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EUA: lições da greve dos auxiliares de enfermagem de 1969, em Charleston

Os EUA são um país com uma rica história de luta de classes, que não é bem conhecida pela maioria devido aos esforços conscientes da classe dominante para enterrar as tradições do movimento operário. É importante que os socialistas deste país estudem a história e as lições do passado para aprender e se preparar para eventos no futuro. O artigo a seguir foi escrito antes do início da pandemia de coronavírus, mas agora é ainda mais relevante à luz da onda sem precedentes de greves descontroladas e de distúrbios trabalhistas entre os trabalhadores da linha de frente em todo o país.

Como socialistas nos EUA, somos frequentemente confrontados com a ideia da “excepcionalidade americana“. Esta é uma afirmação de que os EUA são únicos em relação ao resto do mundo e que carecem do que é necessário para alcançar o socialismo. Com o aumento das greves nos EUA, porém, fica claro que a classe trabalhadora é uma força a ser levada em consideração. Como resultado, mais pessoas estão abertas à ideia de que uma revolução é possível nos Estados Unidos. Mas muitos ainda se apegam à noção de que a “excepcionalidade do sul” sustentará o restante do país.

É fácil olhar para a história do sul dos EUA e ver apenas racismo, conservadorismo, pobreza e atraso. Se você olhar abaixo da superfície, porém, encontrará uma rica história de lutas operárias, de repressão violenta do Estado e de resiliência e tenacidade da classe trabalhadora. Um exemplo é a greve inspiradora dos auxiliares de enfermagem de 1969 no Medical College Hospital e no Charleston County Hospital, em Charleston, Carolina do Sul.

O Medical College Hospital (MCH), agora denominado Medical University of South Carolina (MUSC) Health, foi o epicentro da greve. Foi o primeiro – e último – exemplo da estratégia “Union Power, Soul Power”, adotada pela Southern Christian Leadership Conference (SCLC) e pelo Local 1199 do Retail Drug and Hospital Employees, com sede em Nova York, então afiliados da União Internacional de Varejistas, Atacadistas e Grandes Lojas de Departamentos. Tanto o Local 1199 quanto a SCLC saudaram a greve de Charleston como um grande êxito.

No entanto, se quisermos tirar as lições dessa experiência para as lutas de hoje, precisamos olhar mais além da mera reivindicação de vitória e analisar as causas, o processo de luta, o resultado e as consequências dessa greve. A greve dos auxiliares de enfermagem de 1969 foi considerada por muitos como a batalha trabalhista mais perturbadora desde a década de 1930. Foi muito mais do que uma luta trabalhista – foi uma luta pelos direitos civis. Em 1968, Mary Moultrie e alguns associados começaram a organizar uma campanha popular para sindicalizar os auxiliares de enfermagem da MCH.

Moultrie, que cresceu em Charleston, passou vários anos trabalhando em um hospital na cidade de Nova York. Durante seu tempo no norte, ela ganhou seu certificado de Enfermeira Prática Licenciada. No entanto, a MCH se recusou a reconhecer sua certificação apesar de sua experiência, devido à cor de sua pele, e a forçou a aceitar uma posição de auxiliar de enfermagem com baixos salários.

Na época, não havia médicos negros nem estudantes de medicina negros no hospital. Todos os trabalhadores negros eram forçados a fazer trabalhos manuais de baixa remuneração, como manutenção, serviços de cozinha etc. Os auxiliares de enfermagem negros ganhavam US$ 1,30/hora, enquanto seus colegas brancos ganhavam o salário mínimo federal, US$ 1,60/hora. Além disso, eles eram expostos a insultos diários, como “macacos das chaves”, e lhes era negado o acesso aos prontuários médicos dos pacientes para os quais eram designados a cuidar, apesar do risco que isso significava para os próprios pacientes.

Após várias tentativas de que suas queixas fossem levadas a sério, os trabalhadores ocuparam o escritório do presidente da MCH, William McCord, para exigir que suas vozes fossem ouvidas. Nesse mesmo dia, 12 funcionários negros – 11 mulheres e um homem – foram demitidos por “abandonarem o posto de trabalho” durante a ocupação. Isso provocou uma greve de quase 400 pessoas que duraria 113 dias, mobilizando até 10 mil pessoas para um protesto no dia das mães.

Ao longo da greve, mil pessoas foram presas e todo o poder do Estado foi utilizado para sufocar a greve. O governador da Carolina do Sul, Robert E. McNair, Democrata, enviou mil soldados estaduais e guardas nacionais para Charleston para ajudar a polícia local e impôs um toque de recolher e um estado de emergência.

O governador da Carolina do Sul, Robert E. McNair, lidou com a greve enviando mil soldados estaduais e guardas nacionais para Charleston para ajudar a polícia local e impôs um toque de recolher e estado de emergência Foto: Domínio Público

As demandas iniciais dos grevistas incluíam a reintegração completa dos 12 trabalhadores demitidos e o reconhecimento de seu sindicato, o Local 1199B. Durante a greve, várias figuras nacionais mostraram solidariedade com os trabalhadores do hospital em Charleston. Walter Reuther, então presidente do United Autoworkers Union, enviou aos trabalhadores um “primeiro pagamento” de US$ 10 mil, com a promessa de enviar US$ 500 por semana durante a greve, para apoiar os trabalhadores. Cesar Chávez e o United Farm Workers of America enviaram um cheque de US$ 100. Milhares de membros do sindicato Local 1199, na cidade de Nova York, prometeram um dólar por semana para apoiar a causa. Desde a SCLC, o presidente, o Reverendo Ralph Abernathy, desempenhou um papel essencial na organização e mobilização de trabalhadores negros em Charleston e organizou um comício de solidariedade com Coretta Scott King.

Apesar do apoio esmagador da SCLC, do 1199, de outros sindicatos e da classe trabalhadora negra de Charleston, o “êxito” reivindicado pelos líderes nacionais do 1199 e da SCLC foi mais como uma derrota. O acordo que acabou sendo oferecido pela MCH e pela CCH não recebeu nenhuma resposta de nenhuma dessas organizações. Cada uma delas estava ansiosa por reivindicar a vitória em Charleston. Embora o acordo final tenha reintegrado os 12 trabalhadores demitidos, criado um processo de reclamação de seis etapas e proporcionado um modesto aumento salarial ao salário mínimo, US$ 1,60/hora, não reconheceu o sindicato.

Superficialmente, isso poderia ser visto como uma vitória inicial, mas essas medidas foram parcialmente desfeitas. Mary Moultrie seria demitida novamente alguns anos depois e carecia de energia e motivação para lutar contra o governo mais uma vez. O processo de reclamação implementado tinha muitas falhas, quase sempre em benefício dos patrões, e impunha regras que tornavam impossível ao sindicato dos trabalhadores, não reconhecido, desempenhar qualquer papel. Como não conseguiram o reconhecimento sindical, os trabalhadores eram mais facilmente divididos e desmoralizados. O sindicato começou como um meio de unificar os trabalhadores na luta por respeito e melhores condições de trabalho. Sem o sindicato, os ganhos da greve foram lentamente diluídos nos meses e anos que se seguiram.

Espírito de luta da classe trabalhadora

Deve-se notar também que foi a SCLC, e não o 1199, que organizou as ações mais militantes. Os líderes sindicais estavam acostumados às condições relativamente mais fáceis da cidade de Nova York, onde a atividade sindical não estava tão intimamente entrelaçada com o legado de Jim Crow [Leis estaduais que impunham a segregação racial no sul dos EUA]. Em Charleston, a administração do hospital, da cidade e do estado, usaram toda a força da lei, pressão social e política e, é claro, os corpos de homens armados para espancar os grevistas. Mesmo antes do fim da luta, os líderes sindicais haviam desistido de construir em Charleston. Poucos meses após a conclusão da greve, eles retiraram quase todo o seu apoio ao Local 1199B, e o sindicato foi dissolvido logo depois.

Os funcionários do hospital em Charleston buscaram apoio no 1199 na esperança de construir um sindicato forte e estável para lutar e defender suas demandas por melhores salários, respeito básico e melhores condições de trabalho. Em vez disso, adquiriram uma liderança incapaz de lidar com circunstâncias complicadas, encolheram-se diante de uma resistência cruel e desistiram sem alcançar a única demanda que permitiria aos trabalhadores manter os ganhos que haviam conquistado. Até hoje, os trabalhadores da MUSC Health ainda não estão sindicalizados, e a Carolina do Sul tem a menor taxa de sindicalização em todo o país, apenas 2,3%.

No entanto, a greve de Charleston mostra a tenacidade e o espírito de luta da classe trabalhadora – incluindo os trabalhadores do sul – apesar de seus líderes conservadores. Esses trabalhadores se auto-organizaram e se aproximaram do sindicato. Desde o início, sua luta foi travada em uma base de classe, desde a perspectiva do trabalho. No entanto, sem uma organização para uni-los e uma liderança disposta a colocar tudo em ordem, os ganhos obtidos finalmente se perderam.

Uma de nossas tarefas como marxistas é estudar e aprender com a história das lutas da classe trabalhadora – uma história repleta principalmente de derrotas e reveses. Destacando a capacidade de sacrifício dos trabalhadores, também devemos destacar os erros cometidos pela liderança, que levaram às condições que enfrentamos hoje. Se conseguirmos isso, podemos desempenhar um papel decisivo, não apenas nas muitas batalhas da classe trabalhadora que agora estão no horizonte, mas também em uma situação revolucionária no futuro.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM SOCIALISTREVOLUTION.ORG

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