Concentração do Ato Antirracista CWB Foto: Jonathan Nenemann

Atos antirracistas, ação direta e repressão em Curitiba

No dia 1º de junho, a praça Santos Andrade, em Curitiba, foi tomada por manifestantes reunidos para o Ato Antirracista CWB – Vidas Negras Importam1. A manifestação resultou em ações diretas, com ataques às vidraças de prédios públicos e agências bancárias. O que levou a uma intensa repressão jurídica e policial contra os participantes. Esse texto é nossa contribuição sobre o ocorrido e suas consequências.

O ato antirracista em Curitiba

Alguns coletivos e organizações do movimento negro de Curitiba impulsionaram o evento de 1º de junho. O protesto, convocado pelas redes sociais, seria para denunciar os frequentes assassinados da população negra e a violência policial. O ato acabou contando com uma adesão surpreendente para uma segunda-feira chuvosa e, no meio da pandemia da Covid-19, mais de mil pessoas compareceram, com um predomínio absoluto de universitários, estudantes secundaristas e trabalhadores jovens. É bom lembrar que até este ato, durante a pandemia, nenhuma manifestação massiva havia ocorrido.

Não foi à toa. Em meio a uma gravíssima crise mundial, as tensões do sistema capitalista se intensificam contra a classe trabalhadora. Esse contexto sufocante se expressou em um caso dramático, que combinou racismo e violência policial nos EUA, gerando explosivas reações de massas, com grande potencial revolucionário. As imagens do assassinato de George Floyd, durante uma operação policial, correram as redes sociais. Manifestações gigantescas movimentaram não só as cidades norte-americanas, mas vários centros urbanos em todo mundo. E tornaram mais revoltantes nossas próprias mazelas, como a morte do menino João Pedro, de 14 anos, resultado de uma operação policial brutal em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Curitiba, apesar da fama de cidade-modelo, também teve seus episódios recentes de violência policial. Como os dias de terror para as 300 famílias da ocupação 29 de Março, em 2018, que terminaram com um incêndio gigantesco e com a morte de duas pessoas, durante uma operação da Polícia Militar para vingar o assassinato de um soldado por traficantes da região2. Ou a morte de quatro adolescentes do Parolin, em um suposto confronto com policiais no ano passado. As famílias alegam que os garotos foram executados3.

Tomada pela juventude, a manifestação seguiu um figurino horizontal, com megafones abertos para as falas dos participantes. Além das palavras de ordem antirracistas e contra a violência policial, algumas intervenções também fizeram referência à luta antifascista, à defesa da democracia e ao Fora Bolsonaro. Pacífica, a convocação não previa uma marcha pelas ruas da cidade. Mas essa orientação original foi suplantada pela vontade da maioria dos participantes, que decidiu por transformar o ato em uma passeata. Uma parcela pequena de manifestantes considerou o ato encerrado e permaneceu na praça Santos Andrade. Já os marchantes colocaram a faixa de uma Antifa local à frente, e seguiram com a manifestação. O ato terminou no Centro Cívico, onde estão os principais prédios do poder público, incluindo o Palácio Iguaçu, sede do Executivo estadual. Cumpriu assim um roteiro típico das manifestações sociais na capital paranaense.

Foi já no ponto de dispersão que a manifestação começou a adotar outras características. Há aqui, duas possíveis referências. Em 2011, um homem negro, desempregado, tentou atear fogo à bandeira brasileira na Praça dos Três Poderes, em Brasília, em protesto contra o racismo no país. O ato teve alguma repercussão no movimento negro brasileiro. Já, em um registro mais local e recente, uma manifestação de estudantes baixou a bandeira do Paraná que fica em frente ao Palácio Iguaçu, em 2015, e a manchou de vermelho, em protesto contra a agressão que os servidores(as) e professores(as) haviam sofrido no dia anterior, conhecido como o Massacre de 29 de Abril. Com ou sem essas referências, o alvo da revolta foi a bandeira nacional. Quer como representação de uma sociedade constituída sob intensa violência racial, quer como símbolo dos movimentos reacionários que sustentam o governo Bolsonaro, partes da bandeira foram rasgadas e queimadas em protesto. Os policiais militares que acompanhavam o ato poderiam ter impedido a ação, mas nada fizeram. Taticamente, optaram por deixar que os manifestantes seguissem com sua ação, esperando que se queimassem com a bandeira.

Policiais não impediram que manifestantes tomassem a bandeira

Na massa de pessoas que retornava pela avenida Cândido de Abreu em direção ao centro histórico, alguns se destacaram com pedras nas mãos e começaram a atacar as vidraças do Fórum Civil, as icônicas estações-tubo e uma agência bancária. Não eram, obviamente, alvos aleatórios. Eram, respectivamente, um órgão do aparelho judicial, o mobiliário do transporte público submetido ao lucro empresarial e um logrador do sistema financeiro. Nessa iniciativa, o protesto adotou a linguagem das performances antissistema, com suas ações diretas de ataque às instalações simbólicas do capitalismo. Uma forma de propaganda pela ação, com intenção de despertar a revolta popular contra aquilo que essas instituições representam.

Mas o efeito imediato do quebra-quebra foi o de acender as sirenes da repressão policial. Com tiros de borracha e bombas de efeito moral, os policiais passaram a fustigar a retaguarda dos manifestantes. Dispersos em pequenos grupos pelas ruas estreitas do setor histórico da cidade, foram presas fáceis para a sanha dos cacetetes e do cerco das viaturas policiais4. Há relatos de paisanos ameaçando disparar tiros em alguns dos manifestantes. Nessa confusão, sete pessoas foram presas, incluindo um adolescente. Voltaremos a elas, em breve.

O contra-ato e a reação

A linguagem dos ataques aos símbolos capitalistas nem sempre é bem entendida por grande parte da classe trabalhadora. Ainda mais porque a mídia capitalista não faz questão de colocar legenda. Pelo contrário, traduziu essas ações para a opinião pública como simples vandalismo: um ataque sem sentido à propriedade privada e ao patrimônio público. Essa interpretação que criminaliza os movimentos sociais foi amplificada nas redes sociais por meia dúzia de oportunistas reacionários, pré-candidatos a qualquer coisa nas próximas eleições. Bolsonaro repercutiu o incidente em suas redes sociais. No dia seguinte, até um contra-ato foi organizado por um lutador de MMA com a intenção de fazer o hasteamento de uma nova bandeira. Convocando os praticantes de artes marciais da cidade, reuniu os mesmos grupelhos bolsonaristas já conhecidos, futuros candidatos donos de academia interessados em pressionar pela reabertura de seus estabelecimentos e uma porção de curiosos. 

Notas e equívocos das organizações

As pressões da opinião pública e o medo pela criminalização do movimento, podem ser observadas nas reações das organizações que participaram do Ato Antirracismo. Em nota5, os organizadores consideraram o ato um sucesso, denunciaram o uso da força por parte da polícia e atribuíram o vandalismo à “presença organizada de infiltrados que desejam a criminalização do movimento”. Na quarta-feira, representantes de alguns movimentos negros da cidade optaram por disputar com os reacionários a apropriação da bandeira nacional, realizando um ato com a entrega de uma nova flâmula, considerada como um patrimônio comum de todos os brasileiros. Em sua nota, defenderam a justeza e a legitimidade da luta antirracista, exigindo a punição dos culpados “pelos atos que cometeram6. Também se posicionaram firmemente contra o fascismo. Mas a cerimoniosa entrega da bandeira nas mãos de policiais militares, obliterou qualquer crítica à violência dos organismos de segurança, responsáveis diretos pelos assassinatos de jovens negros nas periferias.

A presença de infiltrados em manifestações não pode ser desconsiderada. Em 2015, as fachadas de alguns empreendimentos comerciais foram vandalizadas no Centro Cívico, com o objetivo de criminalizar uma passeata de professores. Alguns infiltrados chegaram a erguer uma faixa com palavras de ordem que não correspondiam ao movimento. Foram retirados do ato pelos manifestantes. Em uma situação de polarização política, de revolução e contrarrevolução, coletivos e organizações devem cada vez mais organizar suas ações levando em consideração a possibilidade desses agentes provocadores. O problema é querer exigir dos aparelhos repressivos do Estado a identificação e a punição dessas pessoas. Pelo simples motivo de que esses agentes ou contam com a cobertura das próprias autoridades, ou são do próprio serviço de inteligência das forças policiais, com a missão de provocar a repressão.

Atenta ao problema dos movimentos sociais legitimarem a repressão policial sobre o pretexto de combater os “vândalos”, a Rede Nenhuma Vida a Menos não assinou a nota dos organizadores, argumentando que: “Num país onde a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, não podemos justificar a criminalização de movimentos sociais quando o povo decide se rebelar. Enquanto os de cima choram vidraças quebradas, todos os dias mães, pais e irmãos choram o sangue derramado em suas casas com operações policiais criminosas7.

No seu comunicado, as organizações Antifas de Curitiba se desculparam por sua faixa ter tomado a frente do ato durante a marcha, ao mesmo tempo em que se defenderam da acusação de serem os responsáveis pelas ações diretas, lembrando que “muitas pessoas têm se posicionado como antifascistas e se identificado com diversas táticas de luta sem necessariamente ser das organizações antifascistas”.

O fato, é que, até o momento, as diligências policiais identificaram e autuaram dois jovens pela queima da bandeira: um adolescente de 16 anos e um estudante de 24, moradores do Cajuru e do Sítio Cercado respectivamente, que são bairros populares da cidade. Não há notícias que pertençam a qualquer organização política. Participavam dos atos como simples manifestantes. Não eram infiltrados.

A intensificação da repressão

As forças de segurança – sob comando do governador Ratinho (PSD), notório apoiador da família Bolsonaro – souberam tirar proveito dos desdobramentos do primeiro ato. Uma segunda manifestação foi convocada por organizações de esquerda para o dia 7 de junho, em um domingo à tarde. A praça Santos Andrade foi sitiada por um grande contingente da Polícia Militar. O trânsito foi bloqueado e cordões policiais submeteram todos os manifestantes a uma revista. Mastros de bandeiras e faixas foram proibidos. Um helicóptero sobrevoava o local, enquanto a cavalaria desfilava pelas imediações. Policiais do serviço reservado (chamados de P2) circulavam à paisana, tentando se infiltrar no protesto. A participação nesse segundo ato declinou consideravelmente. Algo como umas 300 pessoas tomaram parte na manifestação, incluindo os militantes da Esquerda Marxista, com sua faixa Fora Bolsonaro. Novamente, uma parte dos manifestantes resolveu caminhar até o Centro Cívico, onde o protesto se encerrou. A polícia fez questão de informar a detenção de oito pessoas. Sete delas por porte de drogas e uma por levar uma faca. Não sabemos se essas detenções foram de pessoas que iriam participar do ato, efetivamente, ou foram pessoas abordadas nas imediações, devido à ação ostensiva da PM.

O mesmíssimo esquema repressivo foi reproduzido no domingo seguinte, dia 14. Dessa vez, para acompanhar um evento criado pelo PCO, que reuniu umas trinta almas nas escadarias da UFPR na praça Santos Andrade. O tamanho do contingente policial para essa última manifestação poderia ser um indício da incapacidade do serviço de inteligência da PM em avaliar o potencial de mobilização de algumas organizações de esquerda em Curitiba. Não fosse a intenção, evidente, de ser uma demonstração de força.

Ainda mais preocupante foi o tratamento dispensado aos seis manifestantes adultos, presos no primeiro ato. Foram capturados depois da dispersão, sem quaisquer indícios que os ligassem às ações cometidas. Ficaram detidos dois dias na delegacia, até a decretação de sua liberdade provisória, sob condições absurdas: foram submetidos ao uso de tornozeleiras eletrônicas por 90 dias, de não participarem de qualquer manifestação de rua e de se recolherem em suas casas a partir das 20 horas. Essas medidas abusivas e inéditas, mostram que a repressão às mobilizações de rua em Curitiba subiu um degrau perigoso.

Vingança e revolução

O problema em Curitiba não é a formação de grupelhos fascistas. Os atos antirracistas e antifascistas mostraram toda sua importância e potencial, ao confrontar as carreatas e manifestações bolsonaristas que grassavam sem qualquer constrangimento na cidade. Desde o contra-ato do dia 2 de junho, o verde-amarelismo reacionário já não desfilou mais pelas ruas. Como vimos, nosso problema foi o recrudescimento efetivo da repressão do Estado, com prisões arbitrárias e operações desproporcionais, como resposta aos eventos ocorridos no primeiro de junho. 

As consignas justas e necessárias do antirracismo e do combate à violência policial tem um potencial enorme, e poderíamos ter experimentado um movimento ascendente entre o primeiro e o segundo ato. Mas o que vimos, foi bem diferente disso. O que coloca em questão as ações diretas de ataque aos símbolos do capitalismo, o aventureirismo e falta de senso de proporção de seus promotores. Raríssimas vezes o ataque a prédios e instalações encontraram alguma acolhida entre as massas trabalhadoras. Foi o que  ocorreu nos EUA. Com milhões de pessoas nas ruas, uma delegacia foi incendiada. A imagem percorreu o mundo. Esses mesmos milhões sitiaram a Casa Branca e obrigaram o mandatário mais poderoso do planeta a se refugiar em um bunker. Guardada as devidas proporções, durante as manifestações de junho de 2013, em Curitiba, milhares de pessoas depredaram estações-tubo e a Prefeitura de Curitiba. Apesar da campanha midiática em apontar o vandalismo, não houve muita solidariedade de boa parte da população com essas vidraças quebradas. Em todos esses casos, é importante destacar: as massas, em revolta, já estavam em movimento. Elas não precisam que grupos radicalizados quebrem algum patrimônio para serem despertadas para a ação política. Seria como acreditar que o rabo tem a função de balançar o cachorro.

Mesmo nesses casos, quando uma revolta popular de massas redunda em ataques à instituições ou símbolos de um sistema opressor, o efeito pode ser apenas catártico. As pressões sociais encontram uma vazão superficial, uma vingança simbólica. As explosivas manifestações de junho de 2013 não alteraram em nada a composição das elites políticas e econômicas que controlam, há gerações, a capital paranaense, por exemplo. Podemos dizer que teve mesmo um efeito contrário.

Na maioria absoluta das vezes, ações diretas precipitadas e inconsequentes levam apenas a um anticlímax. Sem o senso de proporção e uma avaliação correta da correlação de forças, essas ações atraem a repressão jurídica e policial e contribuem involuntariamente para abortar o movimento em seu nascedouro. Por isso os próprios agentes repressores têm interesse em infiltrar seus provocadores nos movimentos socais. As responsabilidades são ainda maiores quando essas ações atraem a repressão sobre um movimento composto por um segmento já historicamente criminalizado: o da população negra, trabalhadora e periférica.

Sem concessões à criminalização e a violência policial em nosso meio, defendemos o direito legítimo à revolta por parte dos explorados. Não se deve confundir a violência dos oprimidos com a violência dos opressores. Dito isto, todo justo sentimento de vingança deve encontrar uma organização consequente, se quiser ir além da revolta imediata. Isso inclui o debate fraternal sobre as táticas a serem seguidas, a responsabilidade e a disciplina das organizações envolvidas, além da formação de comitês de segurança nos atos convocados. Também devemos dizer que a omissão das organizações tradicionais, como partidos e sindicatos, nos atos antirracistas e antifascistas, não contribuiu para ampliar a pauta desses movimentos no conjunto da classe trabalhadora.

Preservando as diferenças de contexto, as palavras de Trotsky – em um texto no qual critica as ações terroristas individuais, como o assassinato de autoridades – já nos alertava para a necessidade de canalizar toda revolta e desejo de vingança em uma organização com objetivo revolucionário:

Nos opomos aos atentados terroristas porque a vingança individual não nos satisfaz. A conta que nos deve pagar o sistema capitalista é demasiado elevada para ser apresentada a um funcionário chamado ministro. Aprender a considerar os crimes contra a humanidade, todas as humilhações a que se veem submetidos o corpo e o espírito humanos como excrescências e expressões do sistema social imperante, para empenhar todas nossas energias em uma luta coletiva contra este sistema: essa é a causa na qual o ardente desejo de vingança pode encontrar sua maior satisfação moral!8

Exatamente por acreditar que só uma revolução social pode abrir as possibilidades de solução de nossas mazelas estruturais, convidamos você a fazer parte da Esquerda Marxista. Venha lutar com a gente!

  • LUTAR NÃO É CRIME!
  • VIDAS NEGRAS IMPORTAM!
  • PELA LIBERDADE IMEDIATA DOS PRESOS POLÍTICOS DO 01 DE JUNHO!
  • RACISMO E CAPITALISMO SÃO FACES DA MESMA MOEDA!
  • FORA BOLSONARO!

Referências:

1 Para o evento, ver: <https://www.facebook.com/events/695381564529607/>

2 <https://theintercept.com/2018/12/19/vinganca-morte-pm-favela-incendio-curitiba/>

3 <https://www.brasildefatopr.com.br/2019/09/28/policia-atira-contra-protesto-no-parolin-por-mortes-de-4-menores-em-acao-policial>

4 <https://www.instagram.com/p/CA6pBl9HWKC/?fbclid=IwAR0w7Opl7p-fT7itAG0s0Zn2dM8Pyt7sOrNlIBmDNgNCJlj8PIR68NKSW6I>

5 <https://www.facebook.com/events/695381564529607/?active_tab=discussion>

6 <https://informativocentroculturalhumaita.wordpress.com/2020/06/03/direito-de-resposta/>

7 <https://www.facebook.com/nenhumavidaamenos/posts/296897658377513?__tn__=K-R>

8 TROTSKY, Leon. Porque os marxistas se opõem ao terrorismo individual. Em:<https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1911/11/terrorismo.htm>

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