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Destruindo a educação: O que é a educação a distância (EAD)

O modelo de Educação a Distância (EAD) no Ensino Médio se tornou uma possibilidade do ponto de vista legal a partir da aprovação da Reforma do Ensino. No dia 20 de novembro, o Ministro da Educação, Rossieli Soares, homologou as novas Diretrizes Curriculares Nacionais que regulamentam a EAD. Pelas novas regras, as escolas poderão ofertar a distância até 20% do ensino médio diurno, até 30% do ensino noturno e até 80% da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Os defensores da EAD falam da importância das novas tecnologias, da necessidade de chamar a atenção dos jovens da nova geração. A questão é que a EAD não resolve o problema de “atrair a atenção do jovem” e, apesar da constante propaganda da necessidade da tecnologia no ensino, não é esse o objetivo da proposta. Por mais que as novas diretrizes apontem que a escola deverá dar o suporte necessário ao estudante (mais de 1/3 das famílias brasileiras não possuem conexão à internet em casa), que caberá aos estados decidirem se a modalidade é necessária, as condições materiais da escola pública empurrarão a EAD goela abaixo de norte a sul do país.

Em primeiro lugar, é preciso recordar que a Reforma aprovada em 2016 não prevê o aumento do investimento para a educação e sim prepara o terreno para mais sucateamento. Segundo, o plano de governo de Bolsonaro, que assumirá em janeiro de 2019, defende que a educação pública brasileira não precisa de investimento, apenas necessita de uma melhor gestão. Soma-se a esses dois fatores a já aprovada Emenda Constitucional 95, conhecida durante o período que antecedeu a aprovação como “PEC do teto de gastos”, que prevê o congelamento de investimentos públicos por 20 anos.

Na prática, a educação a distância se tornará o “tapa buraco” das escolas que não podem contratar professores por falta de verbas ou por falta de oferta, atualmente há um déficit de professores de Física no país, já que milhares de estudantes terão acesso ao mesmo professor por meio do seu celular ou no computador de sua casa.

Um ótimo negócio

Essa modalidade de ensino já é uma realidade no ensino superior brasileiro, principalmente no setor privado, e destaca-se principalmente pela sua alta rentabilidade e baixa qualidade. A fórmula para o sucesso financeiro da EAD está ligada principalmente ao baixo custo em relação à estrutura e professores.

Se existe uma procura pela modalidade a distância, não se trata de uma busca por qualidade. A média de universitários do tipo EAD são trabalhadores, que possuem famílias, entre 30 e 40 anos, que buscam alguma promoção, mas não podem assistir aulas presenciais. Segundo o jornal O Estado de São Paulo (12/10), as “estimativas das autoridades educacionais e de entidades mantenedoras de ensino superior são de que, em 2023, o país terá mais alunos estudando a distância que nas salas de aula tradicionais”.

De acordo com o Inep, mais de 45% dos estudantes de EAD que fizeram o Enade 2017 atingiram média um e dois (em uma escala que vai até cinco) e 39,6% atingiram a média três, sendo que apenas 2% atingiu a média máxima.

Nos Estados Unidos, em 2016, cerca de 280 mil estudantes da educação básica tiveram o ensino totalmente virtual e cerca de 70% desses eram de escolas que recebiam verbas públicas, porém, com o ensino a distância gerenciado por empresas privadas pagas pelo governo. Essas empresas obtiveram altos lucros ao criarem turmas em que 60 estudantes eram acompanhados por um professor em média, mas que resultaram em testes cognitivos piores do que das escolas presenciais (Fonte: https://novaescola.org.br/conteudo/12923/ead-nao-e-politica-nos-melhores-sistemas-educacionais-do-mundo).

Em 2011, uma matéria do New York Times apresentou dados importantes sobre esse tipo de negócio e a quem ele interessa:

“Em quase todas as medidas educacionais, a Agora Cyber Charter School está falhando.

Quase 60% de seus alunos estão abaixo do nível de ensino em matemática. Quase 50% apresentam dificuldades na leitura. Um terço não se gradua no tempo [previsto]. E centenas de crianças, do jardim de infância até a terceira idade, se retiram dentro de alguns meses depois de se matricularem.

Pelos padrões de Wall Street, porém, a Agora é um sucesso notável que ajudou a enriquecer a K12 Inc., a empresa de capital aberto que administra a escola. E toda a empresa é paga pelos contribuintes.” (New York Times, 13/12/2013)

Organizar a resistência e o combate

Os ataques iniciados pelo governo Temer só se aprofundarão com Bolsonaro na presidência. O futuro ministro da Educação, Ricardo Vélez, vai aplicar o programa do presidente eleito na íntegra e já disse que para ele o “segundo grau teria como finalidade mostrar ao aluno que ele pode colocar em prática os conhecimentos e ganhar dinheiro com isso. Como os youtubers, ganham dinheiro sem enfrentar uma universidade”. O que o ministro não diz é que a maioria que tenta ser um youtuber não chega a nada. Se fosse há 20 anos, provavelmente o ministro diria que um jogador de futebol não precisa estudar para ganhar dinheiro (desconhecendo a realidade, onde mais de 95% dos jogadores ganha menos do que o salário mínimo).

O que se prepara é o fim da escola pública e gratuita e do acesso universal aos conhecimentos acumulados pela humanidade. A resposta a esse e todos os demais ataques será dada pelos estudantes e trabalhadores da educação, nas ruas, contra Bolsonaro e em defesa da educação pública, gratuita e para todos.

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