Início / Teoria | Ver Mais / Dialética e Materialismo / Introdução à “Filosofia Revolucionária do Marxismo”

Introdução à “Filosofia Revolucionária do Marxismo”

Apresentamos a introdução à mais recente publicação de Marxist Books, “A Filosofia Revolucionária do Marxismo”, escrita pelo editor de In Defence of Marxism, Alan Woods. Essa nova seleção de escritos sobre materialismo dialético está agora disponível em inglês para venda a um preço especial de lançamento em MarxistBooks.com/box]

Fiquei encantado ao saber do plano dos camaradas da seção estadunidense da CMI de publicar uma antologia de escritos básicos sobre filosofia marxista. Todo ramo especializado da atividade humana pressupõe certo nível de compreensão e estudos. Isso se aplica tanto à carpintaria quanto à neurocirurgia. A ideia de que podemos avançar sem algum grau de aprendizagem contradiz a experiência cotidiana.

Se fosse a um dentista e ele me dissesse “nunca estudei odontologia e não sei nada a respeito, mas abra sua boca que vou tentar algo”, penso que fugiria rapidamente de seu consultório. Se estivesse com problemas com o meu sistema de aquecimento central e chegasse um homem em minha casa, puxasse um martelo de sua bolsa e dissesse “não sei nada sobre encanamentos, mas me mostre seu sistema de aquecimento central e vou aprender por tentativa e erro”, provavelmente mostraria a ele onde se encontra a porta de saída.

A maioria das pessoas sequer sonharia em expressar uma opinião formada sobre neurocirurgia ou mecânica quântica sem o conhecimento especializado desses campos, mas as coisas parecem ser bem diferentes quando se trata do marxismo. Parece que qualquer pessoa pode expressar uma opinião sobre o marxismo sem ter lido uma simples linha do que Marx e Engels realmente escreveram. Essa conclusão se aplica mais – muito mais, na verdade – aos chamados especialistas acadêmicos que escrevem livros atacando o marxismo, mostrando com clareza que eles não leram Marx ou que, se leram um pouco, não entenderam uma só palavra.

Exposição de Alan Woods [em inglês] no lançamento de “A Filosofia Revolucionária do Marxismo” na Escola Marxista Regional Norte de 2018, na cidade de Nova Iorque:

Essa situação é bastante lamentável, mas ainda mais infeliz é o fato de que muitas pessoas que se consideram marxistas ignoram igualmente os escritos de Marx e Engels. Em minha experiência, mesmo muitas pessoas que se consideram quadros marxistas raras vezes se preocupam em sondar a profundidade da teoria marxista em toda a sua riqueza e variedade. Com demasiada frequência limitam-se a patinar na superfície, repetindo sem pensar alguns slogans e citações retiradas de contexto, que aprenderam de forma mecânica, cujo conteúdo genuíno continua a ser um livro fechado para eles.

Muitas pessoas pensam que sabem o que é o marxismo. Com o tempo, familiarizaram-se com algumas de suas ideias básicas. Mas o que é familiar não é compreendido – justamente porque é familiar. Há algum tempo li algo escrito por Hegel que me produziu uma profunda impressão. Não posso lembrar agora onde o li e estou escrevendo de memória: “Aber was bekannt ist, ist darum noch nicht erkannt (Mas o que é conhecido, portanto, ainda não é reconhecido).

Em nenhum lugar essa afirmação é mais clara do que na importantíssima área da filosofia. Muitas vezes se esquece que o marxismo começou como uma filosofia e que o método filosófico do marxismo é de importância fundamental para se entender as ideias de Marx e Engels.

É comumente esquecido que o marxismo começou como uma filosofia, e o método filosófico do marxismo é de fundamental importância na compreensão das ideias de Marx e Engels. Foto: Adam Jones

No entanto, aqui enfrentamos uma dificuldade. A descrição mais sistemática da dialética está contida nos escritos de Hegel, em particular em sua volumosa obra “A Ciência da Lógica”. Mas o leitor pode logo ficar desanimado com a forma altamente inacessível com que Hegel expõe suas ideias “abstratas e obscuras”, como as considerava Engels, enquanto Lenin comentou que ler “A Ciência da Lógica” era o caminho mais fácil para se ganhar uma dor de cabeça.

Marx pretendia escrever uma obra sobre o materialismo dialético para pôr à disposição do leitor em geral o núcleo racional do pensamento de Hegel. Infelizmente, ele morreu antes de poder fazê-lo. O infatigável camarada de Marx, Friedrich Engels, escreveu uma série de estudos brilhantes sobre filosofia dialética, entre eles “Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã”, “Anti-Dühring” e “Dialética da Natureza”.

A última obra mencionada estava destinada a ser a base de um trabalho mais longo sobre filosofia marxista, mas, infelizmente, Engels não pôde terminá-lo devido ao gigantesco trabalho de concluir o segundo e o terceiro volumes de “O Capital”, que Marx deixou inconclusos ao morrer. É verdade que, espalhada por todas as obras de Marx, Engels, Lenin, Trotsky e Plekhanov pode-se encontrar uma quantidade muito grande de material sobre o tema, mas levaria muito tempo para se extrair toda essa informação.

Durante mais de 20 anos, em colaboração com o meu camarada e mestre, Ted Grant, escrevi um livro chamado “Razão e Revolução”. Pelo que sei, essa foi a primeira tentativa de aplicação do método do materialismo dialético aos resultados da ciência moderna desde que Engels escreveu “A Dialética da Natureza”. Mas a tarefa de se montar uma exposição mais ou menos sistemática da filosofia marxista ainda precisa ser realizada.

Há algum tempo venho planejando escrever um trabalho de filosofia marxista que, com sorte, apresente as ideias de Hegel de uma forma que seja mais acessível ao leitor em geral. Infelizmente, esse trabalho se atrasou devido a outras tarefas, principalmente a produção da versão completa do “Stalin”, de Trotsky. Espero concluir essa tarefa em um futuro não muito distante. Enquanto isso, a presente antologia será uma ajuda inestimável ao estudante do socialismo científico que deseje adquirir uma melhor compreensão da filosofia marxista, e saúdo sua publicação com entusiasmo.

A decadência da filosofia moderna

A atitude da maioria das pessoas hoje em dia com relação à filosofia é geralmente de indiferença ou mesmo desprezo. No que diz respeito à filosofia moderna isso é perfeitamente compreensível. A confusão e a preocupação com o significado e com a semântica se assemelham à atmosfera rarefeita e aos complicados debates dos escolásticos medievais que discutiam interminavelmente sobre o sexo dos anjos e sobre quantos anjos poderiam bailar na cabeça de um alfinete.

No último século e meio, o reino da filosofia assemelha-se a um deserto árido com um ou outro vestígio ocasional de vida. Pode-se procurar em vão por qualquer fonte de luz nesse terreno baldio. É difícil dizer o que é pior: as pretensões intoleráveis do chamado pós-modernismo ou o óbvio vazio de seu conteúdo. O tesouro do passado, com suas antigas glórias e explosões de luz, parece completamente extinto.

Com a última moda do chamado pós-modernismo, a filosofia burguesa alcançou o seu nadir, o seu ponto mais baixo. O escasso conteúdo dessa tendência não impediu seus adeptos de assumir os mais absurdos ares e graças, acompanhados por um arrogante desprezo pelos grandes filósofos do passado. Quando examinamos o vazio da filosofia moderna, as palavras de Hegel no “Prefácio à Fenomenologia do Espírito”, imediatamente nos vêm à mente: “Pela insignificância daquilo com que o espírito se satisfaz, pode-se medir a grandeza do que perdeu”.

O desprezo pela filosofia, ou melhor, a total indiferença que a maioria das pessoas mostra com relação a ela, é muito merecida. Mas é de se lamentar que, ao se afastarem do atual pântano filosófico, as pessoas negligenciem os grandes pensadores do passado, os quais, em contraste com os modernos charlatães, foram gigantes do pensamento humano. Pode-se aprender muito com os gregos, Spinoza e Hegel, que foram os pioneiros que prepararam o caminho para as brilhantes descobertas da filosofia marxista e que, com razão, podem ser considerados como parte importante de nossa herança revolucionária.

Empirismo versus dialética

O mundo anglo-saxão em geral se mostrou notavelmente impermeável à filosofia. Na medida em que possuam alguma filosofia, os norte-americanos e seus primos ingleses limitaram o escopo de seu pensamento às margens estreitas do empirismo e de sua alma gêmea, o pragmatismo. As amplas generalizações de caráter mais teórico sempre foram consideradas com suspeitas.

Filosofia é pensamento abstrato, mas generalizações filosóficas são estranhas à tradição anglo-saxônica. A tradição empirista é impaciente com generalizações. Constantemente exige o concreto, os fatos, mas, ao se limitar a essa abordagem estreita, perde constantemente a vista da floresta para ver as árvores.

Para o cotidiano, as fórmulas empíricas de pensamento podem ser o suficiente, mas para processos mais complexos, valer-se do empirismo se torna imediatamente em um obstáculo. Foto: domínio público

Em seus dias, o empirismo desempenhou um papel mais progressista e até mesmo revolucionário no desenvolvimento do pensamento humano e da ciência. No entanto, o empirismo é útil somente dentro de certos limites. No final do século 16 e início do século 17, a escola empírica de pensamento associada ao nome de Sir Francis Bacon exerceu uma influência contraditória sobre os desenvolvimentos subsequentes.

Por um lado, ao enfatizar a necessidade da observação e da experimentação, deu um estímulo à investigação científica. Por outro, deu origem à visão empirista estreita que teve efeito negativo no desenvolvimento do pensamento filosófico, acima de tudo na Grã-Bretanha e nos EUA. Essa peculiar aversão anglo-saxônica à teoria, a tendência ao empirismo estreito, a veneração servil aos “fatos” e a teimosa recusa em aceitar as generalizações, dominaram o pensamento acadêmico na Grã-Bretanha e, por extensão, nos EUA por tanto tempo que adquiriram o caráter de um preconceito enraizado.

Para o pensador empírico, nada existe exceto em sua manifestação externa. Esse pensamento sempre examina as coisas em sua singularidade, quietude e isolamento, e acaba examinando a ideia de uma coisa e não a própria coisa. A percepção sensorial é pensada em um nível muito baixo e básico. Para questões do dia-a-dia, tais formas de pensamento podem ser suficientes, mas para os processos mais complexos, a estreiteza do empirismo imediatamente se torna um obstáculo à mente que aspira alcançar a verdade.

Por verdade queremos dizer o conhecimento humano que reflete corretamente o mundo objetivo, suas leis e propriedades. Nesse sentido, não depende de um sujeito, como imaginava o Bispo de Berkeley, Hume, e os outros representantes iniciais do empirismo inglês, que inevitavelmente caíram no pântano do idealismo subjetivista.

A demanda pelos “fatos”

Muitas pessoas só se sentem seguras quando podem se referir aos fatos. No entanto, os “fatos” não se selecionam a si mesmos. É necessário um método definido que nos ajude a olhar além do imediatamente dado e que desnude os processos que estão além dos “fatos”. Apesar das afirmações feitas em contrário, é impossível partir dos “fatos” sem algum conceito preconcebido. Essa suposta objetividade nunca existiu e nunca vai existir.

Ao abordar os fatos, trazemos nossas próprias concepções e categorias conosco. Estas podem ser conscientes ou inconscientes, mas estão sempre presentes. Os que imaginam que podem se dar muito bem sem uma filosofia – como é o caso de muitos cientistas – apenas replicam inconscientemente a filosofia “oficial” existente e os preconceitos correntes da sociedade onde vivem. Portanto, é indispensável que os cientistas e as pessoas em geral que pensam se esforcem para elaborar uma forma consistente de ver o mundo, uma filosofia coerente que possa servir como ferramenta adequada para analisar as coisas e os processos.

As conclusões tiradas da percepção sensorial são hipotéticas, exigindo provas adicionais. Durante um longo período de observação, combinado com atividades práticas que nos capacitem a testar a correção ou não de nossas ideias, descobrimos uma série de conexões essenciais entre os fenômenos, o que mostra que eles possuem características comuns e pertencem a um determinado gênero ou espécie.

O processo da cognição humana parte do particular ao universal, mas também do universal ao particular. Portanto, é incorreto e unilateral contrapor um ao outro. O materialismo dialético não considera a indução e a dedução como mutuamente incompatíveis, mas como diferentes aspectos do processo dialético da cognição, que estão inseparavelmente conectados e se condicionam mutuamente.

O raciocínio indutivo, em última análise, é a base de todo conhecimento, uma vez que tudo o que conhecemos deriva, em última análise, da observação do mundo objetivo e da experiência. No entanto, em um exame mais detalhado, as limitações de um método estritamente indutivo tornam-se claras. Não importa quantos fatos são examinados, basta uma só exceção para minar qualquer conclusão geral que tenhamos extraído deles. Se virmos mil cisnes brancos, tirarmos a conclusão de que todos os cisnes são brancos e, em seguida, virmos um cisne negro, nossa conclusão deixa de ser válida.

Em “A Dialética da Natureza”, Engels assinalou o paradoxo da escola empírica, que imaginava ter eliminado a metafísica de uma vez por todas, mas que, na verdade, acabou aceitando todo os tipos de ideias místicas.

[Essa tendência] que, exaltando a mera experiência, trata o pensamento com desdém (…) realmente foi ao extremo mais longínquo do vazio do pensamento.

Na “Introdução à Filosofia da História”, Hegel corretamente ridiculariza aqueles historiadores – demasiado comuns na Grã-Bretanha – que pretendem se limitar aos fatos, apresentando uma fachada espúria de “objetividade acadêmica”, enquanto dão livre curso aos seus preconceitos:

Devemos proceder historicamente – empiricamente. Entre outras precauções, devemos tomar cuidado para não sermos enganados por pretensos historiadores que (…) são imputáveis do mesmo procedimento de que acusam ao filósofo – introduzindo a priori invenções próprias no registro do passado (…). Poderíamos então anunciar como a primeira condição a ser observada que devemos adotar fielmente tudo o que é histórico. Mas, em tais expressões gerais, como “fielmente” e “adotar”, reside a ambiguidade. Mesmo o comum e “imparcial” historiógrafo, que acredita e declara manter uma atitude simplesmente receptiva; submeter-se apenas aos dados que lhes são proporcionados – não é de forma alguma passivo no que diz respeito ao exercício de seu poder de pensamento. Ele traz suas categorias com ele e vê os fenômenos apresentados a sua visão mental exclusivamente através desses meios. E, particularmente, em tudo o que se faz em nome da ciência é indispensável que a razão não durma – este reflexo deve estar em plenas condições de jogo. Para aquele que olha o mundo racionalmente, o mundo, por sua vez, apresenta um aspecto racional. A relação é mútua. Mas os diversos exercícios de reflexão – os diferentes pontos de vista –, os modos de decidir a simples questão da importância relativa dos eventos (a primeira categoria que ocupa a atenção do historiador) não pertencem a esse lugar.

Bertrand Russel, cujos pontos de vista são diametricalmente opostos ao materialismo dialético, faz uma crítica válida das limitações do empirismo que acompanha a mesma linha das observações de Hegel:

Como regra geral, a formulação de hipóteses é a parte mais difícil do trabalho científico, e é uma parte em que uma grande capacidade é indispensável. Até agora, nenhum método que permitisse inventar hipóteses como regra foi encontrado. Normalmente, algumas hipóteses são necessárias com antecedência à coleta dos fatos, uma vez que a seleção dos fatos exige alguma forma de determinar a relevância. Sem algo deste tipo, a mera multiplicidade dos fatos é desconcertante. (“A História da Filosofia Ocidental”)

Dialética

O termo “dialética” vem do grego dialektike, que deriva de dialegomai, conversar ou discutir. Originalmente, significava a arte da discussão, que pode ser vista em sua forma mais elevada nos diálogos socráticos de Platão.

Partindo de uma ideia ou opinião particular, geralmente derivada das experiências e problemas concretos de vida da pessoa envolvida, Sócrates, passo a passo, através de um rigoroso processo de argumentação, traz à luz as contradições internas contidas na proposição original, revela suas limitações e leva a discussão a um nível mais alto, envolvendo uma proposição inteiramente diferente.

Um argumento inicial – a tese – é avançado. E é contestado por um argumento contrário – a antítese. Finalmente, depois de examinar minuciosamente a questão, dissecando-a para revelar suas contradições internas, chegamos a uma conclusão em um nível superior – a síntese. Isso pode ou não significar que os dois lados chegam a um acordo, mas, no próprio processo de desenvolvimento da discussão, o entendimento de ambos os lados é aprofundado, e a discussão prossegue de um nível mais baixo para um nível mais alto. Essa é a dialética da discussão em sua forma clássica.

A dialética é uma visão dinâmica da natureza que libera o pensamento humano do rigor mortis da lógica formal. O primeiro expoente verdadeiro da dialética foi um homem notável, o filósofo grego Heráclito (544 a.C.-484 a.C.). Seu trabalho sobrevive hoje como uma série de breves, mas profundos aforismos, como os seguintes:

O fogo vive na morte do ar e o ar vive na morte do fogo;

A água vive na morte da terra e a terra vive na morte da água.

É a mesma coisa que em nós está viva e morta, adormecida e acordada, jovem e velha; cada um muda de lugar e se torna o outro.

Andamos e não andamos no mesmo fluxo; somos e não somos.

Esses enunciados pareciam tão difíceis de entender porque contradiziam o que é conhecido como a visão do mundo do “senso comum”. Tão obscuros e paradoxais eles pareciam a seus contemporâneos que lhe valeram o apelido de “Heráclito, o Obscuro”. Não entenderam o que ele estava dizendo, mas ele era totalmente indiferente à sua incompreensão e a tratou com desdém:

Embora essa palavra seja cada vez mais verdadeira, os homens são tão incapazes de compreendê-la quando a ouvem pela primeira vez como antes de a terem ouvido… Mas outros homens não sabem o que estão fazendo quando acordados, mesmo quando esquecem o que fazem no sono.

Os tolos, apesar de ouvirem, são como os surdos; a eles se aplica o adágio de que, quando estão presentes, estão ausentes.

Heráclito foi capaz de ver o que outros, que se baseavam puramente na evidência empírica dos sentidos, não podiam. Em uma devastadora crítica ao empirismo, ele escreveu:

Olhos e ouvidos são más testemunhas para os homens se eles têm almas que não entendem seu idioma.

Naturalmente, todo o nosso conhecimento é, em última análise, derivado de nossos sentidos, mas a percepção sensorial somente nos pode dizer uma parte da história e não necessariamente a parte mais importante. É suficiente lembrar que nossos sentidos nos dizem que a Terra é plana. Hegel, que tinha uma opinião muito elevada de Heráclito como filósofo, escreveu em sua “História da Filosofia”: “Aqui vemos terra. Não há nenhuma proposição de Heráclito que eu não tenha adotado em minha ‘Lógica’”.

O psicólogo Carl Jung escreveu: “O velho Heráclito, que era de fato um grande sábio, descobriu a mais maravilhosa de todas as leis psicológicas: a função reguladora dos opostos… Um funcionamento contrário, pelo qual ele quis dizer que, mais cedo ou mais tarde, tudo se encontra com o seu oposto” (“Dois ensaios sobre Psicologia Analítica”).

Em seu “Anti-Dühring”, Engels dá a seguinte avaliação da visão de mundo dialética de Heráclito:

Quando refletimos sobre a natureza ou a história do ser humano ou sobre nossa própria atividade intelectual, a princípio vemos a imagem de um interminável labirinto de conexões e interações, no qual nada permanece o que era, onde era e como era, mas onde tudo se move, muda, surge e morre. A princípio, portanto, vemos o quadro como um todo, com suas partes individuais ainda mais ou menos mantidas em segundo plano; observamos os movimentos, transições, conexões, e não as coisas que se movem, mudam e estão conectadas. Essa concepção primitiva, ingênua, mas intrinsicamente correta do mundo é a da filosofia grega, e foi formulada pela primeira vez por Heráclito: tudo é e não é, pois tudo está em fluxo, está mudando constantemente, constantemente surgindo e desaparecendo.

… O movimento é o modo de existência da matéria. Nunca em lugar algum houve matéria sem movimento ou movimento sem matéria, nem pode haver.

Em seu “Dialética da Natureza”, Engels escreve:

A mudança na forma do movimento é sempre um processo que ocorre entre pelo menos dois corpos, no qual um deles perde uma quantidade definida de movimento de uma qualidade (isto é, calor), enquanto o outro ganha uma quantidade correspondente de outra qualidade (movimento mecânico, eletricidade, decomposição química).

A dialética, chamada dialética objetiva (materialista), prevalece em toda a natureza, e a chamada dialética subjetiva, pensamento dialético, é somente o reflexo do movimento através de opostos que se afirma por toda parte na natureza, e que pelo contínuo conflito dos opostos e sua final passagem de um para o outro, ou para formas superiores, determina a vida da natureza.

Em “Do Socialismo Utópico ao Científico”, Engels escreveu: “o mundo inteiro, natural, histórico, intelectual, é representado em um processo – isto é, como em constante movimento, mudança, transformação, desenvolvimento – e se tenta rastrear a conexão interna que torna todo esse movimento e desenvolvimento um todo contínuo”.

A dialética hegeliana

O método dialético aparece nos escritos de Heráclito em uma forma embrionária, não desenvolvida. Ela foi desenvolvida ao seu mais alto grau por Hegel. No entanto, aqui ela aparece em uma forma mística, idealista. Foi resgatada pelos trabalhos teóricos de Marx e Engels, que, pela primeira vez, mostraram o núcleo racional do pensamento de Hegel. Em sua forma científica – materialista –, o método dialético nos proporciona uma ferramenta indispensável para a compreensão do funcionamento da natureza, da sociedade e do pensamento humano.

A grande obra-prima dialética de Hegel foi “A Ciência da Lógica”, cuja estrutura, segundo ele, era uma abstração da história da filosofia. Assemelha-se ao processo que a mente de uma criança sofre quando começa a receber percepções externas, começando com a categoria de “ser” e, a partir dela, passando para ideias mais abstratas – Hegel teria dito ideias concretas.

É necessário ler o grande dialético Hegel para um ponto de vista crítico e materialista, que foi o que Lenin fez em seus “Cadernos Filosóficos”. Foto: domínio público

Mas o problema básico com “A Ciência da Lógica” está na estrutura da própria obra. Como idealista, Hegel tentou criar um sistema filosófico que, seguindo passo a passo através de todos os processos do pensamento consciente, levaria finalmente à Ideia Absoluta, que Feuerbach, de forma correta, via apenas como um outro nome para Deus. Essa também era a opinião de Lenin. Ele escreveu em seus “Cadernos Filosóficos”: “A Lógica de Hegel não pode ser aplicada em sua forma dada, não pode ser considerada como dada. É preciso separar dela as nuances lógicas (epistemológicas), depois de purificá-las do misticismo das ideias: isso ainda é um grande trabalho”.

O caráter artificial do sistema filosófico de Hegel foi comentado por Engels em uma carta de 1 de novembro de 1891 enviada a Conrad Schmidt. Ele assinalou que a estrutura da “Lógica” de Hegel é artificial e que a transição de uma categoria para outra é frequentemente feita de forma forçada. Ele fez isso por meio de um trocadilho: como em “zungrunde gehen” para chegar à categoria de “Grund”, razão, terra.

Quanto à Ideia Absoluta, Engels comentou ironicamente que o problema com isso é que Hegel não nos diz absolutamente nada sobre ela. A tentativa de restringir o que era sem dúvida uma obra-prima do pensamento dialético na camisa de força do idealismo significava que a obra frequentemente tinha um caráter forçado e arbitrário. Foi, para citar Engels mais uma vez, “um aborto gigantesco”.

No entanto, para o leitor paciente, a “Lógica” de Hegel oferece uma grande quantidade de ideias profundas e gratificantes. Apesar de seu caráter idealista e frequentemente muito obscuro, é possível discernir, como através de um espelho distorcido, o reflexo da realidade material – não apenas a história da filosofia, mas a história da sociedade e das leis e processos da natureza em geral. Por essa razão, é necessário ler Hegel a partir de um ponto de vista crítico e materialista, o que fez Lenin em seus “Cadernos Filosóficos”.

A lei da identidade

A inclusão na presente antologia do pequeno, mas brilhante artigo de Trotsky, “ABC do Materialismo Dialético”, foi uma decisão absolutamente correta. Aqui, em poucas palavras, a essência da dialética é explicada com claridade impressionante. Não é de surpreender que esse artigo tenha levado os críticos da dialética a paroxismos de raiva. Ele desafia as próprias bases das concepções lógicas que dominaram a filosofia por centenas de anos: a lei da identidade.

As generalizações alcançadas ao longo de um demorado período de desenvolvimento humano, algumas das quais são consideradas como axiomas, desempenham um papel importante no desenvolvimento do pensamento e não podem ser facilmente dispensadas. As formas de pensamento da lógica tradicional desempenham um papel essencial, estabelecendo regras elementares para evitar contradições absurdas e seguindo uma linha de argumentação internamente coerente, mas esse modo formal de pensar permanece verdadeiro apenas dentro de certos limites.

A lei da identidade (a = a) é a suposição básica, dogmática, de toda a lógica formal e o foi por mais de 2 mil anos. É típico do pensamento formal: vazio, rígido e abstrato. O pensamento dialético, pelo contrário, é concreto, dinâmico e complexo em suas múltiplas determinações: é a expressão do movimento em sua forma geral.

Em seu livro, “A Metafísica”, Aristóteles elaborou o princípio da não-contradição: “É impossível que um e o mesmo atributo possa pertencer ou não ao mesmo sujeito, considerado ao mesmo tempo e na mesma relação”. Uma extensão da mesma ideia é o princípio do terceiro excluído: “Se aquilo que é falso é apenas a negação do que é verdadeiro, então será impossível que todos sejam falsos: um dos dois lados da contradição deve ser verdadeiro.”

No entanto, em outra de suas obras, o “Organon”, Aristóteles elaborou as leis básicas da dialética. Infelizmente, as ideias de Aristóteles nos chegaram principalmente na forma sem vida e escolástica em que foram “preservadas” pela Igreja na Idade Média – como um cadáver preservado em formol. O Aristóteles da lógica formal e do silogismo foi preservado de forma unilateral, mas o Aristóteles do “Organon” foi relegado ao esquecimento.

Desde então, o formalismo lógico foi geralmente utilizado como uma espécie de recurso escolástico – ou “artifício”, como observou corretamente Kant – para evitar a realidade e, seguindo o passo dos escolásticos medievais, como um tipo de “ópio” para escavar fundo nas supostas “profundidades” do vácuo linguístico, onde disputam interminavelmente o significado das palavras, exatamente como os escolásticos se entretinham com debates intermináveis sobre o sexo dos anjos.

O positivismo lógico, que dominou a filosofia anglo-saxã no século XX sob diferentes disfarces, foi um digno herdeiro dessa má tradição do escolasticismo medieval, com sua obsessão pela forma e pelos sofismas linguísticos. Para essa gente, a dialética é um livro fechado a sete chaves. Sua forma de pensar é totalmente dogmática e formalística.

Que chamemos isso de lei da identidade ou de princípio da equivalência realmente não faz qualquer diferença. No final a = a, o mesmo dogma formal estabelecido por Aristóteles. As formas podem ter sido mudadas e expressas como símbolos ou qualquer coisa que se queira, mas o conteúdo permanece como sempre foi: uma concha vazia, ou, como Hegel colocou, “os ossos sem vida de um esqueleto”.

A lei da identidade afirma claramente que uma coisa é igual a si mesma (ou idêntica a si mesma, realmente não importa). Mas, como Trotsky assinala, uma vez que as coisas do mundo material estão em constante estado de mudança – fluem constantemente, para usar o aforismo maravilhosamente profundo de Heráclito –, nunca são idênticas. Portanto, a lei da identidade é, no melhor dos casos, apenas uma aproximação grosseira. Não pode se apoderar de uma realidade que muda constantemente. É este precisamente o calcanhar de Aquiles da lógica formal.

Todas as tentativas de se eliminar a contradição da lógica equivalem à tentativa de se remover a contradição da própria natureza – mas a contradição é a base de todo movimento, vida e desenvolvimento. A ideia de que “tudo flui” foi confirmada de modo brilhante pelas descobertas da ciência moderna, particularmente da física.

No espaço dos últimos 100 anos aproximadamente, a Física forneceu uma enorme quantidade de evidências para demonstrar que a mudança e o movimento são qualidades fundamentais da matéria. Engels afirmou que o movimento é o modo de existência da matéria – uma previsão brilhante. Mas Einstein foi muito além disso. Em 1905, ele demonstrou que matéria e energia são o mesmo.

Não é possível entender a dinâmica do mundo em que vivemos, e muito menos ser um revolucionário consciente – isto é, alguém que intervém ativamente e conscientemente no processo histórico – sem a ajuda do pensamento dialético. O avanço do pensamento científico associado à teoria do caos é uma ampla prova dessa afirmação.

Cognição

A primeira lei do materialismo dialético é a objetividade absoluta de considerar não os exemplos, não as digressões, mas a própria coisa. A base de todo o nosso conhecimento é, naturalmente, a experiência sensorial. Experimento o mundo através de meus sentidos e não posso experimentá-lo de nenhuma outra forma. Esse é o conteúdo essencial do empirismo.

Os primeiros empiristas – Bacon, Locke e Hobbes – eram materialistas. Seu grito de guerra era: Nihil est in intellectu quod sit prius in sensu (Não há nada na mente que não tenha sido primeiro nos sentidos). Sua insistência na percepção sensorial como a base de todo conhecimento representou em seus dias um salto gigantesco em relação à especulação vazia dos escolásticos medievais. Isso abriu caminho para a rápida expansão da ciência, baseada na investigação, na observação e na experimentação empíricas.

No entanto, apesar de seu caráter tremendamente revolucionário, essa forma de materialismo era unilateral, limitada e, portanto, incompleta. Tendia a considerar os fatos como isolados e estáticos. Levado ao extremo, como o fizeram Hume e Berkeley, levou ao subjetivismo idealista, que negou a existência de uma realidade material independente do observador. Como disse o Bispo Berkeley: Esse est percipi (Ser é ser percebido).

Os primeiros empiristas – Bacon, Locke, e Hobbes – eram materialistas. Seu grito de guerra era: Nihil est in intellectu quod non sit prius in sensu (Nada está na mente que não esteve primeiro nos sentidos). Foto: domínio público

A afirmação “interpreto o mundo através de meus sentidos” está correta, mas é unilateral. Deve-se acrescentar que o mundo existe independente de meus sentidos. Caso contrário, ficamos com a proposição absurda de que, se fecho os olhos, o mundo deixa de existir. Esse argumento foi compreensivelmente demolido por Lenin em sua obra-prima filosófica, “Materialismo e Empiriocriticismo”.

Na verdade, o empirismo apresenta a cognição de uma forma muito superficial e unilateral. Hegel, cujo idealismo objetivo está em total contradição com o idealismo subjetivo, fez o possível para demonstrar que a cognição é um processo que se desenvolve através de diferentes etapas. Dessas etapas, a percepção sensorial é a mais baixa, limitando-se à mera declaração de que “é”.

Mas essa concepção elementar entra imediatamente em uma série de contradições se o que está sendo analisado é considerado não como um átomo isolado, mas como um processo de mudança constante, no qual as coisas podem se transformar em seus opostos.

O processo de cognição tem dois elementos essenciais: um sujeito pensante e um objeto do pensamento. Em a “Fenomenologia do Espírito”, que Marx descreveu como “a viagem de descoberta de Hegel”, o grande dialético não pretendia analisar nem um lado, nem o outro, mas demonstrar sua unidade no processo de pensamento. Pensava-se o que se ia examinar.

No entanto, o método de Hegel tinha uma debilidade inerente. Como idealista, Hegel não partia do pensamento humano real, concreto e sensual, mas de uma abstração idealista. Na verdade, não pensamos somente com nossa mente, mas com todos os nossos sentidos – de fato, com todo o nosso corpo. O que liga os humanos ao mundo externo (natureza) não é o pensamento abstrato, mas o trabalho humano, que transforma a natureza e, ao mesmo tempo, transforma a própria humanidade.

As possibilidades da cognição sensorial são limitadas. A cognição de fenômenos que estão além do alcance da sensação só pode ser alcançada através do pensamento abstrato, o pensamento dialético. O objeto do pensamento tem um ser inerente – em alemão, an sich. O propósito do pensamento é transformar este “ser em si mesmo” em “ser para nós”, isto é, passar da ignorância ao conhecimento.

Não nos aproximamos da verdade compilando uma massa de fatos. Quando dizemos “todos os animais” não assumimos que isto equivale à zoologia. Em “Conferências sobre a Filosofia da História”, Hegel assinalou que “é, na verdade, o desejo de uma visão racional, e não a ambição de acumular um mero amontoado de requisitos, o que se deve pressupor em todos os casos como possuindo a mente do aprendiz do estudo da ciência”.

O poder do pensamento reside precisamente em sua capacidade para a abstração, em sua habilidade para excluir detalhes e chegar a generalizações que expressem os principais e mais essenciais aspectos de um dado fenômeno. O passo inicial é meramente obter um sentido do ser como um objeto individual. Isso, no entanto, revela-se impossível e nos compele a aprofundar no tema, revelando as contradições internas que proporcionam o impulso para o movimento e a mudança, no qual as coisas se transformam em seus contrários.

Artigo publicado em 14 de novembro de 2018, no site da Corrente Marxista Internacional, sob o título “Introduction to the revolutionary philosophy of Marxism – part one“.

Tradução de Fabiano Leite.

Leia também...

100 anos: Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e a Revolução Alemã

A revolução alemã de novembro de 1918 envolveu milhões de pessoas, cuja maioria não era envolvida …