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Fukuyama, a luta de classes e a permanência da história

Em 2022, completa-se 30 anos do lançamento do livro O fim da história e o último homem, escrito por Francis Fukuyama. Nessa obra, Fukuyama, que trabalhou na equipe de Planejamento Político do Departamento de Estado  norte americano, afirmava que a difusão mundial das democracias liberais e do livre mercado capitalista sinalizavam o fim da evolução da humanidade, defendendo que “a democracia liberal pode constituir o ‘ponto final da evolução ideológica da humanidade’ e ‘a forma final de governo humano’, e como tal, constitui o ‘fim da história’”.1 Essa perspectiva se deu no contexto de derrubada dos Estados operários burocráticos no chamado Leste Europeu, a partir do qual há uma ofensiva econômica, política e ideológica do capitalismo. O ano de 1989, segundo Fukuyama, “marca o colapso decisivo do comunismo como um fator na história mundial”.2

Fukuyama e outros ideológicos defensores do capitalismo baseiam suas posições na ideia de que o socialismo não teria “dado certo” em função de seus governos “ditatoriais” ou “totalitários”. Sufocando a democracia e a sociedade – o que significa dizer que sufocaram o mercado e a livre concorrência – esses regimes não teriam permitido o desenvolvimento econômico, político e cultural dessas sociedades. Fukuyama afirma:

“Numa democracia liberal o Estado é, por definição, fraco: a preservação de uma esfera de direitos individuais significa uma delimitação nítida do poder do Estado. Os regimes autoritários de Direita ou de Esquerda, ao contrário, procuraram usar o poder do Estado para interferir na esfera privada e controlá-la para diversos fins – seja para aumentar a força militar, para promover uma ordem social igualitária, seja para apresar o crescimento econômico”.3

Esse raciocínio mecânico, onde o Estado é visto como opressor e a liberdade individual é igualada à liberdade de mercado, aposta em uma equação bastante simples, na qual o capitalismo é “inevitável para os países adiantados” e o socialismo “um sério obstáculo à criação de riqueza e de uma civilização tecnológica moderna”.4 Esse raciocínio associa de forma mecânica o capitalismo à prosperidade, ainda que seja um modo de produção marcado por crises periódicas. Nessa lógica expressa por Fukuyama, o socialismo seria possível apenas por meio de uma ditadura, utilizando-se de um Estado repressor, que dominasse todos os âmbitos da sociedade.

“O Estado totalitário pretendia refazer o próprio homem soviético, mudando a estrutura das suas crenças e valores por meio do controle da imprensa, da educação e da propaganda. Isso se estendia às relações mais pessoais e íntimas do ser humano, as relações de família”.5

Essa compreensão mecânicas da realidade desconsidera alguns importantes aspectos. Em primeiro lugar, que o regime político existente nos países que expropriaram a burguesia, parcial ou totalmente, nunca avançou para o socialismo. E segundo lugar, que as crises do capitalismo têm sua origem na própria estrutura do sistema de acumulação. Essa ideia equivocada do que seria o socialismo e a deturpada compreensão do funcionamento do sistema capitalista são o que embase avaliações como esta de Anthony Giddens: “ninguém mais tem qualquer alternativa para o capitalismo – as discussões que restam dizem respeito a até que ponto, e de que maneiras, o capitalismo deveria ser governado e regulado”.6 Não há possibilidade de revolução, de construção do socialismo, portanto, para essa compreensão conservadora, o capitalismo é a mesmo a última parada da humanidade.

Se igualar socialismo e ditadura servem para desqualificar qualquer tipo de experiência histórica que aponte para a superação do capitalismo, a própria crítica da reprodução do capital, elaborada por Marx, passa a ser considerada “inadequada”, pois supostamente subestima, segundo Giddens, “a capacidade do capitalismo de inovar, adaptar e gerar uma produtividade crescente”.7 Nessa lógica, um dos supostos erros de Marx teria sido apontar que naturalmente se chegaria ao socialismo. Segundo Fukuyama,

“Marx partilhou também da crença de Hegel na possibilidade de um fim na história: isto é, previu uma forma final de sociedade, que estivesse livre de contradições, e cuja realização concluiria o processo histórico”.8

Mas quem se dedica a ler a obra de Marx e de Engels sabe que poucas páginas de sua produção foram dedicadas a imaginar a utopia comunista. Essa postura foi devidamente analisada e criticada, especialmente por Engels. A concepção desenvolvida pelo marxismo aponta para a história como uma construção material e concreta dos seres humanos em sociedade, portanto, marcado por suas mudanças e transformações, de acordo com a realidade concreta.

“Essa concepção mostra que a história não termina por dissolver-se, como “espírito do espírito”, na “autoconsciência”, mas que em cada um dos seus estágios encontra-se um resultado material, uma soma de forças de produção, uma relação historicamente estabelecida com a natureza e que os indivíduos estabelecem uns com os outros; relação que cada geração recebe da geração passada, uma massa de forças produtivas, capitais e circunstâncias que, embora seja, por um lado, modificada pela nova geração, por outro lado prescreve a esta última suas próprias condições de vida e lhe confere um desenvolvimento determinado, um caráter especial – que, portanto, as circunstâncias fazem os homens, assim como os homens fazem as circunstâncias”.9

No Manifesto comunista, que constitui a primeira apresentação pública do materialismo histórico, Marx e Engels apontaram as contradições que marcam o capitalismo. Nas interpretações sobre o marxismo feitas pelos inimigos da classe trabalhadora, essas contradições são reduzidas à luta de classes, embora nesse texto se verifique uma das primeiras análises de Engels e Marx a respeito das crises periódicas do capital: “cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos fabricados, mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já criadas”.10

Outro aspecto discutido por Marx e Engels tem relação com o próprio caráter político da luta de classes, ou seja, como afirma textualmente, “toda luta de classes é uma luta política”.11 Neste caso, a luta de classes não se limita às disputas por melhores salários ou outras reivindicações econômicas entre patrões e empregados travadas no interior da fábrica, mas também se expressa, entre outras coisas, na necessidade de organização dos trabalhadores e na luta pelo poder. Marx e Engels afirmam: “os comunistas constituem a fração mais resoluta dos partidos operários de cada país, a fração que impulsiona as demais”.12

A redução do marxismo a uma teoria econômica sobre o capitalismo, feita inclusive por alguns de seus defensores, tem como consequência fazer com que o movimento socialista se limite a sonhar em alcançar uma nova sociedade, sem apontar para a necessidade de construir ferramentas para que isso se concretize. Essas formulações do socialismo foram comuns na primeira metade do século XIX e, embora tenham sido superadas por elaborações mais consistentes, como o bolchevismo, durante o século XX e ainda hoje mantém seus reflexos. No final do século XIX, Eduard Bernstein, propondo-se a atualizar as elaborações de Marx, afirmava que o caminho para o socialismo poderia ser feito por meio de reformas no sistema de produção capitalista. Segundo ele, “quanto mais se democratizam as organizações políticas de nações modernas, tanto mais diminuem também as necessidades e oportunidades de uma grande catástrofe política”.13 Neste caso, o socialismo seria mais uma vontade almejada pela humanidade do que um processo histórico com causas objetivas. Segundo Bernstein, “o desejo das classes proletárias industriais de lograrem uma produção socialista é, para a maior parte, mais um assunto de suposição do que uma certeza”.14

Se o socialismo fosse apenas uma suposição imaginária, não seria necessário construir um partido para organizar e mobilizar as massas de trabalhadores diante das “condições objetivas” para a revolução. Leon Trotsky, escrevendo sob o impacto dos “Processos de Moscou” e da vitória do nazismo na Alemanha, no final da década de 1930, apontava haver uma “crise histórica da humanidade”, onde “as condições objetivas da revolução proletária não estão somente maduras, elas começam a apodrecer”.15 Para ele, diante da degeneração do Estado soviético e da traição das direções dos partidos comunista e socialdemocrata, se colocava uma “crise da direção revolucionária”, onde a ausência de uma alternativa política ameaçava não apenas a revolução, mas a própria humanidade. Se não houvesse uma direção política que organizasse a luta pela revolução e mobilizasse o proletariado, nunca haveria revolução em qualquer lugar do mundo.

Para que se possa afirmar que as críticas de Marx ao capitalismo estão superadas, seria preciso demonstrar, entre outras coisas, que a forma de produção do valor se modificou, ou que a exploração da força de trabalho se dá em outros termos que não os da mercadoria, ou que as crises periódicas do capitalismo têm outras causas. Contudo, no cenário contemporâneo não se tem visto análises que consigam demonstrar uma falência do marxismo como ferramenta teórica para análise da sociedade. Pelo contrário, diante das crises econômicas, os textos de Marx e Engels são cada vez mais procurados e lidos.

Por outro lado, ainda que não seja possível afirmar que a teoria marxista está superada enquanto ferramenta para a análise da exploração capitalista, certamente a forma como aparece a organização do trabalho sofreu modificações. Isso não significa que se deixou de extrair mais valia ou que não existe mais a exploração do trabalhador, mas que alguns fenômenos aparecem de uma forma diferente, em particular por conta de novos mecanismos de contrato. Isso impacta também o desenvolvimento da consciência da classe trabalhadora, que está seja minada pelas formas diferenciadas com que se dão as relações de trabalho, seja por concessões trabalhistas em troca do achatamento dos salários, seja pelo processo de cooptação das direções sindicais.

Além disso, outro fator que atrapalha o desenvolvimento da consciência dos trabalhadores é justamente a proliferação de ideologias conservadoras, como a defendida por Fukuyama, que procura fazer com que os trabalhadores aceitem passivamente a realidade da exploração capitalista. O pessimismo que está na base dessas teorias coloca para a humanidade a ausência de uma perspectiva de futuro. Fukuyama abre o livro afirmando: “Podemos afirmar sem sombra de dúvida que o século XX fez de todos nós pessimistas históricos”.16 Mas Fukuyama estava errado. Mesmo criticando as ações do governo George W. Bush, especialmente em relação à guerra do Iraque, não rompeu com suas posições conservadoras e antimarxistas.

Não é possível afirmar que as questões objetivas levantadas por Marx para mostrar a possibilidade da revolução estejam superadas. Certamente têm diferenças e trazem novos elementos em relação àqueles que predominavam no século XIX. Mas são equivocadas as afirmações que partem da premissa de que o capitalismo nunca será superado. O marxismo segue vigente como ferramenta teórica para a compreensão da sociedade e para a organização política. O que precisa ser combatida é a compreensão que reduz o marxismo a uma mera ideologia, desconsiderando o método, a teoria e o conjunto de suas análises sobre a sociedade capitalista. Superar as compreensões idealistas e deturpadas do socialismo, feitas tantos por alguns de seus simpatizantes como por seus inimigos, pode ser um caminho para que se consiga pensá-lo como possibilidade concreta de futuro e como construção da luta e da organização dos trabalhadores.

Notas e referências:

1 Francis Fukuyama. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 11.

2 Francis Fukuyama. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 54.

3 Francis Fukuyama. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 42.

4 Francis Fukuyama. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 132.

5 Francis Fukuyama. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 52.

6 Anthony Giddens. A terceira via: reflexões sobre o impasse político atual e o futuro da social-democracia. Brasília: Instituto Teotônio Vilela, 1999, p. 53.

7 Anthony Giddens. A terceira via: reflexões sobre o impasse político atual e o futuro da social-democracia. Brasília: Instituto Teotônio Vilela, 1999, p. 14.

8 Francis Fukuyama. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 96.

9 Karl Marx & Friedrich Engels. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 43.

10 Karl Marx & Friedrich Engels. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 45.

11 Karl Marx & Friedrich Engels. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 48.

12 Karl Marx & Friedrich Engels. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 51.

13 Eduard Bernstein. Socialismo evolucionário. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; Brasília: Instituto Teotônio Vilela, 1997, p. 25.

14 Eduard Bernstein. Socialismo evolucionário. Rio de Janeiro: Jorge Zahar; Brasília: Instituto Teotônio Vilela, 1997, p. 93.

15 Leon Trotsky. Programa de transição. São Paulo: Iskra, 2008, p. 17.

16 Francis Fukuyama. O fim da história e o último homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992, p. 29.

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