Eleições, a volta do Fora Bolsonaro e a busca pela unidade nacional

Editorial da 17ª Edição do jornal Tempo de RevoluçãoFaça sua assinatura e receba no seu e-mail!

O instituto Datafolha divulgou na última semana uma nova pesquisa em que aponta Lula (PT) na liderança da corrida eleitoral com 43% das intenções de votos e Bolsonaro (PL) em segundo com 26%. Na sequência, estão os candidatos que tentam aparecer como a terceira via Sérgio Moro (Podemos, 8%) e Ciro Gomes (PDT, 6%).

Apesar das análises dos principais jornais burgueses destacarem uma recuperação, mesmo que pequena, de Bolsonaro, as pesquisas também mostram que 68% dos entrevistados dizem que governo Bolsonaro tem responsabilidade pela alta nos preços dos combustíveis e 75% o responsabilizam pela alta da inflação e o descontentamento é declarado até pela base do presidente. Ainda é preciso acrescentar nessa conta o impacto das revelações sobre o favorecimento dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura na distribuição de verbas do Ministério da Educação (MEC). Mesmo com a demissão do ministro Milton Ribeiro, manobra realizada para blindar Bolsonaro, o estrago já foi feito.

A vantagem de Lula sobre seu rival é mais uma evidência de que o mandato de Jair Bolsonaro está marcado pela fraqueza, instabilidade, choques com frações majoritárias da burguesia e o ódio popular. Entre os dias 25 e 28 de março, a hashtag #forabolsonaro esteve entre as mais utilizadas durante o festival de música Lollapalooza e inúmeros vídeos de manifestações de artistas e participantes do evento tomaram as redes sociais.

No entanto, se por um lado, vemos a radicalização de uma ampla camada da sociedade e demonstrações públicas de rejeição a este governo, por outro, assistimos o papel cada vez mais covarde e conciliador por parte das direções que são defensores mais ferrenhos do capital do que os próprios capitalistas.

O PSOL, o PT e as federações partidárias

No dia 21 de março, Guilherme Boulos, principal candidato do PSOL ao governo de São Paulo, abandonou a disputa para favorecer Fernando Haddad (PT) que segue melhor colocado nas pesquisas de opinião. Ele declarou em seu Twitter que será candidato a Deputado Federal para “ajudar a construir uma grande Bancada de Esquerda no Congresso”, já que o grande problema é que hoje “o Centrão governa o Brasil”.

O fato é que Boulos fez uma troca puramente eleitoreira: hoje ele permite que Haddad seja o único candidato da “esquerda” em São Paulo e, em 2024, Lula e o PT o apoiam na corrida pela prefeitura da capital paulista.

Em nossa declaração de 12 de fevereiro, explicamos que a decisão do PSOL de não apresentar uma candidatura à presidência do país revelava “muito de sua adaptação às instituições burguesas, ao jogo eleitoral e parlamentar, à conciliação de classes e ao reformismo. (…) a política defendida por esta direção pouco se diferencia da defendida por Lula e o PT”. O mesmo vale para a retirada de Guilherme Boulos. Sua postura nos últimos anos foi a de tentar impedir que a palavra de ordem “Fora Bolsonaro” tomasse grandes proporções e quando aconteceu, Boulos trabalhou para desviar a luta das ruas alimentando a esperança na via eleitoral. Suas afirmações vagas como a de que é preciso unidade para “derrotar os tucanos e o bolsonarismo no estado de SP”, entre outras, são apenas péssimos disfarces para sua real política de unidade com o PT e setores da burguesia para impedir uma explosão social que possa sair do controle das direções do movimento operário.
Outro elemento desta adaptação do PSOL ao jogo político burguês aparece na proposta de formação das chamadas federações partidárias, “inovação na lei eleitoral que entra em vigor já nas eleições deste ano, no lugar das coligações para as disputas de cargos proporcionais, abre o caminho para se aprofundar a adaptação do PSOL, diante da possibilidade aventada pela direção de constituição de federação com partidos burgueses. A lei determina uma unidade de ao menos quatro anos entre os partidos que aderirem à federação, com estatuto e programa comuns, além de uma direção nacional própria”.

A entrada em federações com partidos burgueses (Rede, PSB, PV etc.) significa, para os partidos que reivindicam da classe trabalhadora, como PT, PCdoB, PSOL, o avanço em direção à dissolução do seu caráter de classe para se integrarem em instrumentos políticos com setores da burguesia”.

Alckmin socialista?

Dois dias após o anúncio de Boulos, Geraldo Alckmin oficializou sua filiação ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), evidenciando que está praticamente dado que Alckmin será vice de Lula na disputa pela presidência da República, faltando apenas as formalidades. Os acordos e planos estão sendo traçados, o terreno para costurar a unidade nacional por cima se prepara e logo vamos assistir a uma enxurrada de propaganda sobre um suposto passado glorioso, de crescimento econômico e oferta de crédito, por um lado, e por outro, tentarão nos fazer esquecer que Lula terá como vice um dos maiores algozes da classe trabalhadora e da juventude do país. Para citar apenas alguns exemplos, o período em que Alckmin foi governador de São Paulo ficou marcado pelo fechamento de mais de 700 escolas, pelo aumento de 96% da letalidade policial – que também foi responsável pela Chacina de Osasco, em 2018 –, pelas denúncias de fraude no processo de licitação do metrô e o escândalo desvios de verbas do Rodoanel, entre outros ataques.

Com a filiação de Geraldo Alckmin ao PSB, está praticamente dado que o ex-tucano será vice de Lula / Imagem: Reprodução Redes Sociais
No ato de filiação, Alckmin dedicou um tempo de seu discurso para dizer que “Lula é hoje o que melhor reflete e interpreta o sentimento de esperança do povo brasileiro”, reafirmando a necessidade de defesa das instituições por meio da conciliação e unidade nacional. O tempo todo o ex-tucano fez um discurso com afirmações como “tarefa de governo não é inflamar conflito, é buscar conciliação”, de que estamos diante de um “momento de união”, de retomada do emprego e renda, do combate à desigualdade, ao ódio e intolerância. A fala de Alckmin vai ao encontro com o que planeja Lula e é o desejo de uma camada da burguesia que não vê em Bolsonaro a possibilidade de garantir a aprovação das contrarreformas sem que se intensifique a instabilidade da situação atual.

Quanto ao novo partido de Alckmin, é preciso compreender que de socialista só tem o nome. O PSB nasceu em 1945 a partir de um grupo interno da União Democrática Nacional (UDN) chamado Esquerda Democrática (ED). Esse grupo formava uma oposição burguesa ao governo de Getúlio Vargas e conseguiu se tornar um partido antes de se transformar no PSB. Em 1985, o PSB foi refundado após ser extinto pelo Ato Institucional n.º 2, em 1965.

Em seu programa, o partido defende que seu objetivo “no terreno econômico, é a transformação da estrutura da sociedade, incluída a gradual e progressiva socialização dos meios de produção (destaque nosso), que procurará realizar na medida em que as condições do país a exigirem”. Isto é, o bom e velho reformismo do início do século 20 defendido por Eduard Bernstein, Conrad Schmidt, entre outros, e combatido por Rosa Luxemburgo, Lênin e Trotsky. A oposição que os marxistas apresentam à proposta idealista de socialização gradual dos meios de produção é a revolução socialista, algo que não aparece no programa do PSB e nem passa perto da mente de seus parlamentares e filiados.

Mas como será essa transição então? Para o PSB, a resposta é simples: “ela só deverá ser decretada pelo voto do Parlamento, democraticamente constituído.” Sem revolução, por meio da “não-violência ativa”, o Parlamento irá decretar o fim da propriedade privada dos grandes meios de produção.

Mas se em seu programa o PSB carrega esses traços de um reformismo que não existe mais, na prática estamos falando de um partido burguês que reúne em suas fileiras nomes como Márcio França, Tabata Amaral e agora o tucano Geraldo Alckmin e que não se diferencia em nada dos demais partidos políticos burgueses do país.

Fora Bolsonaro

Apesar dos esforços das direções em frear o ímpeto das massas e da adaptação ao regime, o que vimos no Lollapalooza é que a ira contida pode explodir a qualquer momento. As tentativas de Bolsonaro, por meio do TSE, de impedir as manifestações configurando-as como pré-campanha, só jogaram mais lenha na fogueira e o Fora Bolsonaro foi o principal destaque em um fim de semana que deveria ser apenas mais um. Uma análise de um colunista da Folha de S. Paulo aponta que as “ruas poderão virar um enorme Lollapalooza” e as direções da classe operária sabem e temem essa possibilidade.

Os atos convocados, mas não mobilizados pelas direções, para o 9 de abril podem servir como uma válvula de escape para a indignação. Mesmo que as direções consigam novamente frear as massas e nas eleições de outubro, Lula sair vitorioso, no cenário atual, de crise econômica, rechaço ao sistema e de experiência acumulada com os governos do PT, a paciência das massas será muito menor em um possível novo governo Lula. A luta de classes segue a pleno vapor, antes, durante e depois das eleições.

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