As consequências do eleitoralismo na pandemia

A Esquerda Marxista levantou desde o início do governo de Jair Bolsonaro (PL) a necessidade da derrubada imediata desse governo por meio da luta dos trabalhadores e da juventude nas ruas e nos locais de trabalho, tendo sido a primeira organização a levantar a palavra de ordem pelo Fora Bolsonaro, ainda mais com o sentido de derrubada de todo esse sistema.

No entanto, as principais organizações e partidos de esquerda do país combateram abertamente o Fora Bolsonaro, apontando falsamente a teoria da “onda conservadora”, ao mesmo tempo em que jovens do país inteiro saíam às ruas aos gritos de Fora Bolsonaro, usando a hashtag #EleNão, no carnaval de 2019 e mais fortemente ainda no 15M e no 30M do mesmo ano, no que foram as maiores manifestações de rua contra esse governo.

Após forte pressão das bases, com uma oposição cada vez maior ao governo, as direções de esquerda aderiram relutantemente ao Fora Bolsonaro em 2021, mas buscando atrelá-lo cada vez mais a um significado institucional, o que em última instância, e como era da intenção do Partido dos Trabalhadores (PT), só poderia significar Lula eleito no final de 2022. Mas agora, ainda no começo do ano, podemos observar mais claramente aonde essa via eleitoreira está nos levando.

Pandemia, demagogia e negacionismo

Um dos motivos que impulsionou ainda mais o aumento do apoio popular ao Fora Bolsonaro foi a gestão desastrosa e negacionista da pandemia pelo governo federal, que seguindo as ideias do ministro da Economia oriundo da liberal Escola de Chicago, Paulo Guedes, manteve fábricas e comércios a todo o vapor, enquanto o presidente negava a gravidade da pandemia e a chamava de gripezinha, impulsionando uma campanha negacionista e levando a mais de meio milhão de mortes contabilizadas em dois anos.

De forma demagógica, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que se elegeu como aliado de Bolsonaro na campanha BolsoDoria, se voltou contra o presidente e seu discurso negacionista no início da pandemia, se colocando como o “racional pautado na ciência” contra o “irracional negacionista”, por defender o uso de máscaras, tentar negociar a chegada de vacinas sabotadas pelo governo federal e propor um suposto lockdown.

Contudo, o fato é que Doria serve à mesma classe que Bolsonaro, a burguesia, sendo visto por esta como uma figura ainda mais confiável do que o imprevisível atual presidente. Doria também priorizou completamente o funcionamento das empresas, em detrimento da vida dos trabalhadores, realizando um lockdown “pra inglês ver” em que diversos serviços não essenciais e que não tinham sentido em manter o funcionamento em uma pandemia permaneceram abertos, enquanto os pequenos comerciantes foram obrigados a fechar sem uma assistência básica, sendo levados à falência. Tudo em nome de manter os lucros das grandes empresas.

Essa política levou à disseminação massiva da doença nos meios de transportes, nos locais de trabalho e mesmo nas residências, com a população sendo obrigada a trabalhar e a pegar transporte público lotado, ameaçada de ser jogada no desemprego caso se recusasse à esta exposição e reivindicasse o direito ao isolamento. Isto em um momento que o desemprego se tornava cada vez mais palpável para a maioria da população. O índice de contaminação foi ainda mais reforçado com a reabertura das escolas, posicionada como prioridade pelo governo de São Paulo, para que a aparência de normalidade retornasse ao máximo possível.

Fim da obrigatoriedade do uso das máscaras e eleitoralismo

Agora, em um ano de eleição, os governos do Rio de Janeiro, de Santa Catarina e mais recentemente de São Paulo decidem acabar com a obrigatoriedade do uso de máscaras em locais abertos e fechados (salvo locais de saúde e transportes públicos).

Os governantes dizem estar amparados por uma queda na gravidade da pandemia e pelo aumento no número de vacinados, e que por isso estão respaldados pela comunidade científica.

Entretanto, de fato, o que não falta são médicos, cientistas e especialistas apontando como essa medida é precipitada. Os níveis de vacinação na Europa são muito maiores, e ainda assim a flexibilização do uso de máscaras só causou mais infectados e maior proliferação do vírus. Tal medida tende a aumentar a contaminação, favorecer uma nova onda e, inclusive, mutações do vírus, proliferando novas variantes, como a nova Deltacron ou uma nova variante descoberta em Israel, que podem inclusive se mostrar mais resistentes à vacina.

Enquanto isso, a burguesia exige a reabertura total da economia com o objetivo de aumentar a sua extração de mais-valia, impulsionar o comércio e com isso aumentar a sua taxa de lucro. Entretanto, esse ano temos o agravante de ser um ano eleitoral, o que favorece ainda mais o teatro do “retorno à normalidade”.

No final de 2020, diante das eleições municipais, houve um abafamento das notícias sobre a taxa de mortalidade e infecções pela Covid-19, com simulações de que a situação estaria voltando à normalidade e aumentando a flexibilização do, já frágil, lockdown, tudo visando a propaganda eleitoral.

Obviamente que, assim que as eleições passaram, foram divulgados os números absurdos dos novos casos de Covid-19 e os pedidos de “conscientização” para a população. Como sempre, os governantes, a mídia burguesa e as direções de esquerda apontaram a culpa do número de mortos e infectados para a população “burra, negacionista e manipulada”.

Agora a situação se agrava ainda mais, com a desculpa da população vacinada (insuficientemente) e com as eleições voltadas à presidência, governos estaduais, Senado, Câmara Federal e Câmaras Estaduais. A estratégia de liberar o uso de máscaras em São Paulo nada mais é do que pura propaganda eleitoral demagógica do governo burguês negacionista de Doria para se promover em sua candidatura à presidência pelo PSDB, em um momento que temos cinco milhões de infectados e mais de 150 mil mortos no estado.

A responsabilidade das direções de esquerda e o que fazer

O mais assombroso é que a vontade de derrubar Bolsonaro e o repúdio a todos os representantes desse sistema, incluindo Doria, está mais do que evidente. Os dirigentes operários, estudantis e dos partidos de esquerda poderiam ter levado os movimentos Fora Bolsonaro de 2021 ao crescimento em uma linha consistente para derrubar Bolsonaro AGORA, e todos os seus aliados e ex-aliados, como o BolsoDoria. Mas essas direções preferiram sabotar o movimento de massas, levá-lo à exaustão e apostar na via eleitoral. Agora podemos presenciar na prática, mais do que nunca, aonde a ausência da luta nas ruas, nos locais de trabalho e a tal via eleitoral podem nos levar.

Se ao invés de Lula e o PT focarem na tática eleitoreira, eles tivessem impulsionado um combate resoluto contra Bolsonaro, não precisaríamos estar observando todas as já fracas e insuficientes medidas de prevenção se despencando por motivos eleitoreiros, gerando a possibilidade de novas ondas de contágios, de obsolescência das vacinas e de mais milhares de infectados e mortos.

Essa pandemia já poderia ter sido encerrada se não fosse pelo sistema capitalista, que, embora já tenha as ferramentas e materiais necessários para poder exterminá-la, não tem esse interesse como prioritário. Nenhuma saída por dentro desse sistema funcionará.

Poderíamos estar sem máscaras agora, imunizados e sem risco de novas variantes. Mas esse tipo de medidas preventivas exige uma planificação democrática da economia e da sociedade sob o controle da classe trabalhadora, que tudo produz.

Mesmo com Lula voltando à presidência após as eleições, até lá muita água (e sangue) irá correr graças à sua tática baseada na colaboração de classes. E mesmo após retornar à presidência, o ex-presidente petista já deixou claro que pretende que seu novo governo seja ainda mais conciliador que todos os anteriores, governando junto com a burguesia que não permite o fim dessa pandemia e nem de toda a crise global, que só joga a humanidade no desemprego, no pessimismo e no desespero, por favorecer os lucros de 1% em detrimento da vida de 99%.

Não teremos nenhuma ilusão de que um futuro governo Lula irá resolver os problemas fundamentais que os trabalhadores e a juventude sofrem. Muito pelo contrário, eles só irão se agravar, pois o problema não é o “gestor” desse sistema, mas sim o sistema como um todo, que Lula já deixou bem claro que irá manter.

Existe disposição de luta, mas dada a traição das direções os trabalhadores e jovens estão indo pela via mais econômica, a via eleitoral para retirar Bolsonaro e o apoio a Lula é, na verdade, uma expressão da rejeição ao governo Bolsonaro e a única perspectiva que se apresenta viável para removê-lo da presidência. Enquanto marxistas, atuamos nas eleições como forma de divulgar nosso posicionamento, defendendo um programa revolucionário. Nossa tática no PSOL, é de defesa de uma candidatura própria em primeiro turno, com um programa de independência de classe. Também nos baseamos na tática da frente única e, se necessário, votaremos em Lula, num combate de classe contra classe, num cenário de enfrentamento com um candidato de partido burguês, realizando todas as críticas ao seu programa pró-burguês e aliança traidora com o ex-tucano Geraldo Alckmin (PSB), ajudando a combater as ilusões no campo das ilusões.

Nosso combate esse ano passa pelo campo distorcido das eleições, mas nosso combate central é pela revolução e pelo socialismo, que é o único caminho que pode realizar as aspirações e satisfazer as necessidades do conjunto dos trabalhadores e da juventude. Como dizia Trotsky, em 1936, “As premissas objetivas da revolução proletária não estão somente maduras: elas começam a apodrecer… A crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária”.

Defendemos a unidade e independência da classe trabalhadora e apontamos abertamente que a única saída para resolver nossos problemas fundamentais é a luta nas ruas e nos locais de estudo e trabalho para pôr abaixo Bolsonaro e o sistema capitalista, combatendo pela revolução socialista! Construimos a nossa luta apontando um programa imediato de enfrentamento do capital, baseado nos seguintes pontos:

  • Não pagamento da dívida pública (interna e externa), que não foi o povo que fez e que é o principal instrumento de domínio imperialista e de exploração da classe trabalhadora e de todos os oprimidos!
  • Todo investimento necessário nos serviços públicos! Realização imediata de concursos públicos para preenchimento de todas as vagas existentes e ampliação do atendimento! Saúde e Educação públicas e gratuitas para todos! Cancelamento de todas as OSs, na Saúde, e fim do financiamento público para empresas privadas de educação! Contratação efetiva e direta pelo Estado de todos os trabalhadores das parcerias privadas (ONGs, OSs etc.), com garantia de direitos e estabilidade no emprego.
  • Seguro-desemprego para todos os desempregados. Estabilidade no emprego, nenhuma demissão! Reajuste mensal automático dos salários de acordo com a inflação!
  • Anulação de todas as reformas trabalhistas e das reformas da Previdência de FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro! Previdência pública e solidária, aposentadoria com o último salário integral após 35 (homens) / 30 (mulheres) anos de trabalho, sem idade mínima.
  • Congelamento dos aluguéis. Proibição de despejos por falta de pagamento de aluguéis! Expropriação dos prédios e terrenos ocupados: Moradia para todos os trabalhadores sem-teto!
  • Reforma agrária já! Por uma verdadeira reforma agrária que deve passar pela expropriação e estatização do Agronegócio e do latifúndio, sob controle dos trabalhadores!
  • Anulação de todas as privatizações de serviços e empresas públicas realizadas pelos governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro!

Por todos esses pontos, defendemos a construção de uma direção revolucionária, agindo na luta de classes. Esta é a principal tarefa que a Esquerda Marxista se coloca atualmente, e convidamos todos os interessados a fazer parte dessa tarefa a entrarem em contato conosco e construírem a organização revolucionária do proletariado.

  • Abaixo o governo Bolsonaro!
  • Abaixo o capitalismo!
  • Pela revolução socialista com um governo dos trabalhadores sem patrões nem generais!
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