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Grã-Bretanha: por um novo “Novo Sindicalismo”

Os trabalhadores da Grã-Bretanha estiveram sob ataques dos patrões e do governo conservador durante anos. No entanto, muitos líderes sindicais não se mostram capazes de reagir. Essa é uma das razões pelas quais os sindicatos experimentaram, no ano passado, a maior queda da filiação desde que os registros começaram. A filiação total aos sindicatos hoje é de apenas 6,2 milhões de trabalhadores, comparados aos 13,2 milhões de 1979.

Essa incapacidade de conduzir uma luta, apesar da disposição dos trabalhadores de partir para a ação (desde Grangemouth em 2013 até a luta pelas pensões na BMW em 2017), só serviu para minar a confiança das fileiras sindicais.

Com o aumento do emprego informal, do congelamento e dos cortes dos salários, qual será o papel dos sindicatos no próximo período? Podemos descobrir parte da resposta a esta questão a partir da história do movimento da classe trabalhadora dos anos 1880.

Escolas de guerra

Depois do desastre de Grangemouth em 2013, os sindicatos da Grã-Bretanha começaram a se converter no que era conhecido como “novo modelo”. As características de tais sindicatos eram: altas contribuições dos membros, controle centralizado, e uma política de colaboração de classe.

Depois que a Unite foi humilhada em Grangemouth em 2013, os sindicatos começaram a aderir ao inofensível “novo modelo”. Foto: Geograph.

Em contraste aos sindicatos dos anos 1830, que eram “escolas de guerra” para os trabalhadores contra os patrões, as pessoas que dirigiam os sindicatos do “novo modelo” eram funcionários de tempo integral. Esses líderes estavam mais interessados em ganhar concessões parciais para trabalhadores qualificados do que travar uma guerra de classe em nome da massa de trabalhadores não-qualificados.

Os atuais líderes sindicais não são piores que os da “junta” que dirigia os sindicatos do novo modelo. Um dos líderes do novo modelo, William Allan, por exemplo, disse à Royal Commission: “Acreditamos que todas as greves são um completo desperdício de dinheiro, tanto para os trabalhadores quanto para os empregadores”.

No entanto, a maioria dos atuais líderes sindicais parecem ter aversão à ação militante levada a sério. Muitos têm salários de seis dígitos, o que os distancia das vidas dos trabalhadores comuns. De fato, tipos como Paul Kenny, secretário-geral do sindicato da GMB até 2015, levaram ao extremo sua busca pela “respeitabilidade”. Em junho de 2015, Kenny aceitou o título de Cavaleiro da Rainha por “serviços aos sindicatos”.

A velha ordem desmorona

As palavras de Engels a respeito da estagnação industrial da Grã-Bretanha poderiam ter sido escritas hoje. Foto: domínio público.

Na década de 1880, o poder do imperialismo britânico estava sendo desafiado pelos EUA e pela Alemanha na esfera industrial. Isso veio acompanhado de crises cíclicas periódicas do capitalismo. Em 1885, Engels escreveu:

“O crash de 1866 foi, de fato, acompanhado por uma leve e curta reanimação perto de 1873. Na verdade, não passamos pela crise total no momento devido, em 1877 ou 1878; mas tivemos, desde 1876, uma situação crônica de estagnação em todos os ramos dominantes da indústria. Não se produzirá o crash total nem o período de prosperidade desejada ao qual costumávamos ter direito antes e depois dele. Uma depressão amorfa, um excesso crônico de todos os mercados para todos os negócios, é nisso em que estamos vivendo durante quase dez anos”

Essa descrição da economia britânica pode ser aplicada atualmente, só que, desta vez, a crise econômica está associada ao Brexit em vez da rivalidade imperial. Sob tais condições, todos os pilares da ordem estabelecida começam a desmoronar, junto com tudo o que se adaptou a eles.

Deixando a velha guarda envergonhada

Foi durante esse período que um grupo de trabalhadores, treinados e educados como marxistas na Federação Socialdemocrata (SDF, na sigla em inglês), deixou a SDF devido ao seu distanciamento do movimento sindical. Eles lançaram uma campanha por um “Novo Sindicalismo”.

Eles não tentaram estabelecer uma alternativa ao movimento sindical existente, mas apelaram aos trabalhadores com questões retóricas radicais. “Aos sindicalistas, desejo fazer um apelo especial”, escreveu Tom Mann em um panfleto intitulado “O que Significa para os Trabalhadores um Dia Útil Compulsório de Oito Horas” (1886). “Por quanto tempo ficarás satisfeito com a atual política hesitante de teus sindicatos? Admite-se facilmente que um bom trabalho foi feito no passado pelos sindicatos, mas, em nome dos céus, a que propósito eles estão servindo agora?”.

“A mão que governará o mundo – Um único grande sindicato”. Imagem: domínio público.

Esses novos sindicalistas lutaram contra a “velha guarda” no piso do Congresso da TUC (Trades Union Congress, a central sindical britânica – NDT). Eles organizaram os trabalhadores nos locais de trabalho, como na fábrica Bryant and May, em Bow, nas docas de East London e em Beckton Gas Works, em East Ham.

Era essa a característica crucial do Novo Sindicalismo. A aristocracia dos sindicatos do novo modelo considerava desorganizadas as vendedoras de fósforo de East London, os trabalhadores do gás, os estivadores e outros trabalhadores não-qualificados considerados “não-organizáveis”. Da mesma forma, atualmente, os trabalhadores sob contratos de zero-hora e em trabalhos precários são, com muita frequência, eliminados por serem considerados “não-organizáveis” pelos líderes sindicais.

Os novos sindicalistas provaram que a “velha guarda” estava errada. Tom Mann, o organizador dos trabalhadores do gás, declarou que suas vitórias “envergonham os sindicatos mais velhos e maiores”.

Por organização e militância

Atualmente, a militância dos faxineiros, dos trabalhadores de restaurantes e outros grupos de trabalho precário da Universidade de Londres, da Harrods, das salas de exibição da Ferrari, dos cinemas e outros levou a lutas e vitórias que também envergonham os maiores e mais tradicionais sindicatos.

Assim como entre os estivadores portuários e os trabalhadores do gás, o movimento da década de 1880 viu novos sindicatos formados nas estradas de ferro, nas minas e nas gráficas. Entre 1889 e 1891, mais de 60 novos Conselhos Sindicais foram estabelecidos por todo o país, reunindo os diversos sindicatos de uma cidade.

Trabalhadores temporários em greve. Foto: Flickr, Steve Eason.

O potencial para um aumento dessa envergadura no movimento sindical também existe hoje. Há 7,1 milhões de trabalhadores em empregos precários – mais do que toda a atual filiação aos sindicatos no Reino Unido. Esses trabalhadores – em setores da saúde, educação, entretenimento, indústria de serviços etc. – devem ser organizado com base em um programa de luta com líderes radicais, como os novos sindicalistas da década de 1880.

O movimento sindical percorreu um longo caminho desde a década de 1880. Muitos dos sindicatos que foram formados a partir do movimento Novo Sindicalismo ainda existem hoje de uma forma ou de outra. De todas as correntes sindicais, o RMT é um dos que melhor preservaram a militância daquele período. Isso significa que estamos começando de um estágio melhor que os novos sindicalistas como Tom Mann e Eleanor Marx.

O Sindicato dos Padeiros já começou a organizar os trabalhadores do McDonald’s, que realizaram sua primeira greve em 2017. A Unite estabeleceu a Filiação Comunitária para os desempregados e para aqueles em trabalhos precários.

São passos na direção correta dados pelos sindicatos estabelecidos. Contudo, há muitos outros passos que podem e devem ser dados. As condições estão maduras para um Novo Sindicalismo. Devemos transformar de novo os sindicatos atuais em escolas da guerra de classe.

Artigo originalmente publicado em 17 de janeiro de 2018 no site In Defense of Marxism, da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Britain: for a new ‘New Unionism’“.

Tradução de Fabiano Leite

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