Ataque do 2º Regimento de Infantaria da Baviera às posições francesas durante a Batalha de Wörth, 6 de agosto de 1870, por Fritz Neumann (1881–1919)

Da Revolução de Fevereiro à Guerra Franco-Prussiana: os eventos que precederam a Comuna de Paris

A Comuna de Paris, que alcança seu cento-cinquentenário no ano 2021, é o auge de um período de convulsões sociais que marcou a luta de classes na França. A compreensão do desenvolvimento do radicalismo político da classe trabalhadora francesa, que a direcionou nos rumos desse grande acontecimento da história da humanidade, passa pela necessidade de se lançar um olhar histórico sobre os eventos que precederam o “Assalto aos Céus”.

Os anos anteriores aos acontecimentos de 18 de março de 1871 remontam a um período de intensas lutas iniciadas no ano de 1848, onde uma onda revolucionária, que ficou conhecida como a “Primavera dos Povos”, varreu os países da Europa Central e Ocidental, contra o autoritarismo das monarquias despóticas que haviam sido restauradas ou haviam sobrevivido ao processo da Grande Revolução Francesa. Foram revoluções onde se observou as pautas nacionais, pelo direito à autodeterminação, e, também, as pautas democrático-republicanas, onde o proletariado urbano desses países, que já nesses anos se inspirava nas ideias socialistas e anarquistas, desempenhou um papel fundamental.

França: da Revolução de Fevereiro à tragédia do bonapartismo

Na França, epicentro desse processo, em fevereiro de 1848, a Monarquia de Julho, do rei Luís Felipe de Orleans, foi derrubada, na chamada Revolução de Fevereiro, e substituída por um governo provisório organizado pela grande burguesia que proclamou a chamada Segunda República e decretou eleições para esse mesmo ano. O objetivo claro desse governo era enterrar a revolução que incendiava o país. Desde seus primeiros momentos, esse governo se mostrou muito mais reacionário do que a própria monarquia parlamentar orleanista. Mas, longe de aplacar os ânimos, isso atira ainda mais lenha na fogueira. Em 23 de junho de 1848, os trabalhadores parisienses entraram em estado de insurreição contra essa mudança conservadora no caminho da República. Essas jornadas, que ficaram conhecidas como as “Revoltas de Junho”, foram brutalmente esmagadas sob as botas do exército francês.

A essas alturas a grande burguesia francesa precisava de um governo que, com punhos de aço, consolidasse o novo regime e lhes oferecesse a estabilidade política necessária para que eles pudessem dar continuidade a exploração do trabalho. Foi com o apoio da grande burguesia, dos grandes latifundiários e dos setores mais atrasados do proletariado urbano e sobretudo do campesinato, que o então deputado Luís Bonaparte, sobrinho do ex-imperador francês Napoleão Bonaparte, foi eleito o primeiro presidente da Segunda República Francesa.

Porém, três anos mais tarde, em 1851, impedido de concorrer à reeleição pela constituição republicana, Luís Bonaparte recorre a um golpe de Estado, fechando o parlamento e proclamando, em seu favor, o Segundo Império, adotando o nome de Napoleão III, o imperador dos franceses. Dessa maneira se repetiu a trágica história do 18 Brumário de 1799, quando Napoleão Bonaparte e seus apoiadores deram um golpe militar no Diretório, encerrando assim a Grande Revolução Francesa. Mas dessa vez, como na época analisou brilhantemente Marx, se apoiando no pensamento de Hegel: a história se repetiu como uma farsa.

“Diante dos perigos da Revolução, ansiavam por voltar a abundância do Egito, e o 2 de dezembro de 1851 foi a resposta. Não só fizeram a caricatura do velho Napoleão, como geraram o próprio velho Napoleão caricaturado, tal como deve aparecer necessariamente em meados do século 19” (MARX Karl – O 18 Brumário de Luís Bonaparte – Capítulo 1 – p. 10).

Luís Bonaparte era uma caricatura grotesca do Velho Napoleão. O seu governo foi marcado por um autoritarismo que, por certas vezes, flertava timidamente com o liberalismo, o que, inclusive, o levou a reabrir o Parlamento em 1859. Era um governo de instabilidade, apoiado pelos amplos setores da grande burguesia francesa que, entretanto, sofria severa oposição do proletariado nas ruas e, inclusive, de alguns setores minoritários da burguesia no Parlamento: esses eram os liberais republicanos e os monarquistas orleanistas, entre os quais se destacava a figura de Adolphe Thiers, ex-primeiro-ministro de Luís Felipe de Orleans, que desempenhou o papel sanguinário no episódio da violenta repressão à Comuna de Paris.

O radicalismo do movimento operário francês

Não apenas na França, como em todos os países nos quais se apresentou, a convulsão revolucionária iniciada em 1848 foi de grande aprendizado para a classe trabalhadora, que, no calor dessas grandes lutas, experimentando de forma concreta suas contradições e reviravoltas, atingiu cada vez mais a consciência da necessidade da conquista do poder político. Marx, em um balanço dessa revolução na França, que culminou com a tragédia da reação bonapartista, se lança ao seguinte raciocínio:

“Porém, a revolução é radical. Ela ainda está percorrendo o purgatório. Exerce seu mister com método. Até o 2 de dezembro de 1851 (dia da realização do golpe de Luís Bonaparte), ela absolvera metade de seus preparativos; agora ela se encontra na outra metade. Primeiro fez com que o Parlamento chegasse ao auge de seu poder para então derrubá-lo. Tendo conseguido isso, ela passa a fazer com que o Poder Executivo chegue ao seu auge, reduzindo-o a sua expressão mais pura, isolando-o, colocando-o diante dos seus olhos como pura acusação para concentrar nele todas as suas forças de destruição” (MARX Karl – O 18 Brumário de Luís Bonaparte – pág. 140 – Boitempo – 2011).

Nesses anos o movimento operário francês passava a experimentar uma importante maturidade em matéria de organização. Como Engels explicou no seu livro “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”, o operário francês, graças aos processos revolucionários pelos quais passou, tinha um nível de consciência política superior, por exemplo, ao do operário inglês, que, embora fosse tão aguerrido quanto em suas lutas, era mais apegado às reivindicações de caráter econômico:

“Os franceses, com um temperamento essencialmente político, empregam meios políticos nas lutas contra os males sociais; os ingleses, para os quais a política só existe em função dos interesses, em função da sociedade burguesa, em vez de combater o governo, combatem diretamente a burguesia (…) ” (pág. 259 – Boitempo – 2012)

Durante o Segundo Império, a atividade política fervilhava nos bairros operários de Paris e inflamava também os estudantes nas universidades. As direções operárias tinham um caráter ainda bem heterogêneo. Desse modo, podemos observar ali a atuação dos blanquistas, dos anarquistas e, também, dos socialistas. A recém-nascida Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), também conhecida como a Primeira Internacional, fundada por Marx e Engels em 1864, teve uma importante presença na França, atuando nas principais manifestações e greves desse período. A AIT difundia amplamente a sua imprensa na França, organizava encontros com operários e estudantes e, para horror da burguesia, passou a ganhar cada vez mais adeptos.

“Brochuras, publicações populares, pequenas coleções, exemplares ilustrados de A História da Revolução mal bastaram para estancar a sede de saber que despertava. Como não recebera o forte alimento da que fez 48, a nova geração operária ia com sede ao pote. As reuniões públicas aumentam ainda mais esta fogueira de ideias. A afluência é enorme. Há quase vinte anos que Paris não vê uma palavra livre florescer nos lábios” (LISSAGARAY, Olivier Prosper – “A História da Comuna de 1871”- pág. 25 – Editora Ensaio – 1991).

Marx se dedicou a analisar, em algumas de suas mais brilhantes obras, a luta de classes na França. Inclusive, um jornal conservador da época, e que existe até hoje, o “Le Figaro”, tentava, em seus editoriais, envolver e culpar Marx e a Internacional em todo e qualquer episódio de insurgência operária que acontecia em território francês, inclusive atos terroristas, entre outras coisas completamente avessas a linha política dessa organização. Instigada por esses editoriais e amedrontada com a agitação nos bairros operários, manifestações cada vez mais radicalizadas e inúmeras greves a polícia bonapartista se lançava sobre os internacionalistas. A violenta perseguição e as infames calúnias abriram a grande oportunidade para a Primeira Internacional desfraldar sua bandeira e torná-la visível aos trabalhadores que ainda não a conheciam.

A política de Luís Bonaparte em relação aos operários era a “política da espada”: todas as greves, manifestações, das menores às mais expressivas, eram brutalmente silenciadas pelas baionetas e as “espingardas Chassepot”1 do exército francês. As prisões de Paris estavam apinhadas de presos políticos, entre operários, estudantes, jornalistas e deputados oposicionistas.

Os estertores do império de “Napoleão, O Pequeno” e a Guerra Franco-Prussiana

O imperador vivia sempre à sombra do tio e não conseguia resistir à tentação de espelhar os seus atos nos feitos do Velho Napoleão, mas fazia isso de forma totalmente descontextualizada e medíocre. Em função disso, ganhou, do grande romancista francês Victor Hugo, a miserável alcunha de “Napoleão, O Pequeno”.

O seu governo, de fato, propiciou um terreno fértil para o desenvolvimento do capitalismo francês, mas a sua política externa militarista e intrometida, buscando sempre disputar com Império Britânico o papel de árbitro na política mundial, além de enterrar a sua gestão em uma enorme crise financeira, ocasionou a sua própria desgraça. Longe de ser um brilhante general como o seu tio, Luís Bonaparte procurou ganhar o apoio popular e dos militares através da guerra e do mais baixo chauvinismo. Para tanto, ele esgotou os recursos do Tesouro Nacional e exauriu o Exército da França com participações na Guerra da Criméia, na Guerra de Unificação da Itália e com aventuras militares menores na Romênia, na China, no Egito e no México onde foi forçado a uma humilhante retirada diante da resistência aguerrida dos mexicanos liderados por Benito Juárez.

Com isso, cresciam na França as agitações operárias, os ataques da oposição parlamentar e o descontentamento dentro do próprio exército. No último ato dessa ópera bufa que foi o Segundo Império, Napoleão III, da forma mais grotesca possível, resolveu seguir novamente os passos do tio. Assim como o primeiro Napoleão Bonaparte, nos cem dias que antecederam a sua derrota definitiva na Batalha de Waterloo, Luís Bonaparte, em 1870, convocou um plebiscito buscando se legitimar democraticamente como imperador dos franceses. Mas, ao contrário do tio – aclamado e apoiado pelo povo na ocasião que marcava o seu retorno à França em 1814, – Napoleão III venceu sim o plebiscito, mas o fez calando a oposição com sabotagens, prisões e com violenta repressão. E, mesmo com essa desmesurada violência, um número expressivo de eleitores, sobretudo de Paris, votaram pelo fim do império. Dos quase 2 milhões de votos oposicionistas, mais de 50 mil vinham das fileiras do próprio exército imperial.

Em sua prepotência, Luís Bonaparte resolveu ignorar todas essas importantes evidências da enorme insatisfação popular e passou a forçar tensões desnecessárias com o rei da Baviera, na ocasião em que este reclama para o seu filho o trono vago do Reino da Espanha. Com isso, o primeiro-ministro do reino da Prússia, Otto von Bismarck, Duque de Lauenburg, enxergou nesse episódio a oportunidade de forçar uma guerra contra Napoleão III, cuja vitória lhe ofereceria as condições necessárias de consolidar uma unificação dos reinos alemães, sob a liderança prussiana.

Além disso, uma guerra contra a combalida França era a oportunidade de anexar mais territórios e varrer do mapa, um dos principais rivais de um futuro Império Alemão na disputa pela hegemonia na Europa. O chanceler de ferro prussiano sabia que dispunha de poderio militar suficiente para aniquilar rapidamente a França. Os próprios resultados do já citado plebiscito, promovido pelo imperador francês, amplamente divulgado na imprensa de toda Europa, oferecia aos prussianos um mapa preciso de quantos homens o Exército da França poderia dispor naquele momento.

Alguns anos antes, às vésperas da Exposição Universal de Paris 1867, onde a burguesia francesa exibiu sua opulência favorecida pelo império, uma comitiva militar prussiana, liderada pelo marechal Ludwig von Moltke, visitou tranquilamente os fortes franceses e passou em revista as tropas, a convite do Alto Comando do Império Francês. Na mesma noite, em um jantar no hotel onde estavam hospedados, os oficiais prussianos levantaram um brinde “a tomada de Paris”.

Na França, a população em geral, diante do impacto negativo das recentes incursões militares francesas, sobretudo no México, enxergava os militares como covardes, eficientes apenas na hora de empunhar a espada contra seu próprio povo. Luís Bonaparte acreditava em uma possível guerra contra a Prússia como a ferramenta para construir a unidade nacional e barrar as pretensões de Bismarck de unificar os reinos alemães em um império que viria a concorrer ao posto de primeira potência mundial. Tal guerra, como os fatos subsequentes provaram, seria a mola propulsora da revolução.

Bismarck, ao passo que tomava publicamente as dores do rei bávaro, ordenava ao seu serviço secreto a interceptação e adulteração da correspondência diplomática entre a Baviera e a França. Assim, as educadas tentativas de negociação por parte do rei da Baviera e seus diplomatas eram substituídas, pelos agentes prussianos, por calorosos insultos contra o Império Francês e Luís Bonaparte. O pequenino Napoleão, de certo, mordeu a isca e declarou guerra aos reinos alemães. Começa assim a sua espetacular derrocada.

Enquanto os trabalhadores de Paris, em um ato de franca insurgência, tomavam as ruas empunhando bandeiras vermelhas e republicanas, com paus e pedras na mão, gritando palavras de ordem contra a guerra e contra o imperador, o corpo principal do Exército Francês, comandado pelo próprio Luís Bonaparte, marchava rumo a uma esmagadora derrota na Batalha de Sedan. Tanto o Napoleão III, quanto os seus oficiais e todos os milhares de soldados que sobreviveram ao devastador e veloz ataque prussiano, foram capturados. Depois desse desastre, graças a uma manobra do marechal prussiano Ludwig von Moltke, a retaguarda francesa, sob o comando do marechal Bazaine, é atraída para a cidade de Metz, e lá é cercada pelos prussianos, deixando dessa maneira a França completamente desguarnecida.

Napoleão III e Bismarck na manhã seguinte à Batalha de Sedan, por Wilhelm Camphausen (1818-1885)
As aterradoras notícias não tardaram a chegar em Paris: a única força militar profissional que havia entre os 500 mil soldados prussianos e a França era uma pequena divisão de soldados feridos e recrutas, comandada pelo marechal Patrice Mac Mahon. As grandes manifestações nas ruas exigiam o fim do Segundo Império e a proclamação de uma república democrática. Dessa forma, o parlamento convocou a Guarda Nacional, e milhares de cidadãos de Paris, diante da prostração dos militares, se apresentaram como voluntários.

Os trabalhadores parisienses já conheciam, de cor e salteado, a fórmula que provavelmente um governo provisório formado pela burguesia iria propor como o remédio da salvação nacional. Eles não estavam dispostos a aceitar uma rendição humilhante, nem uma nova monarquia constitucional, como a Monarquia de Julho, nem um governo republicano burguês, que, no limite, poderia trazer de volta o fantasma do bonapartismo. Sob essas condições, e armados para defender Paris do invasor prussiano, eles promovem algo inédito na história: a classe trabalhadora parisiense tomou os céus de assalto.

Para saber mais:

Nota:

1 A espingarda Chassepot é um fuzil militar por ação de ferrolho de retrocarga. É famoso por ter sido o fuzil de serviço das forças francesas na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871. Ele substituiu uma variedade de fuzis Minié por antecarga, (pelo cano do fuzil) muitos dos quais foram convertidos em 1864 para retrocarga. Uma grande melhoria para os rifles militares existentes em 1866, o Chassepot marcou o início da era da ação de ferrolho moderna, rifles militares por retrocarga. Lissagaray, em seu livro “A História da Comuna de 1971” faz menção ao rifle se referindo a uma manchete de um jornal conservador na época que dizia que “contra os operários, as espingardas Chassepot operam maravilhas”.

 

 

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