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Foto: Lula Marques/Agência PT

O Processo (2018) – Crítica

Dirigido e roteirizado por Maria Ramos, o documentário acompanha a abertura do processo de impeachment até a destituição de Dilma Rousseff do cargo da presidência da República. Esse acompanhamento é feito de maneira oculta. Vemos os bastidores do Senado e como os parlamentares petistas articularam a defesa contra o processo, sem nenhuma interação com a equipe do filme.

Mesmo assim, não podemos falar em “imparcialidade”, afinal, as escolhas dos personagens principais, que conduzem a narrativa e a montagem do filme, reproduzem o ponto de vista petista. Porém, isso não invalida a obra, pois, não há problema em ter posição política. O problema do filme da cineasta Maria Ramos não é ter uma posição política, mas a pouca ousadia na forma como assunto é tratado.

A maioria das cenas é feita dentro dos gabinetes, plenário e salas de reuniões do Congresso Nacional. Esse tipo de imagem impõe uma sensação de confinamento ao nosso olhar. Os planos abertos são raros, aparecendo para mostrar imagens dos corredores ou do lado de fora do Congresso.

A limitação do espaço não impede a criatividade, nem a ousadia. As dificuldades em filmar são parte do fazer cinema. O local escolhido e os planos registrados foram motivados pela proposta da obra. O ponto de vista do filme não pretende mostrar as lutas nas ruas contra o impeachment, mas a política dos bastidores, a articulação da bancada petista contra o processo kafkiano movido contra a presidente Dilma.

A falta de inventividade pode ser explicada pelos objetivos políticos dos personagens. Quando vemos o povo no documentário? Apenas à margem do congresso, demonstrando a falta de organização e confiança na capacidade de luta da classe trabalhadora. As grandes “lutas” são os debates intermináveis com Janaina Paschoal, senadores do PSDB e parlamentares apoiadores do “golpe”.

O congresso aqui é transformado em um palco, onde os senadores do PT e o advogado José Eduardo Cardozo brilham com seus melhores discursos. As falas são realmente boas, ganham a discussão e os argumentos, mas não impedem a derrocada de Dilma. Parecia óbvia para a defesa a impossibilidade de reversão do processo.

Mesmo diante disso, não se demonstrou o interesse dos principais políticos do PT mudarem o palco para as ruas, barrando o processo de impeachment por meio de pressão popular.  Quando a senadora Fátima Bezerra, do Rio Grande do Norte, afirma estar preocupada com a forma como o povo recebe essas informações, ninguém propõe nada além de embargos ao processo.

O confinamento dessa história às salas de reuniões do congresso mostra a acomodação do PT ao estado burguês. Não existe conteúdo sem forma ou forma sem conteúdo, a maneira como o documentário é conduzido revela toda a esculhambação da política nacional, mas também deixa clara a falta de alternativa para a direção do PT.

O sucesso do filme no festival de Berlim pode ser explicado pela relevância do assunto, não por seu caráter artístico. Um documentário não é apenas um registro. Fazer um filme documental não é fazer uma reportagem, nem jornalismo. Isso não significa que o documentário não possa ter uma importância histórica e jornalística, mas para ser arte não basta filmar falas, costurar cenas e mostrar a realidade. Antes de tudo é preciso ousar. A forma como capturamos o real e como o lapidamos expressa não só nossas intenções políticas, mas nossas opções estéticas.

Nesse ponto, a direção do filme se mostra presa ao discurso petista. Certamente houve uma série de ilegalidades cometidas pelo Congresso, a começar pela aceitação do pedido de impedimento. Sempre denunciamos isso, desde o julgamento do chamado “mensalão”. Mas a atitude do governo “golpeado” demonstra-se extremamente conformada.

Quando Dilma lê seu discurso final, não existe nenhuma palavra de ordem, nenhum chamado às ruas, por qual motivo? Foram três meses até o julgamento e ocorreram atos muito pontuais, ninguém inflou as massas, nem foi para o conflito contra o Estado burguês. Quando encerra-se a votação no senado, as cenas mostram os quadros do PT extremamente cabisbaixos, desmoralizados. Afinal, esperavam justiça de um Congresso que representa a burguesia?

Assim, o “golpe parlamentar”, para alguns militantes de esquerda, foi na verdade uma manobra do setor “mais corrupto” do Congresso, apoiado na vingança de Cunha e na baixa aprovação do governo petista.

Por fim, o título do filme faz referência o livro do escritor Checo, Franz Kafka. No romance, o personagem Josef K. é processado sem saber o motivo. Ele desconhece as causas reais de sua perseguição e precisa se defender de todas as calúnias e mentiras. Guardadas as devidas proporções, a situação brasileira se parece com a obra de ficção de Kafka. Isso em função da relutância do PT em aceitar as rupturas na conciliação de classes que se anunciavam, tornando o impeachment inesperado, dando ao processo características inusitadas, assim como a perplexidade do personagem, que no filme está representado pelos quadros do PT.

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