Brasília - Manifestantes pró (à direita) e contra (à esquerda) o impeachment ocupam a Esplanada dos Ministérios durante o processo de votação na Câmara dos Deputados ( Juca Varella/Agência Brasil)

Democracia atordoada, reformismo em vertigem

Um dos temas mais comentados nas últimas semanas foi o lançamento do documentário “Democracia em vertigem”, dirigido por Petra Costa, que busca mostrar um panorama da história política recente, centrando-se na atuação eleitoral e de governo do Partido dos Trabalhadores (PT). Exibido pela Netflix, o documentário foi bem recebido pela crítica não apenas por conta de suas qualidades técnicas, mas também pelo cruzamento de imagens de arquivos pessoais e profissionais da própria diretora e de outras fontes, como pessoas ligadas à assessoria de Lula e Dilma. Além disso, os vínculos políticos e quase afetivos de Petra e de sua família com o PT garantiram à diretora acesso exclusivo a membros da direção do partido, inclusive uma entrevista com Dilma. Contudo, é necessário também destacar a recepção a esta obra por parte da esquerda, em especial aquela alijada do poder em 2016. A narrativa do documentário é centrada no “golpe”, mais precisamente nos fatores políticos e sociais que desencadearam o processo de impeachment de Dilma e nas suas consequências, e dando vazão à narrativa de que haveria uma grande conspiração das “elites” para garantir o retorno da “direita” ao poder. Segundo a narrativa da esquerda reformista, isso teria se concretizado em um cenário no qual a democracia encontrava-se ameaçada pelos ataques do autoritarismo, cuja principal expressão seria a chegada ao poder de Jair Bolsonaro.

O documentário tem como pressuposto a defesa da democracia e o discurso de que sua lógica teria sido interrompida nos últimos anos. Essa democracia é apresentada como um idílico regime baseado na participação eleitoral da população, ocultando o seu caráter de classe, ao passo em que, no Brasil, a atual composição da democracia burguesa foi pactuada no final da ditadura, de modo a preservar a dominação de classe e a estabilidade do capitalismo. Na Nova República, as principais organizações de esquerda, em especial o PT, cumpriram o papel de garantir estabilidade ao regime democrático burguês, controlando as organizações e contendo as mobilizações dos trabalhadores, como ocorreu no “Fora Collor”.

Segundo o documentário de Petra, o ápice dessa democracia teria sido a eleição de Lula, em 2002, cujo governo encarnaria a chegada ao poder de um legítimo representante da maioria da população, ainda que tanto a eleição quanto a manutenção do governo Lula teriam sido garantidas somente pela conciliação de classes. Petra encara com ambiguidade esse tema. Por um lado, aponta que esse teria sido o erro que provocou crises nos governos petista, perdidos em negociações e alianças com setores da direita. Por outro lado, Petra justifica os atos conciliatórios, afirmando que as ações tidas como “progressistas” dos governos petistas não teriam sido possíveis sem esses acordos. Contudo, é a partir desta ambiguidade que seu documentário mostra os limites estratégicos daqueles governos. Lula certamente poderia ter tentando romper com o capital, governando pela perspectiva de uma ruptura revolucionária; mas não foi a isso que ele e o PT se propunham. A democracia, tão amada e exaltada por Petra, no final das contas não poderia ter sido aperfeiçoada ou melhorada num governo do PT ou em qualquer outro no capitalismo, que precisa ser destruído para levar os trabalhadores efetivamente ao poder.

Segundo o documentário, foi a escolha pela conciliação de classes, em especial a formalização da coalizão com o PMDB, que teria levado os governos petistas a tomarem decisões questionáveis. Nesse ponto Petra personaliza as críticas a Michel Temer e Eduardo Cunha, parecendo não ter a compreensão de que eles não são outra coisa além de legítimos representantes dos interesses da burguesia. O atrito que o documentário personifica na ação conspiratória de Eduardo Cunha se desdobra numa divisão do país, que Petra lamenta, expressando tal divisão em sua narrativa de forma superficial, como “direita” versus “esquerda”, que, no contexto narrado, se refere basicamente a “anti-petistas” contra “petistas”. O junho de 2013 seria o marco inicial dessa divisão, e mesmo sem fazer afirmações diretas, Petra mostra no documentário imagens que sugerem que as jornadas de junho teriam marcado o crescimento de um anti-partidarismo irracional, tendo como centro o combate ao PT.

O que houve nos últimos anos foi uma crescente polarização, manifestada principalmente pelo movimento dos trabalhadores se descolando de suas direções tradicionais, em especial do PT. Contudo, diferente do que Petra tenta mostrar em seu documentário, essa polarização não se resume a ataques das “elites” contra o PT; ela é a expressão da luta de classes. A crise econômica provocou a um acirramento político, levando a burguesia a aprofundar os ataques contra os trabalhadores, e neste contexto deixa de ser possível um modelo que negocia migalhas, como o que vinha levando a cabo os governos do PT. O documentário de Petra fortalece a narrativa de que teria ocorrido um golpe, vitimizando Dilma e o PT. Contudo, tudo o que se tem visto nos últimos anos é a crise da democracia burguesa, que ataca liberdades democráticas e solapa direitos dos trabalhadores. Não há que lamentar a crise da democracia, como faz Petra, mas destruir esse regime e construir uma nova sociedade.

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