Colômbia: a organização é a única resposta à repressão

O pior inimigo da espontaneidade é o cansaço. Ele adere às articulações do movimento até deixá-las inertes e entorpecidas, propensas ao erro. O entorpecimento provoca certo desgosto e, com este, chegam os oportunistas e avança a reação.

A incerteza que nasce daí se torna desesperadora e se deixa contagiar facilmente com o derrotismo, a decepção e o medo. O inimigo engrandece e se reforça com o resultado de sua própria violência irracional, que enluta. O poder estatal o sustenta, por esta razão infla o peito e se mostra triunfante. No entanto, o dano estrutural em seu interior já está feito. Continua sendo um verme pequeno e covarde, encurralado pelos extraordinários golpes das massas heroicas.

Nenhuma destas sensações são agradáveis, mas são sintomas previsíveis de um movimento em processo de aprendizagem. Não obstante, seria injusto reduzir tudo o que aconteceu neste último mês exclusivamente a isso. O movimento, apesar do elemento instintivo, se moveu com tal velocidade e decisão que abalou a terra até suas fundações, expondo falhas e provocando um despertar de consciência sem igual.

É a partir daí que se nutre a consciência de classe. Quando há um programa pelo qual lutar, mesmo que seja moderado, as forças podem se manter, pois seu motor se torna a organização e a coesão.

O futuro nos pede posições e a natureza abomina o vácuo, ante a perspectiva de “empate” algo deve surgir para dar solução às reivindicações. O reformismo se apresenta como o possível salvador, apesar de ser, no fundo, uma nova enfermidade que devemos tolerar, não obstante pode representar um avanço. Mas, os opostos continuarão imersos nas contradições, expressando seus conflitos naturais. Pode parecer o final, mas é apenas o começo de algo maior.

A luta continua

As últimas semanas foram um carrossel de emoções. O aniversário de um mês de paralisação deixou claro que o movimento não está morto e que a violência estatal sempre dispõe de um novo escalão de crueldade ao qual descer.

A audácia das massas levou-as, corretamente, a fazer um apelo para a formação da Assembleia Nacional Popular, enfrentando o vazio de liderança dentro da paralisação. Esta decisão representa um desafio das bases a todos os oportunismos, incluído o do CNP (Comitê Nacional de Paralisação) que, ao perceber sua pouca influência, se pronunciou por novas mobilizações para o dia 9 de junho, apesar de que, há poucos dias, se mostrasse mansa ante às exigências do governo.

No entanto, reduziu-se o número de manifestantes com a passagem dos dias. Por exemplo, na capital, passou de 24 mil pessoas, número atingido durante a comemoração do mês de paralisação, a 2,5 mil no último dia 2 de junho. Outro desgosto foi o triunfo no Senado e no Congresso do ministro da Defesa, Diego Molano, depois da moção de censura.

Agora que a fé de muitos descansa sobre o reformismo. Este acontecimento foi sentido como uma forte derrota. Somam-se as irregularidades em torno da inscrição de cédulas para as eleições do próximo ano e as intimidações a políticos de esquerda através de investigações.

Esta é um amostra da arrogância do governo e de vários de seus quadros, que, com o novo calendário eleitoral, começaram a se mover em todas as direções legais e ilegais para assegurar-se o poder. Naturalmente, todas estas são leituras equivocadas e tendenciosas que são repetidas de forma mecânica, assumindo que tudo no país continua igual. Por trás, não há nenhum projeto político nem econômico e continuam baseando tudo no terror e na soberba.

No dia 28 de maio pelo menos 13 pessoas foram mortas, exclusivamente em Cali e com a participação de civis fortemente armados arremetendo contra os manifestantes com a cumplicidade da Força Pública.

A cifra não para de crescer em relação às vítimas inocentes em consequência da ação do Estado. Segundo reporta a ONG Temblores, desde que começou a paralisação até a data já vão 3.789 casos de violência por parte da Força Pública, 1.248 vítimas de violência física, 45 casos de homicídio e 25 vítimas de violência sexual, sem contar os 356 desaparecidos que foram aparecendo em rios, lixeiras e áreas rurais com claros sinais de tortura.

A elite nacional não se sente totalmente perdida e, pelo menos no futuro mais próximo, isso parece certo. É verdade que suas forças estão debilitadas, sua credibilidade foi minada e sua base social está perdida, mas ela ainda conserva as forças do aparato estatal e alguns aliados internacionais.

O “democrata” Biden, por exemplo, solicitou há alguns dias 453,8 milhões de dólares como ajuda a nosso país, 41 milhões a mais do que foi concedido pela administração anterior. Isso criou um alvoroço no vespeiro da oligarquia governante, que outorga todos os créditos à nova chanceler e vice-presidente, Marta Lucía Ramírez.

A verdade é que o logro, mais uma vez, foi do povo colombiano que se levantou com a paralisação, e cuja determinação despertou temores muito além das fronteiras.

Mas a leitura volta a ser incorreta visto que, ademais do óbvio uso militar que se daria a esse dinheiro, começaram já uma nova campanha de medo belicoso colocando como antagonistas a Venezuela e a Colômbia por conta de uns supostos barcos com armas provenientes do Irã ao país vizinho.

O que eles não entendem é que, atualmente, o pensamento do proletariado colombiano com relação aos nossos irmãos venezuelanos mudou radicalmente, muitos deles lutaram juntos nas manifestações e foram igualmente golpeados.

Qualquer disputa entre as elites dos dois países, uma traidora e a outra assassina, está longe de interessar ao povo colombiano. Além disso, no caso de se desenvolver esse cenário, sem dúvida ele seria combustível para acelerar um processo revolucionário deste lado da fronteira com a adição dos mais humildes às Forças Armadas, que seriam as principais vítimas e que já começaram a se mostrar descontentes.

Em todo caso, as opções estão se acabando para nossa burguesia e ela não tem muito o que fazer. Além da forte rachadura que cada vez mais se torna evidente no interior de sua cúpula, com enfrentamentos inclusive dentro do gabinete, seus crimes ficam desnudos e com cada mal passo dado se evidencia a podridão desta classe, totalmente envolvida com o narcotráfico.

Com 76% de desaprovação do presidente, 73% de Álvaro Uribe Vélez, e com uma queda similar nas cifras de todos os seus elementos, sua hegemonia está em risco e avançam desesperados. A irracionalidade os guia.

Naturalmente, sua violência é cruel. Eles não têm mais nada a oferecer e só reconhecem como método a violência, mas sem subestimar o seu dano, a verdade é que a classe trabalhadora unida os faria retroceder e até os venceria facilmente. O que aconteceu no povoado de la Paila, município de Zarzal, no Valle del Cauca, onde toda a população expulsou o ESMAD, mostra isso.

E o fato é que, com todo o investimento, sua força não é suficiente. O paramilitarismo e a união de elementos reacionários adquiriram certa força, mas não deixam de ser uma minoria. O refluxo do movimento devido ao esgotamento naturalmente dá ao narco-Estado a oportunidade para avançar, tem o dinheiro e os meios, e sua arremetida não será agradável, é um golpe, mas no máximo se poderá dizer que é o triunfo de uma batalha. Estão feridos profundamente e disso não é fácil se recuperar, ainda mais porque não parecem aprender de seus erros e, pelo contrário, insistem em voltar a cair neles.

Seu tempo está contado e chegou o momento de se levar a sério as palavras de ordem que as pessoas gritam nas ruas pedindo a derrubada do governo. Esta já não é mais uma ideia estranha ou extremista e se celebra com gosto em cada concentração, marcha ou comunicado virtual.

Com certa ingenuidade, houve alegria devido ao pedido da Fundação Internacional de Direitos Humanos de se prender o presidente Duque e seu gabinete. Ou seja, existe uma compreensão da inutilidade desta classe no poder. Já começaram a se colocar situações de duplo poder na prática e a maioria ouve mais à Primera Línea em assuntos de segurança do que às instituições do Estado.

Não voltar atrás sequer para tomar impulso

A união é a palavra de ordem atual, as pessoas não se fecham a nenhum tipo de discurso e recebem com complacência e mente aberta as propostas que lhes são feitas. Ademais, com muita razão, rejeitam as mentiras esgrimidas pela classe dominante ou por qualquer outro elemento estranho. É por isso que, conscientemente, buscam uma liderança mais além do CNP e, por instinto, rejeitam este organismo como mais um que não os representam. Diante dos apelos para se deterem a fim de comprazer o governo, a resposta tem sido não parar e se organizar.

No entanto, vale a pena esclarecer que foi a liderança do comitê que se ajoelhou e que sua representação, sobretudo no setor sindicalizado, é importante. A participação destes sindicatos ajudou a despertar os ânimos do movimento e de suas bases em mais de uma ocasião, ademais suas demandas são tão legítimas como as do restante do movimento e suas bases demonstraram estar em completo acordo com a paralisação gerando pressão de baixo para cima.

Uma paralisação promovida a partir destes setores que se converta em uma greve geral, somada a sua experiência tradicional de luta, sem dúvida poderia despertar a revolta e levá-la a bom porto. Mas está claro que semelhante decisão não virá da liderança rançosa.

É por isso que, desde a ANP, deve-se fazer um apelo a toda a classe trabalhadora, incluída a que está organizada, para que se una, demonstrando-lhe que suas demandas serão efetivas a partir daí e que, em conjunto, pode-se chegar inclusive mais longe do que estas pedem.

Seguramente, não haverá qualquer tipo de oposição. De fato, a convocatória de formação da Assembleia está se fazendo de forma aberta, o que mostra um desejo de democracia genuína. Isto é fundamental, visto que é deste espaço de onde surgirão os verdadeiros líderes que o país necessita.

Sabemos que este é o início, mas que é o melhor lugar por onde começar. O próximo passo deve ser o de colocar temas além da paralisação ou de suas demandas. Vão chegar muitas petições a esta mesa e todas devem ser consideradas com igual seriedade.

O aprendizado do poder popular ficou marcado a ferro e fogo e será complicado anulá-lo. Seguramente, chegarão ali ideias de todo tipo querendo canalizar a situação, mas será somente a discussão aberta, democrática e constante que poderá combater qualquer ideia alheia.

Ainda assim, a experiência continuará sendo o guia e, com esta, muitos erros diferentes voltarão a aparecer. A melhor maneira de fazer este combate é com a teoria, hoje mais necessária do que nunca, visto que é a partir daí de onde se poderão encontrar com mais facilidade as melhores estratégias para organizar um programa sério que corresponda às necessidades do país.

Também é necessário que esse programa se coloque a ultrapassar os limites do capitalismo, pois este se encontra em crise e sob suas regras não existe uma solução efetiva. Neste momento, ele só nos oferece mais fome e miséria.

Uma economia planificada fundada na orientação ao socialismo é a única capaz de superar o vazio fiscal que hoje nos acossa e respira em nossa nuca. Este problema não vai desaparecer somente ignorando-o e os economistas burgueses sabem disso. Por essa razão, clamam pela necessidade de uma nova reforma tributária. Aplicar panos quentes a este problema atrasa suas consequências, mas não as faz desaparecer, é por isso que o problema deve ser solucionado desde a raiz e com uma perspectiva nova e radical.

Desde nosso grupo, convidamos todos a lerem nosso programa para discuti-lo e colocá-lo como parte do debate entre vizinhos, amigos, companheiros e irmãos de luta.

Este programa se assenta nas teorias do marxismo, razão pela qual pretende enfrentar os problemas que a sociedade capitalista atual, em crise, nos impõe. Igualmente, convidamos todos a discutirem os textos dos grandes teóricos do marxismo, como Marx, Engels, Lenin, Trotsky e Rosa Luxemburgo, e discuti-los em círculos de leitura. Neles, não encontrarão fórmulas, muito menos uma solução instantânea, mas encontrarão uma formação teórica que poderá ajudar a responder a essas questões que hoje flutuam no ar: “o quê e o como”.

É hora de dar asas a esse gigante desperto, não para que ele suba e desapareça no etéreo, mas para que voe além das fronteiras da podridão e da caducidade em direção ao futuro e à mudança.

Construir estas asas custará suor, dor e lágrimas, mas se bem-feito, com paciência e cuidado, este trabalho deixará um aprendizado incomparável em quem o construir. Não há dúvida de que essa conquista só será possível sob a liderança da classe mais trabalhadora e honesta de nosso presente: a classe trabalhadora.

  • Levante-se com os povos em luta!
  • Levante-se com as classes oprimidas! Viva a classe trabalhadora!
  • Viva a Greve Nacional!
  • Por uma Colômbia socialista, unida!
  • Fora com Duque e sua classe assassina!

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.
PUBLICADO EM COLOMBIAMARXISTA.COM

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