Foto: Roberto Parizotti, FotosPúblicas

Falta de leitos e desmonte da saúde durante a pandemia

Em 8 de agosto, dia em que o Brasil registrou 100 mil mortes por Covid-19, foi decretado luto pelos mesmos atores que protagonizam o desmonte e a precarização do serviço público e que poderiam ter evitado um número tão alto de vidas perdidas e a sua normalização.

Conforme o mais recente boletim do Observatório Covid-19, não é possível afirmar que a pandemia do novo coronavírus esteja recuando no Brasil. O documento é publicado quinzenalmente a partir de indicadores-chave que apresentam a situação da pandemia no país.

Divulgado na última semana, o boletim expõe que, a despeito da recente diminuição dos números de contaminação e óbitos em decorrência da Covid-19, estatisticamente não significa que o Brasil esteja superando a doença ou que seja o momento de relaxar as estratégias de contenção de transmissão do vírus.

No período de análise do documento, a maior parte dos estados permaneceu estável quanto a incidência de casos da doença, sendo importante esclarecer que as taxas de transmissão e de mortes se mantêm elevadas e dentro da zona de alerta. Isto demonstra que qualquer medida de afrouxamento da quarentena e de cuidados seja imprudente neste momento.

O boletim também aponta que cerca de 60% dos estados brasileiros estão na zona crítica de ocupação de leitos de UTI e quatro deles (Tocantins, Goiás, Distrito Federal e Santa Catarina) estão na zona de alerta máximo. A taxa de ocupação em UTI constitui outro indicador de avaliação da pandemia no país.

Mesmo com o aumento de leitos de UTI, os municípios não encontram margem segura para otimismo. Dentre as capitais, cinco mantêm mais de 80% de ocupação de leitos de UTI, sendo Goiânia, Campo Grande, Porto Alegre, Curitiba e Aracaju.

Em Goiânia, apesar de haver oito hospitais lotados e ocupação de outros a 90%, a vigilância sanitária autorizou música ao vivo em bares e restaurantes. Campo Grande concentra metade do número de infectados do estado e, mesmo com três hospitais lotados, ainda estuda ampliação de leitos. Na cidade de Porto Alegre, onde a ocupação se mantém alta, o comércio está funcionando quatro dias por semana, e algumas entidades solicitaram que seja possível abrir mais um dia. Com a taxa de ocupação geral da UTI a 89%, alguns estabelecimentos comerciais de Curitiba passaram a funcionar sem restrição de horário, enquanto outros funcionam com restrição de horários, como shoppings, feiras e bares. Em Aracaju, a ocupação passa de 90% e o estado de Sergipe segue a tendência de aumento de internações.

São níveis alarmantes, face ao estímulo dos governos e empresariado para abertura do comércio e, agora, com projetos de volta às aulas presenciais. Apesar de orientações e apelos, a circulação de pessoas tem sido estimulada de diversas formas, seja pela necessidade de trabalho, seja na atração do comércio e espaços de lazer que se abrem. Isso demonstra a urgente necessidade da burguesia em manter a economia girando e garantir a produção, o consumo e os lucros. Assim, o comprometimento da quarentena, em nome da economia e sob chancela dos governos, influencia muito na ampliação da pandemia, que atinge vidas.

O próprio governo Bolsonaro, após os primeiros casos da doença no Brasil, já mostrava sua resistência em reconhecer os riscos reais e potenciais do vírus e se negou a seguir as normas recomendadas e implementar medidas para o isolamento da população. Seu desempenho ao longo do tempo não apenas demonstrou que foi incapaz de tecer um plano coerente de enfrentamento, como, por diversas vezes, demonstrou desdém à medida que mais vidas foram perdidas. No dia da marca dos 100 mil mortos o presidente se calou sobre o assunto e comemorou a conquista do Campeonato Paulista de Futebol pelo Palmeiras.

Foto: Roberto Parizotti, FotosPúblicas

Ao longo de quase seis meses do início da pandemia no Brasil, enquanto o atual presidente esbanjava seu negacionismo e utilizava o irrisório auxílio emergencial como trampolim para sua popularidade, outros governantes se dividiram entre o aparente comprometimento com a quarentena e o compromisso com suas agendas de precarização da condição de vida e de trabalho da população.

Pouco, portanto, foi feito para assegurar aos trabalhadores e trabalhadoras o direito ao isolamento social e à preservação de suas vidas e famílias. As medidas de ampliação de leitos acabam sendo um “toma-lá-dá-cá” para o afrouxamento de um isolamento que nunca existiu de fato para boa parte da população.

Embora, por suas características e peculiaridades, o novo coronavírus demande atenção específica, seu avanço tem mais relação com a forma como a população tem tido ou não acesso a reais medidas de isolamento e cuidados, do que com as características do vírus, expressas nas taxas de contágio e óbitos.

Fica claro que impor às classes dominantes que suspendam o uso da força de trabalho é uma tarefa árdua que, mesmo quando acatada, esbarra em boicotes e limitações. É a mão de obra dos trabalhadores que mantém o funcionamento do sistema que, já em crise, corre o risco de desabar sem a engrenagem do trabalho.

O fato é que não é interesse da burguesia, nem de algum poder ou instituição, em agir diante dessa situação em que são os trabalhadores os morrem diariamente. Decretos de luto e suspensão de sessões em respeito à morte de 100 mil pessoas não impedem que trabalhadores se dirijam diariamente aos seus postos e que se avance o projeto de retorno das crianças às aulas presenciais.

O mesmo pode ser dito de movimentos sociais e da esquerda que se aliam a setores da burguesia para combater um “inimigo em comum”: o vírus. É óbvio que o desejo de combate é compartilhado por todos, mas é um equívoco achar que os compromissos com a derrubada deste governo e com as mudanças desse sistema podem ser suspensas ou entrem em conflito enquanto se “luta” contra um vírus, sobretudo quando percebemos que o agravamento da doença é favorecido pelas escassas condições materiais oferecidas à população pelas classes dominantes.

A esquerda reformista, ao se calar pelo “Fora Bolsonaro”, nada mais faz do que desmobilizar as possibilidades de luta. Na melhor das hipóteses, equivoca-se ao achar que ela mesma se fortalece ao se “unir contra o coronavírus”.

O que deve ser combatido essencialmente é o aparato que agrava a propagação da doença e amplia sua letalidade e isso só será possível com uma classe trabalhadora capaz de se organizar para garantir um governo sem patrões nem generais.

 

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