Atentado bolsonarista fatal contra o militante e sindicalista Marcelo Arruda

Atentados bolsonaristas e a necessidade de autodefesa dos trabalhadores

Exatamente no período de início do processo eleitoral, acompanhamos nos mais diversos noticiários acontecimentos diários envolvendo ações violentas e terroristas por parte de grupos e militantes bolsonaristas. Estão desesperados com a iminente derrota de Bolsonaro nas urnas em outubro e se organizam para avançar contra a esquerda, os trabalhadores e suas organizações. Em apenas duas semanas, presenciamos nos noticiários provocações e atentados em comícios políticos organizados pelo PT para apresentação da campanha de Lula, com drones e “bombas de fezes e urina”. Em Foz do Iguaçu, no Paraná, um agente penitenciário “à paisana” se achou no direito de invadir uma festa privada para provocar e matar um sindicalista que comemorava seu aniversário com familiares e amigos. A festa de aniversário tinha como tema o PT e Lula.

Esta semana, no Rio de Janeiro, em uma marcha do “PSOL com Lula”, onde Marcelo Freixo (PSB) também participava do ato, um grupo bolsonarista com mais de 10 capangas armados, sob a liderança do deputado estadual Rodrigo Amorin (PTB), se infiltrou na marcha para provocar e intimidar militantes psolistas e apoiadores de Freixo. Esse é o mesmo parlamentar que, com enorme orgulho, quebrou a placa em homenagem à Marielle Franco, assassinada covardemente junto com seu motorista Anderson Gomes. Durante a ação bolsonarista, além da intimidação e das hostilidades, bandeiras foram quebradas e rasgadas.

Alguns comentaristas políticos observam que Bolsonaro, à medida que começa a se convencer da derrota certa em outubro nas urnas, deve apelar para um “Plano B”. Essa articulação tenta criar um maior caos e a maior instabilidade política possível. Para isso, vale inclusive o uso da violência física para buscar “suspender as eleições”. Essa orientação ganha força já que o sonho de Bolsonaro ver seus apoiadores invadindo o STF e alegando fraude nas eleições – aos moldes da invasão do capitólio por apoiadores de Trump nos EUA –  parece ter sido obstaculizado pela própria burguesia e suas instituições, a nível nacional e internacional.

O fato é que os recentes atentados contra os comícios políticos petistas e o assassinato de Marcelo Arruda mostram o quanto a esquerda precisa estar alerta e se preocupar mais e melhor com sua segurança. A esses casos precisamos somar os assassinatos de Bruno e Dom, Marielle Franco e Anderson, as intimidações corridas no Rio de Janeiro esta semana, entre outros acontecimentos.

Todavia, a mídia e os setores “pacifistas de direita” procuram construir a narrativa de uma “polarização” e de um suposto “radicalismo dos dois lados”. Outros setores, como os pacifistas de esquerda, muitos destes ligados ao PT e à própria campanha petista, procuram defender a posição de que “não existe polarização” e que os trabalhadores não devem reagir às provocações dos bolsonaristas, ou tomar qualquer outra “postura mais radical”.

A verdade é que existe sim uma polarização! Além disso, é muito provável que a mesma deva aumentar e tende a se radicalizar, não só no Brasil, mas internacionalmente, como já podemos acompanhar em diversos outros países. Esta polarização no Brasil não é fruto do petismo ou do bolsonarismo, como acreditam e propagam alguns apoiadores de Ciro Gomes, por exemplo. Trata-se, na verdade, da própria luta de classes, da qual o petismo e o bolsonarismo são expressões distorcidas. Ou seja, são fenômenos da luta de classes, não “a causa da polarização”.

Tampouco é a “polarização política” a causa responsável pelo aumento da “violência política e ideológica” neste último período. Esse argumento propagado pela mídia burguesa procura, sem sucesso, fortalecer uma “terceira via”, mais ao “centro”, como alternativa para se contrapor à uma suposta e “nociva polarização política”. O discurso mais eloquente recentemente de que “não existe polarização” foi feito pelo Senador Randolfe Rodrigues (REDE) durante um comício político da campanha Lula/Alckmin. Em sua fala, bastante contraditória, em um discurso que buscava se apresentar como “oposição radical a Bolsonaro”, gritou Randolfe:

“Não há polarização! Quando um lado é a democracia… e o outro lado cultua a memória de um torturador chamado Alberto Ustra! Não há polarização quando tem esses dois lados!…

Depois de muita retórica para dizer que não existe polarização, conclui o “radical senador”:

 “Não há dois lados, quando um lado é a vida e o outro é a morte!”

O verdadeiro problema enquanto a temperatura da luta de classes e a polarização política aumenta é que um dos lados está se armando, enquanto o outro, no caso a esquerda, encontra-se, além de desarmada, em uma campanha pelo “não armamento, em defesa da vida”. Pregar o pacifismo e a não violência se caracteriza como um grande equívoco e também bloqueio à radicalização das massas contra o bolsonarismo e o capitalismo. Contra a ameaça de uso da violência por parte dos apoiadores de Bolsonaro, o movimento dos trabalhadores precisa apresentar uma posição que ajude a preparar a vanguarda que quer resistir.

Podemos imaginar de que forma terminaria o ocorrido em Foz de Iguaçu se Marcelo Arruda estivesse desarmado e não estivesse em condições de agir em legítima defesa. O próprio Lula, em sua manifestação pelo Twitter, chegou a reconhecer que o fato do petista e sindicalista estar armado e agir em legítima defesa naquele momento “evitou uma tragédia maior”. Marcelo Arruda, antes de tombar pelo radicalismo bolsonarista, assim como seus colegas, impediram que o assassino se levantasse para continuar com a matança. A verdade, portanto, é que nos deixaram um exemplo: o de como a classe trabalhadora deve se defender do “radicalismo de direita”, dos capitalistas e suas polícias e milícias anti-operárias.

Como bem observou Marx, já durante sua juventude, “As armas da crítica não substituem a crítica das armas” (Crítica da Filosofia do Direito de Hegel). O monopólio das armas sobre o controle do Estado Burguês e sua liberação legal apenas para empresas privadas e para setores da pequena-burguesia (que é quem pode comprar e adquirir tais armamentos) representa a ditadura permanente do grande capital e de pequenos e falidos capitalistas sobre os explorados.

Os trabalhadores, sindicatos e suas organizações devem organizar sua defesa tal como o faz a própria burguesia. A classe dominante se vale do monopólio da repressão – seja por meio do Exército, das polícias ou de empresas de segurança – para manter o controle e a ordem em suas empresas, instituições, festas e manifestações, assim como para reprimir manifestações, dissolver greves e eliminar seus inimigos. Os trabalhadores precisam se colocar a questão de como garantir as condições de se defender para a segurança de suas manifestações, assembleias, sedes e inclusive dos ativistas de sua classe.

Uma medida imediata deve ser a resposta política, organizada e de massas a cada agressão que um de nosso movimento sofrer. Manifestações devem ser convocadas, colocando em xeque os agressores, seus incentivadores e responsabilizando o Estado por garantir a liberdade democrática. Não podemos nos intimidar. Mas a questão é como podemos reagir para avançar nossa posição na luta de classes.

Lênin explicou que o Estado democrático é a melhor condição de trabalho para os comunistas. Devemos utilizar a própria legislação democrática contra a burguesia e seus cachorros loucos. A aplicação da lei para garantir as liberdades democráticas precisa ser imposta pelas ruas, pela mobilização. O exemplo da delegada bolsonarista do caso Arruda mostra que não se pode confiar no Estado burguês, em suas instituições e representantes.

A isso deve-se combinar a organização de verdadeiros serviços de ordem, compostos pelos próprios trabalhadores, para proteger manifestações, assembleias e ativistas. Não podemos aceitar que a defesa de nosso movimento seja feita por seguranças de empresas privadas que amanhã serão contratados como capangas pelos patrões e governos para reprimir o mesmo movimento. Essa pode ser a solução para proteger a degenerada e pelega burocracia sindical e partidária, mas não serve para o conjunto da vanguarda em luta.

Apenas os trabalhadores organizados em autodefesa são uma força confiável. Somente eles podem garantir que nosso movimento seja capaz de se defender. Essa é a política classista correta que permite responder os ataques não apenas da polícia, mas também de seus grupelhos protofascistas, assim como de indivíduos degenerados como o bolsonarista que assassinou Arruda.

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