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Polícia enfrenta manifestantes contra a Guerra do Vietnã do lado de fora da Embaixada dos EUA, na Praça Grosvenor. Londres, 17 de março de 1968. Foto: Digital First Media

1968: um ano de revolução

Este artigo de 2001 foi publicado originalmente em inglês para introduzir um esforço da Corrente Marxista Internacional (CMI) em analisar vários dos acontecimentos revolucionários que preencheram e rodearam o ano de 1968. Acreditamos que seu conteúdo permanece plenamente atual, e serve como introdução para os jovens e trabalhadores que desejam aprender as valiosas lições da luta de classes no mundo todo que a geração de 50 anos atrás deixou para a nossa.

O editor

Em 1968, o mundo virou de cabeça para baixo. Os longos anos de crescimento econômico do pós-guerra tinham levado muitos a declarar que a luta de classes estava obsoleta, a revolução antiquada, a classe trabalhadora aburguesada, o capitalismo invencível. Dentro de pouquíssimos meses, no entanto, eles todos provaram-se errados.

No Vietnã, o imperialismo norte-americano estava sendo humilhado e milhões de estudantes e jovens no Ocidente estavam em rebelião aberta contra a guerra e o sistema que a gerou.

Polícia anti-distúrbios enfrenta estudantes e trabalhadores nas ruas de Paris em maio de 1968.

Desde a batalha campal da Praça Grosvenor, em Londres[1], passando pelas barricadas em Paris e indo até as manifestações em frente à convenção do Partido Democrata dos EUA em Chicago, os jovens estavam desafiando e enfrentando o sistema abertamente.

O papel-chave, no entanto, era do movimento da classe trabalhadora, há tempos desprezado por todos os acadêmicos e pelos autodenominados “radicais” como “comprado” e “pequeno burguês”. Um líder supostamente “marxista” começou 1968 declarando que os trabalhadores não iriam se mover por uma geração. Quão errados todos eles estavam.

Os eventos na França durante o Maio de 1968 demandam uma abordagem marxista genuína. A maior greve geral no período pós-guerra mostrou o imenso poder da classe trabalhadora, somente derrotada pelo papel infame do Partido Comunista Francês.

O ano de 1968 pôs um fim na “estabilidade” política do período pós-guerra e foi um indicador antecipado dos eventos revolucionários que se seguiram na década de 1970.

Tanques soviéticos confrontam manifestantes nas ruas de Praga, na Tchecoslováquia. Foto: Josef Koudelka/Magnum Photos

Na Tchecoslováquia, trabalhadores tomaram as ruas em luta contra a tirania do stalinismo. Na Irlanda do Norte, o movimento pelos direitos civis se desenvolveu rapidamente. Nos próprios EUA, assim como os grandes protestos contra a guerra, o movimento negro pelos direitos civis perdeu um de seus líderes, Martin Luther King, nas mãos de um atirador, mas iria desenvolver-se e desafiar o fanatismo reacionário do sistema político norte-americano.

Após o assassinato de King, muitas cidades importantes insurgiram-se. A maior revolta de todas foi provavelmente a de Watts Town, onde uma considerável área de Los Angeles foi incendiada.

Em junho, Bobby Kennedy, que bem poderia ter ganho a candidatura democrata para a eleição presidencial com uma proposta contra a guerra, foi abatido em uma manifestação.

Polícia de Chicago reprime manifestantes no Parque Grant, durante convenção democrata

Na própria convenção de Chicago, em agosto, a polícia atacou selvagemente os manifestantes do lado de fora e de dentro da convenção com cassetetes, porretes e gás lacrimogêneo. Ao menos dois delegados foram arrastados pela polícia para fora do salão, e o confronto alcançou seu ponto máximo nos degraus do Hotel Hilton, onde as televisões de todo o mundo mostraram as imagens da brutal repressão desferida pela força policial de Chicago.

Dentro da convenção, o senador Ribicoff pegou o microfone para condenar as táticas de “gestapo” do Prefeito de Chicago, Richard Daley, supostamente um companheiro democrata. A convenção recusou a moção contra a guerra por 1.567 votos a 1.041 e elegeu o nonagenário Hubert Humphrey como candidato presidencial.

Foto: Don McCullin/Contact Press Images

Na Grã-Bretanha, aquele foi um ano de protestos e ocupações estudantis. Um ano de agitação e experimentação cultural, com bandas como os Beatles, a maior e mais poderosa. Também foi o ano das primeiras movimentações contra as políticas de direita do governo trabalhista. Barbara Castle estava ocupada preparando o rascunho do controverso documento “Em Lugar da Contenda”, que ecoaria posteriormente na onda de legislações antissindicais dos conservadores na década de 1980. O governo tinha também introduzido um teto de 3,5% no aumento de salários. A conferência partidária de outubro enfureceu-se e votou contra a política de restrição de salário.

Durante as décadas de 1980 e 1990, muitas das mesmas velhas histórias nos foram contadas: o capitalismo mudou, o crescimento vai ser eterno, os trabalhadores não conseguem lutar, a classe trabalhadora desapareceu e assim por diante.

O ano de 1968 refutou todas elas, e a luta de classes de um novo período vai refutá-los novamente. Capitalismo significa exploração e repressão. A única saída real para o planeta é sobre as bases do socialismo.

[1] A Batalha da Praça Grosvenor ocorreu em 17 de março de 1968, quando uma manifestação contra a guerra do Vietnã estimada em 10 mil pessoas saiu da Praça Trafalgar em direção à embaixada norte-americana em Londres. Essa ficava na Praça Grosvenor, que foi cercada pela polícia, a qual exigiu que os manifestantes se retirassem e enviou a cavalaria para cima dos participantes. Estima-se que 300 pessoas foram presas, 86 ficaram feridas e 50, incluindo 25 policiais, foram levadas para o hospital.  (Nota do tradutor)

Tradução de Johannes Halter.

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