Foto: Nateko

“Espérance”: o capitalismo saqueia a Guiana Francesa

Em 25 de abril de 2020, em meio ao bloqueio do coronavírus, a Comissão de Geologia e Minas da Guiana (GMC) se reuniu para debater um projeto envolvendo uma mina de ouro a céu aberto em escala industrial no meio da floresta amazônica. O nome do projeto é Espérance, em português, “esperança” – esperança para quem? Alguém poderia perguntar. Apesar da oposição de organizações ambientalistas e dos povos indígenas locais, o projeto foi aprovado.

Tudo isso beneficiará em muito a gigante americana de mineração Newmont e seu parceiro local, a Espérance Mining Company (CME), liderada pela Presidente da Federação Guiana de Operadores de Minas, Carol Ostorero.

Desastre garantido

Como se poderia suspeitar, este projeto é muito perigoso para o meio ambiente. Apenas a construção da infraestrutura necessária levará a dezenas de hectares de desmatamento. Logo, quando se tratar da mineração operacional, será necessário cavar um poço a céu aberto, com 1,5 km de comprimento e mais de 300 metros de profundidade, para extrair dele 20 milhões de m3 de rocha.

Além disso, uma planta de cianetação de ouro precisará ser construída para extrair o ouro da rocha, o que criará quantidades significativas de resíduos altamente tóxicos. Estes terão que ser depositados protegidos por barragens ou aterros – em uma região com sistemas de solo instáveis e no meio de ecossistemas que já foram enfraquecidos por explorações anteriores.

O rompimento de tais barragens levaria à destruição de hectares inteiros da floresta amazônica – e descarregaria toneladas de resíduos tóxicos em um dos afluentes de um dos maiores rios da Guiana, o Maroni. No entanto, este rio fornece água para Saint-Laurent-du-Maroni, a segunda cidade mais populosa da Guiana Francesa.

Como se tudo isso não bastasse, algumas anomalias já foram registradas pelas autoridades, neste mesmo canteiro de obras. Uma inspeção realizada em 2019 observou a presença de resíduos de mineração estocados em bacias de resíduos, cuja natureza e riscos ainda são desconhecidos, bem como depósitos irregulares de produtos químicos. Nenhum trabalho foi realizado para restaurar o funcionamento do canteiro de obras, ao contrário das exigências do Código de Mineração da França.

A gangue Ostorero já está enfrentando uma ação do Ministério Público em Caiena, capital da Guiana Francesa, por permitir um nível recorde de poluição ambiental, sem precedentes na história da Guiana e causada pela empresa Gold’or em 2018. É necessária uma nova catástrofe industrial antes que sejam tomadas medidas para expulsar esses capitalistas do projeto?

O Estado: cúmplice na pilhagem da Guiana

Os capitalistas dos impérios Ostorero e Newmont estão contando com lucros enormes: no outro polo da sociedade, o baixo padrão de vida médio na Guiana é suficiente para deixar qualquer um ansioso. Antes dessa atual recessão, que agravará a situação, a taxa de desemprego estava se aproximando de 20%. Quase 30% da população vive abaixo da linha de pobreza – que é de 588 euros por mês, em comparação aos 1.026 euros na região metropolitana da França. Se o último valor fosse usado como referência, a porcentagem de pessoas que vivem na pobreza aumentaria para 60%. A Guiana é um dos departamentos da França onde a desigualdade de renda é mais alta.

O projeto Espérance não é algo novo. Assemelha-se a muitos outros do mesmo tipo. A Guiana é dividida em concessões, que são vendidas aos capitalistas para serem exploradas com o consentimento do Estado. Esse fenômeno vem se acelerando desde o início dos anos 2000. A exploração caótica dos recursos de mineração é uma constante no capitalismo – e as proclamações demagógicas de Emmanuel Macron sobre o assunto não mudam isso. Quando ele era ministro da Economia no último governo “socialista”, aprovou nada menos que 11 licenças de extração de minério. Ele continuou apoiando o desastroso projeto Montagne d’or (montanha de ouro) até 2019. E foi forçado a retirar seu apoio devido à enorme impopularidade do projeto entre a população local.

É evidente que o conluio entre o Estado e a classe capitalista é destrutivo para o meio ambiente. O projeto Espérance deve ser interrompido imediatamente, sem remissão – e os capitalistas devem ser expulsos do local sem demora. Os chefes da quadrilha Ostorero devem ser buscados e presos por não respeitarem o Código de Mineração na concessão Espérance.

Em termos mais gerais, a Guiana deve deixar de ser considerada apenas como uma periferia pronta para ser explorada. Sua herança ecológica deve ser protegida dos abutres capitalistas. A pobreza deve ser erradicada para permitir que todos os guianenses tenham um padrão de vida decente. Projetos industriais que agridem o meio ambiente devem ser estritamente proibidos e os direitos dos povos indígenas respeitados. Na Guiana e na França metropolitana, toda a esquerda e o movimento operário devem se mobilizar para alcançar esses objetivos. A população local deve ter a palavra final sobre o gerenciamento dos recursos da Guiana!

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

PUBLICADO EM MARXIST.COM

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