Foto: Amazônia Real

Com a saúde em colapso, Manaus tem 100 enterros em um único dia

Os casos do novo coronavírus chegaram a mais de 2 mil no estado do Amazonas. Com os leitos de UTI esgotados e os hospitais sobrecarregados, o cenário é perfeito para um desastre sanitário comparável aos efeitos da gripe espanhola de 1918 e 1919, que matou 2,5% dos moradores da capital.

Embora o número oficial seja de 182 mortos por Covid-19 em Manaus, o próprio governo admite que, com a falta de testes, a subnotificação da doença é grande. Para se ter uma ideia, Manaus tem em média 30 enterros por dia em seus cemitérios. Na última quinta-feira, 16 de abril, foram 100 sepultamentos.

Sem recursos físicos e humanos para lidar com a pandemia, o governo equipou o Hospital Delphina Aziz, onde estão sendo concentrados os internados por causa do novo coronavírus, com dois containers frigoríficos para abrigar os mortos. Semana passada, um vídeo divulgado por funcionários do Hospital João Lúcio, que atende a Zona Leste de Manaus, mostra pelo menos dez corpos dividindo o mesmo ambiente com pacientes e funcionários. A resposta do governo será instalar containers frigoríficos em todos os hospitais da cidade, provavelmente para evitar imagens de corpos pelas ruas como visto em Guayaquil, no Equador.

No São Raimundo, um dos mais antigos bairros operários de Manaus, vídeos mostram pessoas desesperadas por atendimento em um pronto-socorro. Em um deles um rapaz filma seu pai idoso deitado em uma maca sem receber atendimento. Mais tarde ele próprio anunciou que o pai havia morrido. No último sábado, morreu também a diretora da unidade por Covid-19.

Segundo a vice-presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), Patrícia Sicchar, a situação da saúde no estado é muito pior que o informado e os hospitais já entraram em colapso, mas o governo se nega a admitir. Com o Delphina Aziz lotado, os médicos de outras unidades não conseguem transferir pacientes com suspeita de Covid-19 e não têm os equipamentos necessários para interná-los, uma vez que o governo concentrou todos os ventiladores mecânicos no hospital de referência. Faltam ainda tomografias para verificar o dano pulmonar dos pacientes com sintomas da doença e para piorar Manaus tem também um surto de H1N1 e está sem o Tamiflu, medicamento mais utilizado no tratamento da Influenza A. 

Mesmo quem consegue algum tipo de atendimento não tem qualquer garantia. A orientação do governo aos profissionais de saúde é que deem prioridade aos pacientes com “alta gravidade”. Faria sentido, não fosse a Covid-19 uma doença que se agrava com extrema velocidade e, como os próprios médicos relatam, é capaz de matar em poucas horas pessoas com quadros relativamente leves. A maior parte dos pacientes é enviada de volta para casa sem qualquer acompanhamento posterior e, se tiver sorte, recebe alguns pacotes de paracetamol. Alguns dos remédios receitados já não podem ser encontrados à venda nas farmácias.

Nos hospitais particulares a situação não é muito melhor. A Samel, uma das maiores redes da cidade, anunciou que não está mais aceitando nenhum plano de saúde para internações por Covid-19. Já o Hospital Check Up anunciou a suspensão dos atendimentos pela Manausmed, plano de saúde dos servidores municipais, e depois voltou atrás, mas sem dar garantias de que os pacientes não serão transferidos para hospitais públicos.

Nas lives transmitidas diariamente pelo Facebook para atualizar os números da doença, o governador, a secretária de saúde e a diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Sáude (FVS) se lamentam pela “falta de adesão ao isolamento” por parte da população, como se nada pudessem fazer em relação a isso. O mesmo Estado capaz de enviar um efetivo de mil policiais para uma reintegração de posse, como aconteceu no último 2 de março na comunidade Monte Horebe, agora diz não poder fazer nada para garantir as medidas necessárias contra o caos sanitário.

Wilson Périco, presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), afirmou em publicação no Facebook que parte das empresas paralisadas no Distrito Industrial de Manaus deve voltar a funcionar nesta semana. Em seus pronunciamentos o governador não demonstrou qualquer preocupação com esse anúncio e lamentavelmente nem mesmo o Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas (Sindmetal-AM), cujo presidente também comanda o diretório do PT em Manaus, se pronunciou contra a volta ao trabalho.

Um desastre anunciado

Não é de hoje que os amazonenses enfrentam o caos no serviço de saúde pública do estado. Em todo o interior do Amazonas não há um único hospital com UTI e os pacientes que precisam de cuidados intensivos precisam ser levados até Manaus para receber atendimento. Com frequência pessoas morrem esperando o transporte chegar ou no caminho devido às longas distâncias até a capital.

Já em julho do ano passado o sindicato denunciava atrasos nos pagamentos de cerca de 2 mil médicos, alguns deles ainda sem receber vencimentos de anos anteriores. Segundo o Conselho Regional de Medicina, 549 médicos deixaram o Amazonas em 2019 por causa dos constantes atrasos nos pagamentos. Isso corresponde a 10% dos médicos do estado.

Em dezembro de 2019, o Jornal Nacional noticiou a situação de UTIs neonatais onde os bebês eram deixados à própria sorte por falta de funcionários. Em janeiro do mesmo ano, uma inspeção na Central de Medicamentos encontrou ratos e remédios vencidos nos galpões quase vazios. Enquanto isso faltava soro fisiológico e algodão nas unidades de saúde.

Em 2018, o ex-governador do Amazonas José Melo e cinco ex-secretários de estado foram presos por integrarem uma organização criminosa que desviou mais de R$ 100 milhões da saúde ao longo dos anos. Enquanto isso, 774 profissionais selecionados em um concurso público realizado em 2010 pela Secretaria de Saúde só foram chamados para assumir seus cargos agora, em meio à pandemia.

Assim como nos campos econômico e político, a crise da saúde no Amazonas não foi causada pela pandemia do novo coronavírus, mas apenas potencializada por ela. A verdade é que a saúde nunca foi prioridade para nenhum dos grupos políticos que há décadas alternam o poder no governo do estado e na prefeitura de Manaus.

O atual governador, Wilson Lima (PSC), foi eleito com um discurso muito semelhante ao de Bolsonaro: atuar de forma diferente da “velha política”. Até mesmo figuras da esquerda, como a então presidente do PSOL Amazonas e um dos candidatos do partido, o apoiaram para combater o velho cacique Amazonino Mendes (Podemos) sob a palavra de ordem da “renovação”. O que a “nova política” burguesa tem para oferecer pode ser visto agora sem nenhuma máscara.

Apesar das renúncias fiscais da Zona Franca de Manaus, os salários continuam caindo, enchendo ainda mais o bolso da burguesia nacional e internacional. É nesse cenário que os trabalhadores amazonenses lidam diariamente com a ausência de infraestrutura básica para as mínimas condições de vida.

É preciso retomar a história revolucionária dos trabalhadores, camponeses e povos indígenas amazônicos para organizar a luta não apenas contra o governo Bolsonaro, mas contra todo o sistema que destrói a região e aposta com a vida de milhões de pessoas.

É preciso lutar pelo socialismo para pôr um fim ao horror capitalista! 

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