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Maior manifestação na República Checa desde 1989 marca o fim da estabilidade política

No último período, a República Checa parecia ser um país com relativa estabilidade política aos olhos da classe dominante global; com crescimento econômico suficiente, desemprego muito baixo e até salários crescentes. Essa estabilidade relativa, sustentada principalmente por fortes investimentos alemães, manteve o apoio ao primeiro ministro oligarca e segundo homem mais rico da República Checa, Andrej Babis, e seu partido estilo Berlusconi, ANO 2011. Mas as coisas mudaram e as massas estão se movendo.

Babis entrou no cenário político com a imagem de um empresário bem-sucedido e com a promessa de salvar o país dos políticos corruptos ao administrar o Estado como sua bem-sucedida empresa em benefício das pessoas comuns. Mas agora, depois de uma série de escândalos de fraude e corrupção, depois de se tornar primeiro ministro em 2018, as massas estão começando a perceber que as atividades políticas de Babis só servem para aumentar seus lucros pessoais. O mais recente escândalo de fraude de subsídios da União Europeia provocou indignação em massa e cerca de 250.000 pessoas tomaram as ruas de Praga em 19 de junho, tornando-se a maior manifestação contra o governo desde 1989.

Como Babis subiu ao poder

Quando Babis fez sua primeira aparição como político, antes das eleições parlamentares em 2013, ganhou inicialmente apoio de uma camada da burguesia que ficou assustada com a força das massas depois do anterior período tempestuoso que destruiu completamente a confiança nos partidos de direita tradicionais e esmagou o seu governo. Naquele momento, os socialdemocratas conquistaram 37% nas preferências de voto e o Partido Comunista 20%. O investimento pesado na própria campanha de Babis – apoiado pela compra de estações de rádio e jornais, tornada possível graças a sua posição como proprietário da empresa agrícola monopólica Agrofert – concedeu-lhe o segundo lugar nas eleições parlamentares de 2013, atrás dos socialdemocratas. Sua campanha demagógica despertou em muitos o sentimento de que, como ele já é rico, não sentiria a necessidade de roubar o povo, como o fez o impopular governo de direita anterior. Mas o problema era que esse rico oligarca queria ainda mais riqueza e poder.

Depois que os socialdemocratas criaram uma coalizão de governo em 2013, com Babis como Ministro das Finanças, ele imediatamente começou a explorar sua posição para conduzir operações financeiras que apoiavam suas próprias empresas. Isso consistia principalmente em usar os subsídios do Estado para suas empresas, que aumentaram dramaticamente quando ele assumiu o cargo. Isso levou à aprovação da Emenda à lei de Conflito de Interesses em 2017, que forçou Babis a colocar suas empresas em um fundo fiduciário, mas em termos práticos ele ainda é o proprietário. Ao mesmo tempo, quando Babis necessitou de dinheiro para o orçamento estatal, ele não atacou diretamente os trabalhadores impondo cortes, mas introduziu maior pressão sobre a pequena burguesia e seus concorrentes no mercado. A introdução do registro eletrônico de vendas provocou fermentação entre a pequena burguesia, que desde então se tornou a maioria dos críticos de Babis entre a população checa.

Babis apresentou-se como um empresário de sucesso e prometeu salvar o país dos políticos corruptos. Mas agora, depois de muitos escândalos, essa imagem está abalada. Foto: BEIA

Papel traiçoeiro dos líderes dos Partidos Socialdemocrata e Comunista

Os socialdemocratas no governo mostraram-se incapazes de resolver qualquer um dos problemas da sociedade checa, e Babis ganhou as eleições de 2017 com uma vitória esmagadora. Os socialdemocratas obtiveram menos de 7% e o Partido Comunista menos de 8%. O principal problema de Babis era que ele não tinha a maioria no parlamento e, a princípio, ninguém queria apoiá-lo no governo. Os socialdemocratas e o Partido Comunista estavam plenamente conscientes naquele momento de que apoiá-lo seria uma traição aos próprios fundamentos de seus programas partidários.

Mas, como a crise parlamentar estava alcançando um ponto em que novas eleições eram possíveis, os socialdemocratas e os chamados líderes comunistas intervieram apressadamente para resgatar Babis. O presidente checo, Milos Zeman, fez a sua parte, fiel a sua aliança de longa data com Babis, que remonta ao final dos anos 1990, quando Zeman, como líder dos socialdemocratas, apoiou os negócios do magnata ao favorecer suas licitações para privatizar as empresas estatais, como a Unipetrol.

Governo de Babis dominado por escândalos

O novo governo de Babis foi montado em 2018, junto com os socialdemocratas e com o apoio do Partido Comunista, e imediatamente foi envolvido em todos os tipos de escândalos, particularmente ligados ao próprio primeiro ministro. Babis descartou todas as acusações como “fake news”, mas suas alegações são cada vez menos confiáveis. O escândalo mais recente foi a acusação de abuso fraudulento dos subsídios da União Europeia à agricultura, em favor da Agrofert. No topo de tudo isso, houve o caso do rapto de seu próprio filho na Crimeia (revelado por fontes de mídia não pertencentes a Babis) para impedi-lo de falar no tribunal sobre os crimes de seu pai.

Esses escândalos levaram milhares de pessoas às ruas, exigindo a renúncia de Babis. No parlamento, a oposição de direita aprovou um pedido de voto de desconfiança no governo. No entanto, mais uma vez, o Partido Comunista e o SPD [socialdemocratas] vieram em apoio a Babis, para preservar o seu governo. O preço dessa traição foi mais uma derrota nas eleições europeias, quando o PC obteve só 7% e os socialdemocratas 4% (caindo dos 14% em 2014).

Divisão da classe dominante

Uma divisão decisiva na classe dominante está se desenvolvendo, enquanto Babis quer todo o poder para si mesmo. O PC e os partidos socialdemocratas o estão apoiando com a esperança de que algo mudará antes que novas eleições sejam convocadas, na esperança de se recuperarem da pior derrota eleitoral em sua história. A oposição parlamentar a Babis gira em torno dos partidos burgueses de direita, fortemente apoiados pela pequena burguesia, por estarem em conflito aberto com Babis.

Obviamente, Babis está usando isso a seu favor. Enquanto os protestos contra ele forem organizados por elementos pequeno-burgueses com o apoio dos partidos de direita, ele pode apontar o dedo para as contradições entre esses partidos e os interesses dos trabalhadores (que ele entende muito bem), para manter o seu apoio nas eleições. Ele diz: “Vote em mim. Ou você quer que a direita chegue ao poder novamente?” Isso é algo que o está mantendo no poder apesar dos escândalos crescentes.

As massas estão cansadas

Embriagado por suas últimas vitórias eleitorais, ele subestimou o poder das massas, que já estão cansadas de seus escândalos, e passou a influenciar o sistema judiciário através de seu Ministro da Justiça fantoche, Benesová, para se proteger de qualquer processo. Ao mesmo tempo, a auditoria da Comissão Europeia está exigindo que a República Checa pague os subsídios que Babis utilizou sem justificativa.

Isso agora está estimulando a maior onda de resistência civil desde 1989. Centenas de milhares de pessoas estão se manifestando nas ruas contra o governo corrupto e escandaloso de Babis. Essas manifestações ainda são dominadas por elementos reacionários pequeno-burgueses, que até mesmo retratam demagogicamente Babis como um “comunista” e um “bolchevique” por seu controle do poder estatal, por sua carreira anterior como agente da polícia secreta (sob o codinome de “Bures”), e por sua filiação ao KSC na época, como burocrata de empresa no regime anterior a 1989. Isso faz com que o PC apoie uma traição ainda mais profunda, que está aumentando a confusão entre a classe trabalhadora como um todo. No entanto, os trabalhadores estão participando cada vez mais dessas manifestações, pois já toleraram o suficiente da obscena e fraudulenta riqueza de Babis; de seu emprego de pessoas com os salários mais baixos e nas piores condições; e da devastação ambiental causada por sua empresa agrícola plantando colza em todos os lugares [a colza é uma planta de cujas sementes se extrai o óleo utilizado, entre outras possibilidades, na produção de biodiesel -NDT].

Que caminho seguir?

Os atuais protestos são liderados por burgueses e pequeno-burgueses reacionários, atraindo os trabalhadores. A tarefa central dos marxistas é construir uma organização forte o suficiente para se conectar com as melhores camadas dos trabalhadores e jovens nessa luta.

O conto do empresariado habilidoso, que entrou na política para salvar o seu país, está agora exposto com toda a sua realidade grotesca. Mas a questão para os trabalhadores é – como proceder? É óbvio que a camarilha que domina as manifestações contra Babis não defenderá os interesses dos trabalhadores, o que eles descobrirão em breve, à medida em que as coisas se desdobrem. Ao mesmo tempo, não há agora nenhuma liderança confiável para a classe trabalhadora, pois a esquerda traiu os trabalhadores apoiando Babis, e parece determinada a ficar com ele. É possível que nenhum dos partidos de esquerda chegue ao parlamento nas próximas eleições em 2021. Ao mesmo tempo, não é particularmente provável que uma liderança alternativa possa surgir desses partidos moribundos – uma liderança capaz de limpar suas bandeiras da mancha do oportunismo da pior espécie.

Há duas possibilidades que decorrem da presente situação. A primeira é que os trabalhadores que se manifestam contra Babis serão capazes de se organizarem e de se moverem contra o governo como classe, contra todos os oligarcas e capitalistas em sua totalidade. Isso transformaria a luta, não entre setores da classe dominante, mas entre a classe dominante e a classe explorada. A questão da representação política da classe trabalhadora como uma força independente na sociedade checa será, assim, colocada. O segundo cenário é que a classe trabalhadora fornecerá a maior parte da força às manifestações da oposição nessa luta em particular durante algum tempo, mas sofrerá abusos e traições pela direita burguesa quando chegar um novo governo que promulgue políticas reacionárias depois da queda de Babis.

Em qualquer caso, esse movimento de massa é um sintoma da natureza podre do capitalismo checo e da crescente polarização e instabilidade. As contradições entre a classe trabalhadora e os capitalistas não serão resolvidas por um governo de direita, o que levará os trabalhadores e os estudantes ainda mais longe no caminho da luta, com o aprofundamento da crise do capitalismo. A radicalização da juventude checa (que está inclusive mostrando abertura às ideias marxistas), combinada com a dos trabalhadores, que começam a mostrar o seu poder, já está pavimentando o caminho para a construção de uma organização forte o suficiente para se conectar com essas camadas e colocar concretamente a tarefa de construção de um partido revolucionário capaz de conduzi-los à revolução socialista!

Artigo publicado em 24 de junho de 2019, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Biggest demonstration in Czech Republic since 1989 marks the end of political stability“.

Tradução de Fabiano Leite.

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