Filosofia, ciência e misticismo (parte 2)

Artigo publicado no jornal Foice&Martelo Especial nº 13, de 20 de agosto de 2020. CONFIRA A EDIÇÃO COMPLETA. LEIA A PARTE 1.

A revolução Newtoniana (em dois segmentos)

Tempo

Tempo é dinheiro (ditado capitalista)
Tempo é relativo (ditado popular)

Todos nós somos hoje regidos pelo relógio: hora de acordar, hora do almoço, hora do trabalho, hora do estudo, a novela começa às 20h, o jornal começa as 20h30, é hora de dormir. Essa “ditadura do relógio” foi implantada pelo capitalismo. Para o funcionamento de uma fábrica, os operários têm de entrar na hora determinada, existe uma hora para troca de turno. E desde crianças, somos treinados para respeitar o relógio. O sinal que bate na escola para marcar a entrada na sala de aula é o derivado direto do apito da fábrica:

Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
….
Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro (Noel Rosa)

Mas esta realidade é algo muito recente na história humana. Antes da invenção dos relógios mecânicos, o tempo durante o dia era marcado pelo nascer e pôr do sol. Não é à toa que os primeiros relógios inventados eram os relógios de sol. Além desses, os relógios de água e ampulhetas (de areia) podiam marcar pequenos intervalos de tempo. Mas somente as descobertas físicas do século 14 e 15 levaram à construção de relógios mecânicos e à implantação lenta e gradual da ditadura do relógio que nos rege a todos.

Mas a marcação de amplos intervalos de tempo, como o ano, que é essencial para a agricultura, começou a ser medida na antiguidade. E, apesar de não terem uma teoria ampla que explicasse todo o movimento das estrelas e demais astros, eles eram utilizados para medições bastante acuradas. Chineses, hindus, mesopotâmios, egípcios, gregos e outros povos criaram sistemas de marcação astronômica muito precisos.

Os povos mais atrasados utilizaram somente o mês lunar e o ano lunar. Mas assim que se desenvolvia mais a agricultura, para se ter uma medida mais detalhada do tempo de plantação e colheita, era necessário ter uma medida melhor.

Mas, se o tempo mais amplo era conhecido, a divisão do tempo em horas, minutos e segundos era muito mais difícil, porque era uma construção da nossa mente, que passava por cima da experiência diária, em que o sol não nascia sempre no mesmo horário e o dia não tinha nunca o mesmo cumprimento. Aqueles que fizeram isso e deixaram o seu legado para todos os outros povos foram os babilônios e, por isso, até hoje, no mundo inteiro, contamos o dia como 24 horas e não como um número decimal. E as horas são divididas em 60 minutos e estes em 60 segundos. Tudo decorrente do sistema de contagem sexagesimal dos babilônios (baseado no número 60 e não em 10).

Mas desde a antiguidade se pergunta o que é o tempo. Para Aristóteles, o tempo e o movimento na Terra e nos céus podiam ser muito diferentes. Mas qual a natureza do tempo? A grande questão é que o filósofo explicava que o tempo é medido pelo movimento, aí entendido o movimento como Aristóteles o entendia – deslocamento de um corpo, rotação, degradação de um corpo, geração etc. Ou seja, medir o tempo dependia do movimento e os “movimentos” eram muitos e variados. Ao lado disso, o filósofo defendia que o tempo era contínuo, não podendo ser em partes (só voltaremos a isso na física quântica).

Santo Agostinho (354 DC – 430 DC) dá um passo a mais. Apesar de explicar em suas Confissões que “confesso, Senhor, que não sei o que é o tempo”, ele coloca uma discussão muito “materialista” e pouco idealista: Afinal, o tempo é o mesmo medido por um relógio terrestre (uma ampulheta ou um relógio de água) e pelo movimento dos astros (o ano, o relógio solar etc.). Embora não houvesse meios técnicos para resolver essa questão, ele abriu uma discussão que Aristóteles nunca se colocou – que o tempo fosse algo separado do movimento, apesar de medido por ele. Assim, o tempo seria igual em todos os locais do universo.
Galileu, ao formular o seu princípio de que as leis físicas são válidas em todos os locais, colocava um ponto básico para a construção de uma teoria de tempo. Mas para resolver o problema teremos que chegar a Newton.

Tempo, espaço e movimento

Newton foi o primeiro cientista a formular precisamente leis físicas e a sua relação com os conceitos. Newton constrói três conceitos que são indivisíveis e que constituem a base de suas leis e de sua teoria. E os conceitos são ligados entre si. Em outras palavras, o que chamamos de “tempo”, de “espaço” e de “movimento” são construções do nosso intelecto para poder sintetizar e compreender da forma melhor a realidade. Assim o conceito de tempo em Newton – “o tempo flui como um rio” – é indissociável do seu conceito de espaço (o que se mede com uma régua em três dimensões) e do seu conceito de movimento (o deslocamento de um ponto no espaço para outro).

Mas, esses conceitos não são “propriedades da matéria”. São propriedades que “construímos” para melhor entender a matéria e estabelecermos “leis” que explicam o movimento da matéria no tempo e no espaço. Em outras palavras, quando dizemos que os corpos caem pela lei da gravidade, para sermos precisos deveríamos dizer que os corpos, ao seguirem a trajetória de nossas mãos para o chão, como fazem todos os corpos que conhecemos, o fazem porque existe uma lei que “obriga” os corpos a caírem. Na verdade, essa propriedade da matéria (de os corpos caírem) pode ser generalizada por meio de uma descrição à qual damos o nome de “lei da gravidade”.

E essas leis físicas não são imutáveis. Pelo contrário, ao aumentarmos a nossa compreensão e domínio da realidade, podemos ter leis mais “finas”, mais “precisas” que abrangem, em casos particulares, as leis da mecânica clássica de Newton. Mas estamos nos adiantando.

Newton nasceu na Inglaterra em 1643 e morreu em 1727. Ao nascer, a revolução burguesa inglesa estava no seu auge. E, nesse período de longa agitação política, em que o pensamento se tornava mais livre, ao mesmo tempo em que era derrubada a antiga monarquia, abria-se caminho para a burguesia, de onde Newton provinha. Longe das agitações e das guerras políticas, ele abriu caminho por meio da investigação científica e de lá saltou para a política. Em 1696 foi nomeado diretor da Casa da Moeda inglesa e depois foi mestre da mesma casa. Inventou técnicas de cunhagem de moedas mais precisas que dificultavam a falsificação. O capitalismo explodia e crescia como nunca antes e precisava de cientistas e de ciência.

Assim, ao contrário do que aconteceu antes com os inovadores científicos, como Galileu, Kepler e Copérnico, Newton teve seu trabalho reconhecido e apreciado. A ciência chegava ao poder? Não foi bem assim e os fatos de hoje mostram exatamente o contrário – a burguesia teme a ciência.

Continua:

Filosofia, ciência e misticismo (parte 1)
Filosofia, ciência e misticismo (parte 2) – A revolução Newtoniana
Segmento I – Tempo e História
Segmento II – As leis de Newton e as hipóteses necessárias
Filosofia da história e luta de classes (terceira parte)
Interlúdio Artístico – um pintor, diretor teatral e arquiteto vai a guerra
A física depois de Newton – Eletromagnetismo e Relatividade (Quarta parte)
A física depois de Newton – Mecânica Quântica (Quinta parte)
A teoria da evolução (sexta parte)
Imperialismo e pseudo ciência (epílogo)

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