reabertura de praias e comércios e depois culpam a população pela aglomeração nesses locais.

O mesmo governo que critica os trabalhadores pela explosão de casos em Leicester, não toma nenhuma medida efetiva para melhorar a situação dos moradores de bairros pobres da cidade. A taxa de pobreza infantil nesta cidade, que possui 330 mil habitantes, era, antes da pandemia, de 40%. Em algumas regiões essa taxa passa de 50%. Essa parte da população, que vivem em casas apertadas e são mais explorados, é a que mais sofre com a pandemia.

A ameaça do desemprego

Após anunciar um pacote de 30 bilhões de libras – a maior intervenção do governo britânico na economia em tempos de paz –, no dia  30 de junho, Boris Johnson quis aliviar seus colegas empresários declarando: “Meus amigos, eu não sou um comunista”, e continuou, “Acredito que também é função do governo criar as condições para o livre mercado“. Entre as propostas anunciadas, estão: financiar a criação de empregos “kickstart” para jovens; oferecer bônus a empresas que contratam aprendizes; investir em medidas de eficiência energética para edifícios públicos e concessão de subsídios para favorecer o isolamento em casa e corte temporário de impostos.

Porém, essas medidas são insuficientes diante do quadro que desenha no futuro que está muito próximo. O desemprego é uma ameaça perigosa e real no Reino Unido: 

“Milhares de cortes de empregos já foram anunciados por empresas em geral. O Grupo SSP, incluindo Upper Crust, anunciou a demissão de 5 mil pessoas. Mais demissões ocorrerão na John Lewis, Harrods, Arcadia Group, Harveys e Bensons. A Airbus alertou que cortaria 15 mil empregos. A EasyJet deve demitir 727 pilotos, mas acrescentou que há uma ameaça para 30% de sua força de trabalho – cerca de 4.500 trabalhadores. O Royal Mail anunciou 2 mil cortes. Bombardier, Nissan e Centrica também devem demitir. 

“As maiores empresas anunciaram o fechamento de pelo menos 100 mil postos de trabalho. Dezenas de milhares de pequenas empresas estão prestes a falir. As estimativas dizem que 3,8 milhões estarão desempregados na Grã-Bretanha no fim do ano. Já os que reivindicam benefícios aumentaram em 500 mil em maio, para um total de 2,8 milhões.” (It’s not a second wave – it’s a tsunami, Rob Sewell)

Há um limite para o próprio capitalismo diante das dimensões da crise atual. Não há dinheiro que possa empurrar mais a crise que estourou agora, como foi feito em 2008. E já sabemos sobre quem recairá conta da criação de “condições para o livre mercado”: a classe trabalhadora. Boris, no mesmo discurso explicou que esse investimento seria devolvido para o governo. Isto significa mais austeridade e ataques à classe trabalhadora. 

Os reformistas, incapazes de se colocarem ao lado da classe trabalhadora, defendem saídas dentro da própria lógica do capital. O resultado é um “keynesianismo” anacrônico, discursos vazios que não apontam a única saída real para os trabalhadores, isto é, tomar o controle da economia, incluindo os bancos, e planejar a produção no interesse da maioria. Não há solução em uma base capitalista.

O que nos ensina o movimento Black Lives Matter

Mas a juventude e os trabalhadores não aceitam passivamente enquanto milhares morrem pela incapacidade dos sistema de saúde de atender a demanda, pelo aumento do desemprego e por inúmeros problemas que afetam a vida da maioria da população.

As manifestações desencadeadas nos EUA, após a morte de George Floyd pela polícia, se espalharam pelo mundo. Aconteceram dos bairros pobres de Paris aos territórios anexados da Cisjordânia. Na Grã-Bretanha, a situação não foi diferente. Milhares tomaram às ruas de quase todas as grandes cidades e de uma grande quantidade de outras menores. Há uma raiva latente na sociedade britânica e o movimento Black Lives Matter expressa um amplo sentimento de injustiça experimentado por milhões. 

Os problemas desencadeados pela pandemia não se dissociam questão racial e os trabalhadores compreendem isso. Em Leicester, dois terços da população são o que os britânicos chamam de BAME, um acrônimo, em inglês, para negros, asiáticos e minorias étnicas, ou seja, não brancos. São trabalhadores que estão em situação maior de risco e que recebem os menores salários. Os trabalhadores estão tirando conclusões importantes e percebendo que o racismo está enraizado no modo de produção capitalista. 

Entretanto, somente uma luta revolucionária pode pôr um fim nisso. O movimento iniciou de forma espontânea, sem dirigentes definidos, e isso permitiu os primeiros passos, que fossem além do interesse das direções reformistas. Mas agora é esta ausência de direção que se torna o obstáculo do movimento. 

Há vários setores da burguesia que buscam cooptar ou tomar a direção do movimento. Desde os defensores do capitalismo negro, que defendem a ideia de alguns negros ricos como forma de “reparar” o racismo, até grandes empresas que estão se declarando antirracistas, realizando doações etc., sendo que elas não só agem de forma racista, como se utilizam disso para dividir os trabalhadores.  Essa camada da burguesia também está preocupada com a palavra de ordem “abolish the police” que tem surgido em diversos atos. 

A questão da direção é crucial no atual momento, trata-se do grande dilema do movimento operário. O papel dos marxistas britânicos, de nossos camaradas do Socialist Appeal, é a de apresentar um programa revolucionário que explique que para acabar com o racismo é preciso acabar com o capitalismo. Que é necessário lutar pelo fim da polícia, mas também pelo fim do regime da propriedade privada que precisa da polícia para sobreviver. Sem um partido revolucionário da classe trabalhadora, que coloque a questão do poder, as chances para que esses movimentos esfriem são grandes. Porém, os trabalhadores aprendem, tiram suas próprias conclusões e irão perceber que a sua organização é a única ferramenta que pode garantir uma mudança verdadeira. 

Referências:

1 <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2020/07/09/reino-unido-tem-mais-85-mortes-e-642-casos-de-infeccao-pelo-novo-coronavirus.htm>

2 <https://www.bbc.com/news/uk-england-leicestershire-53363102>

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