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O Oscar, as identidades e o capitalismo

Desde o início da entrega do Oscar, durante a noite do dia 24, as redes sociais e os veículos de imprensa em todo mundo destacaram a diversidade da premiação. Três filmes que discutiam o racismo a partir de diferentes perspectivas receberam prêmios, incluindo o de Melhor Roteiro Adaptado, para “Infiltrado na Klan”, e o de Melhor Filme, para “Green Book”. O filme “Pantera Negra”, além de consagrar as recentes produções sobre super-heróis da Disney, teve duas de suas três premiações recebidas por mulheres negras. Se incluir nesse grupo o também premiado “Roma”, que apresenta de forma intimista as tensões de classe em um México ainda convulsionado pelos impactos da onda mundial de revoltas no final dos anos 1960, o que se tem na aparência é uma grande festa dos setores explorados da sociedade.

Como marxistas, contudo, não podemos simplesmente comemorar as merecidas consagrações desses profissionais sem apontar para as contradições que a premiação esconde. Ao olhar pelo viés das identidades, deixa-se de observar as relações econômicas que atravessam a vida desses profissionais, em especial dos trabalhadores que nas diversas áreas tornam real um filme. O discurso identitário faz com que produtores e trabalhadores se diluam na comemoração das premiações, como se o fato de ser negro ou mulher fosse mais importante do que a exploração a que a maior parte deles está submetida. Numa das premiações mais importantes do cinema e televisão dos Estados Unidos, a do Sindicato dos Atores e Atrizes, ocorrida poucas semanas antes, vários discursos fizeram alusão a problemas enfrentados pela categoria, como o não pagamento de horas extras ou a desigualdade salarial enfrentada pelas mulheres.

Se naquela ocasião os problemas de uma única categoria foram apresentados de forma bastante superficial e rápida, na noite do Oscar desapareceram completamente, dando espaço para a celebração das identidades – a mexicana de Alfonso Cuarón, a negra de Mahershala Ali, a do filho de imigrantes egípcios Rami Malek, a feminina de Lady Gaga, entre outras. Certamente em contextos de resistência essas identidades podem ganhar um caráter progressista, sendo um possível passo no caminho de uma consciência revolucionária. Contudo, ao se diluir em uma festividade onde as identidades valem mais do que o vínculo de classe, em que é mais importante abraçar o patrão do que um colega de profissão que trabalhou em um filme que não foi premiado, não se está fazendo outra coisa a não ser fortalecer a exploração capitalista e a difusão de ideologias estranhas à classe trabalhadora.

Outra contradição tem a ver justamente com o que cada filme ou seus representantes expressam politicamente. Um exemplo é o filme “Pantera Negra”, que coloca o embate entre a conservação das tradições monarquistas de uma fictícia potência econômica africana e uma perspectiva de transformação dessas estruturas. O problema está, inicialmente, na representação do “revolucionário”, Erik Killmonger, um homem movido basicamente pelo sentimento de vingança e cuja estratégia é armar populações negras ao redor do mundo, causando levantes sem uma perspectiva estratégica de unidade da classe trabalhadora. No final do filme, depois de vitoriosa a fração conservadora da disputa, o que se apresenta é um meio termo entre o protecionismo monarquista e a guerrilha sem estratégia, fazendo com que Wakanda fomente ações de assistencialismo para populações negras em outros países.

Outro exemplo é o tão celebrado discurso de Spike Lee na cerimônia. Além de fazer apologia das políticas assistenciais, exemplificando com uma história sobre sua avó, terminou seu discurso com a seguinte passagem: “As eleições de 2020 estão chegando, vamos pensar nisso. Vamos nos mobilizar, estar do lado certo da história. É uma escolha moral. Do amor sobre ódio. Vamos fazer a coisa certa”. É inegável que as políticas assistenciais são muitas vezes necessárias para ajudar as populações mais pobres em sua sobrevivência imediata. Mas elas precisam ser completamente superadas e dar lugar à luta dos trabalhadores e à destruição do capitalismo. Lee não entende dessa forma, pois acredita nas instituições e na benevolência do Estado burguês. E sobre as eleições presidenciais estadunidenses, Lee aponta desde já que a prioridade deve ser derrotar Trump nas urnas, da forma que for, seguindo a lógica do “menos pior” que permeia o tão viciado bipartidarismo estadunidense. Para Lee, não importa se a candidatura oponente de Trump será o representante de um partido operário com uma perspectiva de transformação social ou um candidato democrata apoiado pelo capital financeiro.

Assim como inúmeros prêmios da indústria cinematográfica estadunidense (e de outros países, em menor escala), o Oscar é muito bem trabalhado para ocultar os antagonismos sociais que permeiam a sociedade. Para isso, nos últimos anos, transformou em produto vendável o discurso identitário desprovido de classes sociais que desfilam pelo palco da premiação. Por outro lado, ao apresentar em grandes produções uma versão adocicada dos problemas sociais mais sentidos pela população pobre e explorada, também propaga os limites estratégicos que são permitidos pela indústria cinematográfica, ou seja, a busca pela melhoria das condições de vida em um capitalismo mais “humano”.

Certamente devem ser celebradas as conquistas de cada um dos trabalhadores que receberam prêmios, em reconhecimento ao seu esforço e dedicação, embora não seja possível deixar de lado a exploração a que esses profissionais estão submetidos. Essa exploração é concreta e não há no mundo real cor, gênero ou origem cultural que possa igualar os trabalhadores aos seus patrões.

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