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Poesia, saraus, SLAMs e a “função” da arte – Uma entrevista com Luíza Romão

Luíza Romão, poeta e atriz. Seu segundo livro além de seus poemas. Foto: Sérgio Silva

Tendo em vista a continuidade do nosso projeto de aproximar nossos leitores dos temas da arte e sua relação com a luta de classes e o marxismo, fizemos uma entrevista com a poeta e atriz Luíza Romão no último mês de abril. Sua poesia vem ganhando notoriedade, sendo reconhecida e, como ela mesma explica na entrevista, torna-se um trabalho profissional – no sentido de que a remunera e permite, em suas próprias palavras, “viver disso”. Em seus versos fica muitas vezes clara a marca de seu interesse pela luta de classes, o que lhe permite abordar os temas com uma intenção crítica, desde aqueles manifestadamente políticos, aos mais líricos (esses últimos, presentes principalmente em seu primeiro livro, “Coquetel MotoLove”). Trata-se de uma artista bastante ligada a diversas lutas da classe trabalhadora, tendo uma relação íntima com as lutas contra o machismo e as diversas formas de opressão.

Sua entrevista traz uma série de informações que consideramos importantes para que todo militante ou ativista do movimento operário, popular e da juventude possa entender um pouco mais sobre a produção cultural contemporânea, particularmente na cidade de São Paulo, onde ela atua. Sua trajetória ligada aos saraus da periferia de SP e aos slams (termo originário do inglês que dá nome às batalhas de rimas) a coloca em condição de explicar e situar essas manifestações culturais no contexto histórico e geográfico e ajuda a entender seu papel político.

Após a entrevista, apresentamos um artigo com reflexões a partir da entrevista com Luíza, e sugerimos também sua leitura.

A todos, uma boa leitura.

Vinícius Camargo: Luiza, você tem uma trajetória que passa pela participação nos SLAMs de poesia, particularmente na cidade de São Paulo. Poderia contar, brevemente, a sua trajetória e, além disso, ajudar nosso leitor a entender como funcionam esses saraus, o que são os SLAMs e sua relação com eles?

Luíza Romão: Bom, minha trajetória na escrita sempre esteve muito imbricada no movimento dos saraus e nos slams. Eu não tenho uma formação em letras, eu a priori não tinha esse desejo, o intuito de ser poeta, foi uma coisa que aconteceu a partir de quando eu comecei a frequentar esses encontros de poesia que acontecem na cidade de São Paulo.

Pra gente definir para o leitor, acho importante a gente distinguir o que são os saraus o que são os slams. Sarau é um movimento que acontece já há bastante tempo, quase 20 anos em São Paulo, em diversas periferias. Começou muito na zona sul, na Cooperifa, Sarau do Binho, enfim, e se alastrou pela cidade inteira ocupando muitos bares, muitos espaços públicos, regiões da cidade que infelizmente não contam com suporte do Estado. Você tem descaso, ausência de museus, cinema, casas de cultura, muito sucateados, e aí o movimento de sarau surge de forma autônoma pra dar conta dessa cultura que é produzida nessas periferias por gente das periferias e pra gente, pro público das periferias. E o movimento dos slams, na verdade, surge em Chicago, nos Estados Unidos, dentro de uma estrutura do cabaré, com essa ideia de você fazer uma competição de poesia. Ele vem pro Brasil pela Roberta Estrela Dalva, que cria aqui o ZAP, Zona Autônoma da Palavra. Com o Núcleo Bartolomeu.

É bem simples: você tem uma primeira rodada, em que todos os participantes se apresentam, ali mesmo o júri é escolhido e cada jurado dá uma nota de zero a dez, faz uma média, a menor nota cai e dali você tem cinco poetas que passam pra segunda rodada, três que passam pra última rodada e sai um campeão naquela noite. As regras são: poesias autorais de até três minutos, sem adereço, sem figurino, enfim, sem acompanhamento musical, só o poeta e a palavra, o poeta e o microfone. Sempre com temas muito urgentes. A partir do momento que você desloca a poesia de um âmbito privado, que com a invenção da imprensa, com a era moderna, a poesia e a literatura de forma geral se tornam restritas ao objeto do livro, ao aparato físico, você tem uma relação muito subjetiva, muito pessoal, muito individual, se pensarmos até numa classificação sócioeconômica, uma relação burguesa com a arte. A partir do momento que você tem esses movimentos que retomam o aspecto público da arte, o aspecto coletivo da poesia, você começa a ter uma ágora, que tanto temas do cotidiano, quanto conflitos sociais, quanto pautas como o racismo, o machismo, o feminicídio e por aí e tal, vão sendo debatidos. A poesia volta a ter uma função, não uma função, a poesia volta a ter esse espaço de comunhão, esse espaço coletivo de criação e de transmissão, você tem aí uma tradição oral que é recuperada através do spoking word.

A primeira vez que eu tive contato com isso foi no Sarau do Burro, que acontece ainda hoje, toda primeira terça-feira do mês na Vila Madalena, na galeria Sétima, e em seguida conheci o Slam da Guilhermina, todas as últimas sextas-feiras na saída do metrô da linha vermelha e fiquei simplesmente apaixonada pela potência estética, política, me instigou muito, produzir e fazer parte, pela vivacidade, pela urgência, a importância histórica que essa poesia nos apresenta. A partir daí comecei a frequentar muito. Depois de um tempo, já comecei a escrever e, quando vi, já estava com livro publicado e vivendo disso.

Vinícius Camargo: Tendo em vista toda a pressão do sistema capitalista para manter a classe trabalhadora à margem, sem acesso à maior parte da riqueza cultural criada pela humanidade, os saraus nas periferias, os SLAMs em praça pública, entre outras manifestações, parecem expressar um desejo de derrubar essa barreira e cumprir um papel de resistência. Como você enxerga esses eventos e sua relação com a luta de classes?

Luíza Romão: Bom, é importante a gente pensar nos slams no contexto do Brasil. A gente vive num país que teve mais de 400 anos de escravidão, um país em que ainda hoje os espaços de poder institucionalizados são muito inacessíveis, que as taxas de analfabetismo funcional são muito grandes, ainda mais agora, pós-2016, você tem um sucateamento ainda maior da educação formal. Então, infelizmente a literatura sempre habitou esses espaços de muito privilégio. Esses espaços autorizados, esses espaços de classes artísticas abastadas. Até se a gente pensar nos cânones literários nossos, a maior parte deles são sempre homens, brancos, funcionários públicos abastados. Óbvio que a gente tem vozes dissonantes, dissidentes, mas elas simplesmente foram apagadas durante muito tempo. Vejo hoje um movimento de retomar essas vozes, enfim, são raras, infelizmente.

Então, o interessante, tanto dos slams quanto dos saraus, é abordar a literatura pela oralidade. Então você começa a tornar uma coisa que até então era super inacessível em uma fruição possível. Obviamente que a partir daí você tem outras vozes criando essa literatura, isso talvez seja o mais rico, seja o mais importante disso, vozes que até então não tinham espaço para se expressar. Elas passam a tomar conta de suas próprias narrativas. Isso tanto se a gente pensar no recorte de classe, retomando a pergunta que você fez, quanto em outros recortes como de lutas identitárias, que são tão importantes, como o recorte de racialidade, de gênero, e por aí vai.

Capa do livro “Sangria”, de Luíza Romão. Foto: Sérgio Silva

Vinícius Camargo: Conheço dois livros seus: “Coquetel MotoLove” e “Sangria”. Poderia apresentar brevemente ao nosso leitor a sua obra?

Luíza Romão: Eu tenho dois livros, ambos foram publicados pelo Selo do Burro, que é um dos selos mais interessantes e incríveis deste momento atual. E que é encabeçado pelo Daniel Minchone, um grande parceiro e referência para mim.

O primeiro deles foi criado na urgência e na necessidade de lançar no mundo que é o “Coquetel MotoLove”. São, basicamente, poemas meus de batalhas, de slam. Alguns deles bem “pedrada”, com discursos diretos e incisivos, e algumas várias curtinhas que discutem sobre amor, sobre sexualidade e por aí vai.

E o segundo livro, “Sangria”, esse sim foi um projeto mais elaborado que eu fiquei dois anos pesquisando, e o intuito foi revisitar a história do Brasil pela ótica de um útero.

São 28 dias, 28 poemas, numa estrutura de um ciclo menstrual que põe luz sobre o patriarcado, um pouco. Pretende destrinchar as origens da cultura do estupro e de como este estado extremamente violento que a gente passa hoje no Brasil, com tanto assédio, com tanto feminicídio e violação dos direitos da mulher, na verdade, tem origem na colonização.

Sangria ainda tem 28 fotografias, é um livro quadrado no formato de um calendário e cada poema é acompanhado com uma fotografia, que é um trabalho meu em parceria com Sérgio Silva. Ele tirou 28 fotos do meu corpo e são enquadramentos bem fechados de seio, vagina, perna, olho e aí eu fui costurando uma a uma essas fotos com linha vermelha e material metálico, exatamente para tentar performar essa violência.

Vinícius Camargo: Há uma variedade de temas e de estruturas estéticas em seus poemas. Sobre os temas, há questões políticas e sociais diversas, com um espaço muito especial reservado às lutas das mulheres. Mas há também poemas sobre o amor, sobre relacionamentos, por exemplo. Como você enxerga, em sua obra, a relação entre as questões sociais, as lutas da classe trabalhadora e a arte?

Luíza Romão: Apesar de a minha produção estar muito imbricada nas questões sociais, de direitos humanos, da luta de classes, numa visão materialista da história e tudo mais, essa tessitura entre esses temas e algumas escolhas estéticas das minhas produções artísticas são muito mais da esfera empírica, da práxis mesmo, do que de uma teorização sobre isso ou de uma abordagem filosófica e por aí vai. Então eu posso falar como artista. Posso falar que eu produzo a partir daquilo que me atravessa, daquilo que me move. Seja um tema subjetivo, de amor, seja um tema existencial, da solidão humana ou sobre aquilo que tem nos revirado o estômago ultimamente, que são as questões políticas do Brasil. Seja num recorte de gênero ou num recorte político, do golpe, de toda essa encenação ruim que tem sido feita nos últimos tempos; do genocídio da polícia militar, um tema que várias vezes eu acabo tocando.

Então é isso. Eu escrevo a partir do momento que me toca e tenho uma lucidez, também, de com quem você quer andar. Então várias vezes eu acabo me apresentando em ocupação, manifestação, em vídeos-protestos, pela urgência disso e por uma militância pessoal. E, obviamente, que quando milito sou artista, então sou uma artista militando e minha poesia acaba somando forças nisso.

Vinícius Camargo: Como você enxerga a relação entre a visão política do artista e um poema que trate, por exemplo, sobre relações amorosas? A visão política e o amor, qual a relação que você enxerga?

Luíza Romão: Bom, toda obra de arte é política e acho que isso é um dado.

Mesmo não sendo explícito, mesmo não estando na “linha de frente”, é óbvio que carrega uma visão de mundo e tem uma ideologia em seu substrato.

No caso do amor, ultimamente eu tenho até relido alguns poemas meus do começo, negado alguns, mas é importante discutirmos afeto e relações amorosas saudáveis. Isso é uma construção histórica que, infelizmente, sempre esteve a serviço do patriarcado. Então, discutir amor numa contracorrente, entendendo que sim, é possível amar sendo uma mulher na sua integridade e que o amor não comporta opressões, violência, ou tem que ser, a priori, uma relação horizontal e benéfica para ambas as partes. Falar de amor num tempo que é tão difícil se construir essa humanidade é essencial.

Vinícius Camargo: Qual é, em sua visão, o papel do artista na sociedade? Qual o papel que pode cumprir uma obra de arte na luta de classes?

Luíza Romão: Eu brinco que a gente tem que fazer origami com papel da arte. A gente tem que pintar o papel da arte, a gente tem que recortar, rasgar, queimar o papel da arte.

Eu acho muito complicado pensar a serviço do que a arte está, ou para que serve. Acho que por excelência é a não serventia. É você ter um campo de experimentação estético, onde você não tenha que ter um cabresto pra segurar.

É óbvio que o meu fazer artístico está sempre imbricado de quem eu sou e das pautas que na minha vida pessoal eu estou envolvida. Mas pensar em uma função única? Porque se não, depois, se eu quiser escrever um poema sobre a finitude, aí não, aí já não é político.

Eu acho que quanto mais radical a gente pode ser esteticamente, mais a gente contribui pra mostrar que de fato você tem outras formas de chegar ao real e acabar com essa perspectiva que só um ponto de vista é válido.

Uma reflexão a cerca da entrevista com a poeta Luiza Romão

A obra literária de Luiza Romão – e também a obra fotográfica que acompanha seu segundo livro -, ao abordar temas de alto interesse social, necessariamente gera polêmicas. É um de seus méritos. Seu segundo livro, “Sangria”, é uma prova de que a polêmica não a assusta, pois a poeta caminha em direção a ela. Ela mergulha de cabeça na polêmica, sem abandonar o campo da arte, onde o enfrentamento político é a própria matéria-prima e o caminho para a sua beleza.

Das posições políticas que se depreendem de sua obra e, inclusive, de sua entrevista, não concordamos em algumas coisas. Por isso, após a entrevista, apresentamos nosso ponto de vista sobre algumas questões, convidando não apenas o leitor, mas a própria Luíza Romão, para a continuidade do debate.

Mas, desde já, agradecemos pela contribuição a este projeto, que visa aproximar nosso leitor do campo das artes e aproximar cada vez mais os artistas revolucionários do marxismo. E aos leitores fazemos o convite para ler a obra de Luíza Romão.

Estamos decididos a trabalhar para aproximar o nosso trabalho teórico e prático na luta de classes das questões culturais e da criação intelectual cada vez mais. Como já escrevi antes, trata-se do aprofundamento do trabalho de investigação sobre o cenário da produção artística, suas relações com os movimentos sociais, com as diversas tendências políticas e os efeitos dessas relações em sua produção, na elaboração de suas tendências estéticas, bem como da relação dessa produção com a luta de classes. Em suma, trata-se de entender o papel que pode cumprir nos dias de hoje o artista revolucionário independente, de que falava o “Manifesto da Federação Internacional por uma Arte Independente e Revolucionária”. E, consequentemente, buscar, com todas as forças, cumpri-lo.

Um breve comentário sobre algumas divergências

Luiza cita em uma de suas respostas a questão das pautas identitárias como sendo importantes. Sem dúvida alguma, as reivindicações de que se fala ao usar o termo “identitárias” são de absoluta importância. Nisso estamos, obviamente, de acordo. Mas de forma alguma consideramos que o termo identitário, os “recortes” e a ideologia que se esconde por trás desta “nomenclatura”, possam corresponder à importância dessas lutas.

No que diz respeito à questão da luta contra o machismo, acho interessante a polêmica que se pode desenvolver a partir dos documentos “Manifesto Mulheres pelo Socialismo!” e “Plataforma política de luta pela emancipação da mulher trabalhadora“. Ambos foram produzidos pelo Movimento Mulheres pelo Socialismo, apoiado e impulsionado pela Esquerda Marxista. Convido à leitura dos artigos publicados nos links abaixo e deixo, para o momento, às camaradas das Esquerda Marxista, através destes artigos, a tarefa de argumentar sobre esta questão, sobre a qual desenvolveram ótimos trabalhos. Sua posição é também a minha.

Quando o assunto é o combate ao racismo, a referência que posso sugerir é a interessante produção teórica do Movimento Negro Socialista, cuja crítica às chamadas “políticas afirmativas” é contundente. Aos leitores sugiro a leitura dos artigos disponíveis clicando aqui e deixemos a polêmica sobre estas questões para espaço e oportunidades futuras.

Outra questão, cuja complexidade demandaria também artigo à parte, é o que Luíza chama de “golpe”. Não está em questão o fato de que a derrubada de Dilma do cargo de Presidente da República configura um nível do ataque da burguesia à classe trabalhadora. Mas a Esquerda Marxista não considera que houve um golpe, tal qual o discurso corrente na “esquerda”. Nossa posição sobre esta questão pode ser entendida no ótimo artigo do camarada Serge Goulart “Golpe? Chamar as coisas pelo seu nome e explicar pacientemente a verdade“.

Com quem andar”: as relações entre os artistas e a classe trabalhadora

Outra questão extremamente relevante levantada na entrevista e em que concordamos com Luiza é quando ela fala sobre “com quem andar”. A posição social do artista, e particularmente do artista profissional, é contraditória e exerce enorme pressão sobre sua psicologia, o que, em última instância, é determinante para o que se expressa em sua arte.

Concordamos e, inclusive, em outro artigo que publicamos com uma entrevista com o artista o Caio Pacheco Martinez, da Trupe Olho da Rua, há um trecho em que escrevi sobre isso: “Falar sobre a Polícia Militar alia-se com querer, profundamente, extingui-la. Tão ou mais importante do que saber onde se pisa e com quem se anda, é saber para onde apontam os olhos ao buscar uma saída, é saber qual o alcance desse olhar, o que se procura no horizonte”.

Desde o Manifesto Comunista, está desvendada a premissa necessária para que esse intelectual, pressionado pelo mercado e pela ideologia burguesa, abandone o ponto de vista de sua classe – a pequena-burguesia – e assuma o ponto de vista do proletariado. Aqui chegamos ao ponto em que temos absoluto acordo com um dos trechos da entrevista. Não se pode entender o mundo a partir do ponto de vista da classe trabalhadora sem, por um lado, uma visão materialista, e por outro, “andar” com a classe trabalhadora. Este “andar” é, na verdade, estarmos juntos em sua/nossa luta.

Foi por Luiza “andar” conosco em diversas lutas que tomei conhecimento de sua obra e que pude lê-la. Encontrei-a pessoalmente pela primeira vez num slam realizado dentro da programação do Acampamento Nacional da Campanha Público, Gratuito e Para Todos, que deu origem à Liberdade e Luta, organização de jovens revolucionários que ajudo a construir. Esse acampamento foi realizado dentro da Fábrica Ocupada Flaskô. Foi tendo amigos e companheiros de luta em comum que seus livros chegaram em minhas mãos. Trata-se aqui, sem dúvida, sobre com “quem se anda”.

Sobre a função da arte

Entramos agora num meandro complexo em que, por trás de uma formulação em que parecemos ter desacordo geral, a meu ver, se escondem diversos acordos. Quando Luiza responde à pergunta sobre a função social da arte, me parece que ela responde sobre uma função estrita, como se ao falarmos de função social se dissesse que ela (a arte) teria uma mensagem pré-definida a transmitir.

Essa resposta, no entanto, nada tem de estranho. O que se chama vulgarmente de marxismo, de forma geral e por muito tempo – até hoje é muito forte – foi muitas vezes uma profunda deturpação, uma degeneração do pensamento marxista. E o que o stalinismo, maliciosamente em nome do marxismo, propagou durante décadas até os dias de hoje foi justamente que a arte que pudesse se dizer “revolucionária” fosse um simples comunicador, um veículo, quase um simples envelope para uma mensagem de propaganda do programa e das consignas dos “comunistas”.

Também consideramos isso um absurdo e, se o papel da arte é esse, concordamos com a companheira Luíza e façamos origami com ele. Essa imagem resume também minha posição para com os que querem a arte comprometida com preconceitos, com uma “função” estabelecida por qualquer coisa exterior ao próprio artista. Concordamos sobre a necessidade de uma arte sem cabresto. Uma das iniciativas mais interessantes na história do movimento socialista no que diz respeito à arte e à cultura é o “Manifesto da FIARI – Federação Internacional por uma Arte Revolucionária Independente”, cujo centro era a exigência de uma arte livre de qualquer tipo de dirigismo. Isso diz respeito tanto aos ditames do capital, para quem a arte deve ser uma serviçal do mercado, quanto para o stalinismo que, com base na tese da arte oficial e da estética oficial do realismo socialista, baniu, exilou, prendeu, torturou, matou ou levou ao suicídio uma série de artistas e intelectuais cujo pensamento independente não poderia ser contido pela burocracia que usurpava as conquistas da revolução em favor da Teoria do Socialismo Em Um Só País, teoria que levou o proletariado a sucessivas derrotas em nível mundial e a uma regressão teórica sem precedentes.

O que queremos dizer ao perguntar sobre a função da arte

A função social da arte está relacionada à função que o artista assume para si no mundo.

Nossa posição é a da liberdade para a arte e para toda a criação intelectual. A liberdade é o oxigênio para a sobrevivência e desenvolvimento da arte. Defendemos a máxima liberdade de experimentação formal, de linguagem, de temas, etc. Mas é preciso aqui também colocar claramente os limites dessa liberdade. A liberdade que nas mãos do opressor se torna ferramenta de opressão é liberdade para poucos e prisão para uma maioria. Quando uma suposta “obra de arte” dissemina a violência, humilha os oprimidos, a classe trabalhadora deve enxergar nela um perigo.

Temos a mais alta estima sobre a arte, seu poder, seu “papel” na sociedade. Por isso, quando ela se torna arma de opressão, o direito de defender o oprimido vem antes de qualquer suposta liberdade individual de expressão. Essa concepção de liberdade de expressão de caráter liberal nos é estranha. A liberdade de expressão dos socialistas é a liberdade para que os oprimidos possam também gozar dos direitos de que os opressores já gozam desde sempre, para convertê-la em arma para a emancipação.

Portanto, diante da arte usada como arma contra os oprimidos, devemos ser irredutíveis. Não devemos temer exigir a censura aos artistas que se colocam ao lado da opressão, aqueles cuja “obra” serve à propaganda contra os direitos do povo trabalhador, a que exalta a violência contra as mulheres, a que propaga o racismo, etc. Essa arte deve morrer por asfixia.

Porém, tratar da arte como sem uma função social nos coloca num grande risco. Parte astuta da burguesia por muito tempo defendeu a arte “sem função”. Daí advém a tese da arte pura, o arte-purismo.

A defesa de uma função social para a arte esteve, na história da arte e do pensamento estético, ligada intimamente ao combate a essa tese do arte-purismo. Seria tema para outro artigo o quanto, sob a névoa de uma filosofia barata, essa teoria reaparece em diversas tendências pós-modernas.

Estando a vida do artista em “função” da transformação da realidade, a liberdade de experimentação já nada tem a ver com o arte-purismo, a arte pela arte. Esse é o verdadeiro adversário, aquele que sob o manto de uma arte neutra, na verdade produz uma arte que reproduz o ideário burguês, sua forma de ver, sentir e pensar o mundo, sua maneira de tentar falsear suas contradições e perpetuar seu sistema opressor. Não há dúvidas de que não estamos, entrevistador e entrevistada, ao lado dos que defendem uma arte neutra, a arte pela arte como algo descolado da vida real, como um movimento do pensamento descolado dos corpos físicos, cuja maioria come pouco e apenas sobrevive – quando muito.

Por fim, quando Luiza fala sobre haver várias formas de se chegar ao real, podemos ver a coisa de duas formas. Antes de mais nada, é interessante a maneira como é colocada a questão. O método materialista não deixa dúvidas: há apenas uma realidade. Mas cada classe social tende a vê-la apenas do ponto de vista que ocupa no seio da engrenagem econômica. Dentro de cada classe social, a trajetória pessoal, a nacionalidade, a regionalidade, o nível cultural, a profissão, a posição política e, acima de tudo, a consciência de classe etc., podem influenciar sobremaneira essa forma de ver, esse ponto de vista, cobrindo-o ou despindo-o de contradições diversas. O ponto de vista da classe trabalhadora, quando aliado à teoria marxista, o método para o pensamento e análise da história e das ciências sociais mais avançado da humanidade, é o único capaz de levar a uma visão cada vez mais totalizante da realidade e projetar uma saída para a atual situação. É a tentativa de, se utilizando da posição de ser a única classe que pode enxergar de dentro as fissuras do sistema, ver a estrutura social ao mesmo tempo por dentro e de cima, em seu conjunto.

Há, no pós-modernismo, um esforço por dizer que não há uma realidade, mas muitas. Não há uma verdade, mas várias. Nada mais óbvio que é, física e psicologicamente, impossível ver exatamente como outra pessoa. Mas no campo das generalizações filosóficas e das ciências sociais, é perfeitamente possível chegar-se a acordos sobre como funciona a sociedade. Da mesma maneira, ao dialogar com sentimentos profundamente arraigados nos corações de grande parte da humanidade, alguns artistas criaram obras que atravessaram tempos e ainda hoje nos dizem muito sobre seu tempo e sobre o nosso, que dizem sobre nós mesmos. Isso deve-se justamente ao fato de que, ao aproximar-se do “real”, vemos não como indivíduos, mas como coletivo, como classe, como sociedade, etc.

Os materialistas afirmam que há apenas uma realidade. Nossa luta é por entendê-la e explicá-la da melhor maneira. Portanto sobre cada fato histórico só pode haver uma verdade. E se há inúmeras versões para essa verdade, isso deve-se não a existência de infinitas verdades, mas à incapacidade de um indivíduo expressá-la completamente. A dialética entre buscarmos ao máximo alcançar a verdade, o que nos faz avançar, e a impossibilidade de alcançá-la, o que impõe um entrave ao nosso desenvolvimento, é justamente o fundamento da ciência e da arte, é a base de toda a relação entre o homem e a natureza. Não há ciência ou arte sem uma sincera busca pelo real. Sem isso, falamos apenas de misticismo, idealismo.

Na medida em que a arte expressa a realidade mediada pela forma de sentir e pensar do artista, concordamos que a arte seja um caminho para chegar ao real. Uma forma de conhecer a realidade (e, para nós, obviamente uma forma de intervir sobre ela). Ela abarca justamente o aspecto mais humano, o de sua apreensão emocional, que não pode ser expressa plenamente pela ciência. A arte é parte essencial de conhecer o mundo. Por isso, e justamente por isso, da mesma maneira que uma ciência idealista não ajuda a explicar e, pelo contrário, falseia e dificulta o conhecimento da história; da mesma maneira que uma teoria criacionista não ajuda, mas impede uma criança ou um jovem de entender corretamente a história do universo; da mesma forma que a tese bíblica do Gênesis não possibilita que alguém compreenda verdadeiramente o que é a vida e suas bases bioquímicas; uma arte que expresse incorretamente, de forma idealista, fetichista, ou desonesta as emoções médias das diversas classes sociais, de seus melhores elementos ou dos setores mais explorados, em nada ajuda a entender a realidade. Uma arte que ajude a chegar “ao real” só pode vir de um artista cuja vida esteja realmente ligada a uma luta por entender o real.

Muitos são aqueles que, mesmo com origens de classe burguesas ou posições políticas reacionárias, tendo uma busca honesta no campo da arte por expressar a totalidade da realidade e não apenas a bolha de seus próprios pensamentos, acabaram por produzir obras de vulto. A honestidade intelectual, o sincero interesse em produzir boa arte, aliada ao talento e à dedicação pode ser, muitas vezes, uma arma de tal poder que entra em contradição direta com o intelecto que produz essa arte. Mas quando tal intelecto – o que produz essa arte conectada verdadeiramente ao real – não está apto à reflexão, à revisão dos preconceitos, à mudança de posição e à superação dessa contradição criada, muitas vezes seu dono é levado à confusão, ao abandono da criação e, como tantas vezes se viu na história com grandes mentes, mesmo ao suicídio. Da mesma forma, grandes mentes, quando bloqueadas pelas condições objetivas do tempo em que viveram, acabam por tomar o mesmo caminho. Há exemplos entre aristocratas, burgueses liberais ou entre comunistas revolucionários.

Mesmo entre os nossos (e entre os nossos melhores), não é pouco lembrar que até Maiakóvski, incapaz de entender o fenômeno da ascensão da burocracia que dá sustentação ao stalinismo (um inimigo declarado da liberdade da arte), tirou a própria vida. Sem conseguir adentrar mais profundamente o terreno da crítica marxista das contradições nascidas no seio da União Soviética após os anos de Guerra Civil e da derrota da Revolução Alemã, as contradições entre o mundo que o rodeava e seu imaginário revolucionário o levaram ao colapso, ao suicídio. Trotsky, de forma bastante lúcida, atribui o colapso de Maiakóvski a sua insuficiência teórica no campo da política. Desarmado para enfrentar politicamente seu adversário, ao mesmo tempo indisposto a render-se ao dirigismo estético da arte oficial, sucumbiu.

Diante disso, um trabalho contínuo, para o qual se dedique uma vida, no campo da arte, para oferecer ao leitor ou ao espectador mais um canal, um caminho de conexão com o “real”, exige do artista uma luta incansável por conectar-se ele mesmo com o real. Essa conexão do artista com a realidade não pode se dar simplesmente através da fruição da arte produzida no passado ou no presente.

Poderíamos, talvez, dizer que estamos em completo acordo sobre o que deve ser a função da arte simplesmente concordando que a “arte deve ser um caminho para o real”. Se assumimos com profundidade tal premissa, nos comprometemos de tal maneira com a compreensão do real que a conclusão só pode ser a de que essa é baseada na exploração do ser humano por outro ser humano. E, diante de tal situação, tendo tido o privilégio de acessar tal conhecimento, qualquer um que tenha um grau elevado de humanidade deve entender o que Marx disse sobre os filósofos e que deve valer também aqui: os artistas tentaram até hoje ”expressar” através de sua arte a realidade, cabe agora transformá-la.

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