A Quadra dos Bancários é um espaço histórico de mobilização não apenas dos bancários, mas dos trabalhadores de uma maneira geral

Burocracia sindical quer fazer negócio com a Quadra dos Bancários

Os trabalhadores associados ao Sindicato dos Bancários de São Paulo participarão de uma votação virtual a partir de hoje (14/12), com duas decisões importantes a serem tomadas:

  1. autorizar (ou não) um contrato de permuta para construção de um prédio residencial na área da nossa Quadra dos Bancários;
  2. promover (ou não) um conjunto de alterações estatutárias.

A “assembleia” foi comunicada no dia 10/12 e estará aberta para votação de 14 a 16/12. Não é possível chamar essa votação de assembleia porque nem sequer foi disponibilizado um espaço (virtual, presencial ou híbrido) para estudar e debater as propostas e solicitar mais informações. Nem sequer uma plenária de delegados sindicais dos bancos públicos, muito menos reuniões nos locais de trabalho, foram realizadas para esclarecer a categoria. Quem quiser saber mais como vai funcionar essa permuta precisa conhecer “os termos da Lei 4.591/64” e quem quiser saber como vai ficar a redação do novo estatuto precisa comparar as 33 páginas da proposta em votação com o estatuto vigente em seis dias!

Com relação à permuta da nossa Quadra dos Bancários a uma empresa da construção civil: trata-se de ceder à pressão da especulação imobiliária e participar diretamente dela, vinculando o sindicato a um empreendimento comercial que não tem nada a ver com a finalidade da nossa entidade. Alega-se que será uma importante fonte de renda para fortalecer o sindicato, tendo em vista os ataques antissindicais e anti-trabalhistas promovidos pelos governos Temer e Bolsonaro, mas aqui cabe uma discussão muito séria: como garantir a independência financeira do sindicato frente aos patrões e seu Estado? Afinal, precisamos sim de um sindicato forte, mas para lutar contra nossos inimigos de classe: os banqueiros, os patrões e o Estado, com seus governos de turno a serviço dos capitalistas.

Se o sindicato se fortalecer com o dinheiro da patronal, de nada vai adiantar para nós trabalhadores. Como lutar contra os patrões se o sindicato receberá “recursos indispensáveis” dos próprios patrões? Como defender os direitos dos bancários, sendo patrocinado por quem defende a retirada dos direitos dos trabalhadores? Defendemos que o sindicato seja financiado voluntariamente pelos próprios trabalhadores, por todos os meios possíveis de arrecadação independente. Somos contra as cobranças compulsórias e o dinheiro dos patrões e do Estado no nosso sindicato. Somente um sindicato sustentado pela base e somente a unidade e mobilização da categoria podem se contrapor ao poder econômico dos banqueiros e reverter os ataques dos governos. O único caminho para fortalecer o sindicato é a luta dos trabalhadores e não negociações financeiras com nosso patrimônio!

Sem falar no caráter simbólico da Quadra dos Bancários: palco de tantos eventos importantes para a história da luta dos bancários e dos trabalhadores brasileiros. Erguer um condomínio no local descaracterizará o espaço e aumentará a pressão imobiliária para acabar de vez com a Quadra.

Mudanças no Estatuto para preservar a burocracia sindical

Já com relação às mudanças estatutárias, o melhor seria debater uma a uma, afinal, se por um lado é importante adequar o estatuto visando a ampliação da representação para outras bases, por outro lado, estender o mandato de três para quatro anos da diretoria acaba engessando ainda mais a entidade e favorece a perpetuação dos mesmos dirigentes e dos mesmos grupos políticos no controle do sindicato.

A proposta ainda incorpora regimes de deliberação virtuais ou híbridos no Estatuto do sindicato, transformando a exceção em regra. Os ambientes virtuais de debate e votação foram adotados excepcionalmente devido à situação de pandemia, mas à medida que conseguimos a vacinação completa da população, devemos resgatar os métodos tradicionais de organização da categoria: reuniões, encontros e assembleias presenciais; votações em urnas fixas ou itinerantes acompanhadas de fiscalização por representantes das chapas e da Comissão Eleitoral. Não é necessário reinventar a roda para garantir democracia e lisura aos processos de decisão da categoria: é necessário implementar e respeitar os instrumentos e instâncias de democracia operária que já existem! A tecnologia pode e deve auxiliar, mas não distorcer a real participação da categoria nos fóruns de deliberação do sindicato. Imaginem uma assembleia de campanha salarial metade presencial, metade virtual. Como garantir a contagem de votos se houver propostas divergentes? Ou será que tudo será transformado em uma única votação plebiscitária online pré-preparada e os presentes não poderão propor nada?

Há outras alterações em votação, como a diminuição do quórum para eleição da diretoria, de 50% de associados para 20% apenas, o que tende a reduzir burocraticamente a participação dos associados no processo eleitoral.

Por esses motivos, avaliamos que é necessário votar NÃO nas duas votações em andamento e pressionar para que a direção do sindicato abra a discussão com a categoria! Que essa votação – no final de um ano tão complicado para todos – não tenha poder de decisão sobre temas tão importantes e tenha apenas um caráter consultivo e que uma verdadeira assembleia seja preparada e convocada com tempo suficiente para deliberarmos.

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