Novo Planeta, Konstantin Yuon, 1921

Engels e a defesa do Socialismo Científico

COMPRE “ANTI-DÜHRING” NA LIVRARIA MARXISTA

Engels, assim como Marx, era um grande polemista. Era um mestre na arte de separar o joio do trigo no interior do movimento operário e no próprio interior da social-democracia nascente na Alemanha da década de 1870.

Em 1878, quando a social-democracia ainda se organizava e enquanto Marx ocupava-se integralmente da escrita d’O Capital, Engels publicou o Anti-Dühring, cujo nome original era “O Sr. Eugene Dühring revoluciona a ciência” (Obra disponível na Livraria Marxista). Coube-lhe a defesa do marxismo na imprensa socialista, lutando para que o nascente partido, que viria a tornar-se o principal partido de massas do proletariado em nível mundial, não fosse confundido pela ação oportunista de “doutores” como Dühring e outros.

Dühring oferecia uma filosofia que continha “uma verdade definitiva e sem apelação”, o “sistema natural e a filosofia da realidade”, incluindo uma teoria socialista que substituiria o marxismo. Anunciava uma teoria inteiramente nova que abarcava todos os campos do conhecimento, o que colocava em questão imediatamente, não apenas a superação de todas as ideias anteriores nas matemáticas, na química ou na biologia, como o marxismo no campo da economia política e do socialismo.

Em suas polêmicas, ao esmiuçar o discurso do adversário, Engels expunha, aos olhos de todos, a pobreza do pensamento das classes inimigas, quando se propunham resolver os problemas sociais, tantas vezes expressas nas palavras de autores “amigos” ou de “dentro da própria social-democracia”.

Desde a Miséria da Filosofia (contra Proudhon) ao Anti-Dühring, entre tantos outros, Marx e Engels protegeram o desenvolvimento intelectual da vanguarda do proletariado da influência reacionária do pensamento burguês e pequeno-burguês e, por meio desse processo, desenvolviam, propagandeavam e aprimoravam o próprio marxismo.

No prefácio à segunda edição, já em 1885, quando julgava que Dühring estava esquecido, justificava a utilidade de uma nova edição, porque “a crítica negativa se converteu em crítica positiva, e a polêmica se transformou numa exposição mais ou menos coerente do método dialético e da concepção de mundo comunista defendidos por Marx e por mim, o que ocorreu numa série bastante abrangente de campos do conhecimento”.

Os “amigos” da social-democracia alemã demandavam a posição por escrito de Engels sobre Dühring, que tornou-se muito lida e ousava passar a divulgar seu novo sistema diretamente aos trabalhadores. Escrever uma resposta direta a ele só trazia vantagens, pois a crescente audiência de Dühring atraía os olhares para a resposta onde a superioridade absoluta das ideias de Engels recolocava o marxismo no centro do debate.

Dühring supunha ter as respostas para tudo, seu sistema se propunha total, universal, absoluto, apoiado sobre “verdades eternas” que ele agora trazia ao público. Engels não se propunha a dar resposta para tudo, mas a demonstrar que para explicar qualquer coisa, a utilização de um método científico para o pensamento era necessária.

O marxismo, segundo Engels, não é o Manifesto Comunista ou O Capital. O marxismo é, em resumo, o método de Marx (e de Engels, sem dúvida): o materialismo dialético, aplicado à história.

O materialismo e a dialética não são invenções de Marx e Engels. Antes disso, Marx e Engels precisaram tomar conhecimento do desenvolvimento da retomada da base materialista na filosofia burguesa e do virtuoso trabalho de Hegel no desenvolvimento de sua lógica dialética. Ambos apreenderam o significado desses avanços, e seu potencial para o desenvolvimento de um método que aliasse ambas as concepções para a compreensão da história. Para isso, fizeram os aprimoramentos necessários, extraindo da dialética de Hegel todo o idealismo e aliando-o ao materialismo, levando essa combinação às últimas consequências.

Em Anti-Dühring, o pensamento humano aparece claramente como um fenômeno que age, desenvolve as forças produtivas, sendo, no entanto, determinado por elas. É sempre após certo acúmulo, diante de certo nível de desenvolvimento das técnicas de dominação da natureza e do incremento na capacidade de produção dos víveres que o pensamento humano se coloca questões novas.

Imagem: Piquete

O próprio Marx, num texto introdutório a uma das seguidas edições da sua Crítica da Economia Política, explicou que a humanidade somente se coloca problemas que já está apta a resolver, dado que “a própria questão não aparece a não ser que já existam as condições materiais para a sua resolução, ou quando pelo menos estejam em vias de aparecer”.

O materialismo dialético não é um ser consciente que escolhia apenas a política para se manifestar. Ele brotava por todos os poros do tecido social. Engels dizia, sobre a dialética, que ela “encara as coisas e as suas imagens conceituadas, substancialmente, em suas conexões, em sua filiação e concatenação, em sua dinâmica, em seu processo de gênese e caducidade, como os fenômenos que acabamos de expor, que nada mais são do que outras tantas confirmações do método experimental que lhe é próprio. A natureza é a pedra de toque da dialética e não temos outro remédio senão agradecer às modernas ciências naturais nos terem oferecido um acervo de dados extraordinariamente copioso e que vêm, pelos canais da dialética e não sobre os trilhos metafísicos.

As proezas da indústria moderna e, portanto, o poder da matéria visto a olho nu inflamava os que viam todo o pensamento humano como produto das condições objetivas do indivíduo e da sociedade. As seguidas vitórias do modo de vida burguês sobre os resquícios da vida feudal faziam perceber cada dia mais a mudança, o movimento como o fundamento da realidade.

Engels aborda, em todos os campos sobre os quais teve oportunidade de ler e conhecer os mais (então) recentes avanços, a luta entre idealismo e materialismo, entre a lógica formal e a lógica dialética e expõe como, em cada uma delas,q as descobertas ou os ensaios mais frutíferos eram perfeitamente compatíveis – quando não produto direto – de uma concepção materialista e da lógica dialética, ainda que inconsciente. E assim aponta o salto que o domínio do materialismo dialético permitiria aos cientistas da natureza.

Ante as teses que concebem um início para o tempo, uma finitude para o universo, ante a indisposição para com a teoria da evolução das espécies entre tantas outras, Engels explica que Dühring pressupõe justamente o que deveria provar.

A explicação sobre o surgimento do Universo, que para Dühring remonta aos tempos em que o Universo era idêntico a si mesmo e quando, sem qualquer explicação, converte-se num universo em movimento e desenvolve-se até a forma que tem hoje.

Como se passa de um estado “idêntico a si mesmo” (o universo sem movimento, antes do tempo) para um estado de movimento permanente? Como se deu o início do movimento do tempo, por que saiu-se do ponto para a reta do tempo que começa mas não tem fim? Não se conhece nenhum elemento na natureza que tenha sido observado em absoluto repouso, idêntico a si mesmo. Só se conhece o movimento, a transmissão da energia, sua conversão entre as diferentes formas de manifestação: calor, movimento, som etc. Fora isso, recai-se, goste ou não, em Deus.

É após percorrer um caminho que lhe  permitiu demonstrar, em profundidade, a vitalidade do materialismo e da dialética através das recentes descobertas das ciências naturais, que Engels pousa sobre a dialética propriamente dita, num estudo próprio da lógica, para, em seguida, partir para o direito, para a economia política, onde o marxismo pode constituir uma verdadeira arma libertadora para a compreensão do funcionamento da sociedade capitalista e como superá-la.

Por fim, demonstra como as conquistas dos economistas ingleses e dos filósofos alemães, aliados à tradição do movimento socialista desde os utópicos e o desenvolvimento concreto da luta de classe do proletariado moderno, permitiram o desenvolvimento do socialismo científico. Parte do livro foi publicado em brochura entitulada do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, obra essencial para a formação de qualquer jovem militante até hoje.

Uma das lições desta obra é que o materialismo dialético como método para o pensamento científico deduz-se da observação da realidade, sendo um produto da generalização das  leis que regem os mais diversos fenômenos, seja na natureza ou na sociedade humana. Sendo assim, é impossível ser marxista em política, e idealista em química, em biologia ou na prática da medicina, engenharia ou qualquer outro ramo da atividade humana. O materialismo não é algo próprio da economia política, mas, antes disso, a economia só pode ser entendida corretamente por meio do materialismo histórico. O Anti-Dühring serve hoje como um antídoto a todo o ecletismo, efeito da pós-modernidade, que permite a cada indivíduo, uma realidade diferente e a cada realidade, um método próprio.

Outra lição é que a batalha pode se dar em qualquer dos campos em que se apresente, pois, em toda a amplitude do pensamento humano, o velho luta contra o novo que está prestes a nascer. Tal como no século 19, na biologia e na medicina o debate sobre células-tronco, sobre aborto, sobre “quando começa a vida”, reflete a luta entre as classes. Se a burguesia decrépita luta por ensinar que Deus criou o mundo, isso não é outra coisa senão o mesmo combate.

Entre nossos camaradas contemporâneos, podemos citar a obra Reformismo ou Revolução, onde Alan Woods combate o socialismo do século 21 de Heinz Dieterich, e onde consta, no volume I da obra, um subcapítulo chamado “Dieterich e Dühring”. Assim ele os compara: “Dühring vangloriava-se de ter descoberto um tipo de socialismo totalmente novo e original que deixava Marx irrelevante. Da mesma maneira, Dieterich argumenta que sua teoria “nova e original” do “socialismo do séc. 21” supera o marxismo e tudo que o precedeu.”

Engels escreveu esta brilhante obra antes que a burguesia se convertesse, definitivamente, numa classe reacionária em toda a linha, o que Lenin explica com precisão em seu Imperialismo, fase superior do capitalismo. A partir dessa nova fase, não há qualquer traço de desenvolvimento do pensamento e da cultura que provenha das fileiras da burguesia. Para frear a marcha da história em direção a uma nova revolução, dessa vez proletária, a burguesia destrói cada uma das conquistas intelectuais de sua fase progressista. Resta a nós preservá-las para, a partir delas, seguir a construção e a elevação do pensamento humano, o que não poderá ocorrer sem uma revolução socialista.

Temos nossos Dührings e eles ainda caminham orgulhosos pelos corredores das universidades e organizações políticas que falam em nome dos trabalhadores, acenando ousadamente aos jovens apontando caminhos “novos”, que em contínua curva (anunciada sempre como sendo à esquerda) acabam por trazer ao mesmo ponto de onde saíram. Tomemos o exemplo de Engels que estudou o melhor da ciência do seu tempo e se colocou entre o charlatanismo e o melhor da vanguarda socialista.

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