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Em 2 de agosto ocorreu mais um suicídio na UERJ

O suicídio em uma moldura social

Nesta quinta-feira (2/8), mais uma pessoa pulou do prédio da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Essa situação não se trata de um caso isolado relacionado ao prédio da UERJ, de uma questão individual, muito menos de uma característica regional. É um fenômeno generalizado, coletivo e mundial. A intenção que tenho nesse texto é apresentar o suicídio dentro de um enquadre mais amplo, ou explorar o que na nossa forma de sociedade favorece essa triste prática.

Tomemos como exemplo o que acontece na China. Lá, a principal causa de mortes de jovens é o suicídio. Em média, 250 mil suicidam-se por ano. Há até mesmo uma “fábrica dos suicídios”, propriedade da norte-americana Apple, que segundo a revista “Fortune” é a nona maior empresa do mundo.

A Fábrica Foxconn instalou redes para evitar que seus funcionários cometessem suicídio pulando do edifício.

Somos inundados por notícias de que o salário médio do operário chinês cresce a cada mês, que este país está disputando com os Estados Unidos a liderança de “maior economia do mundo”. Mas a que preço em vidas? O excesso de capital nos países imperialistas, que foram transferidos para a China, parece ter se transformado em excesso de vidas. Que tipo de “benefícios sociais” no século 21 justificam que uma parte crescente da população retire sua própria vida? Se em tempos de “prosperidade” na China, recente “beneficiada” pelo capitalismo, os suicídios crescem, o que pode acontecer em tempos de penúria?

Um tipo de relação social de produção, o capital – que não é novidade e domina todo o globo –, vem se expandindo rapidamente na China, e toma como ponto de partida as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs). Essas zonas são uma espécie de parque de diversão para os capitalistas, criadas pela burocracia do Partido Comunista Chinês, onde eles podem produzir e vender mercadorias com um custo muito mais abaixo do que teriam em seus países de origem ou em outros países atrasados que não fornecem vantagens tão grandes ao capital.

Nessas ZEEs o capital produtivo pode pelas suas indústrias iniciar sua caçada à força de trabalho barata e aos mercados asiáticos, enquanto o capital bancário, aliado a este, pode atuar como promotor do esquema. Mas tudo depende de uma coisa – e sempre dependerá no capitalismo –, que é daquele humano que se coloca disponível para trabalhar; e é aí que a liberdade se transforma no seu contrário. Se o indivíduo se coloca para vender sua força de trabalho a um capitalista, o faz porque não tem nenhuma outra mercadoria interessante para o capital, a não ser sua própria força de trabalho. Se o capitalista o contrata, é porque pode pagar para quem vende sua disponibilidade para o trabalho um mínimo necessário para a reprodução de sua própria vida e de seus descendentes, futuros proletários.

O indivíduo pode encontrar conscientemente uma saída para seu sofrimento sem precisar colocar fim à própria vida, poderiam dizer muitas pessoas com as melhores das intenções profiláticas. As medidas de prevenção e de atuação durante os momentos de crise, apesar de necessárias, são insuficientes se pensarmos em erradicar esse tipo de ação. Até porque elas se propõem a atuar quando a vontade de se matar é iminente ou presente na vida de alguém. Mas uma pergunta que se coloca a cada novo suicídio é: o que faz com que eles continuem acontecendo e terem tomado forma de uma patologia social? Qual tipo de relação social faz com quem alguém ponha fim a sua própria existência destruindo sua corporeidade?

Antes de tudo, é um absurdo considerar antinatural um comportamento que se consuma com tanta frequência; o suicídio não é, de modo algum, antinatural, pois diariamente somos suas testemunhas. O que é contra a natureza não acontece. Ao contrário, está na natureza de nossa sociedade gerar muitos suicídios, ao passo que os tártaros não se suicidam. As sociedades não geram todas, portanto, os mesmos produtos; é o que precisamos ter em mente para trabalharmos na reforma de nossa sociedade e permitir-lhe que se eleve a um patamar mais alto. (MARX, K. Sobre o Suicídio. São Paulo: Boitempo. 2006. p.25)

  “O antigo possuidor de dinheiro se apresenta agora como capitalista, e o possuidor de força de trabalho, como seu trabalhador. O primeiro, com um ar de importância, confiante e ávido por negócios; o segundo, tímido e hesitante, como alguém que trouxe sua própria pele ao mercado e, agora, não tem mais nada a esperar além da… despela.” (K. Marx. O Capital, Livro I. São Paulo, Boitempo: 2011 l. 323/1493)

Como proletários, não importa para o capital o nível de suicídio ou os anseios individuais atendidos ou não, a menos que isso ameace a reprodução do próprio metabolismo do sistema. Contudo uma coisa é certa: esses trabalhadores não têm controle algum sobre esse metabolismo, e têm como única opção vender sua disponibilidade para o trabalho no intuito de se manterem vivos e minimamente saudáveis. Se morrem, suicidam-se ou adoecem números de trabalhadores que não interfiram na taxa de lucro, não há preocupação para o capitalista e seus representantes políticos. Na China todo esse funcionamento é protegido e fomentado por um Estado com perspectiva desenvolvimentista, dirigido por uma burocracia autodeclarada “comunista”, comprometida a enriquecer a si e a burocracia do Estado através do próprio metabolismo do capital.

Se essa política econômica chinesa é um estágio anterior necessário para o combate ao imperialismo e desenvolvimento do socialismo, como dizem os reformistas e etapistas em todo o mundo, ou se é uma tática para a burocracia preservar-se como camada dominante da sociedade chinesa, não há consenso. O único consenso que há é que esse modo de produção trouxe mais suicídios. Em suma, o capitalismo continua sua roda satânica: cria de maneira crescente milhares de proletários reais ou em potencial, que nada têm além da sua própria força de trabalho e a responsabilidade pelo cuidado de seus filhos. Esses milhares recebem um preço em sua força de trabalho, ou disponibilidade para o trabalho, de acordo com os preços médios do mercado. A necessidade de alguém portador dessa mercadoria especial é a mesma de qualquer artesão que molda seu produto: vendê-la para obter dinheiro. Para isso, precisa enfrentar a competição entre todos os outros portadores da mesma mercadoria até que enfim encontre-se um pagante interessado. É como em uma selva onde as presas procuram pelo seu predador.

Cada indivíduo está isolado dos demais, é um entre milhões, numa espécie de solidão em massa. As pessoas agem entre si como estranhas, numa relação de hostilidade mútua: nessa sociedade de luta e competição impiedosas, de guerra de todos contra todos, somente resta ao indivíduo ser vítima ou carrasco. Eis, portanto, o contexto social que explica o desespero e o suicídio. (LÖWI, M. Um Marx Insólito. In: Marx, K. Sobre o Suicídio. São Paulo: Boitempo. 2006. p.16)

Se esse parque de diversões para a burguesia está funcionando perfeitamente de acordo com a lógica de quanto mais capital melhor, por que há 250 mil suicídios por ano? Que tipo de parque de diversão infeliz leva seu frequentador – já que o trabalho assalariado é construído por relações livres – a querer se jogar da roda gigante?

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