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Marxismo e Evolucionismo: A historicidade como categoria ontologicamente universal

“O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem.” (Engels, O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem)

A evolução da espécie humana não é uma monta meramente biológica como postularam os positivistas, ela depende visceralmente do uso dos membros humanos no rearranjo da natureza no devir, utilizados como extensões orgânicas da mente nesta faina laborativa. Por exemplo, os polegares opositores, os membros anteriores, pernas e demais órgãos objetivantes de valores de uso. Até mesmo nossa mandíbula – que é frágil e não prognata -,  deve-se à descoberta de talheres pelo homem de Cró-magnon e, antes disso, deve sua anatomia à descoberta de moendas e almofarizes pelo Homo Erectus. Isso por consequência à descoberta do fogo fenomênico pelo Homo Habilis, o qual reduzia consideravelmente a resistência da proteína à maceração, ajudando no processamento dessa pelos molares e, por consequência, facilitando a digestão pela amilase e a absorção de nutrientes pelas microvilosidades do intestino.

O trabalho é imanente (e inerente) à consignação do gênero humano na história, é a categoria fundante de hominização; ele funda o gênero humano e surge a um só tempo justaposto a este: Ele funda a sociabilidade do ser social ao passo que o homem objetiva sua morada humana, a pólis e os meios de produção, excedente de circulação, religião organizada etc.  Transfigurando o meio físico (a natureza) em meio social, ademais, ao passo que este homem reduz as barreiras naturais e através de novas necessidades destravadas em um devenir hominizado – e de novas possibilidades teleologicamente postas -, consigna por meio de um salto ontológico universal uma nova faceta da vida humana. Um exemplo é a dinâmica do trabalho naquilo que eleva qualitativamente o ser meramente orgânico à esfera do ser social, como salienta Marx, em o Capital, no volume I, parte III:

“No processo de trabalho, a atividade do homem opera uma transformação, subordinada a um determinado fim, no objeto sobre que atua por meio do instrumental de trabalho. O processo extingue-se ao concluir-se no produto. O produto é um valor-de-uso, um material da natureza adaptado às necessidades humanas através da mudança de forma. O trabalho está incorporado ao objeto sobre o qual atuou. Concretizou-se e a matéria está trabalhada. O que se manifestava em movimento, do lado do trabalhador, se revela agora qualidade fixa, na forma de ser, do lado do produto. Ele teceu e o produto é um tecido.”

O bipedalismo e a encefalização dos Australopithecus dependeram visceralmente da divisão social do trabalho rudimentar: os vigias olhavam por de cima da savana em dois apoios, enquanto os escavadores, já na planície, reuniam tubérculos com furadores para toda a sipe, os batedores abriam caminho e com paus e galhos afugentavam carniceiros muito mais fortes e deles tomavam a proteína já em estágio de decomposição, os apedrejadores afugentavam com pedras, nozes e coquinhos arremessados os grandes felinos dentes-de-sabre, que eram imponentes devoradores e mega-predadores da savana. Em caso de ataque, todos os Australopithecus urravam em conjunto para avisar aos demais distraídos que estivessem próximos e muitos pequenos hominídeos reunidos e agindo em conjunto conseguiam afugentar até mesmo o mais pantagruélico dente-de-sabre.

De um progresso lento e sistêmico a outro, de um melhoramento a uma nova descoberta, nossos ancestrais plasmaram-se humanos. Alguns eram verdadeiras encruzilhadas evolutivas, coexistindo mutuamente com outros hominídeos mais sofisticados e em níveis tecnológicos superiores. Mas o progresso material e o avanço tecnológico desses não somente mantinham-se, como eram passados de geração a geração. Isso é o que evidencia a revolução neolítica e a conquista do sedentarismo e do autoctonismo.

É da base material da obtenção de proteínas e de carboidratos e, ademais, dos meios artificiais (oriundos da ação antropogênica) para se processar o máximo de alimentos, se retirando o máximo de energia possível, que se funda o gênero humano e a sociedade humana: o que seria da hominização do gênero humano sem a descarga de energia proveniente dos tutanos – extraídos de carcaças pútridas – por bandos de Homo Rudolfensis municiados de seus machados-de-mão toscos? Ou, o que seria de nossos maratonistas, muito arrojados e dinâmicos, sem o caminhar ereto e dificultoso de nossos primos já extintos, Homo Ergaster, para que se enxergasse além das moitas, mantendo através da vigília a integridade do bando?

Mais uma vez, como salienta Marx, é a existência e os meios materiais de obtenção da cotidianidade (e da existência física) objetivados pelo trabalho, aquilo que determina o ser, sua socialidade, subjetividade e até sua morfologia e não a consciência, como nos atesta em sua Ideologia Alemã:

“Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência. Na primeira forma de considerar este assunto, parte-se da consciência como sendo o indivíduo vivo, e na segunda, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios indivíduos reais e vivos e considera-se a consciência unicamente como sua consciência. Esta forma de considerar o assunto não é desprovida de pressupostos. Parte de premissas reais e não as abandona um único instante. Estas premissas são os homens em ação, não isolados, nem fixos de uma qualquer forma imaginária de sociabilidade, mas ancorados no seu processo de desenvolvimento real, em condições determinadas reais, desenvolvimento este que é visível somente empiricamente.”

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