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Donald Trump e os refugiados

Donald Trump anda muito ocupado nos últimos dias. Enquanto luta com força e determinação para tornar a América grande novamente, é obrigado a lutar em diferentes fronts contra as forças sinistras que estão empenhadas em sabotá-lo e em evitar, dessa forma, que a América se torne grande.

À frente dessas forças malignas estão os meios de comunicação que, por razões desconhecidas, estão profunda e irracionalmente desgostosos com o presidente. Os canais de TV, conhecidos por suas inclinações de extrema esquerda, como a CNN, o estão bombardeando com uma avalanche de insultos e notícias falsas.

Recentemente, essa campanha da mídia alcançou novos e inauditos níveis de violência ao se utilizar dos serviços dos Correios dos EUA para enviar bombas a políticos, empresários e até mesmo celebridades de Hollywood. É verdade que esses ataques covardes foram todos dirigidos contra críticos do Sr. Trump, mas isso é claramente parte de um plano astuto para desacreditá-lo no período que antecede as eleições de meio de mandato.

O escândalo saudita

Depois, há o chamado caso Khashoggi, que causou tanto barulho na mídia. ?Como o homem era ele próprio um jornalista, isso dificilmente pode surpreender.? A mídia automaticamente chegou à conclusão de que ele havia sido assassinado por ordens do Príncipe Herdeiro saudita, aliado de confiança dos EUA e amigo pessoal de seu presidente.

Dentro de um autêntico estilo presidencial, o Sr. Trump manteve um ar de elevada objetividade, em contraste com a histeria da imprensa. Expressou plena confiança na capacidade dos sauditas de realizar uma investigação completa e imparcial dos fatos e de nos proporcionar a versão real do que aconteceu.

A verdade é que o Sr. Khashoggi, em campanha contra o regime saudita em geral e contra Mohammed bin Salman em particular, foi à embaixada saudita em Istambul e, deliberadamente, torturou a si mesmo até a morte em uma tentativa descarada de desacreditar o Príncipe Herdeiro.

Essa óbvia provocação foi claramente uma tentativa de perturbar as relações entre os EUA e a Arábia Saudita, que até então estavam se desenvolvendo de forma extremamente satisfatória. Felizmente, o Sr. Trump não se deixou levar por isso. Ele já havia sido informado por seus amigos sauditas, enquanto fazia a famosa dança das espadas, que esse tipo de coisas fazia parte da grande tradição religiosa e cultural do reino, que o manteve seguro por milhares de anos.

Isso lhe proporcionou uma clara compreensão de que assassinatos, tortura, cortes de mãos por roubos, apedrejamentos até a morte por adultério, a crucificação, o financiamento e armamento de Al Qaeda, do Talibã e de muitos outros grupos terroristas, o bombardeio do World Trade Center e a guerra genocida contra o povo do Iêmen, tudo isso fazia parte de um plano necessário para preservar a civilização na Península Arábica – uma região de importância vital para os interesses estratégicos e econômicos dos EUA.

A caravana dos migrantes

Em meio a todas essas crises irritantes, a atenção do presidente foi atraída para uma nova ameaça na fronteira Sul dos EUA. Uma horda de terroristas do Oriente Médio, disfarçada como refugiados de Honduras, caminhava direto para a fronteira, com armas perigosas como carrinhos de bebê, panelas e frigideiras.

Compreendendo imediatamente que essa invasão monstruosa representava uma ameaça à existência dos EUA, o Sr. Trump tomou a única decisão possível. Mobilizou o exército, despachando mais de 5.000 soldados bem treinados e motivados para defender a fronteira, agitando a bandeira do “verdadeiro patriotismo”.

O presidente, naturalmente, culpa os Democratas por essa invasão ameaçadora. Ele tuitou na quinta-feira passada que “as leis inspiradas pelos Democratas nos dificultam deter essas pessoas na fronteira” e disse que estava utilizando os militares para responder ao que chamou de “Emergência Nacional”.

Os migrantes da extensa caravana – estimada pela ONU em mais de 7.000 pessoas – esperam chegar aos EUA. A maioria é de hondurenhos, buscando escapar da pobreza e da violência, e inclui famílias, muitas com crianças.

A caravana cresceu dramaticamente logo após cruzar a fronteira mexicana em 19 de outubro, mas as doenças, o medo e o assédio policial reduziram seus números. Quando alcançarem a fronteira dos EUA, os números cairão ainda mais. Mas esse fato não melhorou nem um pouco o humor do Sr. Trump.

Trump: “voltem para o seu país!”

Trump tuitou uma mensagem direta aos migrantes na quinta-feira, instando-os a voltar para casa. “?Aqueles na caravana, voltem”, ele escreveu. “Não permitimos que se entre ilegalmente nos Estados Unidos. Voltem para seus países e, se quiserem, peçam a cidadania como milhões de outras pessoas estão fazendo!”

Esses apelos não parecem ter produzido o menor impacto na massa de pessoas desesperadas, que sabem perfeitamente que suas solicitações de cidadania estadunidense têm as mesmas possibilidades de êxito que tem Donald Trump de renunciar à sua riqueza pessoal e se retirar para um monastério.

Os migrantes não dão atenção aos noticiários hostis sobre eles. Mesmo que tivessem acesso ao noticiário, sua situação ainda os estimularia a prosseguir em sua terrível marcha para escapar da pobreza, da miséria e da morte. Quando perguntados sobre os tuites de Trump, respondem que ele deveria parar de atacá-los e disseram que continuariam para o Norte.

Candy Guillermo, uma migrante de 37 anos de idade da caravana que tinha ouvido falar do envio de tropas, ficou surpresa que ela e as crianças no grupo pudessem ser consideradas como uma ameaça. “Trump devia ser mais humano”, disse ela. “Só queremos dar aos nossos filhos um futuro melhor”.

Mas Trump está determinado a fazer com que nenhum futuro lhes seja dado. Os migrantes que chegam à fronteira dos EUA podem pedir asilo sob as leis estadunidenses e internacionais. Mas mesmo os que têm a sorte de serem aprovados em uma avaliação inicial, devem esperar que seus casos sejam decididos no tribunal de imigração, o que pode levar vários anos.

Tropas na fronteira

Os EUA tiveram 331.700 pedidos de asilo em 2017, mais do que qualquer outro país do mundo, de acordo com a Agência de Refugiados da ONU. Isso é quase o dobro dos pedidos de asilo nos EUA em 2015 e quase o quádruplo dos pedidos em 2013.

O desdobramento planejado de tropas em serviço ativo é em resposta a um pedido do Departamento de Segurança Interna, que administra o Patrulhamento Fronteiriço, disse um funcionário dos EUA. Além do exército, a Guarda Nacional também foi mobilizada. Mas todas essas medidas somente terão um efeito limitado na prevenção dos cruzamentos ilegais da fronteira.

As tropas da Guarda Nacional estão sob o controle dos governadores de estado e estão limitadas a funções de apoio como a vigilância. Mas a experiência mostra que, quando o desespero das pessoas alcança o ponto de ruptura, nada as deterá.

Não está de todo claro por que o exército foi enviado, visto que as tropas da Guarda Nacional podem realizar essas mesmas funções. A lei federal proíbe o uso de membros do serviço ativo para aplicação da lei dentro dos EUA, a menos que seja especificamente autorizado pelo Congresso. No início deste ano, o general Mattis autorizou o financiamento pelo Pentágono de até 4.000 tropas da Guarda Nacional na fronteira e, até agora, somente um pouco mais de 2.000 tropas foram utilizadas.

O número de tropas que estão sendo mobilizadas é mais do dobro das 2.000 que estão na Síria lutando contra o Estado Islâmico. E os soldados do exército dos EUA se ressentirão ao serem enviados para agir como força policial na expulsão de mulheres e crianças da fronteira Sul, em vez de lutar contra os terroristas no Oriente Médio.

Trump parecia sugerir o anúncio das tropas em uma manifestação em Wisconsin na quarta-feira. “Esperem para ver o que acontece nas próximas semanas. Vocês vão ver uma fronteira muito segura”, disse ele. “Basta prestar atenção”.

Mar de misérias humanas

Mas as fronteiras dos EUA não podem nunca estar seguras contra o mar de misérias humanas resultante do terrível colapso econômico e social de muitos países pobres da América Central. Enquanto essas desumanas condições prevalecerem, nenhuma quantidade de forças, ameaças e até mesmo muros, deterão o fluxo de pessoas desesperadas tentando encontrar uma saída do pesadelo em que estão forçados a viver.

Houve um tempo em que os EUA acolhiam os imigrantes. Os EUA, de fato, são uma terra de imigrantes que contribuíram enormemente para o seu desenvolvimento e riqueza. Na Estátua da Liberdade estão inscritas as palavras imortais: “Dê-me os seus cansados, os seus pobres, suas massas amontoadas que desejam respirar livremente”.

Parece que chegou a hora de erradicar essas palavras e substituí-las pelo sinistro tuite de Donald Trump: “Voltem para seus países e, se quiserem, peçam a cidadania como milhões de outras pessoas estão fazendo!”

A atitude desumana revelada para com essas pessoas pobres, cujo único crime é desejar escapar da pobreza e encontrar uma vida melhor para seus filhos, contrasta com a generosidade demonstrada pelos mexicanos comuns, que mostraram simpatia e compreensão com o sofrimento de seus irmãos e irmãs.

Em todas as etapas da marcha da caravana, as pessoas pobres do México mostraram o seu apoio, proporcionando alimentação grátis e as acomodações que podiam improvisar. Proprietários de carros e caminhões vêm recolhendo refugiados e levando-os muitos quilômetros à frente, na direção de seu destino.

Um homem, cujo caminhão normalmente transporta cargas de mangas e outras frutas aos EUA, agora transporta uma carga de refugiados sem custo, realizando repetidas jornadas de um lado para o outro. Ele comentou a um jornalista inglês: “Carrego mangas para os EUA em meu caminhão, e elas são recebidas sem qualquer problema. Por que não recebem as pessoas?”

A brutalidade do estado-nação

Essa é uma questão muito boa. Durante seu período progressista, a burguesia afastou as barreiras artificiais que separavam uma região ou cidade de outras regiões e cidades. Dessa forma, unificaram as forças produtivas em uma única unidade: o estado-nação. Mas agora as forças produtivas superaram os estreitos limites do estado-nação.

Todas as nações são forçadas, sob pena de extinção, a participar do mercado mundial. Vivemos em um sistema econômico globalizado, mas que é embaraçado pela existência continuada de fronteiras, tarifas, impostos, desvalorizações competitivas e toda a parafernália do protecionismo que são relíquias do passado e obstáculos ao desenvolvimento das forças produtivas e da própria civilização humana.

A chamada crise dos refugiados, que criou uma situação de pesadelos para milhões de pessoas, não pode ser resolvida com base no capitalismo. A burguesia não tem solução alguma para esse problema, exceto o arame farpado, as forças armadas, cães e violência. E mesmo essas medidas, em última análise, serão inúteis.

Assim como foi tarefa da burguesia abolir todos os particularismos locais, a tarefa histórica do proletariado é também tomar uma grande vassoura e varrer essa relíquia bárbara do passado que é o estado-nação. Defendemos a abolição da propriedade privada dos bancos e monopólios e a instituição da produção democraticamente planificada, não somente em termos nacionais, como também internacionais.

Pelo socialismo em toda a América!

Uma revolução socialista nos EUA significaria imediatamente a derrubada dos regimes reacionários ao Sul do Rio Grande. Uma federação socialista da América Central, conectada a uns EUA socialista em um plano democrático comum de produção, erradicaria rapidamente as horríveis condições que criaram os problemas que vemos em nossas telas de TV todas as noites.

Ninguém, além das pessoas mais desesperadas, embarcaria numa longa marcha através de condições difíceis e perigosas, para escapar de condições ainda piores. Somente garantindo trabalho, moradia, saúde e educação dignas de seres humanos, o problema pode ser resolvido. Mas nenhum desses objetivos pode ser alcançado sem primeiro derrubar as camarilhas parasitas de latifundiários e capitalistas que dominam esses países e condenam sua população à miséria.

Um plano harmonioso de produção mobilizaria o enorme potencial produtivo da América Central, colocando em ação toda a população no trabalho de reconstrução social. Unida ao gigantesco poder industrial dos EUA, uma federação socialista transformaria rapidamente toda a situação. Os países da América Central seriam o paraíso na Terra. Mas, sob o capitalismo, foram transformados em um inferno vivo para milhões de pessoas.

Recordemos que, antes da chegada dos europeus, a América Central abrigava uma civilização maravilhosa. Sob o socialismo, florescerá mais uma vez, devolvendo a riqueza àqueles que a produzem. A América Central voltará a ser um belo jardim, do qual ninguém jamais desejará sair.

Artigo publicado originalmente em inglês, no dia 1º de novembro de 2018, no portal “In Defense of Marxism”, sob o título: “Donald Trump and the refugees“. Tradução de Fabiano Leite.

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