Download WordPress Themes, Happy Birthday Wishes
Foto: domínio público

100 anos: Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e a Revolução Alemã

A revolução alemã de novembro de 1918 envolveu milhões de pessoas, cuja maioria não era envolvida politicamente antes.. Como aconteceu na Rússia, a maioria dos que entraram recentemente no cenário político se voltou para os partidos que já conheciam. Na Rússia, depois de fevereiro, o poder passou para os mencheviques e social-revolucionários. Na Alemanha, as massas começaram com o Partido Socialdemocrata (SPD) e, em menor medida, com os Socialdemocratas Independentes (o USPD). Só através da experiência prática as massas mais amplas poderiam aprender que nem os líderes do SPD nem os do USPD poderiam resolver seus problemas.

Em uma revolução, a consciência das massas muda rapidamente, mas, para que elas tomem o poder, a história demonstrou que um partido revolucionário é necessário para lhes proporcionar a liderança. Rosa Luxemburgo enfrentava uma tarefa difícil. O que havia custado aos bolcheviques duas décadas de construção, ela estava tratando de construir em poucos meses. É quase impossível armar uma organização revolucionária em meio a uma revolução. No entanto, foi a tarefa que ela enfrentou.

Luxemburgo, no final das contas, se mostrou cética sobre se era uma boa ideia formar um novo partido e Leo Jogisches era diretamente contrário à ideia. Luxemburgo eventualmente se convenceu, mas era ainda contra chamar o partido de “comunista”. Segundo ela, era melhor chamar o partido de “socialista” porque, em sua opinião, facilitaria a conquista de membros dos partidos socialistas da 2ª Internacional. Ela temia que o nome de “Partido Comunista” conectasse o novo partido demasiado próximo dos russos e afugentasse as pessoas. Ela era ainda mais cautelosa e mais orientada aos membros da velha internacional do que Lenin, que argumentava que havia a necessidade de uma ruptura clara com o social-chauvinismo em todas as suas formas e que “comunistas” era, portanto, a melhor bandeira. A proposta de Luxemburgo foi rejeitada na liderança dos Espartaquistas, o Zentrale, que decidiu que o partido devia se chamar “comunista”. Em 29 de dezembro de 1918, os Espartaquistas votaram por deixar o USPD e se tornar um partido independente, com 80 votos a favor e 3 contra.

No dia seguinte, em 30 de dezembro de 1918, 129 delegados se reuniram com os Espartaquistas, com a Organização da Juventude Livre Socialista e com a Internacional Comunista (o IDK), e fundaram o Partido Comunista da Alemanha, conhecido como KPD. No entanto, os nome dos Espartaquistas também perdurou.

Em “Nosso Programa e a Situação Política”, Luxemburgo apresentou o programa político do partido e analisou a situação objetiva. Ela começou explicando a conexão do novo partido com Marx e Engels e com o “Manifesto Comunista”, além de argumentar que o SPD havia degenerado e se divorciado dessa base revolucionária. Segundo ela, era hora de lidar com o legado do SPD.

“Nosso programa é deliberadamente oposto ao ponto de vista do Programa de Erfurt; é deliberadamente oposto à separação das demandas imediatas, ditas mínimas, formuladas para a luta política e econômica, do objetivo socialista considerado como um programa máximo. Nessa oposição deliberada [ao Programa de Erfurt] liquidamos os resultados da evolução de setenta anos e, acima de tudo, os resultados imediatos da Guerra Mundial, no sentido de que: para nós, não há um programa mínimo e um programa máximo; o socialismo é uma só e a mesma coisa: este é o mínimo que temos de realizar hoje” (Nosso Programa e a Situação Política, Escritos Políticos, p. 288).

Rosa acreditava que a primeira fase da revolução, que começou em 9 de novembro, tinha terminado. os trabalhadores logo iriam começar a perder suas ilusões no novo governo e a luta de classes iria emergir. Foto: domínio público

Segundo Luxemburgo, a primeira fase da revolução acabou. Esta fase começou em 9 de novembro, quando emergiram os conselhos de trabalhadores e soldados. Os conselhos de trabalhadores e soldados mostraram o caminho a seguir, mas, devido à debilidade da revolução, permitiram que metade de seu poder escapasse. A primeira fase foi caracterizada por ilusões: entre os proletários e os soldados, sobre “a unidade sob a chamada bandeira do socialismo”; na burguesia; e na opinião de que o governo Ebert-Scheidemann poderia manter os trabalhadores reprimidos mediante o uso dos soldados. Essas ilusões agora foram dissipadas:

“Tais eram as várias ilusões que explicam os acontecimentos recentes. Todas e cada uma se dissiparam agora no nada. Mostrou-se que a união entre Haase e Ebert-Scheidemann, sob a bandeira do `socialismo`, apenas serve como uma folha de parreira para velar uma política contrarrevolucionária.” (Nosso Programa e a Situação Política, Escritos Políticos, p. 292).

Segundo Luxemburgo, era positivo que as ilusões fossem dissipadas. Abriu o caminho para uma nova fase, onde o governo perderia cada vez mais seu apoio, não só entre os trabalhadores, como também entre a pequena burguesia e os soldados. E a burguesia perderia, ao mesmo tempo, a confiança no governo. Na próxima fase, o governo, portanto, segundo Luxemburgo, passaria à contrarrevolução:

“Quando você ler o novo programa desses cavalheiros, verá que estão navegando a todo vapor até a segunda fase, a da contrarrevolução declarada, ou, como posso dizer, a da restauração das anteriores condições pré-revolucionárias” (Nosso Programa e a Situação Política, Escritos Políticos, p. 295).

Isso apenas aguçaria a luta de classes.

“As circunstâncias forçarão Ebert e Scheidemann ao expediente da ditadura, com ou sem a declaração de um estado de sítio. Mas isso, no entanto, como resultado do desenvolvimento anterior, pela mera lógica dos acontecimentos e pela operação das forças que Ebert e Scheidemann controlam, implicará em que, durante o segundo ato da revolução, uma oposição muito mais pronunciada de tendências e uma luta de classes muito acentuada ocorrerá. Essa intensificação do conflito surgirá, não somente porque as influências políticas que já enumerei, dissipando toda ilusão, levarão a uma luta declarada entre a revolução e a contrarrevolução; mas sim porque as chamas de um novo fogo estão se espalhando das profundezas da totalidade, as chamas da luta econômica” (Nosso Programa e a Situação Política, Escritos Políticos, p. 296).

Em seu discurso no Congresso Fundacional do Partido Comunista, Luxemburgo fez muito para alertar contra a crença de que a vitória seria fácil. Ela estava absolutamente certa sobre a iminente oposição contrarrevolucionária. Ela tentou incutir nos jovens comunistas um senso de realidade para as dificuldades que eles encontrariam. A velha classe dominante, com a ajuda do aparato estatal e do SPD, faria o que pudesse para evitar a revolução. E, no entanto, os comunistas estavam longe de conseguir escutar as massas. Os trabalhadores nas cidades estavam provavelmente radicalizados, mas no país a revolução ainda não havia começado.

“Na forma em que o descrevo, o processo pode parecer bastante mais tedioso do que se poderia a princípio imaginar. É mais saudável, penso, que devamos ser perfeitamente claros quanto a todas as dificuldades e complicações dessa revolução. Porque espero que, como em meu próprio caso, também no de vocês, a descrição das dificuldades das tarefas acumuladas não paralise seu zelo nem sua energia. Pelo contrário, quanto maior a tarefa, mais reuniremos todas as nossas forças. E não devemos esquecer que a revolução é capaz de fazer sua obra com extraordinária velocidade. Não faço nenhuma tentativa de profetizar quanto tempo ela necessitará para esse processo. Quem entre nós se preocupa com o tempo; quem se preocupa, desde que nossas vidas sejam suficientes para que isso aconteça!” (Nosso Programa e a Situação Política, Escritos Políticos, p. 308).

Tendências ultra esquerdistas

A maioria dos delegados no Congresso Fundacional do Partido Comunista era formada por jovens. Três quartos deles estavam abaixo dos 35 anos de idade e somente um (Leo Jogisches) tinha mais de 50. Metade era formada por trabalhadores industriais. Os membros jovens do novo Partido Comunista se caracterizavam por tendências ultra-esquerdistas. Frolich descreveu a composição:

“A Liga Spartacus era uma organização frouxa de somente poucos milhares de membros. Seu núcleo era a velha ala de esquerda da Socialdemocracia, uma elite marxista educada nas ideias táticas de Rosa Luxemburgo. A maioria da Juventude Socialista uniu forças com a Liga, que logo recrutou partidários adicionais entre muitos jovens que haviam sido conduzidos à ala esquerda do movimento dos trabalhadores por sua oposição à guerra. Durante os anos da guerra, todos esses elementos correram riscos e incorreram em perigos bastante novos para o movimento da classe trabalhadora na Europa Ocidental. Eram todos adeptos entusiastas da Revolução, embora muitos deles ainda tivessem ideias muito românticas sobre ela.” (Frolich, Rosa Luxemburgo, p. 310)

Quando Karl Radek chegou à Alemanha em meados de dezembro de 1918, ficou chocado com o ultra-esquerdismo dos Espartaquistas:

“Comprei uma cópia do jornal Rote Fahne. Enquanto me dirigia ao hotel, folheei o jornal. Fui tomado pelo alarme! No tom do jornal, parecia que o conflito final estava sobre nós. Nada poderia estar mais fora do esquadro. Se apenas eles podem evitar o exagero!…

“Foi a questão de como se relacionar com a Assembleia Constituinte que gerou a controvérsia… Era uma ideia tentadora contrapor o slogan dos conselhos ao da assembleia constituinte. Mas o próprio congresso dos conselhos era a favor da assembleia constituinte. Dificilmente se pode pular esse estágio. Rosa e Liebknecht reconheceram isso… Mas os jovens do Partido eram decididamente contra, ‘vamos destruir as metralhadoras’” (Citado em Debates sobre o Poder Soviético, pp. 159 e 162).

Um dos primeiros debates no congresso fundacional dizia respeito à participação nas eleições da Assembleia Nacional. Paul Levi apresentou a posição da liderança: a burguesia alemã queria usar a Assembleia Nacional para liquidar a revolução com a ajuda do SPD. no entanto, os Comunistas tinham que participar. As eleições significariam que a atenção das massas seria dirigida à Assembleia Nacional durante meses, e os Comunistas deviam explorar a oportunidade. Houve um amplo desacordo sobre a proposta de participar na eleição entre os jovens delegados, que repetidamente interrompiam Levi com insultos.

Karl Radek ficou chocado com a ferrocidade e dureza dos ultra-esquerdistas espartaquistas. Foto: domínio público

Luxemburgo, que de outro modo teria condenado fortemente a Assembleia Nacional como um desvio em oposição aos conselhos de trabalhadores e soldados, concordou com Levi e com o restante da liderança de que, depois que os conselhos tinham decidido convocar eleições à Assembleia Nacional, era necessário participar delas e usá-las para transmitir o programa político dos comunistas e, dessa forma, tentar alcançar as massas.

Mas Luxemburgo e o restante da liderança foram incapazes de convencer a maioria dos membros de que essa era a tática correta. A proposta de liderança de participar nas eleições à Assembleia Nacional foi rejeitada. A resposta de Luxemburgo ao congresso foi a seguinte:

“Entendemos e valorizamos os motivos pelos quais a oposição rechaça o ponto de vista do executivo. Contudo, nosso prazer não é sincero. Camaradas, vocês levam seu radicalismo com demasiada facilidade. Com toda nossa impaciência tempestuosa não devemos perder a necessária seriedade e a necessidade de reflexão. O exemplo russo contra a Constituinte [Assembleia] não se aplica. Quando a Constituinte [Assembleia] foi expulsa, nossos camaradas russos já tinham um governo de Trotsky e Lenin. Nós ainda temos Ebert-Scheidemann” (Citado em Netti, Rosa Luxemburgo, p. 474).

Na superfície, parecia que os jovens espartaquistas seguiam o exemplo revolucionário russo: não dissolveram os bolcheviques a Assembleia Constituinte? A diferença estava, como Luxemburgo apontou, em que os bolcheviques fizeram isso depois que já tinham ganhado a maioria dos Sovietes através da insurreição, e depois que o Congresso dos Sovietes tinha tomado o poder. Na Alemanha, na virada do ano 1918/19, a maioria das massas ainda apoiava o SPD e o USPD, e via o apelo por uma Assembleia Nacional como um passo à frente. A tarefa dos comunistas era ainda a de ganhar o apoio de uma maioria dos trabalhadores. Os jovens espartaquistas passaram pelas mesmas experiências dos Bolcheviques. Lenin resumiu essas experiências em “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”:

“No início do período mencionado [Fevereiro-Outubro de 1917], não pedimos a derrubada do governo, mas explicamos que era impossível derrubá-lo sem antes alterar a composição e a têmpera dos sovietes. Não proclamamos um boicote do parlamento burguês, da Assembleia Constituinte, mas dissemos – e após a Conferência de Abril (1917) de nosso Partido começamos a declarar oficialmente em nome do Partido – que uma república burguesa com uma Assembleia Constituinte seria melhor do que uma república burguesa sem uma Assembleia Constituinte, mas que uma república dos trabalhadores e dos camponeses, uma república soviética, seria melhor do que qualquer república parlamentar democrático-burguesa. Sem tais preparativos completos, minuciosos e longos, não poderíamos ter alcançado a vitória em outubro de 1917 ou ter consolidado essa vitória […] Em primeiro lugar, contra a opinião de líderes políticos tão destacados como Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, os ‘esquerdistas’ alemães, como sabemos, consideravam o parlamentarismo ‘politicamente obsoleto’ já em janeiro de 1919. Sabemos que os ‘esquerdistas’ estavam equivocados” (Lenin, Left-Wing Communism: an Infantile Disorder, pp. 21 e 46).

O boicote dos comunistas da Assembleia Nacional significava que eles tinham se isolado das massas, que participaram e apoiaram as eleições, principalmente por causa da introdução do sufrágio universal. Enquanto os comunistas boicotavam a eleição, 83% da população, a maior participação já vista na história da Alemanha, participavam. Mesmo depois dessa experiência, uma ala do Partido Comunista manteve sua posição. Lenin lhes respondeu:

“Como se pode dizer que o ‘parlamentarismo está politicamente obsoleto’, quando ‘milhões’ e ‘legiões’ de proletários estão não só a favor do parlamentarismo em geral, como também são francamente ‘contrarrevolucionários’!? É óbvio que o parlamentarismo na Alemanha ainda não está politicamente obsoleto. É óbvio que os ‘esquerdistas’ na Alemanha confundiram o seu desejo, sua atitude político-ideológica, com a realidade objetiva. Esse é um erro muito perigoso para os revolucionários” (Lenin, Left-Wing Communism: na Infantile Disorder, p. 47).

Além disso, na questão do governo, os jovens comunistas adotaram uma posição ultra-esquerdista. Segundo eles, o Partido Comunista deveria levantar o lema de que o governo Ebert-Scheidemann deveria ser derrubado. Luxemburgo advertiu-os no congresso contra acreditar que isso resolveria qualquer coisa. O governo não poderia simplesmente ser derrubado, mas tinha que ser minado pelas massas a partir de baixo. O simples fato de se levantar o lema da derrubada do governo sem estar em posição de substituí-lo por outra coisa não levaria o movimento à vitória, como ficou claro algumas semanas mais tarde.

É difícil condenar totalmente os jovens espartaquistas por sua posição ultra-esquerdista. Luxemburgo tinha uma posição muito dura contra a convocação da Assembleia Nacional e contra o governo em seus artigos, e não fez muito para educar os jovens comunistas na compreensão de como se conectar com as massas. Mas ela entendeu a necessidade de se conectar com as massas e que os comunistas tinham que ter uma abordagem flexível tanto com o governo quanto com a Assembleia Nacional.

As tendências ultra-esquerdistas também foram expressadas no congresso em duas moções propondo que a filiação sindical fosse incompatível com a filiação ao Partido Comunista. De acordo com os seus proponentes, os comunistas deveriam sair dos sindicatos e fazer o que pudessem para resistir a eles, porque havia uma maioria socialdemocrata nos sindicatos. A liderança do Partido Comunista conseguiu evitar o voto ao transferir a questão para uma discussão em uma comissão sindical.

A liderança do partido percebeu que um boicote dos sindicatos os isolaria seriamente das massas. Assim como na Rússia em 1905 (como Rosa descreveu), o movimento revolucionário na Alemanha significava que as massas, recém-despertas à vida política, fluíam para os sindicatos: a mais básica forma organizacional do movimento dos trabalhadores. Antes da revolução, havia 1,5 milhão de membros nos sindicatos. No fim de dezembro de 1918, o número se elevou a 2,2 milhões e, logo, a 7,3 milhões no final de 1919. Segundo a liderança do Partido Comunista, era tarefa dos comunistas trabalhar nos sindicatos, conectando-se assim com as massas e afastando-as da influência política dos socialdemocratas. Mas, devido à oposição entre os membros, todo um ano se passou antes que o KPD decidisse trabalhar nos sindicatos dominados pelo SPD.

Durante todo o congresso, foram realizadas negociações com representantes dos delegados sindicais revolucionários, mas eles estavam preocupados com as tendências ultra-esquerdistas dos Comunistas. Levantaram, portanto, uma série de exigências para se juntar a eles, incluindo a eliminação da decisão de boicotar a eleição; que a comissão do programa tivesse representação igual; e que qualquer referência aos espartaquistas devia ser removida do nome do partido. Como Pierre Broué escreveu, esses não eram requisitos aos quais alguns velhos bolcheviques, e provavelmente nenhum velho Espartaquista, teriam se oposto:

“Mas, para a maioria do Congresso, não eram aceitáveis e sua atitude irônica com relação a essas negociações foi, além disso, um dos sintomas que Radek considerou mais alarmante” (Broué, The German Revolution, p. 224).

Os delegados sindicais revolucionários escolheram permanecer fora do novo Partido Comunista e se juntaram ao USPD. Foi um grande golpe que enfraqueceu seriamente os comunistas. Os delegados sindicais revolucionários formavam o grupo que tinha a melhor conexão com os trabalhadores nas fábricas em Berlim. Sem eles, os comunistas não tinham nada realmente estabelecido entre a classe trabalhadora industrial. Ao mesmo tempo, significou que os trabalhadores mais radicais nas fábricas de Berlim foram privados de uma liderança política revolucionária e foram deixados sob a influência da esquerda politicamente dividida do USPD.

Luxemburgo podia ver os problemas, mas não ficou particularmente preocupada. Ela comparou a situação a uma criança recém-nascida que grita quando nasce. Ela descreveu para Clara Zetkin a derrota da liderança na votação sobre a participação na assembleia constitucional:

“Nossa ‘derrota’ foi meramente o triunfo de um radicalismo algo infantil, meio cozido e estreito. Em todo caso, isso aconteceu no início da conferência. Mais tarde, o contato entre nós [o executivo] e os delegados foi estabelecido… uma atmosfera inteiramente diferente [Resomanz] do começo… Os espartaquistas são uma nova geração, livre das tradições cretinas do ‘bom e velho partido’… Todos nós decidimos por unanimidade não transformar o assunto em uma questão fundamental [Kabinettsfrage] e a não levar isso muito a sério” (Citado em Netti, p. 475).

Apesar da fragilidade da juventude do Partido Comunista, sua formação foi de grande importância em termos internacionais. O partido russo esperava finalmente romper o isolamento do jovem poder soviético. Além disso, havia agora um partido que tomava claramente uma posição a favor da Revolução Russa: “nessa hora, o socialismo é a única salvação para a humanidade. Sobre os muros conspícuos da sociedade capitalista, as palavras de O Manifesto Comunista brilham como uma ameaça ardente: socialismo ou morte na barbárie” (Escritos Políticos, p. 270).

Com esta frase – “socialismo ou barbárie” – Luxemburgo e os Comunistas formularam a escolha que a humanidade enfrentava.

O partido foi fundado, mas ainda estava longe de estar preparado para levar a classe trabalhadora ao poder. Luxemburgo e o restante da liderança não podiam fazer nada mais além de esperar e desejar que os acontecimentos mostrassem que estavam certos e que os membros jovens aprenderiam através de suas próprias experiências e abandonariam suas tendências ultra-esquerdistas. O problema era que a revolução acabava de começar, e os comunistas não tinham o tempo de seu lado. A contrarrevolução na Alemanha, liderada pelos socialdemocratas, estava de longe melhor organizada e tinha mais experiência do que tinha seu homólogo russo em 1917. A contrarrevolução não esperou e o novo partido enfrentou um teste crucial imediatamente depois de sua formação.

A rebelião Espartaquista

A classe dominante e a cúpula do SPD ficaram impacientes. A tempestade revolucionária durou o suficiente e chegou a hora de se lançar a contrarrevolução. Mas os trabalhadores, particularmente em Berlim, se tornaram impacientes: sentiam que o poder estava escorregando através de seus dedos. Essa impaciência crescente de ambos os lados foi o pano de fundo do que mais tarde ficou conhecido como a “Semana Espartaquista”, embora os Espartaquistas não tivessem iniciado nem organizado o movimento.

A situação era crítica no início de janeiro. O USPD havia acabado de se retirar do governo e havia rumores de que um golpe militar estava sendo preparado, enquanto a caça às bruxas contra os espartaquistas continuava. O Estado-Maior e os ministros socialdemocratas planejaram um enfrentamento sangrento com os espartaquistas que, desde a formação do KPD, tinham feito campanha para derrubar o governo. O objetivo era lidar com a revolução e abrir o caminho para uma “solução” militar. O novo ministro da defesa, Noske (um socialdemocrata) estava preparado para levar as tropas contrarrevolucionárias ao ataque.

O governo encontrou a desculpa para atacar em uma questão secundária: a demissão de Emil Eichhorn, o chefe de polícia esquerdista de Berlim. Eichhorn era do USPD e era visto pelo governo como uma ameaça porque havia organizado uma força policial de esquerda de 2.000 trabalhadores e soldados que eram leais à revolução. Se o removessem, eles não só dispensariam o esquerdista Eichhorn como chefe de polícia, bem como sua renúncia poderia também funcionar como uma isca para os trabalhadores de esquerda em Berlim. Isso provocaria uma revolta e eles então poderiam mover os militares para esmagar a insurreição.

O governo inventou uma série de falsas acusações contra Eichhorn e ele foi notificado em 4 de janeiro de que deveria renunciar. Mas Eichhorn se negou, baseando-se em que contava com o apoio das massas, sentiu-se inspirado pela revolução e somente se retiraria se a revolução o exigisse.

Na tarde de 4 de janeiro, a liderança do KPD realizou uma reunião para determinar sua resposta à provocação do governo. Sabiam que seria uma loucura nessa situação se mover para derrubar o governo e, em vez disso, sugeriram uma greve geral. Broué cita um comunista anônimo que esteve presente na reunião:

“Houve um acordo completo sobre como avaliar a situação. Todos os presentes pensavam que seria insensato tentar tomar o governo; um governo apoiado pelo proletariado não teria durado mais de quinze dias. Consequentemente, todos os membros do Zentrale [a liderança eleita] concordaram que tinham de evitar quaisquer slogans que necessariamente significassem derrubar o governo naquele momento” (Citado em Broué, p. 240).

A atitude de Luxemburgo era que, mesmo que conseguissem derrubar o governo Ebert, seria inútil porque as províncias não estavam preparadas para acompanhar os trabalhadores em Berlim. Era uma situação que de muitas formas se assemelhava às Jornadas de Julho na Rússia. Em janeiro de 1919, os trabalhadores em Berlim estavam à frente do restante do país.

A impaciência crescente tanto dos trabalhadores quanto da classe dominante foi o pano de fundo da “Semana Espartaquista”, apesar de os espartaquistas não terem nem convocado nem organizado o movimento. Foto: domínio público

Quando o Comitê Executivo do USPD em Berlim soube da demissão de Eichhorn, imediatamente adotaram uma resolução que o apoiava. Eles se encontraram com representantes dos delegados sindicais revolucionários e com os líderes do KPD para discutir uma ação conjunta. Os três grupos decidiram convocar uma manifestação em 5 de janeiro. Centenas de milhares de trabalhadores foram às ruas e marcharam até a sede da polícia.

Ao mesmo tempo, grupos armados de trabalhadores ocuparam os escritórios editoriais de Vorwärts: eles ainda não haviam perdoado o SPD por “roubar” seu jornal. Foram persuadidos a abandonar a ocupação, mas logo o escritório foi ocupado novamente, assim como os escritórios editoriais de outros jornais civis. Os trabalhadores também ocuparam outros prédios, incluindo alguns a curta distância do prédio do Reichstag. Os eventos não foram organizados pelos espartaquistas, embora muitos dos que participaram fossem espartaquistas. Havia também, é claro, provocadores que tomaram parte nos acontecimentos da semana, mas não havia nenhuma dúvida de que a situação também refletia as frustrações dos trabalhadores de Berlim.

No dia seguinte, 500.000 saíram às ruas, muitos deles armados. Em muitas fábricas, os trabalhadores foram à greve. Foi uma das maiores manifestações na história da revolução. A situação estava alcançando o seu ponto culminante. O ministro Socialdemocrata Gustav Noske escreveu mais tarde:

“Grandes massas de trabalhadores… responderam ao chamado para lutar. Seu lema favorito ‘Abaixo, abaixo, abaixo’ (com o governo) ressoou mais uma vez. Tive que atravessar a marcha no Portão de Brandemburgo, no Tiergarten, e novamente em frente à sede do Estado-Maior. Muitos manifestantes estavam armados. Vários caminhões com metralhadoras estavam no Siegessaule. Repetidamente, pedi polidamente para me deixarem passar, já que tinha uma tarefa urgente. Amavelmente me permitiram atravessar. Se a multidão tivesse líderes determinados e conscientes, no lugar de balões de vento, ao meio-dia daquele dia Berlim estaria em suas mãos” (Citado em Debate sobre o Poder Soviético, p. 248).

Enquanto as massas se encontravam nas ruas, representantes do USPD, do KPD (Pieck e Liebknecht) e da liderança dos administradores revolucionários em Berlim se reuniram para discutir o que deveria acontecer. Eles não tinham nenhum plano ou ideia de em que direção liderar as massas.

O mesmo comunista citado anteriormente descreveu a situação como segue:

“As massas estavam ali desde cedo, desde às nove horas, no frio e no nevoeiro. Os líderes estavam em sessão em algum lugar, deliberando. O nevoeiro ficou mais pesado e as massas ainda estavam esperando. Mas os líderes deliberavam. Chegou o meio-dia, trazendo fome e frio. E os líderes deliberavam. As massas deliravam de excitação. Queriam ação, algo para aliviar seu delírio. Ninguém sabia o quê. Os líderes deliberavam. O nevoeiro ficou mais denso e com ele veio o crepúsculo. As massas voltavam tristemente para casa. Elas queriam realizar algum grande feito e não fizeram nada. E os líderes deliberavam. Eles tinham deliberado no Marstall. Continuaram na sede da polícia e ainda estavam deliberando. Os trabalhadores estavam ao relento na Alexanderplatz vazia, seus rifles em suas mãos, e com suas metralhadoras leves e pesadas. Dentro os líderes deliberavam. Na sede da polícia, as armas apontavam, havia marinheiros em cada esquina e, em todas as salas com vistas para a rua, havia uma massa fervilhante de soldados, marinheiros e trabalhadores. Dentro, os líderes estavam sentados, deliberando. Ficaram sentados a tarde inteira, ficaram sentados a noite inteira e deliberavam. E ficaram sentados até a madrugada da manhã seguinte – e ainda deliberando. Os grupos voltaram para o Siegessaule novamente e os líderes ainda estavam sentados e deliberando. Eles deliberaram e deliberaram e deliberaram” (Citado em Broué, p. 242).

Na reunião, foi criado um “comitê revolucionário” com representantes do USPD, KPD e dos Confederados Revolucionários liderado por Georg Lebedour, Karl Liebknecht e Paul Scholze.

Os líderes ficaram impressionados com o movimento massivo e sentiram que o tempo estava contra eles. Foram informados de que poderiam contar com apoio militar de vários quartéis, com base em informações que mais tarde se mostraram questionáveis. Com base nisso, adotaram uma resolução para remover o governo, mas ela nunca foi emitida. Liebknecht foi afetado pelo clima e apoiou a proposta. A única coisa concreta que saiu desse comitê foi a convocação de outra manifestação em 6 de janeiro. Nesse dia, no entanto, o entusiasmo revolucionário foi esfriado pelo comitê. Tornou-se claro que a maioria dos trabalhadores de Berlim estava pronta para atacar e se manifestar, mas não ainda para lançar uma insurreição armada. E, na tarde de 6 de janeiro, o movimento foi muito lento. O comitê central dos trabalhadores e soldados e o Comitê Executivo do Conselho de Berlim aprovaram a demissão de Eichhorn. O socialdemocrata Noske foi instalado na sede dos Freikorps e preparou o contra-ataque. O impulso do movimento diminuiu e a oportunidade foi perdida pelos líderes dos trabalhadores.

No Comitê Revolucionário havia um consenso sobre abrir negociações com o governo, mas Liebknecht era contra. O USPD chegou a iniciar as negociações na noite de 6 de janeiro. O objetivo do USPD era o de alcançar um cessar-fogo para que os prédios ocupados pudessem ser evacuados. O governo tornou-se gradativamente mais forte enquanto o movimento enfraquecia, e prolongou as negociações o máximo possível. Liebknecht visitou os trabalhadores que tinham ocupado os escritórios do Vorwärts e declarou que o USPD tinha traído o movimento ao abrir negociações: a única escolha agora era lutar até o fim. Em 8 de janeiro, as negociações foram interrompidas e o governo anunciou que enfrentaria a violência com violência. No prédio do Reichstag, uma unidade do exército “socialdemocrata” foi organizada com dois regimentos de seis companhias cada. Do lado da revolução, foi estabelecida uma Liga de Soldados Vermelhos, incitando os trabalhadores armados a ir às ruas. A situação estava à beira de uma guerra civil. Nas ruas de Berlim havia confrontos violentos. Mas nas reuniões nas fábricas havia uma maioria esmagadora a favor de parar a luta.

Durante 8-9 de janeiro, as forças do governo recuperaram mais prédios ocupados e cercaram os escritórios de Vorwärts com a intenção de, se necessário, tomá-lo à força. Na tarde de 10 de janeiro, enquanto as negociações ainda ocorriam, um dos negociadores, Lebedour, do USPD, foi preso junto ao líder espartaquista Ernst Meyer.

Liebknecht foi afetado pelo clima revolucionário e apoiou a proposta de remover o governo. Foto: domínio público

Na manhã de 11 de janeiro, as tropas do governo começaram a atacar o prédio de Vorwärts. Depois de duas horas, os ocupantes levantaram a bandeira branca e enviaram uma delegação para negociar a rendição. Os membros da delegação foram imediatamente presos. Foram dados aos restantes 10 minutos para a rendição. Vários prisioneiros foram assassinados no local.

Nas fileiras dos comunistas houve uma crise. Radek falou para o partido bater em retirada ordenadamente e apelasse aos trabalhadores para voltar ao trabalho e começar uma campanha para a reeleição dos conselhos dos trabalhadores. Luxemburgo concordou que a retirada era necessária, mas isso não significava que os comunistas pudessem dizê-lo abertamente, pois isso levaria a liderança do USPD a se render ao governo.

Luxemburgo avaliou criticamente a insurreição. Segundo ela, foi positivo que “as massas mais amplas do proletariado em Berlim e nos principais centros da revolução além do reino” tivessem percebido que a escolha estava entre abandonar o socialismo ou afastar do poder o governo Ebert-Scheidemann. Mas o movimento também mostrou debilidade: como continuar a luta? Em 8 de janeiro de 1919, ela escreveu:

“Mas o que ainda está longe de ser claro, em que a debilidade e a imaturidade da revolução são ainda evidentes, é a questão de como a luta para se livrar do governo Ebert deve ser realizada, de como se traduzir a maturidade interna que a revolução já alcançou em ações e relações de poder. Nada revelou essas fraquezas e deficiências tão claramente quanto nos últimos três dias.” (“Deveres Negligenciados”, Papers, p. 310)

Ela criticou em termos precisos os organismos que estiveram à frente das massas durante a insurreição de janeiro. Especificamente, ela condenou os delegados sindicais revolucionários e a liderança do USPD na Grande Berlim por deixar as massas entregues a si mesmas e por entrar em negociações com o governo, lutando sem consultar as massas. As massas estavam na rua, de acordo com Luxemburgo, mas havia uma necessidade de liderança, que não receberam:

“Quando as massas forem chamadas às ruas e estiverem em alerta, deve-se dizer claramente o que fazer ou, pelo menos, o que está sendo feito e planejado pelos amigos e inimigos. Em tempos de crise revolucionária, as massas, naturalmente, deveriam estar nas ruas. Elas são o único anfitrião, a única segurança para a revolução. Quando a revolução está em risco – e agora mais do que nunca! – então é dever da massa proletária estar de plantão onde o seu poder se expressa: nas ruas! Sua presença, seu contato mútuo, já é uma ameaça e uma advertência para todos os inimigos evidentes e ocultos da revolução: Tenham cuidado!” (“Deveres Negligenciados”, Escritos, p. 312).

O apelo de Luxemburgo era mais por ações do que por palavras: “A experiência dos últimos três dias está clamando em voz alta aos líderes do movimento dos trabalhadores: deixem de falar! Não fiquem se consultando sem cessar! Não negociem! Ajam!” (Deveres Negligenciados, Escritos Políticos, p. 313).

Ela não criticou aos próprios representantes do KPD, que também faziam parte do “movimento dos líderes dos trabalhadores”. Mas a história nos conta que, quando Luxemburgo subsequentemente se encontrou com Liebknecht no escritório do partido depois de uma reunião do Comitê Executivo Revolucionário, ela disse furiosa: “Mas Karl, como pudeste? E o nosso programa?” (Netti, p. 482).

Radek criticou fortemente o KPD. Em uma carta à liderança do partido, escrita em 9 de janeiro, ele apontou que o partido (muito corretamente), em seu programa “O Que a Liga Espártaco Quer?”, tinha escrito que só assumiria o poder se tivessem a maioria dos trabalhadores por trás dele, mas esse não era o caso ainda. Ele criticou duramente os representantes do partido no Comitê Revolucionário:

“Nessa situação, a ação que os delegados revolucionários decidiram no sábado como resposta ao ataque do governo social-patriótico à sede da polícia deveria ter tido apenas o caráter de um ato de protesto. A vanguarda proletária, exasperada pela política do governo e malconduzida pelos delegados revolucionários, cuja experiência política os tornou incapazes de compreender a relação de forças no Reich como um todo, em seu zelo transformou o movimento de protesto em uma luta pelo poder. Isso permite a Ebert e Scheidemann dar um golpe no movimento em Berlim que pode enfraquecer o movimento como um todo.” (Citado em Broué, p. 251)

Radek insistiu que os comunistas tinham de informar as massas de forma honesta e aberta de sua retirada e, dessa forma, limitando os danos.

“A única força capaz de evitar esse desastre é você, Partido Comunista. Você tem perspicácia suficiente para saber que essa luta é sem esperança. Seus membros Levi e Duncker me disseram que você sabe disso… Nada pode impedir que o mais débil se retire diante de uma força maior. Em julho de 1917, éramos infinitamente mais fortes do que vocês são hoje, e retivemos as massas com todas as nossas forças, e, quando não o conseguimos, com um esforço tremendo, lideramos a retirada de uma luta sem esperança.” (Citado em Broué, p. 251)

Mas os líderes do KPD avaliaram a situação de forma diferente, assim como Luxemburgo. No que viria a ser o seu último artigo, “A Ordem Reina em Berlim”, ela avaliou o movimento. Ela escreveu que era natural que o movimento terminasse em derrota. A derrota se deveu principalmente à imaturidade política das massas de soldados, o que em si era um “sintoma da imaturidade comum da revolução alemã”. Mas, ao mesmo tempo, ela disse que os trabalhadores não poderiam ter agido de forma diferente dada a provocação do governo.

“[…] Diante da descarada provocação de Ebert-Scheidemann, os trabalhadores revolucionários foram obrigados a pegar em armas. De fato, a honra da revolução dependia de repelir imediatamente o ataque, com força total, para evitar que a contrarrevolução fosse encorajada a avançar, e pelo temor de que as fileiras revolucionárias do proletariado e o crédito moral da revolução alemã na internacional fossem abalados” (“A Ordem Reina em Berlim”, Escritos Políticos, p. 316).

Embora o KPD e Luxemburgo tivessem julgado que ainda não era tempo para derrubar o governo, os artigos de Luxemburgo continham não só um duro ataque ao governo como também colocavam o maior obstáculo para a revolução avançar.

Segundo Luxemburgo, os trabalhadores não poderiam ter feito outra coisa além de pegar em armas e resistir ao provocativo desafio à revolução, era uma questão de salvar a “honra da revolução” e de não encorajar a contrarrevolução a dar novos passos à frente. De acordo com Luxemburgo, a revolução só poderia avançar. Para ela, não poderia haver uma ação defensiva tática e temporária. A vitória final seria preparada através de uma série de derrotas.

“Agora, é uma das leis fundamentais da revolução que ela nunca se detenha, que nunca se torne passiva ou dócil em qualquer etapa, uma vez dado o primeiro passo. A melhor defesa é um golpe forte. Essa é uma regra elementar de qualquer luta, mas é especialmente verdadeira em todas e em cada uma das etapas da revolução” (“A Ordem Reina em Berlim”, Escritos Políticos, p. 317).

Aqui, Luxemburgo se opôs ao conselho de Radek e às táticas dos bolcheviques. Em julho de 1917, os Bolcheviques tentaram convencer os trabalhadores de Petrogrado a não sair às ruas por temor de ficarem isolados. Quando fracassaram, participaram das manifestações, lado a lado com os trabalhadores, e tentaram torná-los os mais organizados e disciplinados possível. E quando se tornou evidente que não podiam resistir à contrarrevolução, organizaram a retirada da maneira mais ordenada possível. Radek escreveu ao Comitê Central do KPD para convencê-los de que um recuo organizado pelo partido era muito menos desmoralizante do que se o partido encorajasse ainda mais a luta que só terminaria em derrota.

Rosa Luxemburgo não poderia se permitir recuar, embora fosse óbvio para ela que a luta não seria vitoriosa por enquanto. Segundo Luxemburgo, a derrota se deveu não só à falta de maturidade da revolução, como também à liderança do movimento. No entanto, estava convencida de que as massas corrigiriam essas deficiências. “A liderança falhou. Mas uma nova liderança pode e deve ser criada pelas massas e das massas. As massas são o fator crucial. Elas são a rocha sobre a qual a vitória final da revolução será construída. As massas estavam à altura do desafio e, a partir dessa derrota, elas forjaram um elo na cadeia de derrotas históricas, que é o orgulho e a força do socialismo internacional. É por isso que as futuras vitórias surgirão desta ‘derrota’” (A Ordem Reina em Berlim”, Escritos Políticos, p. 319).

Os assassinatos

O SPD e as tropas contrarrevolucionárias haviam intensificado a caça às bruxas contra Luxemburgo e Liebknecht, o que significava que não podiam mais dormir em casa e sim em diferentes hotéis, e com apoio amigável. Em 13 de janeiro, o jornal do SPD Vorwärts publicou um poema acusando os líderes espartaquistas de serem covardes ao se esconderem enquanto trabalhadores eram mortos:

Muitas centenas de cadáveres enfileiradas,
Os proletários,
Karl, Rosa & Cia.,
Nenhum deles está ali,
Proletários”.
(Citado em Netti, p. 484).

Embora soubessem do perigo, Luxemburgo e Liebknecht se recusaram a deixar Berlim e a se esconder. Sentiam que era seu dever ficar juntos com os trabalhadores. Isso seria fatal. Luxemburgo estava bem ciente do perigo iminente. Em 25 de dezembro, ela escreveu a Clara Zetkin que havia recebido “aviso urgente” de fontes oficiais de “que os assassinos estão buscando por Karl e por mim e que não dormíssemos em casa…” (Citado em Netti, p. 475).

Depois das Jornadas de Julho, os Bolcheviques ficaram em situação similar: o partido foi banido e houve um mandado de prisão contra vários líderes do partido. Lenin queria comparecer ao tribunal e utilizar o julgamento para apresentar a visão política dos bolcheviques. Mas seus companheiros de partido o persuadiram a se esconder na Finlândia. Isso não tinha nada a ver com covardia: era uma necessidade prática.

Incontáveis exemplos através da história mostraram que a presença de um partido revolucionário é crucial em uma situação revolucionária e, dentro disso, a liderança do partido é primordial.

Indivíduos não podem criar uma revolução. Mas quando as massas se movimentam, os indivíduos podem desempenhar um papel decisivo quanto à possibilidade de a Revolução fracassar de um jeito ou de outro. Lenin foi crucial para o resultado da Revolução Russa. Em Outubro, quando os bolcheviques estavam decidindo se lançariam uma insurreição, ainda havia resistência de partes da liderança. Foi Lenin quem superou isso, com sua autoridade organizacional e política no partido. Não foi uma autoridade como nas forças armadas, mas uma autoridade construída durante décadas, durante as quais as ideias e análises de Lenin foram testadas na prática. Luxemburgo era, sem dúvida, a autoridade política mais alta no novo Partido Comunista Alemão e talvez a única capaz de superar as tendências de ultraesquerda no partido. Mas não era para ser assim.

Em 12-13 de janeiro, Luxemburgo e Liebknecht residiam em um apartamento em Neukölln, Berlim, e logo com um simpatizante em Wilmersdorf. Foi então quando foram presos na tarde de 15 de janeiro, junto com Pieck, que também se encontrava no apartamento. Eles foram levados ao Hotel Eden, a sede dos Freikorps, onde passaram por um tratamento duro. Liebknecht foi levado primeiro. Enquanto saía levou um golpe de rifle nas costas por parte do soldado de nome Runge. Foi levado ao parque Tiergarten, onde foi fuzilado. Depois os soldados disseram que ele havia sido morto “durante uma tentativa de fuga”.

“Fui, sou, serei!” Foto: domínio público

Luxemburgo foi em seguida. Ela também recebeu um golpe na cabeça com a coronha de um rifle e, depois de ser levada para um carro à espera, foi baleada na cabeça. Seu corpo foi lançado no Canal Landwehr, em Tiergarten, e não foi encontrado até o final de maio.

Os principais líderes da Revolução Alemã foram assassinados a sangue frio. A contrarrevolução havia cortado a cabeça do movimento revolucionário.

Ninguém foi seriamente responsabilizado pelos assassinatos. Em maio, foi realizada uma paródia de julgamento para os culpados. Durante o julgamento, o soldado de nome Pflugk-Hartung admitiu que tinha atirado em Liebknecht “enquanto este tentava fugir”. Pflugk-Hartung foi absolvido com grandes aplausos. Vogel, que era o responsável por toda a ação, admitiu que havia jogado o corpo de Rosa Luxemburgo no canal de Tiergarten, mas alegou que foi outro que atirou nela. O júri não pôde decidir se ela já estava morta a partir do golpe na cabeça, e Vogel enfrentou dois anos e quatro meses de prisão. Mas escapou da prisão e fugiu para a Holanda, onde ficou até que o clima esfriou e ele pôde retornar à Alemanha como um homem livre. O soldado Runge, que havia assassinado os prisioneiros, foi sentenciado a dois anos de prisão.

Os Comunistas responsabilizaram politicamente o SPD de forma direta pelos assassinatos que se tornaram para sempre uma linha divisória entre socialdemocratas e comunistas. Não ficou estabelecido se a ordem veio do topo do SPD, mas não há dúvida de que eles ajudaram a criar um clima onde os que realizaram os assassinatos não duvidavam da atitude do governo. As penas suaves confirmam isso. A responsabilidade política estava inteiramente nas mãos da liderança do SPD. Eles traíram a revolução e foram os responsáveis pelos assassinatos de Liebknecht e Luxemburgo.

“[…] Nenhuma responsabilidade direta de qualquer líder socialdemocrata pôde ser estabelecida. Mas sua responsabilidade moral é esmagadora. Dois dias antes, Vorwärts havia publicado o que não era nada menos do que um apelo ao assassinato de “Karl, Rosa e parceiros, nenhum deles morto, nem um só, entre os mortos”. Foram homens reunidos e armados, e, no final, protegidos por Noske e os ministros socialdemocratas, que realizaram os assassinatos. Scheidemann diria: ‘Veja você o que suas próprias táticas terroristas fizeram com eles!’.” (Broué, p. 257)

O assassinato foi recebido com raiva e choque. Durante uma reunião naquele mesmo dia, o conselho dos trabalhadores e soldados de Berlim expressou seu profundo desgosto pelos assassinatos e protestou contra o uso excessivo do terror pelo governo na esteira de sua vitória sobre os comunistas. O movimento revolucionário não terminou em 15 de janeiro com os assassinatos. O governo lançou uma campanha terrorista quando vários líderes foram presos e assassinados, e manifestações e levantes foram esmagados com grande brutalidade. Muitos milhares de trabalhadores foram mortos nas lutas com o exército e os Freikorps sob a liderança do SPD.

A contrarrevolução deteve a revolução por enquanto e assassinou seus líderes, mas a aparente ordem foi apenas temporária. O final do artigo de Luxemburgo se provou quase profético para as lutas revolucionárias dos anos próximos:

“’A ordem reina em Berlim!’ Seus lacaios tolos! Sua ‘ordem’ está construída na areia. Amanhã a revolução ‘se levantará novamente, chocando suas armas’ e para seu horror proclamará triunfalmente:
“Fui, sou e serei!”
(A Ordem reina em Berlim”, Escritos Políticos, p. 319).

Artigo publicado em 15 de janeiro de 2019, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Luxemburg, Liebknecht and the German Revolution“.

Tradução de Fabiano Leite.

Deixe Seu Comentário

x

Confira Também

Paquistão: rejeitado pedido de liberdade sob fiança de marxista preso, protestos continuam

Neste dia 19, o juiz da Sessão Adicional de Multan rejeitou o pedido de liberdade ...