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França: por um Governo dos Trabalhadores!

O movimento dos coletes amarelos possui uma pujança e uma profundidade que não param de surpreender – e assustar – seus adversários. Claro que a burguesia e seus lacaios (políticos e midiáticos) sabem que a pobreza existe. Eles já ouviram falar disso. Até mesmo já cruzou a vista e o olhar, acidentalmente. Mas de resto, eles estão totalmente desconectados das condições reais de vida do povo, de seus sofrimentos e de seus problemas. Então, do alto de seus privilégios, de seu poder e de suas fortunas, dizem a si mesmos: “um pouco mais ou um pouco menos de austeridade, que diferença faz”? A resposta surgiu diante de suas faces.

A profundidade do movimento

Révolution disse e repetiu nos últimos anos: nenhum regime político pode impor uma regressão social permanente sem que provoque uma explosão da luta de classes em algum momento. É uma lei histórica que não admite exceção. Outra lei: quanto mais as massas aguardam, acreditem, suportem, mais forte é sua revolta quando chegada a hora. É fato que, após décadas, milhões de explorados e oprimidos sofreram sem falar. Desdobraram-se para pagar o aluguel, as contas, os impostos, a comida – enfim, tudo para a simples sobrevivência. E ao longo de anos, tiveram mais e mais dificuldades para fechar o mês.

O movimento sindical quase não tinha controle sobre essas camadas de trabalhadores – que, em troca, observava com ceticismo, no mínimo, as “lutas” de fachada organizadas pelas direções das centrais sindicais, sem resultados. Por exemplo, para uma mãe divorciada cuja sobrevivência depende de um emprego precário onde é brutalmente explorada, as “jornadas de ação” sindical sem futuro e sem efeito não desperta interesse algum. É um luxo que ela não pode se permitir. E isso vale para milhões de trabalhadores.

Precisamente esses pobres assalariados que – ao lado de aposentados, desempregados, pequenos comerciantes, entre outros – formam a coluna vertebral do movimento dos coletes amarelos. Sua combatividade está à medida da quantidade de cólera e de frustação que acumularam. A repressão policial e judicial, de uma brutalidade sem precedentes, não os fez recuar. Ao contrário, reforçou a determinação de se livrar de um governo que não responde mais que uma virtude “democrática” dos porretes, do gás lacrimogênio, das balas de borracha e similares imediatos.

Um ponto sem volta foi atravessado para contestação desse poder que, incessantemente, mente, despreza, mutila e aprisiona. Quem ainda sustenta Macron e sua panelinha? A grande burguesia e suas mídias (não sem receios, a cada dia mais vívidos), assim como aqueles milhares de “lenços vermelhos” que fizeram o ridículo nas ruas de Paris, no dia 27 de janeiro. Isso é tudo. Desde maio de 1968, nunca um governo francês esteve tão fraco e desacreditado.

A greve geral

Todo mundo compreendeu que o “grande debate” organizado pelo governo tem o único propósito de enfraquecer a mobilização nas ruas e cruzamentos. Até o momento, tem perdido! Ainda melhor: a experiência das últimas dez semanas convenceu a grande maioria dos coletes amarelos que agora é necessário levar a luta para dentro das próprias empresas, na forma de greve massivas e ilimitadas. O movimento aproveitou a jornada de ação programada pela CGT[1], em 5 de fevereiro, para convocar o início de uma “greve geral ilimitada”.

Está é a chave para a vitória. O governo está determinado a “se manter” contra as manifestações de sábado. Espera o enfado e exaustão do movimento. E está claro que se o movimento não ultrapassar as formas que agora possui, desde meados de novembro, um refluxo é inevitável, eventualmente. Ao invés disso, o início de um amplo movimento de greve ilimitadas seria um golpe fatal ao governo. Macron será obrigado, no mínimo, a dissolver a Assembleia Nacional, na esperança de impedir o desenvolvimento de uma crise revolucionária.

É impossível prever o que irá acontecer em 5 de fevereiro e nos demais dias. A França é o país de junho de 1938 e maio de 1968, duas greves gerais ilimitadas surgidas da “base”, contra a vontade das direções sindicais. Tudo é possível. Dependerá expressamente das iniciativas que serão tomadas, no campo, pelos militantes sindicais mais combativos, em conexão com os coletes amarelos. No entanto, reconhece-se que a passividade da direção da CGT (para não falar das outras) é um grande obstáculo à organização de um poderoso movimento de greves ilimitadas.

Sem dúvida, muitos trabalhadores sustentam a ideia de uma greve geral dirigida contra o governo Macron. Eles não esperam mais nada de bom. Mas sabem que não basta que um setor entre em greve para outros o sigam. Estivadores, trabalhadores de refinarias e ferroviários, entre outros, tiveram amargas experiências em 2010, 2016 e 2017. Os dirigentes das centrais sindicais não levantaram um dedo para estender a greve para outros setores. Isolados, essas greves falharam. Com essa experiência, muitos trabalhadores se viram em direção às cúpulas sindicais e dizem: “esses não parecem prontos, novamente, para ampliar a greve. Se começarmos, corremos o risco de nos isolarmos”. Este é um sério obstáculo. Mas este é um obstáculo relativo – dependendo da pressão da base. Então, cedo ou tarde, cederá.

Contra o capitalismo

A dissolução da Assembleia Nacional será a primeira vitória. Mas e então? Que tipo de governo necessitamos? Os coletes amarelos dizem: “poder ao povo”! Estamos de acordo! Mas o que isso pressupõe, concretamente? Para que o “poder ao povo” seja real e efetivo, supõe-se a transferência do poder econômico e político para as mãos dos trabalhadores, ou seja, aqueles que produzem toda a riqueza. Isto significa expropriar aos gigantes parasitas do CAC 40[2], dos quais Macron é procurador, e que detém as principais alavancas da economia: bancos, indústria, distribuição, energia, transportes, setor farmacêutico, mídias, entre outras.

Todas essas grandes empresas devem ser nacionalizadas e colocadas sob o controle democrático dos trabalhadores. Assim, como parte de um planejamento democrático da produção, será possível satisfazer as necessidades da maioria – ao invés de satisfazer a sede de lucro de uma minoria, como acontece hoje (todos os anos, as empresas do CAC 40 pagam dezenas de milhares de euros em dividendos). Ao mesmo tempo, será possível garantir condições mais adequadas para as atividades dos pequenos comerciantes, artesãos e fazendeiros, esmagados pelo grande Capital.

Nessa fase, o movimento dos coletes amarelos não questiona a grande propriedade capitalista. Não é de surpreender, uma vez que a esquerda e o movimento sindical esvaziaram essa questão de seus discursos e programas por décadas. É o momento de mudar isso. A França Insubmissa[3] e a CGT, em particular, devem explicar para que classe Macron trabalha, o que ela possui e o que faz. Devem se esforçar para conectar a luta dos coletes amarelos ao objetivo de um autêntico governo dos trabalhadores, ou seja, uma transformação revolucionária e socialista da sociedade. Sem dúvida, isso seria um poderoso eco para milhões de jovens e trabalhadores.

[1] Confédération Générale du Travail – Confederação Geral do Trabalho, mais antiga central sindical francesa, criada em 1895 (Nota do Tradutor – N.T.).

[2] Cotation Assistée en Continu – Cotação Assistida Continuamente, é o índice da Bolsa de Paris que reúne as ações negociadas das 40 maiores empresas francesas (N.T.).

[3] Movimento político surgido em 2016 que se organizou como partido para a eleição de 2017, tendo como candidato a presidente Jean-Luc Mélenchon (N.T.).

Editorial do Révolution, jornal da seção francesa da Corrente Marxista Internacional, sob o título “Pour un gouvernement des travailleurs ! – Edito du n°31”, em 1º de fevereiro de 2019.

Tradução de Nathan Belcavello de Oliveira

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