Alan Woods analisa a situação na Venezuela

Entrevista da Revista Humania del Sur, publicada pela Universidade de Los Andes em Mérida, cidade da Venezuela a Alan Woods, fundador da campanha internacional em defesa da revolução venezuelana Hands Off Venezuela e editor da revista britânica Socialist Appeal

Humania del Sur (HdS) – John Riddel na crítica ao seu livro The Venezuelan Revolution, a Marxist perspective, interroga-se se um pequeno grupo marxista como aquele que lidera, poderá influenciar o curso dos acontecimentos na cena internacional, mas que pelo menos tem o mérito de fazer parte do caminho da Revolução Bolivariana. Como é possível? Como o conseguiu? Contactaram-no a si? Diga-nos como foi o seu primeiro encontro com Hugo Chavez e como se tem desenvolvido a relação entre o governo bolivariano, os sectores que o apoiam e a Hands Off Venezuela. Acredita, mesmo, que pode influenciar os acontecimentos na Venezuela de alguma maneira?

Alan Woods (AW) – A História demonstra como um pequeno grupo com ideias claras pode desempenhar um papel decisivo em certas circunstâncias históricas, enquanto grandes organizações de massas, com ideias incorrectas, podem, em dado momento, ser transformadas em rotundas nulidades. Basta recordar, por um lado, o Partido Bolchevique que, no princípio de 1917 constituía uma pequena minoria na Rússia e, por outro lado, o colapso dos partidos social-democrata e comunista na Alemanha em 1933.

É verdade que somos um pequeno grupo na Venezuela, mas somos fortes nas ideias e, em última instância, essa é a única garantia de sucesso. Devo acrescentar que, foi precisamente a força das nossas ideias que me conduziram ao meu primeiro encontro com o Presidente Chavez, pois este tinha lido o meu livro Reason and Revolt, que muito apreciou e cuja leitura tem, muito gentilmente, recomendado numa série de ocasiões.

Quanto à influência que possamos ter na Venezuela, isso depende, não apenas do trabalho dos marxistas venezuelanos, mas também da experiência das massas. Por geral, as massas não aprendem dos livros teóricos, mas da experiência prática. E numa revolução, as massas aprendem mais numa semana do que numa década de vida normal. Lenine costumava dizer que, para as massas, uma grama de prática valia por uma tonelada de teoria – e ele era um grande teórico…

As massas já apre deram muito nesta década de revolução. Sabem distinguir os seus verdadeiros amigos e aliados dos seus inimigos (mesmo quando usam uma camisa vermelha…). Poderíamos colocar a questão deste modo: ainda que as massas venezuelanas não saibam exactamente o que querem, sabem perfeitamente o que não desejam. O desenvolvimento da consciência continua: a influência dos reformistas declina e a ala mais revolucionária, conjuntamente com a corrente dos marxistas venezuelanos que tenho a honra de representar, está a crescer

HdS – Você já expressou publicamente a sua admiração pelo Presidente Chavez. Todavia, considera que a Revolução bolivariana está “incompleta”. Que quer dizer com isso?

AW – a Revolução Bolivariana é uma revolução no sentido em que Trotsky o explicou em a História da Revolução Russa, isto é, uma situação em que as massas participam activamente na vida política e tentam tomar o seu destino nas suas próprias mãos, transformando a sociedade desde abaixo. Porém, a Revolução Bolivarina está “inacabada” porque ainda não expropriou totalmente a oligarquia do país e o velho aparato estatal encontra-se, mais ou menos, intacto. Na medida em que esta situação perdure, não podemos dizer que a revolução seja irreversível.

HdS – Trotsky certa vez disse que “a verdade e não a mentira é a força motora da História. Na sua opinião, quais são as verdades e mentiras da Revolução Bolivariana? Estamos na presença duma genuína transformação da sociedade venezuelana em direcção ao socialismo do século XXI, ou tudo não passa duma decepção, duma ilusão que terminará na consolidação política e económica duma nova elite que nada tem em comum com a revolução e o socialismo?

AW – A grande verdade é que numa revolução – também na Bolivariana – uma classe terá de ganhar no fim e outra perder e, ao longo da História, nenhuma classe dominante abdicou sem uma luta amarga. A grande mentira consiste nas ocas e vangloriosas declarações segundo as quais a Revolução Bolivaria é “irreversível” e outras tiradas idiotas e irresponsáveis que apenas tentam iludir o povo e embalá-lo em torpor e inacção ao invés de o despertar para a luta contra as ameaças contra-revolucionárias.

Quanto à pseudo-teoria do “socialismo do século XXI”, penso que é uma tentativa de distorcer as ideias do Presidente Chavez e de descarrilar o processo em direcção a linhas reformistas. Pessoas como Heinz Dieterich [autor da teoria comentada] estão por todos os meios tentando arrefecer os ânimos deitando água fria sobre a caldeira da revolução. Opõem-se às nacionalizações, pregam a reconciliação entre as classes, isto é, estão a tentar ensinar o tigre a ser vegetariano! E o mais incrível é que chamam a isto realismo! Eu estou, precisamente, a escrever um livro sobre as ideias de Dieterich e dos seus amigos reformistas, no qual espero poder marcar as diferenças entre o Marxismo – a teoria verdadeiramente revolucionária – e estas paródias que caricaturaram o socialismo.

HdS – Que outras críticas faria à Revolução Bolivariana, para lá do facto de a considerar incompleta?

AW – Há um tempo atrás, Hugo Chavez perguntou-me a mesma questão. Eu respondi da seguinte maneira: a vossa revolução é uma fonte de inspiração para milhões. Esse é o aspecto mais importante. Porém, tem alguns pontos fracos, por exemplo, a ausência dum claro e definido programa político e a inexistência de quadros politicamente educados, por outras palavras, a ausência dum partido revolucionário.

É verdade que, posteriormente, houve algumas tentativas de remediar estas falhas. Por exemplo, o Presidente proclamou o carácter socialista da Revolução – algo que postulamos desde o início. Mas esta ideia está a conhecer uma teimosa resistência por parte dos círculos reformistas. A batalha não está ainda ganha.

HdS – que lhe parecem as críticas da oposição Venezuelana ao Presidente Hugo Chavez pelas suas demonstrações autoritárias e de que a sua condição de militar não favorecem as regras democráticas? Por exemplo, qual é a sua opinião sobre a sua manifestada vontade de permanecer por tempo ilimitado no poder e os seus comentários sobre “a pacífica, mas não desarmada” revolução? Serão socialismo e democracia incompatíveis?

AW – E porque seriam? O socialismo ou é democrático ou não é nada! Claro que, quando falo de democracia, não me estou a referir à vulgar caricatura da democracia burguesa – que apenas é outro nome para a ditadura do Capital! Que “democracia” existe nos Estados Unidos onde, supostamente existem dois partidos que (como Gore Vidal explica muito bem) mais não são, na realidade, do que um único partido representando diversas secções da burguesia? Para se ser Presidente dos Estados Unidos, tem de se ser um milionário… Que tipo de “democracia” é essa?

Os protestos da oposição Venezuelana são pura hipocrisia. Perderam as eleições e os referendos, um após outro. Perderam novamente em Dezembro quando Chavez obteve a maior vitória eleitoral na história da Venezuela. E nem sequer podem dizer que houve fraude. Essas eleições foram as mais escrutinadas na história, não apenas da Venezuela, mas de todo o mundo! Os oposicionistas e os “observadores”internacionais andaram por toda a Caracas e por todo o país com uma lupa à procura da mais pequena evidência de fraude eleitoral. Se tivessem encontrado uma agulha que fosse no palheiro teriam gritado “fraude” aos 4 ventos. Mas não encontraram nada!

Essas eleições proporcionaram um claro mandato ao governo Bolivariano: um mandato para que concretizem uma mudança fundamental na sociedade. Isso é o que as massas estão a pedir. Hugo Chavez tem de cumprir os desejos e aspirações daqueles que votaram nele – os trabalhadores, os camponeses, os pobres e a juventude – e ignorar totalmente os clamores choramingas da oposição contra-revolucionária que mais não é do que a porta-voz da corrupta e reaccionária oligarquia e dos seus amos em Washington. Devemos tomar medidas drásticas e urgentes. É a altura chegada de expropriar a oligarquia!

HdS – Sobre a questão dos media e da informação na Venezuela, desde que Hugo Chavez assumiu a Presidência da República em Dezembro de 1998, que o governo tem reduzido a liberdade imprensa, enquanto fortalece o sector dos Média que são propriedade do Estado e que estão dedicados à transi missão de programas com um carácter ideológicos. Não será isso contrário aos “direitos humanos”? O socialismo opõe-se aos direitos?

AW – Por favor! Como podemos falar da liberdade de imprensa, quando os meios de comunicação estão nas mãos duma mão-cheia de milionários com Rupert Murdoch? A chamada “livre imprensa” nos Estados Unidos e na Inglaterra é uma piada de muito mau gosto!

Claro que o socialismo respeita os direitos humanos. Mas vamos começar por defender os direitos da esmagadora maioria da população que, até aqui, nunca teve uma verdadeira voz ou o direito a expressar as suas opiniões! O que deveríamos fazer era nacionalizar os jornais, as rádios e as televisões, mas não deixar estes meios nas mãos do Estado (nós não queremos um Estado totalitário como na ex-URSS), mas geridos pelos próprios trabalhadores e garantir o livre acesso aos Média a qualquer partido, sindicato ou organização social, de acordo com o número de membros, influência, percentagem de votos, etc. Desse modo, o PSUV teria acesso a vários jornais e estações de televisão, enquanto os proprietários da RCTV [o canal golpista cuja licença de transmissão não foi renovada] teriam, pelo pouco que representam na sociedade, a garantia dum pequeno jornal de paróquia.

HdS – Que pensa, precisamente, sobre o caso da RCTV que, após mais de 50 anos de transmissão, viu a sua licença não ser renovada?

AW – No que à RCTV diz respeito, toda a gente sabe que era uma estação de televisão golpista e contra-revolucionária. Se tivesse de criticar o Presidente seria para dizer que ele deveria ter actuado muito mais cedo contra aquele ninho de vespas! E não apenas os deveria ter encerrado, mas também prendido e posto os seus proprietários e directores no banco dos réus para serem julgados.

Mas de novo, a campanha orquestrada sobre esta matéria é pura hipocrisia. Posso assegurar-vos que, se um canal britânico tivesse atacado Tony Blair da mesma maneira que a RCTV atacou Chavez, defendendo – e organizando! – um golpe de Estado e até o assassinato do Presidente, os seus responsáveis estariam na cadeia num “abrir e fechar de olhos”. O problema aqui não foi termos ido longe demais – como afirma Heinz Dieterich e outros como ele -, mas termos andado a ser demasiado brandos. Por exemplo, quantos dos conspiradores do golpe de Abril de 2002 estão atrás das grades? Tanto quanto sei, nem um. E esse não teria sido esse o caso nos Estados Unidos, posso garantir-vos!

HdS – Muitos Chavistas encontram-se cépticos sobre o apelo do presidente para formar o PSUV, porque têm medo que isso possa ser uma tentativa de controlar e silenciar a dissidência interna. Que pensa acerca disto? Será o partido unido um instrumento capaz de promover “a revolução dentro da revolução” como parece ser aquilo que apoia?

AW – Por um lado, é evidente que a classe trabalhadora necessita dum partido político e que os antigos partidos vindos da IVª República eram realmente muito maus, totalmente nas mãos dos burocratas e reformistas. Por isso, parece que a proclamação do PSUV pode vir a ser um importante passo, mas somente na condição de que seja um partido genuinamente revolucionário, isto é, um partido simultaneamente democrático e classista, controlado por uma base de trabalhadores e não apenas outro aparato para os carreiristas e oportunistas. Aqui também, a presença duma importante tendência marxista é absolutamente necessária.

HdS – O seu livro sobre a Venezuela tem sido traduzido em várias línguas, incluindo o Urdu. Isso contribuiu para que Chavez e a Revolução Bolivariana se tornassem conhecidos em muitos países como a Índia ou o Paquistão. Realmente pensa que o que está sucedendo na Venezuela é um exemplo para o mundo? Se sim, porquê?

É verdade que o meu livro tem sido um sucesso porque preencheu um vacuum. Infelizmente, uma grande parte da esquerda, internacionalmente, não apreendeu o significado da Revolução Bolivariana, apesar da situação estar a mudar rapidamente e as pessoas começarem a descobrir o que se está a passar na Venezuela… em tudo isto, um importante papel foi desempenhado e continua sê-lo pela nossa campanha Hands Off Venezuela.

Porque é que a Revolução Venezuelana é tão importante para o resto do mundo? Bom, em primeiro lugar, porque nada disto deveria estar a acontecer! Após a queda da URSS, a burguesia tornou-se eufórica. Falaram no fim do socialismo, no fim do comunismo, da revolução, até do fim da história! Agora a Venezuela terminou com todas essas quimeras. A Revolução Bolivariana é como um eco das famosas palavras de Galileo: “Eppur si muove!” (e t no entanto, move-se!)

No último período, o capitalismo demonstrou que era incapaz de satisfazer as mais básicas necessidades das massas. Por toda a parte observamos mais fome, mais desastres, mais miséria, mais guerra… Mas também há uma crescente reacção dos povos. A física clássica afirma: toda a acção produz uma igual e oposta reacção. Isso também é verdadeiro na política. As massas crescentemente estão questionando o sistema capitalista – até nos Estados Unidos. E a Venezuela oferece um ponto de referência a todos esses movimentos. É por isso que os imperialistas estão determinados em destruir a Revolução Bolivariana por todos os meios e custos: porque representa um exemplo para milhões de seres humanos explorados e oprimidos na América e para lá dela.

Na Venezuela há um confronto de classes que se tem agudizado ferozmente. Continuamos sem saber como vai terminar, mas sabemos isto: sabemos em que barricada devemos estar, lado a lado com os trabalhadores e camponeses contra os burgueses, os banqueiros e os latifundiários! Ombro com ombro com a juventude revolucionária e com a vanguarda que quer levar a revolução adiante, lançando duros golpes nas forças contra-revolucionárias, na timidez reformista e na covardia e traição dos burocratas!

Se alguém tem algum tipo de dúvida sobre se deveríamos – ou não – defender a Revolução Bolivariana, basta apenas observar a atitude do imperialismo americano que não oculta os seus planos para derrubar Chavez e no apoio e financiamento que faz à oposição. Este detalhe é suficiente para convencer qualquer um da necessidade de nos juntarmos em defesa da revolução. Mas de modo a que a possamos defender seria e eficazmente, torna-se absolutamente necessário ir adiante, liquidando o poder económico da oligarquia. Não basta falar de socialismo: é necessário torná-lo em realidade! E isto só sucederá quando a classe trabalhadora tomar o podes em suas mãos.

Assim que isso suceda, a Revolução Bolivariana perderá o seu carácter ambíguo e indeciso, adquirindo uma força irresistível, passando para lá das estreitas fronteiras nacionais e transformando-se rapidamente numa revolução continental. As condições estão mais do que preparadas para isso! Hoje não há um único regime burguês estável em toda a América Latina desde a Terra do Fogo até ao Rio Grande. A grande visão do Libertador Simon Bolívar, sobre a unificação revolucionária da América Latina seria possível pela primeira vez, mas apenas será possível numa Federação Socialista da América Latina, primeiro passo em direcção ao socialismo mundial.

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