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Bolsonaro e a perseguição ao “marxismo cultural”

Artigo publicado no jornal Foice&Martelo 134. Clique aqui, para assinar, receber e ler online o conteúdo completo de todas as edições.

Uma das questões mais comentadas por Bolsonaro desde a campanha eleitoral foi uma suposta influência do marxismo na sociedade. Bolsonaro, às vésperas da posse como presidente, prometeu “combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino”. Uma das falas mais recorrentes dos membros do governo e de seus apoiadores tem sido a de que a vitória eleitoral de Bolsonaro significou a derrota do “marxismo cultural”, que teria inspirado os governos de FHC, Lula e Dilma. Segundo o Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em um artigo publicado em janeiro, “o marxismo cultural governou por dentro de um sistema aparentemente liberal e democrático, construído por meio de corrupção, intimidação e controle de pensamento”. Ricardo Vélez Rodríguez, na sua posse como Ministro da Educação, afirmou que o “marxismo cultural é uma coisa que faz mal para a saúde. A saúde da mente, do corpo e da alma”. Segundo o agora ex-ministro, “antes de mais nada somos pessoas individualizadas. O marxismo cultural passa a borracha em cima disso e nos considera massa. Nós não somos massa, somos indivíduos”.

Esses fragmentos mostram parte das ideias do segmento que constitui um setor ideológico reacionário do governo Bolsonaro, do qual fazem parte inclusive Bolsonaro e seus filhos. Os membros deste setor apresentam o “marxismo cultural” como uma perspectiva assumida pela esquerda ao deixar de buscar o poder pelas armas e passar a fazer sua disputa política no âmbito da cultura. Os marxistas iriam pouco a pouco tomando o controle de instituições como escolas, universidades, editoras e a imprensa, além de influenciar as artes e o entretenimento. Segundo eles, seriam expressões do “marxismo cultural” o petismo, a Rede Globo, o Partido Democrata dos Estados Unidos, a ONU e até mesmo a cinematografia de Hollywood.

A elaboração dessas teorias costuma ser atribuída a Olavo de Carvalho, que apresenta em seus textos discussões sobre a construção de uma “hegemonia cultural” de verniz gramsciano, ao perceber o crescimento desse referencial teórico dentro da esquerda nos anos 1980. Contudo, basta uma busca mais aprofundada e serão encontradas obras de outros autores, mostrando que não cabe ao “guru” de Bolsonaro sequer a criação dessas interpretações absurdas. Encontra-se no Brasil, por exemplo, os textos de Jorge Boaventura, colaborador da Escola Superior de Guerra e do Ministério da Educação durante a ditadura, especialmente em seu livro “Ocidente traído” (1980), com prefácio do sociólogo Gilberto Freyre, apoiador da ditadura. Nessa obra, Boaventura faz uma longa análise sobre as mudanças táticas que vinham ocorrendo no debate realizado pelos comunistas, em especial a partir da influência do eurocomunismo, apontando que ela teria como objetivo se infiltrar em espaços como imprensa e até mesmo igrejas para preparar as ações que levariam à transformação da sociedade.

Soma-se a essas formulações, no caso do governo Bolsonaro, um conjunto de teorias conspiratórias elaboradas por militares da reserva, normalmente publicadas em livros e revistas da editora Biblioteca do Exército, sobre uma suposta vitória da esquerda no processo de transição para a Nova República. Para esses setores, ainda que eles tenham vencido a guerra contra os “comunistas” no campo de batalha, teriam perdido no debate da opinião pública sobre o período. Esses setores atribuem essa derrota a uma infiltração das esquerdas em instituições como igrejas e imprensa, tendo como objetivo doutrinar as pessoas. Esse tipo de afirmação encontra-se, entre outros, no livro “Brasil sempre” (1987), que tenta ser uma resposta aos resultados da larga e cuidadosa pesquisa do projeto “Brasil: nunca mais”.

No livro de Boaventura é esclarecida a origem do inimigo que o governo Bolsonaro quer combater. Pode ter sido engraçado quando o ministro Ernesto Araújo identificou a Revolução Francesa com o marxismo, mas essa referência não é gratuita. Para os ideólogos que combatem o “marxismo cultural”, as revoluções burguesas teriam colocado em cena a dominação da filosofia materialista sobre a sociedade, deixando em risco os valores do Ocidente. Para esses setores, até mesmo a sistematização de um conhecimento científico, em especial a partir do Renascimento, associado ao fortalecimento da burguesia é algo que coloca em risco seu idealismo religioso, assumindo posturas reacionárias em relação a qualquer coisa que tente explicar a realidade a partir de sua concretude.

Em seu combate ao “marxismo cultural”, esses setores mostram sua enorme dificuldade em analisar a realidade concreta, não percebendo, entre outras coisas, que a temida “ameaça vermelha” é irreal. As mudanças que os ideólogos reacionários observam na postura dos partidos comunistas não têm relação com transformações nas posturas táticas trazidas pelo eurocomunismo, mas com o abandono da estratégia revolucionária pelo stalinismo e suas variantes muitas décadas antes. Em sua simplificação da realidade, os reacionários identificam equivocadamente o marxismo com os regimes burocráticos que governaram a União Soviética e seus satélites do Leste Europeu. Esses países foram governados por uma burocracia que, manipulando conceitos do marxismo para justificar seus próprios interesses materiais, ao conter ou até mesmo reprimir a mobilização independente dos trabalhadores, abriram as portas para a restauração capitalista.

Desde a década de 1920, a política stalinista se coloca como fiel parceira da democracia burguesa. O stalinismo e suas variantes – maoísmo, eurocomunismo, prestismo – ao longo do século passado, atuaram para trair os trabalhadores, enterrar revoluções e, quando chegaram ao poder, fazer uma política de “coexistência pacífica” com as potências imperialistas. Entre as políticas nefastas do stalinismo, uma das principais foi a das frentes populares, por meio de sua participação em governos burgueses, o que mostra a completa adaptação do stalinismo à democracia burguesa.

Os reacionários, ao fazerem o combate contra o “marxismo cultural”, estão fazendo o combate a uma versão deturpada de marxismo que, no final das contas, é uma versão da própria democracia burguesa. No limite, não seria equivocado afirmar que Bolsonaro, seu mentor e seus seguidores são completamente contrários até mesmo às conquistas da democracia liberal nascida das Revoluções Burguesas. Por isso Bolsonaro tentou se deslocar das próprias instituições e classes sociais, colocando-se como uma farsa bonapartista, mas se mostrou incapaz de abandonar as negociatas e esquemas que praticou ao longo de sua vida parlamentar. Essa é uma das razões que explicam os motivos de Olavo de Carvalho, coerente com sua compreensão reacionária, fazer críticas ao governo Bolsonaro e chegar a indicar que seus seguidores deixem seus cargos.

O combate dos reacionários contra o “marxismo cultural” esconde seu maior medo: o proletariado. Os reacionários entendem que a entrada em cena do proletariado pode vir a colocar em risco qualquer forma de dominação, como ocorreu na dinâmica europeia, que redundou nas revoluções de 1848. Os reacionários entendem que os trabalhadores não podem ter contato com qualquer forma de interpretação da realidade que sequer aponte para problemas sociais, nem mesmo a deturpação stalinista do marxismo. Para os reacionários, qualquer forma de reformismo é uma ameaça a esse idílico mundo ocidental em que tanto acreditam. Segundo o próprio Olavo de Carvalho, eles deveriam ter conquistado a “hegemonia cultural” antes de ter chegado ao poder, pondo fim à difusão de qualquer ideia minimamente crítica, para isso sendo útil mecanismos de censura e perseguição como o Escola Sem Partido.

Essas ideologias reacionárias são expressão da decadência do capitalismo, em sua fase imperialista, em que se criam todo tipo de explicações para enganar os trabalhadores e manter a dominação burguesa. Expressam uma ideia de liberdade baseada em escolhas individuais, denunciando qualquer forma estatal como opressora e combatendo as organizações dos trabalhadores. Olavo de Carvalho e seus seguidores, ainda que defendam ideias que parecem medievais, são parasitas do Estado burguês, cumprindo o papel nefasto de espalhar o irracionalismo em livros, vídeos e discursos políticos.

A difusão dessas ideias reacionárias permite aos revolucionários fazer um profundo debate sobre a compreensão da realidade, demonstrando a superioridade do materialismo histórico frente a uma variedade de compreensões¿ idealistas. Os reacionários muito comumente afirmam que suas ideias, um amálgama idealista de interpretações sem sentido, têm o mesmo status que o marxismo, uma compreensão científica da realidade. Coisa parecida dizem sobre o criacionismo em relação ao evolucionismo, afirmando que ambas seriam interpretações válidas. Usam para isso um discurso relativista semelhante àquele difundido pelos defensores do pós-modernismo, para os quais seria impossível investigar uma realidade concreta, limitando-se a construir narrativas que apresentam interpretações parciais. Os revolucionários podem retomar a longa tradição de combate às ideologias contrarrevolucionários que sempre se infiltraram no movimento operário, combatendo tanto as interpretações politicamente reacionárias como os disparates pós-modernos que se apresentam como progressistas.

Os revolucionários devem retomar a importância de debater sua própria forma de organização. Essa organização dos revolucionários passa, em primeiro lugar, pelas lutas cotidianas que, mobilizadas em torno a um programa de transição, podem levar os trabalhadores a superar uma consciência da realidade limitada aos marcos da sociedade burguesa. A superação de uma consciência reformista, espelhada em grande medida nos limites do sindicalismo, bem como o estudo do marxismo e o combate às ideias reacionárias, devem pavimentar o caminho para a construção de uma organização revolucionária, que encabeçará o processo de transformação da realidade no caminho para a revolução e o socialismo.

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