Governador Carlos Moisés em coletiva sobre o coronavírus / Foto: Julio Cavalheiro / Secom

Desigualdade na quarentena em Santa Catarina

O governador do estado de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL), decretou essa semana várias medidas restritivas para combater a pandemia do Coronavírus, após a Secretaria de Saúde catarinense informar que o vírus já estava circulando no estado e deixando implícito na coletiva que não há testes para detectar a Covid-19 em SC. Na segunda-feira (16/3), anunciou a suspensão das aulas e eventos por trinta dias a partir do dia 19 e o fechamento de serviços não essenciais por sete dias (comércios, bares, restaurantes e transporte público) para evitar a aglomeração de pessoas.

Diferindo do Governo Federal, Bolsonaro e Cia, que, no domingo, realizaram um ato e buscam disseminar ideias de que a preocupação com o vírus é um exagero, ou pior, que nada precisa ser feito porque “que seja feita a vontade de Deus”, o governador do antigo partido de Bolsonaro toma medidas que, apesar de corretas, são extremamentes limitadas e deixam evidente o caos que está por vir.

Em outros estados em que o contágio está mais avançado, como São Paulo e Rio de Janeiro (286 e 65 casos confirmados até 20 de março – dados do Ministério da Saúde), as medidas de isolamento  estão muito atrasadas, considerando ainda que a aglomeração de pessoas, habitualmente, já é muito maior nesses centros.

No entanto, essas restrições, a quarentena e a campanha do governo que  diz “Fique em casa”, ainda que corretas,  estão repletas de contradições e são totalmente insuficientes. É verdade que ir à praias e lotar os supermercados, por exemplo, não é nada sensato, mas, como sempre, os governos,  buscam responsabilizar os trabalhadores que estão enxergando e tendo que arcar com as contradições dessas medidas.

O que fecha e o que abre?

Enquanto a polícia retira  as pessoas das praias e fecha pequenos comércios e indústrias, as grandes indústrias continuam funcionando normalmente. Que tipo de quarentena está acontecendo?

Na coletiva de 20 de março, o governador tenta explicar que a indústria é um ramo complexo, diz: “Se você para de produzir um pallet, por exemplo, vai faltar lá na indústria de alimentos“.

Os trabalhadores não são bobos. É verdade que indústrias de serviços essenciais não podem parar agora, mas é essencial produzir toalhas (como a empresa têxtil Döhler, do prefeito de Joinville) ou geladeiras (Whirpool, que funciona com 100% da sua capacidade)?

Centenas de indústrias em Santa Catarina continuam funcionando sem ter qualquer relação com o ramo essencial e pior, sem qualquer recurso disponível, sem qualquer medida séria de higiene aos milhares de trabalhadores, nem mesmo respeitando os trabalhadores que estão em grupo de risco. Outras dezenas de grandes empresas continuam trabalhando em SC.

A aparente eficiência do governo, em comparação com outros estados e principalmente com Bolsonaro, tem uma razão. Os líderes mais republicanos, em tempos de caos como o que vivemos, precisam passar uma imagem de que governam para todos, que buscam resolver os problemas sociais, afinal, eles são eleitos por voto popular. É isso que explica líderes de direita que defendem a privatização dos serviços públicos de saúde e educação, o corte de direitos, como Macron na França, agora tentam parecer  “sensatos”. Mas um olhar mais atento nos mostra que preparam medidas para empurrar as contas dessa crise para os trabalhadores.

Suspensão não é férias!

Em Joinville, empresas como Tupy e Docol dispensaram seus funcionários. Dando férias coletivas! Férias? Todos sabem que não estamos de férias.

Esse é o primeiro sintoma de que a classe dominante e seus governos não estão dispostos a pagar pelo problema que eles mesmo criaram quando sucatearam o Sistema Único de Saúde, pois os mais renomados cientistas e médicos do mundo explicam que o vírus não é de alta letalidade, o que torna ele letal é a total falta de condições públicas para atender aqueles em que a situação se agrava. Por outro lado, explicam que o controle deve ser com testes em massa, isolamento, controle e hospitais à disposição, nenhuma dessas coisas temos, o que se prepara é o caos.

Ontem o governo do estado lançou um comunicado às escolas reforçando que os 15 primeiros dias da suspensão serão considerados adiantamento do recesso de julho e nos outros 15 dias os professores deverão enviar atividades para os alunos fazerem pela internet! Parece que o governo não conhece a realidade dos estudantes da escola pública ou está muito perdido. A maior parte dos alunos não têm acesso a computadores com internet para realizar as atividades assim. Aliás, nenhuma escola do estado tem uma estrutura dessas, isso só evidencia o caos também na educação.

A verdadeira saída é coletiva

A tarefa dos revolucionários nesse momento de quarentena é aproveitar o tempo extra para se formar e se organizar com a sua classe, mesmo que remotamente, e exigir:

  • Fechamento imediato dos locais de trabalho não essenciais;
  • Suspensão não pode ser considerada férias;
  • Nenhum prejuízo salarial a nenhum trabalhador;
  • Nenhuma demissão causada pela pandemia, readmissão dos já demitidos;
  • Estatização sob controle operário das empresas que não absorverem os impactos da crise;
  • Auxílio financeiro aos autônomos e pequenos comerciantes;
  • Suspensão das taxas de energia, água e aluguel;
  • Suspensão das votações parlamentares de leis que não sejam para atender as exigências dos jovens e trabalhadores;
  • Revogação da EC 95, que congelou a verba pública da saúde;
  • Estatização de hospitais privados;
  • Não pagamento da dívida aos banqueiros;
  • Todo dinheiro necessário à saúde pública, ciência e educação;
  • Fora Bolsonaro! Por um governo dos trabalhadores, sem patrões nem generais!
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