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A carta suprimida de Trotsky: uma breve introdução de Alan Woods

É um fato reconhecido que o acidente pode desempenhar um papel considerável tanto na história quanto nas vidas dos indivíduos. No transcorrer de minha vida observei muitos acidentes e coincidências extraordinárias. Mas nunca experimentei uma concatenação única e imprevisível de circunstâncias como a que vou relatar aqui.

Centra-se no extraordinário destino de uma simples carta, escrita por Leon Trotsky em 1938 e endereçada à Liga Internacional dos Trabalhadores [WIL] da Grã-Bretanha, que foi o ancestral direto e linear da atual Corrente Marxista Internacional. Essa carta não viu a luz do dia durante oito décadas. Todos pensávamos que estava perdida e, até certo ponto, essa suposição estava correta.

No entanto, agora, por uma reviravolta extraordinária dos fatos, a carta desaparecida foi devolvida aos seus legítimos proprietários. A forma como isso ocorreu está relatada aqui. Parece um dos episódios mais improváveis de uma série televisiva de detetives que frequentemente aparece em nossas telas de TV. E, como todas as boas histórias de detetive, esta também acaba apontando o dedo para aqueles que foram os responsáveis por um crime: o crime de tentar falsificar a história.

Leia também a introdução de Alan e a carta de Trotsky em: Inglês | Espanhol | Alemão | Francês | Italiano | Grego | Dinamarquês | Sueco | Norueguês | Russo | Árabe

Como tudo começou

A narrativa começa na segunda-feira, 21 de maio de 2018. A camarada Ana Muñoz está encarregada da tarefa diária de acompanhar a correspondência de nossa website In Defence of Marxism. Normalmente, essa tarefa é de caráter bastante rotineiro. Ocasionalmente, um item interessante da correspondência é recebido de algum país onde não temos muitos contatos. Mais frequentemente, no entanto, as cartas recebidas não vêm de muito longe. Algumas delas, na verdade, são simples brincadeiras.

Então, quando Ana recebeu uma carta de uma pessoa perguntando se estávamos interessados em algumas cartas de Trotsky que apareceram em uma caixa no sótão de sua mãe, que havia falecido recentemente, ela ficou intrigada e cética em igual medida. O texto da carta era o seguinte:

“Encontrei cartas de Leon Trotsky em um sótão. Você teria interesse nelas ou devo jogá-las fora?”

A mensagem era extremamente concisa, e até estranha. Estava assinada por MT. Mas não havia nenhuma indicação de onde viera ou mesmo se o remetente era um homem ou uma mulher. Quem era essa misteriosa pessoa? E quais eram essas cartas? Existiam realmente? Todos os tipos de dúvida surgiram em sua mente, mas ela decidiu responder que, naturalmente, estava interessada nas cartas. Ela escreveu de volta:

“Prezado MT,
Muito obrigado por sua oferta de algumas cartas de Leon Trotsky. Definitivamente, estamos interessados nelas se você não está. Na verdade, teremos um dos nossos representantes em Nova Iorque em breve. Seria possível ele entrar em contato com você e talvez tomar providências sobre este assunto? Por favor, nos retorne.
Com os melhores cumprimentos,
Ana Muñoz, em nome de IDOM”

Ana fez algumas investigações e descobriu que a mensagem vinha de um endereço IP de New York. A pessoa em questão era uma mulher, que escreveu para confirmar isso e depois enviou outra mensagem enigmática:

“Estou deixando New York. Existe um endereço para o qual possa enviá-las? MT”.

Ana respondeu, sugerindo que ela entrasse em contato com os camaradas de nossa seção americana que tinham uma sede em Nova Iorque. O contato foi eventualmente estabelecido. Ela escreveu de novo:

“Prezada MT,
Esta mensagem é para confirmar que passei o seu e-mail para nossos representantes em New York. Eles devem ter escrito para você agora. Também quero agradecer por sua gentileza em doar essas cartas.
Com os melhores cumprimentos,
Ana Muñoz”

Em nome da Internacional, o camarada Antonio Balmer entrou em contato com nossa correspondente e fez com que as cartas fossem enviadas.

A chegada das cartas

Então, esperamos. Uma semana se passou, depois outra, logo outra. Cresceu a suspeita de que nunca veríamos as cartas. Com todas as pressões do trabalho, quase esquecemos delas. Então, em um belo dia, recebemos uma animadora chamada telefônica de um camarada de New York: as cartas haviam chegado!

Ficamos naturalmente muito satisfeitos ao ouvir as notícias, mas ainda nessa etapa não percebemos o quão significativo esse evento seria. Não tínhamos ideia do que as cartas continham e assumimos que seriam de importância secundária – possivelmente de caráter organizacional ou administrativo. Não poderíamos estar mais errados.

Ted Grant na Esquina dos Discursos, em 1942. Foto: Ted Grant Archive

Antes de receber os originais das cartas, recebemos um e-mail com cópias anexadas. Eu estava sofrendo de um ataque severo de conjuntivite, então estava encontrando dificuldades para as ler. Pedi a Ana para ler as cartas para mim. Ela respondeu que havia três cartas, duas mais longas e uma outra, mais curta. Pedi-lhe para me ler a carta mais curta.

Ela começou a ler e fiquei imediatamente impressionado com o que estava ouvindo. Incrédulo, disse: “Pode ler isso de novo?” Ela o fez e meu espanto cresceu de momento. Exclamei: “Bom Deus! Isso é incrível. Você não sabe o que tem em suas mãos!”

Examinei a carta e vi que ela era de fato genuína. Aqui estava a própria assinatura de Trotsky, clara para que todos a vissem. Esta era a carta desaparecida que todos pensavam estar perdida durante as últimas oito décadas!

Ainda não ousando confiar em meu próprio julgamento, liguei para Rob Sewell, que alguns anos antes tinha ido à Universidade de Harvard para procurar a carta que faltava nos arquivos Trotsky ali guardados. Ele não encontrou a carta, embora tenha tropeçado por acaso em caixas de material não publicado da biografia de Stalin de Trotsky, que publicamos mais tarde pela primeira vez.

Eu disse: “Rob, você não vai acreditar nisso, mas parece que a carta que você estava procurando está agora em minhas mãos. De qualquer forma, é uma confirmação de que a carta existia, mas parece-me real”. Depois que li a carta para ele, ele me disse imediatamente: “Essa é a carta!”

Mas que carta é essa?

Durante sua vida, Ted Grant deu palestras sobre o movimento trotskista britânico dos anos 1930, no qual estava envolvido. Ele falava com frequência de um episódio relativo a uma carta que Trotsky nos enviara sobre a introdução ao seu artigo As lições da EspanhaO Último Aviso, escrita na primavera de 1938.

Ele sempre sustentou que Trotsky recebera uma cópia e que tinha respondido, acolhendo satisfeito sua produção e elogiando a introdução. Ele disse que Trotsky também acolhera calorosamente a iniciativa dos camaradas de montar uma gráfica própria.

O problema era que ele nunca teve uma cópia dessa carta e ela não se encontra entre os Escritos de Trotsky. Onde estava essa carta? Este era um enigma que pensamos nunca poder resolver. Mas, agora, foi resolvido. Vamos esclarecer o mistério ponto por ponto.

Três cartas

Aqui estão as três cartas na íntegra:

Avenida Londres, 127
Coyoacan, D.F.
México.
21 de maio de 1937
Prezado camarada Sumner,
Estou sinceramente grato a você por sua amigável e muito informativa carta. Posso entender muito bem os obstáculos que você tem que superar, mas é indubitável que a cada novo mês a situação mudará a seu favor. A única dificuldade era começar a investigação; agora a verdade se revelará quase tão automaticamente quanto uma força natural. Todas essas damas e cavalheiros, incluindo as velhas esposas políticas Brailsford e Fenner Brockway, logo se darão conta de que o terreno está esquentando debaixo deles e tentarão se juntar ao campo da verdade para evitar se comprometerem definitivamente. Podemos, abertamente e com total segurança, prever nossa vitória sobre os mestres do enquadramento e seus agentes de primeiro e segundo graus. A mudança que agora está ocorrendo nos EUA sem dúvida influenciará favoravelmente sua situação na Inglaterra.
Por favor, transmita minhas respeitosas saudações à sua mãe e meus melhores votos a todos os nossos amigos na Inglaterra.
Fraternalmente seu,
Leon Trotsky
LT/BW”.

15 de abril de 1938
Caro camarada Sumner,
Não escrevo há muito para você, mas você entende as razões. Recebemos seu telegrama e sua carta e Natalia e eu apreciamos calorosamente seus amigáveis sentimentos…
Não sei se você foi informado sobre a viagem do camarada Cannon à Europa e, em primeira linha, a Londres. É possível que o camarada Shachtman também vá com Cannon. Atribuo uma grande importância a essa viagem, especialmente pelas coisas na Inglaterra. Cannon e Shachtman são nossos melhores camaradas nos EUA, com uma perspectiva ampla e com uma séria experiência organizativa. Uma de suas tarefas é reunir-se com todos os grupos ingleses que pertencem ou desejam pertencer à Quarta Internacional e tentar normalizar a situação entre esses grupos para ajudar na cristalização de uma genuína seção britânica da Quarta Internacional. Espero que você e seu grupo deem a Cannon e Shachtman plena cooperação em sua tarefa.
Duvido que eles possam ficar em Londres por mais de uma semana, possivelmente menos. É absolutamente necessário usar esse tempo da melhor forma possível. Parece-me que o melhor procedimento seria entrar agora em conexão com os outros grupos e até mesmo estabelecer um comitê técnico com o propósito de organizar a reunião dos amigos americanos com cada um dos grupos britânicos separadamente, e depois com todos eles juntos. Você certamente receberá a tempo uma comunicação especificando a data precisa da chegada dos amigos americanos em Londres. Ficaria muito feliz de receber um informe de vocês sobre a preparação para as discussões com C e S e também, mais tarde, sobre os resultados dessa discussão.
Recebo suas publicações. Obrigado. Mas escrevo hoje somente sobre a viagem de ‘C-S’.
Os melhores cumprimentos de Natalia e de mim para você e todos os amigos.
Fraternalmente seu,
Trotsky
Coyoacan, D.F.
LT: joe 61-18
P.S. – Recebi uma carta de Frank Maitland em nome do ‘Partido Socialista Revolucionário’. Ele desejava publicar meu artigo sobre a Espanha como um panfleto e está preparado para fazer isso em cooperação com um de nossos grupos britânicos. A evolução de seu partido, escreve-me ele, é totalmente na direção da Quarta Internacional. Vocês estão em conexão com eles? Vou escrever a Maitland hoje”.

Frank Maitland era um trotskista escocês que, acredito, mais tarde se juntou à RSL por um curto período de tempo. Mas o panfleto sugerido dos escritos de Trotsky sobre a Espanha não apareceu. Provavelmente, nunca foi publicado. Em contraste, os camaradas da WIL publicaram um panfleto do artigo de Trotsky, As lições da Espanha, com uma introdução escrita por Ted Grant em colaboração com Ralph Lee. É essa introdução que Trotsky elogiou na carta seguinte:

29 de junho de 1938
Prezado camarada Sumner,
Recebi sua edição do meu panfleto sobre Espanha com sua excelente introdução. Foi realmente uma boa ideia revolucionária montar uma gráfica própria.
Recebemos a carta de Leon para você que acabou sendo sua última carta. Não me lembro se respondi a você naquele momento. Natalia se sentiu muito emocionada por sua atenção.
Eu lhe escrevi sobre a viagem de Cannon e Shachtman à Europa e em particular à Inglaterra e sobre os planos relacionados a essa viagem. Você recebeu essa carta? Você nunca me respondeu sobre esse assunto.
Minhas mais calorosas saudações a você e seus amigos.
Seu,
Leon Trotsky
Coyoacan, D. F.
LT: joe 71.2

Quem era Charles Sumner?

Charles Sumner (também conhecido como A. Boyd) era o nome de partido de Hilary Sumner-Boyd. Ele era na verdade americano, nascido em Boston, Massachusetts., em janeiro de 1913, e faleceu em Istambul, em setembro de 1976, à idade de 63 anos. Filho de Matthew Frederick Boyd e Anne Porter Boyd, ele certamente veio de uma família acomodada, recebendo uma educação privada.

Mais tarde, ele passou a estudar na Christ Church, em Oxford. Mas parece que teve certas influências radicais na família. Seu pai conhecia John Reed e Trotsky parece ter conhecido sua mãe. Ele era um intelectual talentoso que falava Grego, Alemão, Francês, Turco e línguas latinas.

Na época em que estamos interessados ele era o secretário da Liga Socialista Revolucionária Britânica e era o gerente comercial de A Bandeira Vermelha e seu apartamento, na Edgware Road, 238, servia como centro para as atividades da Liga. Ele desempenhou um papel ativo na campanha para expor a natureza fraudulenta dos Processos de Moscou. Ele também era membro do Secretariado Internacional e participou da conferência de fundação da Quarta Internacional.

Mas, como os camaradas da WIL haviam advertido, a chamada “Conferência da Unidade” de 1938, na Grã-Bretanha, estava condenada desde o início. A “unidade” artificial intermediada por Cannon e Shachtman começou a desmoronar imediatamente. [As razões são explicadas abaixo]. A nova organização logo se desintegrou. Isso deve ter produzido um efeito profundamente negativo em seu moral.

Seja qual tenha sido a razão, Sumner mais tarde deixou a Grã-Bretanha pela Turquia, onde abandonou a política ativa e se absorveu no mundo da academia, onde fez um nome por si mesmo. Ele foi o autor de um livro muito conhecido para turistas: Passeando por Istambul: um guia breve da cidade. Hilary também influiu no desenvolvimento do moderno teatro turco, e alguns de seus alunos passaram por carreiras destacadas como atores, diretores e dramaturgos.

Mas, apesar de haver abandonado o movimento trotskista, parece que nunca renunciou totalmente às suas ideias. O filósofo britânico A. J. Ayer lembrou-se de ter encontrado “… um americano chamado Hilary Sumner-Boyd, que era secretário e, pelo que pude descobrir, o único membro do partido trotskista de Oxford (!). Sua extrema gentileza de maneiras desmentia a ferocidade de suas ideias”.

Isso se confirma em uma carta que foi escrita por seu advogado depois que ele morreu. Relaciona-se com as cartas de Trotsky que ele manteve em segurança entre seus pertences todos aqueles anos. O advogado escreve:

Taskonak
Meydan Mahallesi, 18
Rumeli Hisari
Istambul
19 de março de 1977
A MW:
Como curador e executor do espólio do falecido professor Hilary Sumner-Boyd, tenho o prazer de lhe entregar, de forma absoluta e sem condições, as cartas adjuntas escritas a Hilary por Leon Trotsky em 15 de abril e 29 de junho de 1938; e 21 de maio de 1937.
Essas cartas podem ser usadas ou descartadas por você a seu critério.
Sei que Hilary teria ficado muito feliz em saber que essas cartas estão em seu poder. Elas não são de grande valor histórico, mas é algo que pode ser capaz de tocar uma parte da história. O desejo de Hilary era que seus bens fossem entregues àqueles que os usassem e apreciassem por seu próprio valor e não pelo seu. Está de acordo com esse desejo que essas cartas lhe sejam confiadas.
Michael J. L. Austin

Evidentemente, o advogado estava suficientemente familiarizado com seu cliente para estar ciente de suas inclinações políticas, e enfatizou que era o seu expresso desejo que essas cartas deveriam ser entregues a alguém ‘que as usassem e apreciassem por seu próprio valor e não pelo seu”.

Fica claro a partir disso que, embora o homem conhecido como camarada Sumner tivesse deixado de desempenhar um papel ativo no movimento trotskista revolucionário, ele guardou e entesourou essas cartas toda a sua vida, e que estava suficientemente preocupado sobre o seu futuro ao insistir, como seu último pedido, que elas fossem entregues àqueles que apreciariam seu valor e que as utilizariam apropriadamente.

Foi por essa razão que o advogado em Istambul teve o trabalho de estabelecer contato com alguém que era na época membro ativo do SWP americano. Não sabemos como a ligação foi estabelecida. O que sabemos é que o destinatário das cartas, MW, mais tarde as deu à pessoa que agora as entregou às pessoas para quem Trotsky originalmente as destinara.

Agradecendo a MT por seu generoso presente, também explicamos alguns dos antecedentes dessas cartas e por que elas significavam tanto para nós. Respondendo a nossa mensagem, ela proporcionou mais alguns detalhes de como as cartas vieram à luz:

Olá,
Fico feliz que as cartas tenham encontrado um destino correto.
Quanto a sua procedência, frequentei a escola com MW há muitos anos. Quando MW se formou, entregou uma pasta para a Coalizão de Estudantes Contra o Racismo da Tuft que liderei no ano seguinte. Ele passou as cartas para mim naquele momento pensando que eu as acharia interessantes. Encontrei-as novamente quando limpava o sótão de minha mãe depois que ela faleceu. Elas estavam em uma velha caixa de cartas e documentos ‘preciosos’ do ensino médio.
Não consegui obter as informações de contato atual de MW do escritório de ex-alunos da Tuft, então fiz uma pesquisa on-line e encontrei sua organização.
Lamento que elas tenham ficado desaparecidas por tanto tempo, mas estou feliz que tenham lhe encontrado e que preencham algumas lacunas. Agradeço-lhe por compartilhar sua importância comigo! Fora de seu contexto, eu as via de forma confusa, mas agora tenho uma nova avaliação de sua história e significado.
Atenciosamente.
MT

Por tais caminhos tortuosos se move a história!

Mais luz sobre essa questão foi proporcionada pelo camarada Steve Iverson, membro da seção americana da CMI baseado em Boston, que por muitos anos foi membro ativo do SWP. Comentando sobre um discurso que fiz no verão passado no Congresso Mundial da CMI na Itália, no qual eu descrevia a carta de Trotsky como “nossa certidão de nascimento”, Steve escreveu o seguinte:

“Os delegados ao Congresso Mundial da CMI em 2018 ficaram entusiasmados ao ouvir a narrativa de como chegou às nossas mãos a ‘certidão de nascimento’ de nossa tendência, a carta de Trotsky aos camaradas britânicos parabenizando-os pela publicação do panfleto sobre a Revolução Espanhola.
“À medida em que a narrativa se desenrolava, ainda se mantinha o mistério quanto à proveniência do próprio documento: isto é, como a cadeia de custódia foi construída de forma a trazê-lo ao seu lar legítimo.
“Ana informou que a mulher americana que nos contatou com a oferta das três cartas originais de Trotsky depois nos contou um pouco sobre as circunstâncias que as levaram a sua posse.
“Por acaso, estou em posição de ser capaz de preencher algumas das peças que faltam para esse quebra-cabeças.
“Nossa benfeitora nos disse que em meados dos anos 1970 era aluna da Universidade Tufts em Somerville, Massachusetts. Enquanto estudava ali, ela se juntou a uma seção do campus da Coalizão Nacional dos Estudantes Contra o Racismo, NSCAR (em suas siglas em inglês). Também fui membro dessa organização durante sua breve vida. E, embora viva agora a dois quarteirões dessa universidade, naquela época morava no extremo oposto do continente, na Califórnia.
“NSCAR foi fundada em janeiro de 1975 na Universidade de Boston por iniciativa do Partido dos Trabalhadores Socialistas dos EUA e de sua então organização da juventude, a Aliança Socialista da Juventude, como um veículo para ampliar e aprofundar as mobilizações em apoio à comunidade negra de Boston em sua luta contra as forças racistas que bloqueavam ativamente o movimento contra segregação nas escolas de Boston.
“Essa mulher nos explicou que, quando o presidente da seção da Tufts SCAR estava se preparando para deixar Boston e se mudar para uma cidade diferente, ele lhe ofereceu os três documentos. Ele os recebera como uma herança de um professor que havia morrido no início dos anos 1970.
“A conexão entre professor e aluno permanece um mistério, mas o aluno que herdou, MW, é alguém que um dia conheci.
“Ele, até onde sei, não é mais politicamente ativo. Mas, durante muitos anos, MW foi membro do Partido Socialista dos Trabalhadores. Ao longo dos anos, ele atuou como organizador de seções em um par de cidades diferentes e até mesmo concorreu como candidato do SWP a prefeito de Pittsburgh, Pensilvânia, em 1985.
“Uma coisa curiosa sobre a entrega dos três documentos por MW em 1977 é que ele fez isso em um momento em que os arquivos de Trotsky foram finalmente abertos à vista pública na Universidade de Harvard, e vários membros do SWP foram designados a pesquisar os arquivos para expandir o conteúdo da série de escritos durante o seu exílio final. Por que ele não os entregou ao partido a que pertencia?”

Como se viu, cópias de duas das três cartas foram encontradas no arquivo e impressas. Mas a terceira, a que mais nos interessava, nunca tinha visto a luz do dia…

Por que a carta foi suprimida

As duas primeiras cartas foram publicadas pelo SWP nos Escritos de Trotsky. A terceira não o foi. Simplesmente desapareceu, como se nunca tivesse existido. A pergunta que deve ser feita é: por que essa carta – e somente essa carta – foi suprimida durante décadas?

Se essa carta era de suma importância para nossa tendência, sua supressão deliberada foi igualmente de importância primordial para nossos inimigos políticos. E não pode haver dúvidas de que essa carta foi, de fato, deliberadamente suprimida pelos líderes do SWP, e especificamente por James Cannon.

Que provas temos dessa afirmação? Já afirmamos que havia três cartas envolvidas. Duas delas foram publicadas nos escritos de Trotsky que foram postos em circulação pelo SWP americano. Somente uma foi omitida, ou seja, é a famosa carta que faltava. O SWP não tinha uma cópia dessa carta? Isto é completamente impensável. Joseph Hansen, que foi um dos secretários de Trotsky, tinha uma cópia de toda a correspondência de Trotsky. Com toda a certeza ele tinha uma cópia dessa carta, como indicado pelo fato de que na parte inferior da carta há uma referência de arquivamento feita a: “Joe 71.2” (isto é, Cópia para Joe Hansen).

No entanto, nos arquivos de Harvard, não existe nenhuma cópia dessa carta. Como declaramos acima, em 2003 o camarada Rob Sewell foi à Universidade Harvard, em Boston, para procurar pela carta perdida nos arquivos de Trotsky. Ele não encontrou nenhum vestígio dela. No processo, contudo – como explicamos acima – ele encontrou várias caixas de material não publicado que havia sido omitido da biografia de Stalin escrita por Trotsky. Esse foi o início de um importante projeto da CMI de publicar uma versão nova e ampliada dessa obra importante. Mas, quanto à carta em questão, ela continuou desaparecida.

A fim de esclarecer as razões desse mistério, teríamos que voltar às origens de nossa tendência no período que antecedeu a tentativa de Trotsky de lançar a Quarta Internacional há 80 anos em 1938. Este não é o lugar para tratar em detalhe das circunstâncias nas quais isso aconteceu, ou a posterior evolução desastrosa que levou ao colapso da Quarta Internacional. Essas questões foram tratadas em outras obras, notadamente a História do Trotskismo Britânico e O Programa da Internacional de Ted Grant.

O escopo do presente artigo é muito mais limitado, mas, no entanto, lança uma luz considerável sobre os métodos falsos e a fraude organizacional que, junto a posições e análises políticas incorretas, constituíram um elemento importante na degeneração e colapso da Internacional depois da II Guerra Mundial.

Embora não possamos lidar com esse assunto em detalhes, é necessário fornecer pelo menos um esboço de certos eventos, para que o leitor possa ter uma ideia do que está por trás do caso da carta perdida.

As origens da CMI

A história de nossa tendência remonta diretamente à grande obra da Oposição de Esquerda de Leon Trotsky nos anos 1920 e, de fato, se estende aos dias heroicos da Terceira Internacional sob Lenin e Trotsky. O isolamento da Revolução Russa em condições de terrível atraso deu origem a uma enorme burocracia com muitos desejos de desfrutar dos frutos da vitória.

A história de nossa corrente está ligada diretamente à grande obra da Oposição de Esquerda de Leon Trotsky na década de 1920, e inclusive na Terceira Internacional sob Lenin e Trotsky. Foto: domínio público

A oposição da burocracia à revolução mundial tinha uma base material. O crescente estrato de funcionários conservadores queria uma vida tranquila, sem a tempestade e o estresse da revolução e livre do controle das massas. A cada revés da classe trabalhadora, essa casta privilegiada, composta de milhões de funcionários – muitos deles antigos burocratas czaristas – reunia mais poder em suas mãos, afastando a exausta classe trabalhadora.

Depois da última enfermidade de Lenin, Trotsky tomou sobre seus ombros a luta contra Stalin e a crescente ameaça burocrática, lutando pelo programa leninista do internacionalismo proletário e da democracia dos trabalhadores. Ele lançou a Oposição de Esquerda no final de 1923 depois do fracasso da Revolução Alemã, em uma tentativa de defender as ideias fundamentais de Lenin que estavam sendo sistematicamente revisadas e descartadas.

A irrupção dessa luta dentro da Rússia entre a Oposição e o Triunvirato de Stalin, Zinoviev e Kamenev foi inicialmente contida dentro da liderança do PCUS. No entanto, a luta tinha o seu próprio impulso e, com a morte de Lenin, a campanha para desacreditar Trotsky como sucessor de Lenin logo foi levada às fileiras da Internacional Comunista.

Como ocorreu dentro do aparato do Partido Russo, onde Stalin utilizou sua posição para selecionar o pessoal que era leal a sua facção, também Zinoviev selecionou líderes em seções separadas que se mostravam mais receptivos a Moscou. No entanto, nesses dias iniciais do movimento Comunista a liderança foi forçada a permitir uma discussão falsamente democrática das questões levantadas pela Oposição que haviam irrompido no Partido Russo.

A expulsão subsequente da Oposição de Esquerda em novembro de 1927 constituiu uma derrota para as forças genuínas do Leninismo dentro dos Partidos Comunistas. Isso abriu o caminho para o posterior deslocamento de Stalin e para a eliminação, mais tarde, da Oposição de Direita de Bukharin. Marcou mais um passo na consolidação da burocracia na União Soviética e na eliminação de todos os elementos da oposição dentro da Internacional Comunista. Após a expulsão da Oposição de Esquerda russa, expurgos semelhantes foram realizados em todas as seções da Comintern.

Um homem contra o mundo

Apesar de todos os esforços de Stalin e de seu poderoso aparato para esmagar a Oposição, Trotsky se recusou a ser silenciado. Da pequena ilha de Prinkipo, na Turquia, Leon Trotsky continuou sua teimosa batalha contra o estalinismo. Ele começou o lento e árduo processo de reunir os Comunistas que desejavam defender o verdadeiro programa e as tradições do Bolchevismo Leninista.

Mas Trotsky estava tentando formar uma nova Internacional sob as circunstâncias mais difíceis imagináveis. A maré de reação que varreu a Europa se refletiu em uma série de derrotas da classe trabalhadora e na ascensão do fascismo na Itália, Alemanha e Espanha. Na Rússia, os monstruosos julgamentos de Moscou representaram uma guerra civil unilateral da burocracia estalinista contra o Bolchevismo. De seu distante exílio mexicano, Trotsky continuou a luta, travando uma corajosa, mas solitária, batalha contra as adversidades: um homem contra todo o mundo.

Nessas circunstâncias, os quadros da nova internacional refletiam necessariamente um ambiente de derrota e reação: elementos desmoralizados, principalmente provenientes da pequena burguesia. A verdade é que Trotsky tinha recursos muito limitados a que recorrer. Muitos dos que vieram para a Oposição não o fizeram porque eram Bolcheviques-Leninistas convencidos, mas como uma reação contra os excessos do estalinismo. Alguns estavam cansados e esgotados e muitos outros estavam desorientados politicamente. Havia ultra-esquerdistas, quase-anarquistas, sindicalistas, Bordighistas e outros desvios.

Trotsky estava bem ciente desse problema. Esse fato está bem expresso no livro de Trotsky, A Crise na Seção Francesa, que cobre o período 1935-36. O mais revelador de tudo é a transcrição de uma entrevista que Trotsky deu a Fred Zeller, que na época era um dos líderes da Juventude Socialista francesa de esquerda. Quando Fred Zeller censurou Trotsky sobre a má conduta de seus seguidores na França, este não tentou defendê-los. Tudo o que disse foi:

“Você sabe, ele disse, não havia muita escolha. Você tem que trabalhar com o material que tem nas mãos. Isso nem sempre é conveniente” (Trotsky, Sobre Problemas Organizacionais, novembro de 1935, em A Crise da Seção Francesa, p. 67).

O Trotskismo na Grã-Bretanha

O julgamento de Trotsky dos trotskistas franceses poderia igualmente se aplicar aos que se chamavam trotskistas na Grã-Bretanha. Como os franceses, eram predominantemente elementos pequeno-burgueses, tipos boêmios organicamente incapazes de romper com a mentalidade do pequeno círculo e de encontrar um caminho até a classe trabalhadora. Estavam enfermos da doença do sectarismo, que atormentou o movimento desde o início e que Trotsky criticou muitas vezes.

Em uma tentativa para superar o isolamento dos trotskistas britânicos da classe trabalhadora, Trotsky tentou persuadi-los a entrar no Partido Trabalhista Independente (ILP, em suas siglas inglesas), que tinha se separado do Partido Trabalhista no início dos anos 1930 com o apoio de um grande número de trabalhadores que se moviam à esquerda. Tipicamente, eles resistiram ao seu conselho e somente um pequeno grupo de dezesseis a vinte pessoas finalmente ingressou no ILP. Infelizmente, eles eram inexperientes e entraram no ILP muito tarde, quando este já estava perdendo terreno. Eram conhecidos como o Grupo Marxista.

Raph Lee. Foto: Arquivo Ted Grant

A situação começou a mudar com a chegada de dois jovens e entusiastas trotskistas da África do Sul, um dos quais era Ted Grant. Eles fizeram certos ganhos, mas, nessa altura, as possibilidades de trabalhar no ILP haviam diminuído significativamente. Trotsky percebeu que se abriam claramente oportunidades mais favoráveis dentro do Partido Trabalhista, especialmente na Liga da Juventude Trabalhista. Ele escreveu:

“Dado que os jovens do ILP parecem ser poucos e dispersos, enquanto a Juventude Trabalhista é a organização de massa da juventude, eu diria: não construam apenas frações – procurem entrar. A seção britânica recrutará seus primeiros quadros dos trinta mil jovens trabalhadores da Liga da Juventude Trabalhista” (Leon Trotsky, Escritos, 1935-36, p. 203).

Ted Grant ajudou a desenvolver o Grupo Bolchevique-Leninista dentro do Partido Trabalhista, que se tornou conhecido publicamente como o Grupo Militant, devido ao nome de seu jornal. A essa altura, ele havia se juntado à maioria do grupo sul-africano, incluindo Ralph Lee. Mas a composição dos Grupos Militant era predominantemente pequeno-burguesa e seu regime interno refletia esse fato. Um centro de fofocas, intrigas e punhaladas era o tipo de ambiente insalubre sobre o qual prosperavam os elementos pequeno-burgueses.

Os velhos líderes invejavam os jovens e entusiasmados camaradas, dos quais estavam ressentidos e a quem viam como uma ameaça a sua posição e autoridade. Como sempre acontece em tais grupos, escândalos e ataques pessoais tomaram o lugar do debate político. Carentes da capacidade de discutir sua posição política, os líderes organizaram uma campanha de ataques escandalosos e calúnias dirigidos contra Ralph Lee. Essas acusações eram falsas e foram mais tarde repudiadas. Mas a atmosfera envenenada levou a uma inevitável ruptura nas relações pessoais. A crise terminou com a expulsão dos camaradas do Grupo Militant.

Os camaradas expulsos decidiram que era necessário começar de novo e lançaram a Liga Internacional dos Trabalhadores (WIL, em suas siglas em inglês), e a primeira edição de Workers’ International News saiu em janeiro de 1938. Eram apenas um punhado, mas o que lhes faltava em números e recursos, eles conseguiam na base do puro entusiasmo juvenil e revolucionário. Foram ganhos recrutas do Grêmio da Juventude do ILP, da Liga da Juventude Trabalhista e do Partido Comunista. Ted, mais tarde, recordou:

“Tínhamos oito membros. Éramos ativos; vendíamos em Hyde Park, Piccadilly e Tottenham Court Road. Onde havia greves, intervíamos e ganhávamos gente dessa forma, ganhamos trabalhadores. Como você sabe, éramos o único grupo de trabalhadores. Queríamos trabalhadores; não queríamos o lixo que se encontrava em outros grupos”.

Logo após a formação do WIL, Ralph Lee escreveu uma carta a Trotsky em 12 de fevereiro de 1938 (Leon Trotsky exile papers, Harvard, bms Russ 13.1, 2625). Ele também enviou dois números do Workers’ International News. Foi incluído o primeiro número do WIN, produzido em janeiro, contendo um artigo de Trotsky. Trotsky leu a carta e fez destaques sublinhando com lápis vermelho e azul. Há um sinal de interrogação feito por Trotsky na margem onde Ralph diz que lhe enviou cópias do WIN e um panfleto separadamente. Parece indicar que ele não os recebeu ou que precisava saber mais do grupo, ou ambas as coisas.

Pouco antes da guerra, a Liga Internacional dos Trabalhadores obteve sua primeira máquina de impressão: uma velha e danificada máquina, que Lee, muito habilidoso, conseguiu fazer trabalhar. Eles publicaram uma revista teórica chamada Workers’ Internacional News e também um artigo chamado Youth for Socialism. Também produziram um pequeno panfleto do artigo de Trotsky As lições da Espanha, com uma introdução que Ted escreveu em colaboração com Ralph Lee.

Jornal da Juventude Pelo Socialismo, de WIL, de março de 1939. O artigo principal foi de Ted Grant. Foto: Arquivo Ted Grant

Ralph explicou que o grupo havia adquirido uma impressora, na qual o novo WIN havia sido produzido. “Até agora publicamos dois números do Workers’ International News e o panfleto Resumo do Relatório Final da Comissão de Investigação sobre as Acusações contra Leon Trotsky nos Julgamentos de Moscou. Cópias destes lhe foram enviadas sob uma capa separada”. Essa frase está sublinhada em vermelho.

Ralph conclui sua carta com as palavras: “Até agora dependemos da iniciativa e da energia dos camaradas americanos, mas isto significa, entre outras coisas, preços proibitivos para nossas publicações que impediram sua ampla distribuição. Buscando dar um fim a essa dependência de uma seção externa da Quarta Internacional, esperamos ter sua bênção”. As últimas oito palavras estão mais uma vez sublinhadas por Trotsky com lápis vermelho. Isso era algo de que ele precisava para considerar e perguntar mais, possivelmente com Charles Sumner.

No arquivo de Trotsky encontra-se outra carta de Ralph Lee a Trotsky enviada em 14 de dezembro de 1938, anexando a declaração de WIL da Assembleia Geral de Membros que foi realizada em 27 de novembro de 1938 (bms Russ 13.1, 1111-1115).

Em uma discussão com os líderes do SWP americano em 23 de julho de 1938, Trotsky repreendeu-os por sua falta de auto-sacrifício revolucionário e por seu fracasso em montar uma imprensa. Ele passou a dar o exemplo do WIL:

“Se não tivermos mais nada, devemos ter pelo menos tais gráficas.
“Por exemplo, nossos camaradas ingleses agora têm sua própria gráfica, mas ao ter essa gráfica com dois ou três camaradas devotados, podemos divulgar não só o Socialist Appeal ao menos duas vezes por semana, como também panfletos, folhetos etc. O problema é que o trabalho partidário é demasiadamente baseado em concepções pequeno-burguesas.
“Devemos educar nossa juventude para mais espírito de sacrifício. Já temos muitos jovens burocratas em nosso movimento” (Trotsky, Escritos, 1937-38, p. 394).

Essas críticas devem ter picado Cannon. Foi um golpe para o seu ego inflado – e foi  dado pelo próprio Trotsky, por trás de cuja autoridade Cannon se abrigava. Seu prestígio estava sendo minado e isso, para ele, era um ofensa imperdoável. Isso explica sua rancorosa e incessante hostilidade a WIL, contra quem ele empreendeu uma ofensiva implacável, usando métodos que Trotsky teria condenado inequivocamente.

Curiosamente, enquanto outros comentários extensos de Trotsky eram reproduzidos textualmente nos boletins internos do SWP, o que continha essas afiadas críticas ao SWP foi omitido.

Como não unificar

O crescimento de WIL foi reflexo do lançamento do Socialist Appeal quinzenal em 1941 (número de 1 de março de 1942). Foto: Arquivo Ted Grant

Com a perigosa aproximação de uma nova Guerra Mundial, Trotsky decidiu acelerar os preparativos para a fundação de uma nova Internacional. Em agosto de 1938, pouco antes da conferência fundacional da Quarta Internacional, James P. Cannon do Partido Socialista dos Trabalhadores dos EUA veio a Londres com o objetivo de unir os diferentes grupos de Trotskistas britânicos em uma só organização.

Devido ao seu relacionamento especial com Trotsky, os líderes do SWP pensavam que tinham uma posição privilegiada no movimento internacional trotskista. Esse foi particularmente o caso com Cannon, que tomou como certo que os trotskistas britânicos seguiriam sua liderança em tudo.

Cannon tentou usar sua autoridade para pressionar os camaradas a se unir com os demais grupos. Eles lhe disseram que estavam a favor da unidade, mas somente na base de um claro acordo político sobre estratégia e táticas. Se Cannon avançasse com a unificação numa base sem princípios, eles lhe disseram que ele iria conseguir unir três grupos em dez. No entanto, ele perguntou se eles iriam à Conferência da Unidade e eles concordaram em ir e apresentar o seu caso.

Os membros da WIL foram compreensivelmente cautelosos. Depois de sua má experiência com o Grupo Militant, não tinham certeza de como qualquer unidade significativa pudesse ser alcançada. Eles eram, naturalmente, plenamente a favor da Quarta Internacional e tinham uma alta estima por Cannon, mas quando apareceram na conferência, ficaram escandalizados com o que viram.

A estória completa pode ser encontrada em A História do Trotskismo Britânico, onde lemos o seguinte:

“Como um prelúdio ao Congresso de Fundação da Quarta Internacional em Paris, James Cannon, o líder dos trotskistas americanos e delegado ao Congresso Mundial, veio dos Estados Unidos para preparar o terreno para uma organização Trotskista unificada na Grã-Bretanha. Ele imaginou que iria superar as diferenças e unificar o movimento de um só golpe. Naquele momento, existiam três grupos distintos reivindicando raízes trotskistas na área de Londres, e mais um na Escócia. Havia o Grupo Militant, a Liga Socialista Revolucionária, o Partido Socialista Revolucionário e nós, a WIL. O RSP era uma cisão do Partido Trabalhista Socialista, uma organização amplamente sectária na Escócia, com remanescentes em Glasgow, Edinburgh e alguns indivíduos em Yorkshire, que haviam se movido na direção do trotskismo.
“Então, era esse o estado das coisas quando Cannon veio a este país. Olhamos para Cannon, que tinha uma longa história revolucionária no movimento. Ele era o líder do SWP e estava em contato regular com Trotsky no México. Os camaradas o tinham em muito alta estima. Quando encontramos Cannon, ele nos falou que sua tarefa era a de unificar os grupos britânicos antes do congresso de fundação da Quarta Internacional em setembro. Esta era a data limite e não podíamos esperar que tudo ficasse certo na cabeça de todos antes de realizar essa unificação. De nossa parte, nós lhe falamos que estávamos a favor da unidade, mas que devia ser feita com base em princípios corretos. Naquele momento, dadas as diferenças fundamentais entre os grupos, havia que se enfrentar o problema imediato de como trabalhar: entrar ou não entrar, trabalho independente ou trabalho no Partido Trabalhista. Dissemos a Cannon que, antes que pudéssemos obter a unidade, tínhamos de concordar sobre uma política clara. Qualquer organização unida teria que concordar com uma política de entrada ou com uma política de trabalho independente. Somados a isso estavam, obviamente, os direitos da minoria de apresentar sua posição de forma totalmente livre e de tentar convencer a maioria dentro dos marcos da organização.
“Cannon disse: ‘Sim, mas a tendência da RSP e a tendência de James nunca aceitariam isso’. Então, respondemos: ‘Se não estiverem preparados para aceitar isso, então, naturalmente, não haverá nenhuma unidade no que nos diz respeito’”.

Os piores temores dos camaradas de WIL foram imediatamente confirmados. Toda a condução da Conferência “Unidade” foi uma farsa. Quando Ralph Lee viu o que estava acontecendo, com as portas abrindo e fechando e com as pessoas dando voltas e mais voltas, sondando e fazendo lobby enquanto os diferentes participantes se envolviam em negociações e em acordos a portas fechadas, ele comparou isso a uma farsa francesa de dormitório. As únicas pessoas que não fizeram lobby nem consultas foram os membros de WIL.

No fundo, o problema era que é impossível unir grupos com políticas, táticas e orientação radicalmente diferentes. Os camaradas da WIL tentaram apontar isso para Cannon, mas ele não ficou impressionado. Ele exigia unidade e isso era tudo o que havia para ser dito. No final, a WIL se recusou a participar, argumentando que o acordo de unificação, que permitia que os Trotskistas que se opunham a entrar se engajassem em trabalho aberto, estava fadado ao fracasso.

A resposta de Cannon foi categórica. Ele disse: “Esmagamos dissidentes como besouros”. Lee respondeu com a mesma nitidez, dizendo que unidade nessa base era impossível. Henry Sara, que estava presente, disse a Lee: “você não pode falar assim com um convidado”. Ted se levantou e protestou que “mesmo que o camarada Trotsky estivesse presente, nós teríamos o direito de apresentar qualquer posição que desejássemos. Essa é a democracia dentro de nosso movimento, não importa quem esteja aqui”.

A advertência de Lee foi confirmada dentro de uma semana. Maitland, que estava ali pelo RSP, foi repudiado por seu próprio grupo e eles recusaram a unificação. Logo se seguiram outras divisões. Dentro de seis semanas, a coisa toda já havia virado uma bagunça. Cannon não ficou satisfeito. Estava acostumado a fazer tudo do seu jeito. Culpou a WIL por seus problemas. O ressentimento resultante que ele sentiu com relação ao “esquadrão desajeitado” de Lee, Jock Haston e Ted Grant durou anos. É isso o que explica o mistério da carta desaparecida.

A razão pela qual Cannon não pôde tolerar os Trotskistas britânicos é simplesmente porque estes últimos não estavam preparados para aceitar sua liderança de forma incondicional e sem crítica. Ele sempre os considerou um incômodo. É significativo que, ao criticar a liderança da seção britânica “oficial” (o antigo RSL), ele a acusa de ser “cavalheiresca” e insuficientemente “brutal’ com relação a WIL. O fato de que ele pudesse equiparar o Bolchevismo à brutalidade é uma indicação de quão longe estava Cannon das genuínas ideias e métodos de Lenin e Trotsky.

É verdade que a firmeza era um elemento importante na mentalidade Bolchevique. Não é casual que, na divisão de 1903 entre Bolcheviques e Mencheviques, os primeiros fossem conhecidos como os “duros” e os últimos fossem chamados de “suaves”. Mas Trotsky assinalou que a dureza não era um monopólio do Bolchevismo. Nas fileiras dos Mencheviques havia também muitos homens e mulheres duros que eram dedicados à sua causa e estavam dispostos a lutar e a se sacrificar por ela, enquanto no campo do Bolchevismo não faltavam pessoas conciliacionistas, como vimos nos momentos decisivos da Revolução.

Em última análise, no entanto, dureza e suavidade nas tendências revolucionárias devem ter uma base política. A amorfia organizativa do Menchevismo era somente um reflexo de seu oportunismo político – de sua disposição de se comprometer em questões de princípio, de buscar acordos com classes alheias e, no final, passar para o campo da burguesia.

O próprio Lenin sempre foi duro e intransigente (pode-se até mesmo dizer “brutal”) sobre questões de teoria e princípios. Esta era a base real de seu centralismo. Mas este era apenas um dos lados da equação. O outro lado era a sua atitude extremamente flexível em relação às questões de organização e tática. E, no tratamento com seus camaradas, em vez de mostrar qualquer sinal de “brutalidade”, ele sempre demonstrava grande consideração, tato e humanidade.

Para Lenin, e também para Trotsky, era impensável que se pudessem usar métodos administrativos para resolver disputas políticas. Intimidação, ameaças, insultos e distorções eram totalmente estranhos para eles. Sempre trataram os oponentes políticos com respeito, respondendo aos seus argumentos ponto por ponto. É suficiente lembrar os primeiros cinco anos da Internacional Comunista para demonstrar isso. A escola de Cannon não era a escola do Bolchevismo, e sim a do Zinovievismo, que, por sua vez, preparou o terreno para o estalinismo.

A Conferência de Fundação

Na Conferência de “Unidade”, Cannon pediu a Ted e a Jock Haston para irem vê-lo. Ele lhes perguntou se iriam enviar um delegado à conferência de fundação da Quarta Internacional e pedir filiação como simpatizantes. Eles responderam que solicitariam a filiação como simpatizantes, embora talvez não pudessem levantar os fundos para enviar um camarada à Conferência de Fundação. Cannon respondeu: “Façam o que puderem. Se não, enviem uma carta”.

Eles discutiram e redigiram uma carta expressando apoio à Quarta Internacional e pedindo aceitação como uma seção simpatizante. O delegado francês sugeriu que a WIL deveria ser aceita como seção simpatizante. Isso provavelmente seria aceito, mas não aconteceu devido a intervenção de Cannon, que se vingou dos camaradas da forma mais mesquinha e rancorosa.

Revista teórica de WIL, “Notícias Internacionais dos Trabalhadores”, de julho de 1941. Foto: Arquivo Ted Grant

A carta de WIL não foi lida. Em vez disso, Cannon lançou uma diatribe contra a WIL por ter dividido, supostamente, por meras queixas pessoais. Cannon lançou uma diatribe cruel e mentirosa contra a WIL, que ele acusou de “nacionalismo sectário”. Isso era totalmente falso, como Cannon sabia muito bem.

Em conclusão, Cannon defendeu o reconhecimento do RSL como a seção britânica oficial. Essa proposta foi naturalmente aceita e, como aos delegados foi dada toda uma série de mentiras, o pedido de filiação como organização simpática de WIL foi rejeitado. Em consequência dessas manobras, a WIL foi injustamente censurada. “Todos os agrupamentos puramente nacionais”, dizia o comunicado oficial, “todos os que rejeitam a organização, o controle e a disciplina internacional são, em sua essência, reacionários”.

Quando Cannon escreveu um relatório para Trotsky sobre a conferência de fundação da Quarta Internacional, ele deu uma versão desonesta e destorcida de sua visita à Grã-Bretanha e à conferência de fusão e fez a seguinte avaliação do WIL:

“O Grupo Militant nos últimos seis meses sofreu uma divisão infeliz conduzida por Lee que resultou na criação de outro grupo sem qualquer base de princípios para a divisão (o Workers’ International News). Isso só poderia introduzir confusão e desmoralização – tanto mais que ambos os grupos trabalham exclusivamente no Partido Trabalhista. Ao mesmo tempo, o ramo de Liverpool se retirou do grupo Militant sob linhas oportunistas. (…)
“Na conferência de Londres, uma semana mais tarde, tive o apoio deles (o grupo de Edimburgo) desde o início para a unificação geral. Isso, sem dúvida, exerceu considerável pressão sobre o grupo de James [CLR].
“A resolução política aceita como base para a unificação estipulou que a principal ênfase deveria ser dada ao trabalho no Partido Trabalhista sem tornar obrigatória a filiação no Partido Trabalhista para aqueles camaradas que não tinham sido membros até agora. Isso pelo menos fornece uma orientação definida para o grupo unido. Foi o máximo possível. Parece-me que a coisa mais importante, se pelo menos tivermos uma orientação correta, era reunir todos os camaradas e acostumá-los no hábito de funcionar em uma organização que estaria firmemente filiada à Quarta Internacional. Mantivemos uma forte cruzada contra divisões irresponsáveis e deixamos claro que a conferência internacional eliminaria a possibilidade de uma multiplicidade de grupos e que reconheceria apenas uma seção por cada país. (…)
“O grupo de Lee consiste de cerca de trinta pessoas, na maioria jovens, que foram profundamente envenenados pelo antagonismo pessoal à liderança do grupo Militant. Eles tentaram obstruir a unificação, mas foram impiedosamente atacados na conferência de unificação, e suas fileiras ficaram seriamente abaladas. Sua atitude foi condenada na conferência internacional.
“Shachtman, durante sua visita à Inglaterra, também teve uma sessão com esse grupo. Sua opinião é igual à minha – que eles terão que se submeter à decisão internacional e entrar na seção britânica unida, ou sofrer uma divisão. É necessário apenas que a seção britânica assuma uma posição firme e resoluta em relação a esse grupo e, sob nenhuma hipótese, reconheça sua legitimidade. Infelizmente, isso é mais fácil de dizer do que de fazer. Os camaradas ingleses, por desgraça, são cavalheirescos. Não estão acostumados ao nosso ‘brutal’ (isto é, Bolchevique) tratamento de grupos que jogam com divisões” (James P. Cannon, Impresions of the Founding Conference, 12 de outubro de 1938, em Joseph Hansen, James P. Cannon – The Internationalist, Julho de 1980).

Os métodos zinovievistas de Cannon

Lenin disse que o rancor na política desempenha o papel mais desprezível. Ele estava se referindo a Stalin em seu Testamento – outro documento que foi suprimido deliberadamente por razões fracionais. Mas a maldade também era uma característica da psicologia e da metodologia de Zinoviev.

Em geral não se percebe que a campanha cruel de mentiras e calúnias dirigidas contra Trotsky depois da morte de Lenin foi lançada, não por Stalin, mas por Zinoviev, motivado unicamente pelo prestígio pessoal. Ele estava convencido de que era o legítimo herdeiro de Lenin, tinha inveja de Trotsky e se ressentia amargamente do enorme prestígio que ele tinha ganho nas fileiras do partido Bolchevique e da classe trabalhadora, em consequência de seu papel decisivo na Revolução de Outubro e na Guerra Civil que se seguiu.

Mais tarde, Zinoviev e Kamenev romperam com Stalin e se dirigiram à Oposição de Esquerda de Trotsky. Mas Zinoviev nunca abandonou seus métodos sem princípios, substituindo a intriga organizacional por uma luta honesta por ideias políticas. Sua total falta de princípios foi finalmente exposta quando capitulou diante de Stalin, na sequência da expulsão da Oposição de Esquerda em 1927.

James P. Cannon desempenhou um importante papel ajudando na construção da Oposição de Esquerda, na sequência de seu rompimento com Stalin em 1928. Ele tinha uma longa história no movimento dos trabalhadores, era um agitador talentoso e um organizador. De todos os líderes iniciais da Quarta Internacional, ele era provavelmente o mais capaz. Mas Cannon, como Zinoviev e Stalin, nunca foi um teórico.

Ele não apenas admitiu isso como se orgulhava disso. Ele disse: “Já baixei minha pesada mão contra alguém que me chamou de teórico. Eu próprio me chamo de agitador” (Cannon, Escritos, 1940-43, p. 360). Cannon não leva em conta o pequeno detalhe de que Lenin e Trotsky, os líderes do Partido Bolchevique, eram teóricos em primeiro lugar.

Cannon pertence a uma longa lista de autoproclamados revolucionários “proletários” que escondem sua ignorância teórica por trás de uma falsa fachada de “trabalhismo”. No lugar da teoria, vendem agitação ruim. Por trás de sua assumida atitude de desprezo pela teoria e pelos intelectuais, existe um profundo sentimento de inferioridade que esconde um desejo ardente de ser um mestre, não só da arte das intrigas e manobras organizacionais, como também um mestre da teoria – algo que, por desgraça, sempre escapa deles. Não há animal mais perigoso no movimento revolucionário do que um homem que não é teórico e pensa que é.

Cannon era um zinovievista e em seus métodos organizacionais continuou sendo um zinovievista durante toda a vida. Ele, efetivamente, admite isso em sua autobiografia:

“Os escritos da Oposição de Esquerda sob Trotsky foram suprimidos. Temos apenas pequenos fragmentos deles, ali e aqui, e eu, como todos os outros líderes do partido americano naqueles dias, poderia ser considerado um zinovievista. Fomos levados por aquela campanha da troika [contra Trotsky]”.

E novamente:

“Diria que seguramente poderia afirmar que, naquele tempo, eu era um zinovievista no sentido de que todos os outros líderes do partido o eram, no sentido de que eles estavam considerando para valer toda a linha de Moscou e sem examiná-la criticamente” (Cannon, Escritos 1945-47, p. 187, ênfase minha, AW).

O Zinovievismo é uma caricatura crua do Bolchevismo que levanta um lado das ideias de Lenin (a necessidade de uma organização revolucionária forte, disciplinada e centralizada), enquanto ignora ou minimiza a importância da teoria e das ideias. As tendências Zinovievistas estão lamentavelmente presentes em muitos grupos que hoje fingem estar sob a bandeira do Trotskismo. Essas tendências desempenharam um papel muito pernicioso na degeneração da Quarta Internacional e, finalmente, em sua completa liquidação.

Os métodos Zinovievistas de James Cannon eram evidentes desde o início – um fato que era bem conhecido por Trotsky, que em mais de uma ocasião os repudiou. A conduta de Cannon com relação aos Trotskistas britânicos foi um exemplo clássico desses métodos. Seu objetivo era estabelecer domínio completo. Qualquer um que ousasse contradizê-lo era tratado como um inimigo a ser expulso do movimento. A própria linguagem que ele usa está cheia do mais venenoso despeito. A seguir, um exemplo, à escolha:

“Todos os crimes e erros dessa putrefata fração de Haston podem ser rastreados até a sua origem, como uma camarilha sem princípios, em 1938. Quando eu estava na Inglaterra um pouco depois daquele ano, nas vésperas do Primeiro Congresso Mundial, denunciei que a facção Lee-Haston estava manchada pela falta de princípios desde o seu nascimento. Nunca tive confiança neles ao longo de seu desenvolvimento subsequente, independentemente de quais teses escreveram ou votaram nesse momento” (Cannon, Speeches to the Party, pp. 296-297, 6 de abril de 1953).

Escrevendo sobre a divisão na Grã-Bretanha, ele declara:

“A divisão no movimento inglês [1938] não foi explicável por razões políticas. Produziu um dano incalculável ao movimento e deixou-o em posição debilitada ainda hoje, depois da unificação finalmente provocada pela intervenção e pressão do movimento internacional” (Cannon, Writings and Speeches 1945-47, p. 61).

Isso é uma mentira descarada. Cannon estava bem ciente das diferenças políticas que separavam o WIL dos outros grupos que ele empurrou para uma unificação prematura e sem princípios. Os camaradas de WIL – como já vimos – advertiram-no de que tal “unidade” não duraria cinco minutos, e demonstraram estar corretos. Durante a II Guerra Mundial, em uma manobra igualmente sem princípios, Cannon retirou arbitrariamente o reconhecimento da seção “oficial” (o RSL) e reconheceu a WIL, porque esta última havia crescido com muito mais êxito durante a guerra.

Apesar de tudo, o SWP durante anos perpetuou a lenda de que “não havia diferenças políticas” entre o RSL e a WIL. Nas notas dos Escritos 1938-39 de Trotsky, p. 405, nota 238, lemos o seguinte:

“O grupo Lee surgiu em 1938 como resultado de queixas puramente pessoais e não tinha programa político discernível. Millie Lee era sul-africano e ex-membro do PC”.

Nessa nota é difícil de se identificar o que é pior: a distorção política ou a pura ignorância. O autor dessa nota lamentável sequer sabia que o líder da WIL não era Millie Lee, mas seu marido, Ralph Lee, embora Millie sem dúvida tenha desempenhado um papel muito ativo no grupo.

Uma nota dos Writings and Speeches de Cannon diz o seguinte: “Cannon foi à Inglaterra em 1938, antes da conferência de fundação da Quarta Internacional, como representante do Secretariado Internacional, com o objetivo de promover a fusão dos quatro grupos Trotskistas então existentes. Conseguiu unir três deles para formar a Liga Socialista Revolucionária (RSL em suas siglas em inglês) (esses eram o Partido Socialista Revolucionário; o Grupo Marxista, liderado por C.L.R. James; e o Grupo Militant). A RSL foi representada na conferência de fundação da QI e foi reconhecida como a seção britânica. A Liga Internacional dos Trabalhadores (WIL, em suas siglas em inglês), liderada por Ralph Lee e Jock Haston, se recusou a se juntar ao movimento unido e boicotou o congresso de fundação da QI. Sob pressão do movimento mundial, o RSL e a WIL se fundiram em 1944 para formar o Partido Comunista Revolucionário” (ênfase minha, AW).

Esta é mais uma mentira. Como vimos, a WIL não boicotou o congresso de fundação da Quarta Internacional. Embora a WIL estivesse formalmente de fora da Quarta Internacional, se considerava parte do movimento Trotskista mundial. Estava de pleno acordo com o programa e os princípios da Quarta Internacional, conforme expostos por Trotsky.

A atitude de Trotsky com relação a WIL

Apesar da sistemática campanha de falsificação de Cannon, é claro que Trotsky teve uma atitude inteiramente diferente. Ele estava preparado para ser paciente e para esperar e ver que grupo na Grã-Bretanha realmente representaria o futuro da Quarta Internacional. Por enquanto, ele estava reservando o julgamento. Mas, nas poucas referências que ele faz à WIL, evitou cuidadosamente qualquer crítica.

Se Trotsky estivesse convencido de que eles fossem, de fato, “nacionalistas sectários”, os teria atacado, sem dúvida, na linguagem mais forte. No início de 1939, CLR James deu um informe sobre os grupos Trotskistas britânicos a Trotsky. Tendo descrito os problemas no grupo oficial, ele passou a comentar sobre o que ele chama de grupo de Lee no Partido Trabalhista (isto é, a WIL):

“Há também outro grupo – o grupo de Lee no Partido Trabalhista – que se recusou a ter qualquer coisa a ver com fusão, dizendo que estava fadada ao fracasso. O grupo Lee é muito ativo” (Ver Trotsky, Escritos 1938-39, p. 250).

Trotsky ouviu atentamente, mas não fez nenhum comentário. Ele não condenou o grupo Lee, mas adotou uma abordagem de esperar para ver. Afinal de contas, no ano anterior ele havia comentado com entusiasmo seus esforços de publicar seu panfleto sobre a Espanha e de aquisição de uma prensa tipográfica. Em uma entrevista com Sam Bornstein, Ted Grant apontou que:

“O importante a lembrar é que Trotsky nunca atacou a WIL em todos os seus escritos. Ele estava esperando para ver o que iria acontecer. Ele sabia [como] Cannon e aquelas pessoas se comportavam. Ele tinha experiência com eles e, portanto, nunca nos atacou. (…) Ele escreveu nos elogiando, elogiando nossa imprensa, elogiando a introdução que Lee e eu escrevemos para o panfleto Lições da Espanha”.

Ted lembrou de sua alegria quando leram a carta de Trotsky – precisamente a carta que acabamos de encontrar – parabenizando-os pela publicação desse panfleto, no qual ele enfatizava a importância de uma organização revolucionário ter sua própria prensa tipográfica, independente dos estabelecimentos capitalistas. A partir disso, é claro que Trotsky estava acompanhando o trabalho da WIL, com interesse, e estava recebendo regularmente material deles.

Conferência Memorial Trotsky, de WIL, em agosto de 1942. Foto: Arquivo Ted Grant

Embora formalmente fora da Internacional, Ted e os outros ainda continuavam a se considerar como parte dela. “Nós nos víamos como o filho bastardo da Internacional”, ele explicou. Estavam confiantes de que mais cedo ou mais tarde seriam reconhecidos, de direito, como a seção britânica. A história provou que estavam certos. Como vimos, o grupo “unificado” começou a se separar assim que a conferência terminou.

Enquanto isso, a WIL continuou a progredir firmemente, ganhando trabalhadores, membros do ILP, do Partido Comunista e do Partido Trabalhista, e até mesmo da RSL, que foi reduzida a um grupo insignificante. No final, como vimos, Cannon foi obrigado a abandonar a moribunda RSL e a reconhecer a WIL, como a seção oficial da Quarta Internacional na Grã-Bretanha. Mesmo depois disso, no entanto, ele não cessou suas intrigas e manobras destrutivas contra a liderança da seção britânica, o que finalmente levou a uma nova divisão e à destruição da seção depois da II Guerra Mundial.

Devemos acrescentar que Cannon não foi o único responsável pelo naufrágio da Quarta Internacional. Ele não foi o pior dos chamados líderes que vieram à tona depois da morte de Trotsky. Os outros não eram melhores e a maioria deles era muito pior. Pablo, Mandel, Pierre Frank, Livio Maitan – tinham todos os defeitos de Cannon e nenhuma de suas virtudes. Nenhum deles estava no nível exigido pela história. Entre eles, a Internacional foi reduzida a pó.

Falsificação é um crime

Cartas podem se perder no correio, podem ser destruídas, extraviadas ou mesmo esquecidas dentro de uma caixa em um sótão. Mas, neste caso, o desaparecimento da carta de Trotsky não foi acidental, mas um ato deliberado de falsificação política. Esta é, naturalmente, uma alegação muito séria. Leon Trotsky conduziu uma luta implacável contra a falsificação histórica, que é um método estalinista e zinovievista completamente alheio às tradições do Bolchevismo. É, em uma palavra, um crime.

Que evidências temos para afirmar isso? Na investigação de qualquer crime é necessário estabelecer um motivo e uma oportunidade. A motivação de Cannon nesse assunto pode se expressar de forma muito simples. Ele estava motivado acima de tudo por sua obsessão com seu prestígio pessoal. Ele se considerava como o principal líder do movimento Trotskista internacional, superado somente pelo próprio Trotsky. Ele era bem conhecido por sua arrogância e intolerância com relação a qualquer oposição ou crítica. Essas são falhas muito sérias para qualquer um que pretenda ser um líder revolucionário.

Volante da Conferência Memorial Trotsky de WIL, em agosto de 1942. Foto: Arquivo Ted Grant

Embora Trotsky prestasse homenagem aos indubitáveis talentos de Cannon, particularmente na esfera organizacional, nunca aprovou os métodos organizacionais de Cannon. No momento da divisão no SWP sobre a atitude com relação à União Soviética, quando Shachtman e outros se curvaram sob a pressão da pequena burguesia e aceitaram a falsa teoria do capitalismo de estado, Cannon saiu em defesa da posição de Trotsky, que indubitavelmente estava correta. Mas Trotsky advertiu Cannon a não usar medidas administrativas contra a minoria ou a não tentar expulsar Shachtman da organização. Foi isso, no entanto, precisamente o que ele fez.

Quanto à oportunidade, Cannon as tinha todas para suprimir uma carta ou qualquer outro documento ou artigo que ele considerasse inconveniente de seu ponto de vista. O fato de que a carta perdida não pôde ser encontrada nos arquivos de Trotsky na Universidade de Harvard é, no entanto, outra indicação de quanto Cannon e Hansen estavam preparados para falsificar o registro histórico. Há todos os motivos para se acreditar em Sam Bornstein e Al Richardson, quando se queixam de que deve haver muitos documentos de Trotsky que estão perdidos exatamente por essa razão.

O fato de que Bornstein e Richardson certamente não estavam favoravelmente dispostos com relação a Ted Grant e à WIL, significa que eles podem ser citados como testemunhas confiáveis do fato de que Cannon e seus apoiadores suprimiram deliberadamente a carta que Trotsky escreveu elogiando o trabalho da WIL, por razões faccionais. Em seu livro A Guerra e a Internacional. Uma História do Movimento Trotskista na Grã-Bretanha 1937-1949, lemos o seguinte:

“Particularmente gritantes são as lacunas nos escritos de L. D. Trotsky, mostrando que mesmo as coleções mais abrangentes de suas obras sobre a Grã-Bretanha só podem reivindicar ser seleções incompletas. Em um caso, pelo menos, estamos provavelmente justificados em afirmar que um documento foi suprimido no interesse de considerações faccionais” (A Guerra e a Internacional p. xi, ênfase minha, AW).

A que carta estão se referindo? Eles explicam:

“Entre as cartas enviadas por Trotsky a Sumner nessa ocasião estava uma que se congratulava com a WIL pelo prefácio a sua edição de seu Lições da Espanha: O Último Aviso. Ainda não foi publicada na edição ‘Pioneer’ das obras coletadas do último exílio de Trotsky, por evidentes motivos faccionais. C. f. J. Haston, Carta a Pablo (M. Raptis), 19 de julho de 1947, no Boletim Interno do RCP, p. 1”. (Sam Bornstein e Al Richardson, A Guerra e a Internacional. Uma História do Movimento Trotskista na Grã-Bretanha 1937-1949, p. 46, nota 5, ênfase minha, AW).

O laço da história retificado

É compreensível que, para muitas pessoas fora de nosso movimento, pode parecer estranho que o surgimento de uma curta carta, contendo apenas alguns parágrafos, pudesse causar tanta emoção. Mas a publicação de qualquer carta de Trotsky é sempre motivo de celebração para aqueles de nós que permanecem firmemente comprometidos com as ideias que ele defendeu e com a causa pela qual dedicou toda a sua vida.

Mas, para os membros da Corrente Marxista Internacional, essa carta representa muito mais do que isso. É a prova viva do que Ted Grant, o fundador de nosso movimento, descreveu como o Fio Contínuo que nos conecta às origens reais do Marxismo internacional revolucionário. É, como afirmei no Congresso Mundial da CMI em 2018, nossa certidão de nascimento. Liga-nos diretamente a Leon Trotsky e é uma confirmação impressionante de que as ideias e métodos que defendemos tiveram a aprovação desse grande homem.

Estive recentemente em Nova Iorque onde participei de uma escola muito bem-sucedida dos ramos do nordeste da seção americana da CMI. A notícia das cartas só havia sido transmitida recentemente aos camaradas americanos, sobre os quais causou uma profunda impressão. Um veterano da seção me disse: “Se fosse inclinado à religião, consideraria a sobrevivência dessa carta como um pequeno milagre”.

Essas palavras não contêm um átomo de exagero. Pode-se pensar em dezenas de razões pelas quais essa carta nunca deveria ter visto a luz do dia. Ela viajou de Coyoacan, no México, a Londres, de Londres a Istambul, da capital turca a Nova Iorque, onde ficou por muitos anos, esquecida em uma caixa em um sótão, e finalmente, depois de odisseia tão incrível, abriu caminho para o destino correto depois de um atraso de precisamente 80 anos. Na história mundial dos serviços postais, essa deve estar entre as entregas mais extraordinárias já registradas.

Ted Grant me disse uma vez que, antes da II Guerra Mundial, havia um camarada em nossas fileiras que havia sido membro da Primeira, da Segunda, da Terceira e da Quarta Internacionais. Lamentavelmente, nunca encontrei esse camarada. Ele morreu muito antes de me juntar a essa tendência em 1960. Mas, para nós, é uma questão de grande orgulho que possamos rastrear nossa ancestralidade política através de Trotsky, no Programa de Transição, na Oposição de Esquerda Internacional, de Lenin e do Partido Bolchevique, de volta às ideias de Marx e Engels, à Primeira Internacional e ao Manifesto Comunista, que continua sendo hoje o documento mais contemporâneo e mais relevante do mundo.

Para aqueles de nós que tiveram o privilégio e a honra de trabalhar e lutar pela construção de uma genuína Internacional Trotskista, a descoberta de uma carta desaparecida foi uma experiência muito comovente e inspiradora. Foi como encontrar a última peça de um quebra-cabeça colossal, onde finalmente tudo se encaixa no lugar. Mas esse momento de triunfo foi, ao mesmo tempo, um momento cheio de realização trágica.

Ted Grant sempre insistia na necessidade de entendermos quem somos e de onde viemos. Ele frequentemente falava sobre a história da tendência (embora, por razões de tempo, nunca tenha conseguido ir além de 1949). E todas as vezes que Ted falava sobre esse assunto, nunca deixou de mencionar essa carta. Se ao menos Ted pudesse ter vivido para ver isso. Teria ficado muito feliz. Infelizmente não foi assim.

As rodas da história se movem tão lentamente, enquanto o relógio biológico que governa as vidas dos homens e das mulheres é impiedoso. Nascemos, vivemos e morremos. Mas a causa da classe trabalhadora é imortal, e esta causa é maior do que a vida de qualquer indivíduo. A luta continua e continuará até o momento da vitória final. É a essa causa que nos dedicamos, com plena e absoluta confiança de que triunfará.

Hoje, 80 anos depois de sua fundação, a Quarta Internacional não existe mais como organização. A multidão de seitas briguentas que reivindica seu nome não faz nada além de desacreditar o nome do Trotskismo aos olhos dos trabalhadores mais avançados e da juventude, que estão buscando o caminho à revolução socialista. Trotsky nos entregou uma bandeira limpa. Os pequeno-burgueses zinovievistas a mancharam e desacreditaram. Nós lhes damos as costas com decisão.

Mas a Internacional ainda existe hoje. Sua chama arde mais intensamente do que nunca, e é ainda mais necessária hoje do que nunca. Existe nas ideias, no programa  e nos princípios estabelecidos por Leon Trotsky, que, em essência, são as mesmas ideias que foram proclamadas por Marx e Engels no Manifesto Comunista, as mesmas ideias de Lenin e do Partido Bolchevique, as mesmas ideias que levaram os trabalhadores russos à vitória em 1917, as mesmas ideias que foram consagradas nos documentos dos primeiros quatro congressos da Internacional Comunista.

Hoje essas ideias são defendidas pela Corrente Marxista Internacional, que está orgulhosa de rastrear sua ancestralidade de Trotsky, desde as origens. Isso nos dá o direito de dizer a todo o mundo: esta é a nossa bandeira, nossa herança e nossa tradição. E é isto que nos enche da confiança que necessitamos para levar a luta até o fim.

Londres, 17 de dezembro de 2018.

Tradução de Fabiano Leite.

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