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Espanha: fracasso da primeira posse do novo governo de Sánchez

O fracasso da primeira tentativa de formação do novo governo de Pedro Sánchez mostrou duas coisas. A primeira que a negativa do PSOE[1] em pactuar com Unidas Podemos (UP)[2] significa que não está disposto a introduzir mudanças significativas nas condições de trabalho e de vida das famílias trabalhadoras, como é exigência dos ricos e dos patrões do IBEX35[3], mesmo que UP tenha reduzido ao mínimo suas exigências programáticas; e a segunda, a incompreensível teimosia da direção da UP de querer entrar em um governo que não somente não aplicará nenhuma de suas promessas de campanha, mas que também frustrará, cedo ou tarde, as expectativas que lhe foram depositadas por milhões de trabalhadores. Por isso, sempre defendemos que UP facilite a posse de Sánchez e passe à oposição e, assim, possa ter as mãos livres para agitar por seu programa e mobilizar por ele na rua.

Mesmo que seja esta nossa posição, entendemos que as camadas mais amplas da classe trabalhadora têm uma percepção diferente, já que necessitam passar pela experiência de um governo de Sánchez para ter consciência da autêntica natureza dos interesses de classe que este representa.

Assim, enquanto a situação objetiva da classe trabalhadora se degrada, às vezes, pela extensão da precariedade das jornadas de trabalho e da queda dos salários, milhões de trabalhadores têm esfregado os olhos em cada manhã dos últimos dias sem aceitar que não seja possível um governo das forças de esquerda. Segundo os dados obtidos nos quase 3 meses, tudo parecia apontar que o caminho da direita ao governo, fragmentada – em crise profunda e admirando seu passado mais franquista – estava fechado, morto e enterrado. Contudo, em apenas alguns dias, esta certeza está evaporando, junto com a esperança de milhões de jovens, desempregados, trabalhadores, aposentados e mulheres lutadoras contra o patriarcado capitalista.

É sabido que a tática e a estratégia políticas não são vetores que tenham que apontar sempre na mesma direção. A primeira obriga a se realizar as intervenções em cenários que não se escolhem e que, normalmente, contêm elementos mais hostis que favoráveis. Partindo dessa ideia para elaborar um plano não é um mal começo, mas não é suficiente. A tática deve servir aos objetivos estratégicos e, neste ponto, é onde a esquerda mostra sua maior debilidade.

Para a direção do PSOE, ao contrário do que espera a imensa maioria de seus eleitores, o fundamental é manter a salvo as estruturas capitalistas, desde o próprio aparato do Estado (daí seu apego ferrenho ao artigo 155 das Constituição contra o processo democrático da Catalunha[4]) até os interesses imediatos dos grandes empresários que, desde seu ponto de vista, são os que garantem o funcionamento cotidiano da economia. Seus objetivos estratégicos se diferem dos da direita por que para a direção do PSOE isto não é incompatível, supostamente, com o respeito aos direitos dos trabalhadores e das “maiorias sociais”. É o clássico discurso dos dirigentes da socialdemocracia desde o início do século passado. O maior argumento dos dirigentes do PSOE é que ao menos se tem que tentar, ainda que uma vez ou outra demonstrem, no governo e na oposição, que cada tentativa acaba aumentando a concentração da riqueza e a extensão da pobreza entre as famílias trabalhadoras.

Precisamente desta experiência histórica, concentrada nos últimos dez anos de uma maneira extraordinária, surgiu o Podemos, como também resposta à incapacidade da Esquerda Unida para acolher toda a insatisfação social acumulada.

Podemos, como força que representava exatamente a todo o setor mais avançado da classe trabalhadora e da juventude, que já havia compreendido que as estruturas políticas atuais não servem aos interesses da, tantas vezes, manobrada “maioria social”, tinha o dever de elaborar uma tática adequada. Assim era entendido por setores bem amplos a expressão de Iglesias de que “temos o dever de ganhar”. No entanto, ao longo de vários anos, temos visto contínuas explosões na direção contrária, que vão desde o apoio fechado e acrítico (quase até o mesmo final) a uma figura tão “branca” como Carmena em Madrid, até a defesa da entrada do Podemos no anterior governo de Castilla-La Mancha com o PSOE, que terminou ainda pior que a experiência da IU na Andaluzia quatro anos antes. Tudo, estimado por um abandono praticamente absoluto dos conflitos fora das instituições, às que se entregou todo o arsenal político e humano, enquanto se mantinham palavras de ordem semi-radicais desde o ponto de vista democrático.

É nesta guinada feita pela direção do Podemos onde encontramos a perda massiva de apoios da Unidos Podemos, refletindo nas distintas disputas eleitorais dos últimos 3 anos. Apesar disso, é uma realidade que UP mantém uma base ainda bastante ampla entre as quais se encontram ex-eleitores tradicionais do PSOE. Isto é um capital suficientemente rico para retomar a marcha.

Desde o Lucha de Clases temos defendido em nossas publicações que na atual conjuntura, Unidos Podemos devia deixar o PSOE governar, na medida em que esta decisão tática serve a dois objetivos imediatos irrenunciáveis. O primeiro, deixar claro a aversão extrema e frontal da UP à direita, inclusive “sacrificando” suas intenções de tomar parte no governo. O segundo, deixar sobre Sánchez todo o peso da responsabilidade pelas medidas antissociais que o capitalismo espanhol demanda do governo, mantendo UP sua independência política desde a qual possa realizar uma oposição insistente e acirrada. Esta oposição necessariamente deve se basear na ativação real das centenas de círculos do Podemos e das assembleias da IU, hoje todos eles dispersos e em estado vegetativo ao longo e largo da geografia. Para isso é necessário, em primeiro lugar, armar um plano baseado em palavras de ordens claras (moradia, greve, direitos da mulher, salários, direitos sociais, luta contra o racismo e a xenofobia, entre outras), que inclua ações concretas de penetração no tecido social, nos bairros operários, centros de estudos, escritórios e fábricas. Esta tática permitiria seguir agrupando todo o descontentamento que, inevitavelmente, gerará um governo “socialista” ao serviço das elites, dos grandes capitais, enquanto se apoia cada medida progressista que Sánchez se ver obrigado a implementar para se diferenciar da direita, por menor que seja.

Longe disto, temos assistido a uma forma de espetáculo midiático no qual se criou a imagem de que Unidos Podemos aspirava ocupar postos no novo governo a todo custo. Os meios de comunicação ao serviço do poder não perderam a chance de mostrar a seus dirigentes como animais sedentos de poder governamental. Para dizer a verdade, foi uma tarefa muito fácil.

Alguns companheiros alegam que a estratégia de Iglesias poderia responder a um empenho de desmascarar Sánchez como homem ao serviço do IBEX, que não permitiria nunca UP entrar no Governo. Formalmente esta parece ser a tática posta em marcha, mas, entretanto, sofre com alguns problemas. O primeiro deles é que aos olhos dos setores mais atrasados do movimento, precisamente os que devemos conquistar, esta abstração fica enterrada pela campanha, mais simples e direta, da difamação dos meios de comunicação: “Unidos Podemos só quer poder”. O segundo problema é que, sabendo que, efetivamente, as elites econômicas (CEOE, IBEX) não se sentem seguras com as expectativas que possam ser criadas pela entrada da UP no governo, também sabemos que as propostas de coalizão de UP iam resultar bloqueadas total ou parcialmente. Certo é que, nos últimos dias, a coalizão parecia estar mais próxima do governo, o qual reflete um setor da classe dirigente parecia assumir que a eventual entrada alegórica da UP no governo poderia ajudar a desgastá-los. Assim ocorreu nas referidas experiências de Andaluzia e Castilla-La Mancha ou, inclusive, em outro nível, no mesmo governo monocromático da Grécia com o Syriza. A isto respondia o veto de Iglesias, que para a burguesia segue sendo um elemento que não controlam. Contudo, o passo atrás de Iglesias não foi suficiente e agora exigem que a possibilidade se subordine à entrada de algum outro membro da UP com responsabilidade em baixo orçamento e de máxima exposição política. Diante desta armadilha, Iglesias não teve outra saída que rejeitar categoricamente a oferta.

Não obstante, a armadilha a que agora é preciso fugir foi criada pela própria direção da UP, que agora é apresentada de novo publicamente como uma fera desafiante à possibilidade de um “governo progressista”. Foi dado a Sánchez o armamento político para, no caso de eleições, culpar facilmente a aventura e ambição da UP pela possibilidade do regresso da direita se a esquerda perder as eleições fruto de uma alta abstenção.

A tática é uma arte que deve contar com as armas reais de propaganda das que dispomos e a dos inimigos. O resultado do plano de Iglesias é que agora UP será culpável de tudo o que ocorra, por suposta mera ambição. Se em setembro se deixar passar a ocasião outra vez, o PSOE estará habilitado para recuperar boa parte de sua base eleitoral, em detrimento do que resta a UP do ciclo político anterior, com as consequências nefastas que isto teria a curto prazo.

Desde nosso ponto de vista é possível ainda uma recondução da situação, rejeitando um caminho que conduz a UP a uma rua sem saída. É possível realizar uma declaração política nítida onde se estabeleça claramente as linhas mestras de um programa alternativo ao PSOE:

  • Aumento do salário mínimo para 1200 euros;
  • Revogação das reformas trabalhistas;
  • Controle rigoroso das jornadas de trabalho;
  • Igualdade salarial entre homens e mulheres;
  • Subsídio indefinido a todos os desempregados até encontrar trabalho;
  • Recuperação de todo o empréstimo aos bancos;
  • Proibição dos despejos sem alternativa habitacional;
  • Nacionalização sem indenização do setor energético e bancário;
  • Direito a decidir, não à tirania do artigo 155;
  • Não aos presos políticos do regime monárquico.

Nesta declaração teria que se incluir que, por responsabilidade com os setores oprimidos da sociedade, o voto da UP será encaminhado a fechar o caminho à reação representada por PP[5], C’s[6] e Vox[7], deixando governar o PSO sozinho, força por hora mais votada pelas camadas progressistas da sociedade. A isto teria que se incluir o aviso de que UP passa à oposição, como garantia dos interesses da classe trabalhadora e da juventude, expropriadas diariamente de seu direito de viver com dignidade pelos grandes empresários e banqueiros e por seus representantes políticos.

[1] Partido Socialista Obrero Español – Partido Socialista Operário Espanhol (Nota do Tradutor – N.T.).

[2] Coligação política entre Podemos e Izquierda Unida (Esquerda Unida – IU) e coligações regionais na Catalunha, Galícia e País Basco (N.T.).

[3] Principal índice das Bolsas de Valores espanholas (Madrid, Barcelona, Bilbao e Valência) do Sistema de Interconexão de Estoque Eletrônico (SIBE, em sua sigla espanhola), composto pelas 35 empresas com maior liquidez (N.T.).

[4] Sobre este assunto, leia mais em Espanha: a questão nacional e a Catalunha (N.T.). COLOCAR O LINK DO ARTIGO.

[5] Partido Popular, de direita (N.T.).

[6] Partido de la Ciudadanía (Ciudadanos) – Partido da Cidadania, de centro-direita, fundado em 2006 (N.T.).

[7] Partido de extrema-direita, fundado por membros egressos do Partido Popular (PP) em 2013 (N.T.).

Artigo publicado na página do Lucha de Clases, seção espanhola da Corrente Marxista Internacional, sob o título “Fracasó la primera investidura de Sánchez ¿Y ahora, qué?”, em 27 de julho de 2019.

 Tradução de Nathan Belcavello de Oliveira.

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