Fotos: Ione Moreno, Semcom

Amazonas chega a mil casos de coronavírus e, para o governo, a culpa é da população

Após um rápido crescimento nas últimas semanas, o número de casos confirmados de Covid-19 no Amazonas chegou a 1.050 pessoas neste sábado, 11/4. Diante de um sistema de saúde incapaz de atender a população e problemas básicos de saneamento e saúde pública, o governo de Wilson Lima (PSC) coloca a culpa pelos números nas costas da população.

A incidência do novo coronavírus no Amazonas é de 19,1 para cada 100 mil habitantes, taxa mais alta entre todos os estados do Brasil, e o índice de óbitos está atrás apenas de São Paulo. A quantidade de leitos existentes no estado segundo o Ministério da Saúde, 271, não seria suficiente nem mesmo para um contágio mínimo entre a população. Se levarmos em conta o fato de que 61% desses leitos já estavam ocupados em fevereiro e 94 não atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), não fica difícil entender porque a pandemia no Amazonas deve atingir proporções catastróficas.

Em um arroubo de sinceridade, que não melhora em nada o seu caráter, o então secretário de Saúde do estado, Rodrigo Tobias, afirmou em entrevista à CNN que o sistema de saúde do Amazonas deveria entrar em colapso nos dias seguintes. Qual a medida do governador após a declaração? Tirar o secretário para colocar em seu lugar Simone Papaiz, que tem como maior experiência a secretaria de saúde de Bertioga (SP), um município com menos de 60 mil habitantes. Certamente Simone já foi avisada sobre a política do governo do Amazonas no que se refere a falar a verdade.

O governo do Amazonas negou a declaração de Tobias, mas o prefeito de Manaus, Arthur Neto (PSDB), também falou em colapso do sistema de saúde e a Folha de São Paulo publicou matéria com um funcionário do hospital Delphina Aziz, onde as internações por Covid-19 estão sendo concentradas, afirmando que os leitos haviam sido completamente ocupados. Ontem, 11/04, o governo admitiu ter apenas 9 leitos de UTI no Delphina Aziz e que “faltam recursos humanos” para a abertura de novos.

Em entrevistas coletivas realizadas diariamente através de lives no Facebook, a diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), Rosemary Pinto, reiteradamente culpou a população por não respeitar o isolamento social e por buscar o atendimento médico quando a doença já está em quadro irreversível. No entanto, a própria Rosemary apareceu em campanha publicitária do governo afirmando que só se deveria procurar atendimento médico em caso de febre alta e falta de ar.

São inúmeros os relatos de pessoas que apresentaram sintomas típicos da Covid-19, foram aos hospitais e prontos-socorros e não tiveram um diagnóstico por falta de testes. Mandadas de volta para casa, receberam a recomendação de só voltar se tivessem sintomas graves. Como esperar que alguém confie em um sistema que dá demonstrações diárias de incapacidade para lidar com a pandemia? Quem garante que as unidades de saúde não apresentam maior risco de contaminação?

Além da saúde precária, a qualidade do saneamento básico no Amazonas é medieval, o que aumenta gigantescamente os problemas de higiene e cria o ambiente perfeito para a proliferação do vírus. Segundo dados de 2018 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), mais de 20% da população do estado não é atendida com abastecimento de água e precisa recorrer a métodos rudimentares como cacimbas, cisternas e poços artesanais sem qualquer controle. Já a coleta de esgoto é realidade para menos de 10% da população.

O resultado dessa situação é o óbvio: mais de 40% dos municípios tiveram ocorrências de doenças relacionadas à falta de saneamento básico, como diarreia, verminoses, hepatite, leptospirose e até mesmo cólera.

Nem a capital, Manaus, está livre desses problemas. Mais de 1,8 milhão de pessoas não têm acesso à rede de esgoto e 8,5% ainda não têm água encanada em casa. Para mais de 350 mil pessoas, o serviço de abastecimento de água foi interrompido por um total de 763 horas em 2018, o equivalente a 31 dias sem água durante o ano. Em Manacapuru, cidade mais afetada pelo novo coronavírus no interior do estado, o percentual da população que não tem água encanada chega a 28,5%. Entre os que são atendidos, 20% sofreram com paralisações no abastecimento que somaram o equivalente a 105 dias sem água, quase um terço do ano.

É nesse cenário que o governo espera que as pessoas lavem as mãos e procurem atendimento médico com antecedência. O isolamento social, capaz de mitigar, mas não evitar a contaminação, só poderia ser efetivo com o fechamento total dos locais de trabalho não essenciais e com a garantia de salário aos trabalhadores formais e informais. No entanto, diversas empresas continuam funcionando e nem mesmo o distrito industrial foi paralisado. Na Itália, um dos países mais afetados pela pandemia, já está clara a relação direta entre o crescimento da doença e a manutenção do trabalho nas fábricas do norte do país.

A verdade é que embora temam as consequências políticas que a crise sanitária pode causar, o compromisso prioritário dos governos é com a burguesia e sua necessidade de lucro. Incapaz de lidar com o problema, o capitalismo busca culpar justamente os indivíduos mais oprimidos pela tragédia em que se encontram.

É preciso varrer de uma vez por todas esse sistema que já demonstrou não ser capaz de oferecer nada além de barbárie. Somente uma economia planificada sob controle dos trabalhadores é capaz de direcionar todos os recursos necessários à saúde e garantir a vida e a dignidade das pessoas em todo o mundo.

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