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Foto: Révolution

Basta! Massas francesas no ponto de ebulição

A mobilização que começou em 5 de dezembro de 2019 está agora em uma encruzilhada. A greve indefinida convocada pelos ferroviários franceses está em declínio, após mais de 40 dias de luta exemplar. Esse refluxo se encaixa perfeitamente no esquema do governo. Desde novembro, enfatizamos que: “Se a greve dos trabalhadores ferroviários permanecer isolada, o governo terá uma de duas opções: ou pode fazer concessões mínimas a setores isolados dos trabalhadores em greve, ou pode contar com a sua exaustão. Em ambos os casos, as massas em geral perderiam”.

Em meados de janeiro, o governo achou que sua vitória estava garantida. Mas desde então, testemunhamos um novo impulso de diferentes setores. Ações militantes surgiram de advogados e trabalhadores do saneamento, acompanhadas por professores, eletricistas, enfermeiros, estivadores etc. Ações de protesto, greves e manifestações locais se multiplicaram. Os anúncios de ano novo de ministros, deputados e outras figuras importantes foram interrompidos e frequentemente cancelados. Com uma forte explosão de desafio e ousada luta, os trabalhadores despiram seus uniformes e deixaram de lado suas ferramentas diante daqueles que encarnam o poder. Os patrões tentaram deixar passar de maneira amigável, mas sua autoridade sumiu em meio aos uniformes, mantos e livros caídos.

Esta efervescência foi confirmada na recuperação nos números mobilizados nos protestos de 24 de janeiro. O movimento entrou em uma nova fase ascendente, apesar do declínio da greve dos trabalhadores do transporte? Isso não pode ser excluído, por uma razão que já enfatizamos em várias ocasiões: esse movimento é alimentado pela raiva geral que se acumula há muito tempo.

Rejeição de um sistema

Além do ataque ao sistema de pensões, todo o programa do governo foi massivamente rejeitado. Podemos vê-lo claramente nas demandas e slogans dos trabalhadores mobilizados: a questão das aposentadorias obviamente ocupa um lugar de destaque, mas apenas entre muitos outros slogans que denunciam toda a mecânica infernal de cortes no orçamento, austeridade, “reestruturação da economia” e contrarreformas sucessivas, que degradaram as condições de trabalho a  níveis insuportáveis.

Dentro da classe trabalhadora, Macron é visto favoravelmente por menos de 10%, de acordo com as últimas pesquisas. Assim, ele conseguiu o feito de bater o recorde de François Hollande, que já havia derrotado o de Sarkozy. Faz sentido: os efeitos da crise estão se acumulando. Macron acrescenta seu toque pessoal: uma arrogância colossal.

Nesse contexto, um movimento contra uma (contra) reforma pode servir como catalisador para uma luta muito mais ampla e radical. O governo o temia desde o início; de fato, esse é o único cenário que pode levá-lo a recuar. Infelizmente, a liderança dos sindicatos nas linhas de frente – sem sequer mencionar os capitulacionistas profissionais do tipo Laurent Berger – não tentou canalizar todo o poder potencial do movimento para a luta. Ao limitar estritamente o objetivo da luta à retirada da reforma previdenciária, a liderança da CGT, FO e Solidaires atuou como um freio à mobilização dos trabalhadores do setor privado, onde uma greve por tempo indeterminado implica em sacrifícios particularmente pesados (perdas salariais e risco de sanções). Esses trabalhadores têm todo tipo de problemas urgentes e imediatos, que a simples retirada da reforma previdenciária não resolveria.

Para incentivar a mobilização do setor privado, que compreende a grande maioria dos assalariados, a liderança sindical deve passar da defensiva para a ofensiva. Eles devem almejar não apenas a retirada da reforma, mas também uma ruptura decisiva com todo o programa reacionário do governo. Eles devem se mobilizar com base em demandas progressivas e radicais. A alegação de Philippe Martinez – de que se pode “negociar” medidas progressivas com o governo – não se sustenta: Macron nunca negociará algo assim. Um programa progressivo terá que ser imposto à classe dominante por outro governo, o que significa derrubar o governo Macron.

Em março de 1935, Leon Trotsky escreveu sobre a situação na França, então em meio a uma profunda crise econômica e social:

“Nas condições atuais, para forçar os capitalistas a fazer concessões importantes, precisamos quebrar suas vontades; isso pode ser feito apenas por uma ofensiva revolucionária. Mas uma ofensiva revolucionária, que oponha uma classe à outra, não pode ser desenvolvida apenas sob slogans de demandas econômicas parciais (…) As massas entendem ou sentem que, nas condições da crise e do desemprego, conflitos econômicos parciais exigem sacrifícios inéditos, o que nunca será justificado pelos resultados obtidos. As massas esperam e exigem outros métodos mais eficazes. Os senhores estrategistas, aprendam com as massas: elas são guiadas por um instinto revolucionário seguro”.

Essas poucas linhas merecem ser consideradas por todos os ativistas de esquerda e sindicais, porque lançam luz sobre um aspecto fundamental da atual situação política e social.

Reforma e revolução

Na imprensa, no rádio e nos aparelhos de televisão, os capangas do governo cantam louvores aos sindicatos “reformistas” (CFDT, UNSA etc.) e castigam os “problemáticos” (CGT, Solidaires, etc.).

Mas o que é um sindicato “reformista”, de acordo com o seu marco analítico? Um sindicato cujos líderes apoiam contrarreformas, regressão social e austeridade. Tal classificação engloba Laurent Berger (do CFDT), que dedica sua vida a isso.

O truque é óbvio: a contrarreforma é renomeada como “reforma”. Quanto aos que se opõem, são acusados de “imobilidade” conservadora. Essa terminologia é inútil: visa confundir a mente dos trabalhadores. Digamos coisas na linguagem clara do marxismo.

Hoje, na França, a liderança de todos os sindicatos de trabalhadores é “reformista” no sentido marxista do termo: eles rejeitam a ideia de uma revolução socialista e defendem a perspectiva de uma longa série de reformas sociais progressivas dentro da estrutura do capitalismo. É verdade, de fato, que a liderança do CFDT defende principalmente contrarreformas. Mas esse é o resultado lógico do reformismo: sua conseqüência final. Os líderes do CFDT se adaptaram completamente ao capitalismo; eles o consideram como o único sistema viável. Portanto, quando os capitalistas exigem contrarreformas drásticas por causa da profunda crise em seu sistema, Laurent Berger assente fielmente e se afasta da reforma sem luta, para o reino da contrarreforma.

Isso significa que os revolucionários se opõem às reformas? Absolutamente não. Lenin já explicou em 1913:

“Os marxistas reconhecem a luta por reformas, ou seja, por medidas que melhorem as condições dos trabalhadores sem destruir o poder da classe dominante. Ao mesmo tempo, porém, os marxistas empreendem a luta mais resoluta contra os reformistas, que, direta ou indiretamente, restringem os objetivos e as atividades da classe trabalhadora à conquista de reformas. O reformismo é o engodo burguês dos trabalhadores, que, apesar das melhorias individuais, sempre serão escravos assalariados, enquanto houver o domínio do capital”.

Atualmente, devido à profunda crise do capitalismo, os reformistas não conseguem mais garantir aos trabalhadores “melhorias isoladas” em suas condições. Ou eles jogam o jogo das contrarreformas (Berger) ou eles adotam uma posição estritamente defensiva (Martinez).

É possível que nos respondam: “Isso está errado, porque Martinez está pedindo ao governo que negocie uma reforma progressiva da previdência“. Muito bem, mas isso é um absurdo. Macron governa para a classe dominante francesa, que objetivamente precisa de contrarreformas drásticas. Apenas “negociará” contrarreformas, isto é, as imporá aos trabalhadores – se possível com a ajuda de Laurent Berger. Qualquer outra perspectiva é uma mentira que lança confusão na cara dos trabalhadores. Devemos dizer a verdade: no contexto atual, o de uma profunda crise do capitalismo, apenas uma ruptura com esse sistema – uma revolução socialista – abrirá a perspectiva de uma melhoria séria nas condições de vida de nossa classe.

TRADUÇÃO DE FABIANO LEITE.

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