Ascensão e queda da Internacional Comunista

Há 102 anos iniciava o 1º Congresso Mundial da Internacional Comunista, em Moscou. Também conhecida como a 3ª Inernacional ou Comintern, essa poderosa organização da classe trabalhadora mundial nasceu a partir do colapso do capitalismo na Primeira Guerra Mundial. Suas sementes foram lançadas antes, na famosa Conferência de Zimmerwald, em 1915, quando os poucos internacionalistas que não captularam após a traição histórica da 2ª Internacional, se reuniram para discutir os rumos do movimento operário diante da guerra imperialista. Porém, as bases reais para a criação da Internacional Comunista (IC) só surgiram após a tomada do poder pelos trabalhadores na Revolução Russa de 1917.

Este artigo de Ted Grant, de 1943, conta de maneira resumida, a história da IC, o seu legado e o papel do stalinismo na destruição dessa organização. Como marxistas, reinvidicamos os quatro primeiros congressos da IC, suas resoluções e declarações que são verdadeiros tesouros para a luta da classe trabalhadora pelo socialismo.

A Terceira Internacional está oficialmente enterrada. Da forma mais indigna e abjeta concebível, ela foi retirada do palco histórico. De maneira apressada e sem consulta ao conjunto dos partidos signatários, sem falar da militância ao redor do mundo, sem qualquer discussão ou decisão democrática, como resultado da pressão do imperialismo americano, Stalin perfidamente abandonou a Comintern.

Para entender como essa organização que inspirou o terror e o ódio de todo o mundo capitalista chegou a esse fim inglório sob as ordens do capitalismo, é preciso rever brevemente a ascensão turbulenta e até mesmo o declínio turbulento da Internacional. O decreto de dissolução foi meramente a confirmação do que há tempos era sabido por qualquer pessoa bem informada, que a Comintern enquanto fator decisivo para o mundo socialista estava morta e distanciada para sempre de seus objetivos e propósitos originais. Sua morte havia sido prevista com grande antecedência.

A Terceira Internacional surgiu a partir do colapso do capitalismo na Primeira Guerra Mundial. A Revolução Russa espalhou uma onda de fervor revolucionário entre as fileiras da classe trabalhadora por todo o mundo. Para as massas cansadas da guerra, desiludidas e amarguradas, ela veio como uma mensagem de esperança, de inspiração e de coragem, ela mostrou a saída para o caos sanguinário no qual o capitalismo havia mergulhado a sociedade. Nasceu como consequência direta da traição e colapso da Segunda Internacional, que apoiou a classe dominante na Primeira Guerra Mundial.

O colapso do imperialismo e do capitalismo foi sinalizado pelas revoluções na Alemanha, Áustria e Hungria, pela situação revolucionária na Itália, França e Grã-Bretanha. O espectro da revolução socialista pairou sobre toda a Europa. As memórias e escritos de quase todos os políticos burgueses daquele período carregam testemunhos de desespero e falta de confiança na burguesia diante do fato de que eles haviam perdido o controle da situação. A social-democracia salvou o capitalismo.

Os poderosos sindicatos e burocratas socialistas se colocaram à frente da insurgência das massas e a desviaram por caminhos inofensivos. Na Alemanha, Noske e Scheidemann conspiraram com os junkers1 e capitalistas para destruir a revolução. Os sovietes de trabalhadores, soldados, marinheiros, camponeses e mesmo estudantes que emergiram da revolução de novembro de 1918 detinham o poder em suas mãos. Os sociais-democratas entregaram o poder de volta aos capitalistas.

Gradualmente, lentamente, pacificamente, como ditavam suas concepções teóricas, eles iriam transformar o capitalismo em socialismo. Na Itália, por volta de 1920 os trabalhadores tomaram as fábricas. Em vez de liderar os trabalhadores à conquista do poder, o Partido Socialista os obrigou a encerrarem o processo “inconstitucional”. E assim foi por toda a Europa. Os resultados desse programa são evidentes hoje em dia [1943]. A pior tirania e a mais sangrenta guerra na história do capitalismo. Mas justamente por causa do colapso da Segunda Internacional, que traiu o marxismo, a Terceira Internacional se formou.

Logo após o início da Primeira Guerra Mundial, Lenin corajosamente lançou o chamado à Terceira Internacional. A Terceira Internacional foi fundada formalmente em março de 1919. Suas metas e objetivos declarados eram a derrubada do mundo capitalista e a construção de uma corrente mundial de repúblicas socialistas soviéticas para se juntarem à URSS, que não era concebida como uma entidade independente, mas apenas como base para a revolução mundial. Seu destino seria determinado e estava amarrado ao destino da revolução mundial.

Primeiro Congresso da Internacional Comunista, realizado em março de 1919
A formação da Terceira Internacional rapidamente levou à criação de poderosos partidos comunistas nos principais países do mundo. Na Alemanha, França, Tchecoslováquia e outros países, partidos comunistas com uma militância massiva foram criados. Na Grã-Bretanha, um pequeno partido comunista foi formado e obteve considerável influência. O sucesso da revolução mundial no período seguinte parecia estar assegurado pelo desenrolar dos acontecimentos. Os partidos comunistas na Europa cresciam consistentemente em número e influência à custa da social-democracia.

A Primeira Guerra Mundial não foi capaz de resolver os problemas do mundo capitalista. Na verdade, ela os agravou. O capitalismo se rompeu em seu “elo mais fraco”, como disse Lenin. As tentativas de destruir a jovem República Soviética através das guerras de intervenção falharam completamente. O capitalismo alemão, o mais poderoso da Europa, se viu desprovido de recursos, sem parte do seu território, oprimido por reparações de guerra vexatórias e de forma geral colocado em uma posição sem qualquer possibilidade. Os imperialistas britânicos e franceses, que saíram “vitoriosos” da Primeira Guerra Mundial, não estavam, no fundamental, em posição muito melhor.

Encorajadas pela Revolução Russa, as massas de países coloniais e semicoloniais estavam se movimentando e se preparando para a revolta. As massas nas metrópoles estavam inquietas e agitadas e a posição econômica do imperialismo anglo-francês havia piorado consideravelmente em comparação com a dos imperialismos japonês e americano. Foi nesse pano de fundo internacional que a crise explodiu na Alemanha em 1923. O país, com sua alta capacidade produtiva, estava incapacitado pelas restrições impostas pelo Tratado de Versalhes2 e havia se tornado então o elo mais fraco da corrente do capitalismo mundial.

A impossibilidade da Alemanha de pagar as parcelas das reparações de guerra resultou na marcha (invasão) dos capitalistas franceses sobre o Vale do Ruhr. Isso ajudou a completar o colapso da economia alemã e a burguesia alemã esforçou-se para descarregar o peso sobre os ombros da classe trabalhadora e da classe média. A desvalorização do marco alemão em relação à libra subiu de 20 para 40 em janeiro, chegou a 5 milhões em julho e a 47 milhões ao fim de agosto. As massas alemãs indignadas se voltaram em direção ao comunismo.

Como Brandler, então líder do Partido Comunista, afirmou no encontro do Comitê Executivo da Comintern: “Havia sinais de um crescente movimento revolucionário: nós tínhamos temporariamente a maioria dos trabalhadores do nosso lado e nessa situação acreditamos que sob circunstâncias favoráveis iríamos proceder imediatamente ao ataque…”. Mas infelizmente a liderança da Internacional falhou no teste e não se aproveitou da oportunidade. O sucesso na Alemanha teria inevitavelmente levado à vitória por toda a Europa. Mas assim como na Rússia em 1917, na Alemanha de 1923 seções da liderança vacilaram.

Stalin, com seu oportunismo orgânico, insistiu que o partido alemão fosse “impedido” de tomar qualquer ação. O resultado foi que a oportunidade favorável de tomar o poder na Alemanha foi perdida e os comunistas na Alemanha foram derrotados. Por razões similares, a revolução na Bulgária também naufragou. Mas a derrota das revoluções na Europa causada pelo fracasso da liderança inevitavelmente levou a sérias consequências. Como escreveu Lênin, insistindo na necessidade de preparar para a insurreição na Rússia em 1917: “O sucesso da revolução russa e mundial depende de dois ou três dias de luta”.

O fracasso da revolução mundial e o isolamento da União Soviética, juntamente com seu atraso, o cansaço e apatia das massas soviéticas que haviam passado por anos de guerra, privações e sofrimentos terríveis no curso na guerra civil a das intervenções, a sua desilusão e desespero diante do fracasso de suas esperanças de socorro por parte dos trabalhadores da Europa: tudo isso inevitavelmente levou à reação dentro da URSS.

À época, representando talvez inconscientemente os interesses da burocracia reacionária e conservadora que estava apenas começando a se erguer sobre as massas soviéticas, Stalin em 1924 surgiu pela primeira vez com a teoria utópica e antileninista do “socialismo em um só país”. Essa “teoria” brotou diretamente da derrota que a revolução havia sofrido na Alemanha. Ela indicou um desvio dos princípios do internacionalismo revolucionário nos quais a revolução russa havia sido baseada e sobre as quais a Internacional Comunista havia sido fundada.

Stalin, no funeral de Lênin em janeiro de 1924, declarou por força do hábito seguindo a tradição da revolução russa: “Ao nos deixar, o camarada Lênin goza de nossa parte a fidelidade à Internacional Comunista. Nós juramos a ti, camarada Lênin, devotar nossas vidas ao crescimento e fortalecimento da união dos trabalhadores de todo o mundo, a Internacional Comunista”. À época ele não tinha a menor noção de para onde a teoria do socialismo em um só país iria levar a União Soviética e a Comintern.

A história da Comintern desde aqueles dias esteve grandemente ligada às políticas flutuantes da burocracia da URSS. Lenin havia insistentemente conectado o destino da União Soviética ao da classe trabalhadora mundial, e principalmente à sua vanguarda na Comintern. Até mesmo no juramento do Exército Vermelho, os soldados se comprometiam a ser leais à classe trabalhadora internacional. De fato o Exército Vermelho não era entendido como uma força “nacional” independente, mas como um dos instrumentos da revolução mundial.

É claro que tudo isso há tempos foi alterado por Stalin. Trotsky, juntamente com Lenin, que em seus últimos anos viu com alarme o desenrolar dos acontecimentos, já havia iniciado a luta contra a burocratização do Partido Bolchevique e do Estado soviético em 1923. Lenin estava alertando sobre os perigos da degeneração que ameaçavam o Estado soviético.

Nos bastidores da reação crescente, nacional e internacionalmente, a luta entre os internacionalistas e os termidorianos3 entrou em uma fase aguçada. Trotsky, em aliança com Lenin, havia exigido a restauração da plena democracia dentro do Partido Bolchevique e dos sovietes. Lenin, buscando esse objetivo, havia exigido a remoção de Stalin do posto de secretário-geral do partido pelo fato de ter se tornado o ponto focal ao redor do qual a burocracia estava se cristalizando.

Após a morte de Lenin, Zinoviev, Kamenev4 e Stalin, “a troika”, garantiram a despeito do conselho de Lenin uma decisão por parte do Comitê Central e iniciaram uma campanha contra as ideias de Lenin que eram defendidas por Trotsky, com a invenção do espúrio e fantasioso termo “trotskismo”. O destino da Comintern estava ligado ao destino do Partido Bolchevique da União Soviética, que por sua experiência e prestígio, era naturalmente a força dominante da Internacional.

A transição da política de revolução internacional para a do socialismo em um só país expressa uma forte virada à direita na Comintern. Na Rússia, Zinoviev e Kamenev foram forçados à oposição pela política antimarxista que passou a ser desenvolvida por Stalin. Eles foram empurrados a uma aliança com Trotsky e seus apoiadores. Stalin, juntamente com Bukharin, se opôs à política de industrialização da Rússia através de uma série de planos de cinco anos sugerida pela Oposição de Esquerda liderada por Trotsky e surgiu com seu famoso aforismo durante a plenária do Comitê Central em abril de 1927 de que “tentar construir a estação hidrelétrica de Dnieperstroy seria o mesmo para nós que um muzhik5 comprar um gramofone em vez de uma vaca”.

Até o fim de 1927, durante a preparação do Décimo Quinto Congresso do Partido, cuja tarefa era expulsar a Oposição de Esquerda, Molotov dizia repetidamente: “Não devemos cair em pobres ilusões camponesas sobre a coletivização das grandes massas. Nas circunstâncias presentes isso não é mais possível”. Na Rússia a política era a de permitir os kulaks (camponeses ricos) e os nepmen (capitalistas urbanos assim chamados por causa da Nova Política Econômica de 1921) alcance total para o desenvolvimento econômico. Essa política era perfeitamente representada pelo slogan cunhado por Bukharin com total apoio de Stalin e direcionado ao campesinato: “Enriqueçam!”.

A política da Comintern era agora empurrada para a direita com a preocupação de Stalin de encontrar aliados para “defender a União Soviética de ataques”. A Comintern já estava sendo reduzida ao papel de uma patrulha de fronteira. Os desacordos entre o Partido Bolchevique e a Internacional explodiram nas questões sobre a revolução chinesa e a situação na Grã-Bretanha. Na China, entre 1925-1927, a revolução levava os milhões asiáticos à ação. A Comintern, em vez de confiar nos trabalhadores e camponeses para levar adiante a revolução, como era a política de Lenin na Rússia, preferiu confiar nos capitalistas e generais chineses.

A Oposição de Esquerda alertou sobre as consequências dessa política. O Partido Comunista Chinês era o único partido de trabalhadores da China e tinha uma influência dominante sobre a classe trabalhadora; os camponeses buscavam o exemplo da Rússia para mostrar a eles a saída para seus sofrimentos seculares nas mãos dos latifundiários através da tomada da terra. Mas a Comintern teimosamente se recusou a tomar o caminho da independência da classe trabalhadora, que Lênin insistiu ser um pré-requisito para a política comunista em relação às revoluções democrático-burguesas e anti-imperialistas no Oriente.

Enquanto isso, uma política semelhante estava sendo levada na Grã-Bretanha, onde as massas estavam em um processo de intensa radicalização. Como forma de luta contra a intervenção na União Soviética, os sindicatos russos fizeram um acordo com o conselho-geral do Congresso de Sindicatos (TUC) britânico. A tendência em direção a desenvolvimentos revolucionários na Grã-Bretanha pode ser vista no fato de que um milhão de membros, um quarto de todos os sindicalizados, estavam organizados no Minority Movement6. Trotsky, analisando a situação na Grã-Bretanha, previu a explosão de uma greve geral.

A tarefa do Partido Comunista e da Internacional Comunista deveria ter sido a de preparar os trabalhadores para a inevitável traição por parte das lideranças sindicais. Em vez disso, eles semearam ilusões nas mentes dos trabalhadores, principalmente quando os burocratas sindicais se cobriram com o acordo feito junto aos sindicatos russos, cujo prestígio eles usavam como capa. Após a traição por parte da burocracia sindical durante a greve geral de 1926, Trotsky exigiu que os sindicatos russos cortassem relações com o TUC. Stalin e a Comintern se recusaram a fazê-lo.

Após utilizar o comitê anglo-russo pelo tempo que foi necessário, mais de um ano após a greve geral, a liderança sindical britânica cortou relações. A Comintern lamentou-se de que havia sido traída. Mas enquanto isso o jovem Partido Comunista Britânico, que deveria ter ampliado sua militância aos trancos e barrancos como resultado desses grandes acontecimentos, estava paralisado e desorientado pela política da Internacional, completamente desacreditado e reduzido em influência entre as massas. Essas novas derrotas da Internacional devido diretamente à política de Stalin e da burocracia, embora possa parecer paradoxal à primeira vista, aumentaram o poder da burocracia dentro da União Soviética.

As massas soviéticas ficaram ainda mais desanimadas e desiludidas por essas novas derrotas do proletariado internacional e sofreram um declínio ainda maior de motivação. As derrotas que haviam sido consequência direta da política de Stalin e da burocracia fortaleceram ainda mais seu controle sobre a União Soviética. A Oposição de Esquerda, liderada por Trotsky, que havia analisado e antecipado corretamente esses desenvolvimentos, estava agora expulsa do Partido Bolchevique e da Internacional.

Os resultados internos da política de Stalin passaram então a dar frutos através do crescimento alarmante da força e influência dos kulaks e dos nepmen. A União Soviética estava à beira do desastre. Em pânico e aterrorizado, Stalin e a burocracia foram impelidos a adotar uma caricatura da mesma política pela qual Trotsky e seus correligionários haviam sido expulsos. Na Rússia, os planos quinquenais contra os quais Stalin havia lutado de forma tão determinada foram então introduzidos.

Foi com base nessa produção planificada que a União Soviética atingiu seus maiores sucessos e é nela que a URSS atual [de 1943] se fundamenta para a guerra. Enquanto isso, a virada brusca à esquerda internamente se refletiu em uma virada brusca para a esquerda internacionalmente. Stalin havia se dado muito mal ao tentar se apoiar nos elementos capitalistas na China e conciliar com a social-democracia. Agora ele desviou a Internacional em direção completamente oposta. Violando seu estatuto, a Internacional não realizou uma conferência durante quatro anos. Uma nova conferência foi então chamada, na qual foi apresentado o programa da Internacional Comunista. Ela também proclamou o fim da estabilidade capitalista e o início do que foi denominado “Terceiro Período”. Este deveria inaugurar o período do colapso final do capitalismo mundial. Ao mesmo tempo a social-democracia, de acordo com a antes famosa (hoje esquecida) teoria de Stalin, supostamente havia se transformado em “social-fascismo”. Nenhum acordo era então possível com os “sociais-fascistas”, que representavam o maior perigo enfrentado pela classe trabalhadora e precisavam ser destruídos.

Foi exatamente nesse período que a crise sem precedentes de 1929-1933 afetou o mundo, em particular a Alemanha. Os trabalhadores alemães foram jogados em uma situação de degradação e miséria e as classes médias se arruinaram. O desemprego na Alemanha aumentou consistentemente até alcançar o pico de 8 milhões de desempregados. A classe média, que não conseguiu nada com a revolução de 1918 e se desapontou com o fracasso dos comunistas em tomar o poder em 1923, em angústia e desespero começou a procurar por uma solução para seus problemas em outra direção.

Subsidiados e financiados pelos capitalistas, os fascistas começaram a obter uma base entre as massas na Alemanha. Nas eleições de setembro de 1930, eles garantiram quase 6,5 milhões de votos. Apesar de sua expulsão da Internacional Comunista, Trotsky e seus seguidores ainda se consideravam parte dela e insistentemente exigiam que pudessem retornar às suas fileiras. Ao mesmo tempo, submeteram a duras críticas a teoria suicida que era adotada pela Comintern. Em lugar dela, eles chamavam a um retorno à realista política leninista de frente única7 como forma de ganhar as massas para o comunismo através da ação e de sua própria experiência.

Com a vitória de Hitler nas urnas, Trotsky fez soar o alarme. Em um panfleto intitulado “A virada na Internacional Comunista — A situação na Alemanha”, ele emitiu o chamado para uma campanha que foi realizada durante três anos pela Oposição de Esquerda Internacional da Comintern, como os trotskistas consideravam a si mesmos. Na Alemanha, França, EUA, Grã-Bretanha, na distante África do Sul e em todos os países onde havia grupos, os trotskistas conduziram uma campanha exigindo que o Partido Comunista Alemão lançasse uma campanha por uma frente única com os sociais-democratas para prevenir que Hitler chegasse ao poder.

A partir de ordens e instruções diretas de Stalin e da Comintern, o Partido Comunista Alemão denuncia essa política como contrarrevolucionária e “social-fascista”. Eles lutaram insistentemente contra a social-democracia, considerada “principal inimigo” da classe trabalhadora, e argumentavam não haver diferença entre a democracia e o fascismo. Em setembro de 1930, o Rote Fahne, órgão do PC alemão, proclamou: “A noite passada foi um grande dia para Herr Hitler, mas a chamada vitória eleitoral dos nazistas é o começo do fim” (15 de setembro de 1930).

Ao longo desses mesmos anos a Comintern continuou seu curso fatal. Quando Hitler organizou um referendo em 1931 para derrubar o governo social-democrata na Prússia, por insistência direta de Stalin e da Comentem, os comunistas alemães votaram com os nazistas contra os sociais-democratas. Mais tarde, em maio de 1932, o britânico Daily Worker chegou a acusar orgulhosamente os trotskistas por sua política na Alemanha dizendo: “É significativo que Trotsky tenha saído em defesa de uma frente única entre comunistas e partidos social-democratas contra o fascismo. Não poderia ter sido dada uma direção mais destrutiva e contrarrevolucionária à classe na época do que essa”.

Enquanto isso, Trotsky havia escrito quatro panfletos e dezenas de artigos e manifestos; por toda parte o trotskismo internacional se aproveitava de qualquer brecha para pressionar a Comintern a mudar sua política. Mas foi em vão. Em janeiro de 1933, Hitler conseguiu tomar o poder sem qualquer oposição organizada, isso no país com a mais organizada classe trabalhadora e com o partido comunista mais forte fora da Rússia.

Pela primeira vez na história, a reação conseguiu tomar o poder sem qualquer resistência por parte da classe trabalhadora. O PC alemão somava 6 milhões de apoiadores, a social-democracia, 8 milhões — juntos eles eram a maior força na Alemanha. Por causa dessa traição, o PC alemão estava condenado para sempre.

Mas a Comintern estava longe de reconhecer a natureza da catástrofe. Em vez disso, ela endossou solenemente a política do PC alemão e da Internacional como perfeitamente correta. Uma organização incapaz de aprender as lições da história está condenada. Enquanto força do socialismo mundial, a Internacional Comunista estava morta. Foi então que a Oposição de Esquerda Internacional rompeu e proclamou a necessidade de uma nova internacional. Mas o que estava claro para a vanguarda que abandonava a tentativa de reformar a Comintern poderia não estar claro para as massas. Somente grandes eventos poderiam ensiná-las.

A Internacional Comunista continuou a levar essa falsa política até 1934. Quando os fascistas na França, encorajados pelos sucessos do fascismo na Áustria e na Alemanha, realizaram manifestações armadas para derrubar o governo liberal e o parlamento, o PC emitiu ordens para que se manifestassem junto com eles. Mas agora a dimensão do perigo que Hitler representava à União Soviética estava evidente para todos. Stalin e a burocracia entraram em pânico. Desdenhosos e céticos da capacidade da Comintern como instrumento da revolução mundial, Stalin a converteu mais abertamente a um instrumento da política externa russa.

Uma organização na sociedade de classes que deixa de representar a classe trabalhadora, inevitavelmente cai sob a pressão e influência da burguesia. Stalin, em busca de aliados, agora se voltava para as burguesias da Grã-Bretanha e da França. A política de “Frente Popular” foi iniciada e sancionada no último Congresso da Internacional, realizado em 1935. Essa política de coalizão com os capitalistas liberais foi combatida por Lênin durante toda a sua vida. Ela representava um novo estágio na degeneração da Comintern e do primeiro Estado operário.

Com a ascensão de Hitler, novamente graças às políticas de Stalin, o controle férreo da burocracia dentro da União Soviética se tornou ainda maior. A casta burocrática havia se erguido muito acima das massas soviéticas e aumentado seu poder. Mas essa degeneração progressiva teve mudanças qualitativas. Em vez de simplesmente ser incapaz de garantir nada além de derrotas para a classe trabalhadora mundial, o stalinismo passou a se opor à revolução proletária em outros países. Os Processos de Moscou, o assassinato dos velhos bolcheviques, os expurgos, o assassinato e exílio de dezenas de milhares da nata dos trabalhadores comunistas russos completaram a contrarrevolução stalinista dentro da União Soviética.

Os acontecimentos na França e na Espanha8 estão frescos na mente de todos os revolucionários. A Comintern desempenhou o principal papel na destruição da revolução que poderia ter sido completada. De fato, ela se revelou a vanguarda de luta da contrarrevolução. As derrotas da classe trabalhadora mundial inevitavelmente levaram à nova guerra mundial. Ironicamente, a guerra foi precedida por um pacto entre Hitler e Stalin. Assim, Stalin desferiu novos golpes contra a classe trabalhadora e a Comintern. Ela agora realizou um contorcionismo e conduziu uma campanha pela paz conforme os interesses de Hitler, utilizando uma habilidosa falsificação de política “revolucionária”.
Conforme Trotsky antecipou em sua previsão sobre o pacto entre Stalin e Hitler em um artigo escrito em março de 1933:

“O aspecto fundamental da política internacional de Stalin nos últimos anos tem sido esse: ele negocia os movimentos da classe trabalhadora assim como negocia petróleo, manganês e outras mercadorias. Stalin enxerga as seções da Comintern nos diversos países e a luta libertadora das nações oprimidas como pequenas moedas de troco nas negociações com os poderes imperialistas. Quando ele pede ajuda à França, sujeita o proletariado francês à burguesia radical. Quando ele precisa apoiar a França contra o Japão, sujeita o proletariado chinês ao Kuomintang. O que ele viria a fazer em um possível acordo com Hitler? Hitler, para falar a verdade, não precisa exatamente da ajuda de Stalin para estrangular o Partido Comunista Alemão. O estado insignificante em que este se encontra, aliás , foi garantido por toda a sua política anterior. Mas seria muito provável que Stalin cortasse todos os subsídios ao trabalho ilegal na Alemanha. Essa é uma das muitas pequenas concessões que ele teria que fazer e ele estaria bastante disposto a fazê-lo. Deve-se também assumir que a barulhenta, histérica e vazia campanha contra o fascismo que a Comintern tem conduzido nos últimos anos seria astutamente silenciada.”

A política de Stalin e do “cadáver malcheiroso” da Comintern sofreu uma destruição irreparável quando os nazistas invadiram a União Soviética. A Comintern teve que dar meia volta e se converter novamente em capacho de Roosevelt e do imperialismo britânico. Mas com o aumento da dependência de Stalin em relação ao imperialismo americano e britânico, maior se tornou a pressão por parte dos “aliados” capitalistas. O imperialismo americano em especial havia exigido o fim da Comintern como garantia final contra o perigo da revolução social na Europa após a queda de Hitler.

A longa farsa acabou, Stalin dissolveu a degenerada Comintern. Ao fazer isso, ele anuncia abertamente sua passagem para o lado da contrarrevolução capitalista no que diz respeito ao resto do mundo. Mas os imperialistas, ao forçar Stalin a fazer essa negociação em troca de concessões e barganhas de sua parte, não entenderam as consequências que isso terá. Isso não pode e não vai prevenir novas revoluções pelo mundo. Nas últimas quase duas décadas desde o início de sua degeneração, a Comintern arruinou diversas situações favoráveis em vários países.

As próximas décadas trarão muitas revoluções com a crise e o colapso do capitalismo. Até mesmo o violentamente conturbado período entre as guerras parecerá tranquilo em comparação com o período que está por vir. Nesse cenário de turbulências e revoltas, um verdadeiro instrumento da revolução mundial será criado. O que faltou aos trabalhos nas últimas décadas fora da Rússia foi um Partido Bolchevique e uma liderança bolchevique. Os grandes dias da Comintern de 1917 a 1923 serão vistos novamente. O aumento do apoio às ideias do marxismo internacionalmente, baseadas nas tradições do bolchevismo, na rica experiência do passado e no aprendizado das lições e derrotas da classe trabalhadora podem uma vez mais liderar os oprimidos em direção à derrubada do capitalismo e à república socialista mundial.

Notas:

1 Líderes de direita do SPD. Gustav Norske, ministro da guerra, organizou a repressão da revolta dos trabalhadores alemães de janeiro de 1919 e aprovou o assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Philipp Scheidemann se tornou chanceler em 1919. Os junkers eram aristocratas prussianos reacionários que dominaram o serviço militar e civil até os anos 1930. Ver “Alemanha — Da revolução à contrarrevolução”, de Rob Sewell.

2 O Tratado de Versalhes, assinado em 1919, impôs duras condições sobre a Alemanha ao fim da Primeira Guerra Mundial.

3 De “termidor”, termo usado para descrever a reação política sem uma contrarrevolução social. Deriva de uma analogia com a mudança de poder na Revolução Francesa durante o mês de termidor (julho) de 1974, quando os jacobinos radicais liderados por Robespierre foram derrubados por um golpe de direita enquanto os ganhos fundamentais da revolução social (capitalista) eram deixados intactos. Daí termidorianos serem os apoiadores da reação política na Rússia.

4 Grigori Zinoviev e Lev Kamenev eram velhos bolcheviques. O primeiro havia sido o primeiro presidente da Internacional Comunista, o segundo havia sido suplente de Lenin. Ambos haviam sido contra a tomada de poder pelos sovietes em outubro de 1917. Mais tarde, juntamente com Stalin, eles bloquearam a implatanção e negaram a existência do testamento de Lenin, que exigia a remoção de Stalin como secretário-geral. Ambos foram executados nos expurgos de 1936.

5 Termo russo para camponês.

6 Organização que uniu a esquerda dos sindicatos britânicos nos anos 1920. Ela foi iniciada e liderada principalmente pelo Partido Comunista.

7 A frente única foi concebida como um acordo temporária entre organizações de massa da classe trabalhadora para agir em uma situação específica, ao mesmo tempo em que se retém a independência dos programas.

8 Governos da frente popular foram eleitos na Espanha em fevereiro de 1936 e na França em junho de 1936. Assim como na Espanha, os trabalhadores franceses se colocaram imediatamente em ação ocupando fábricas e estabelecendo comitês de trabalhadores. Em ambos os países o governo da frente popular agiu como uma força antigreve, abrindo caminho na Espanha para o levante fascista de Franco em julho de 1936.

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