A suposta recuperação econômica e as pressões da burguesia para manter a economia aberta

Artigo publicado no jornal Foice&Martelo Especial nº 20, de 26 de novembro de 2020. CONFIRA A EDIÇÃO COMPLETA.

Na semana passada, a imprensa burguesa festejou os dados do Banco Central sobre o PIB brasileiro. Os dados preveem um crescimento de 9,47% no terceiro trimestre de 2020 se comparado com o trimestre anterior. Esse crescimento não recupera as perdas do segundo trimestre, quando a queda do PIB foi de 10,18% se comparado com o primeiro trimestre de 2020. Não recupera totalmente as perdas, mas se aproxima bastante.

A primeira conclusão que podemos tirar desses números é que a produção foi retomada em muitos setores da economia no terceiro trimestre, revelando que os trabalhadores foram submetidos aos riscos da exposição ao coronavírus nos meses do ápice da pandemia. A burguesia obrigou os trabalhadores a arriscarem as próprias vidas e de seus familiares para que a máquina de gerar lucro não parasse.

Outra conclusão que podemos tirar, desta vez olhando os números do desemprego, é que os diversos ramos da economia se aproveitaram da pandemia para reestruturar sua cadeia produtiva. A produção foi retomada em vários setores, mas o emprego não voltou aos patamares anteriores. O desemprego saltou de 11,6% (12,3 milhões de trabalhadores procurando emprego) em fevereiro de 2020 para 14,4% em outubro de 2020 (13,8 milhões de trabalhadores procurando emprego). Essa reestruturação aconteceu com o aval das principais centrais sindicais, que aceitaram de maneira passiva as demissões em massa, reduções salariais e retirada de direitos trabalhistas nos meses mais duros da pandemia. São empregos que não se recuperam mais, pois toda a cadeia produtiva está sendo reestruturada para maximizar os lucros.

Com o pagamento do auxílio emergencial a milhões de trabalhadores, o Estado brasileiro assumiu a responsabilidade da burguesia nativa em manter minimamente as condições de sobrevivência dos trabalhadores que a própria burguesia demitiu. Dessa forma, o Estado nacional tornou-se ainda mais refém do mercado financeiro durante a pandemia. O Governo Federal prevê que a dívida bruta do Brasil ultrapasse os 90% do PIB em 2020. No final de 2019 a dívida bruta atingira o equivalente a 76% do PIB. Em 2021 e nos próximos anos haverá muito menos dinheiro ainda para a saúde e educação. A pandemia fez acelerar o processo de concentração e centralização do capital.

Agora, na segunda quinzena de novembro, estamos acompanhando o aumento do número de casos e do número de mortes pelo coronavírus em todo o país, resultado do relaxamento nas medidas de prevenção e devido às pressões da burguesia para que a vida volte ao “normal”. Os principais meios de comunicação choram suas lágrimas de crocodilo pelos mortos na pandemia, mas recorrentemente estão festejando os avanços dos testes das diversas vacinas em desenvolvimento, gerando expectativas nas pessoas de que a vacina estará pronta em breve. Dessa forma, também é responsável por este relaxamento. Os mais atentos sabem que mesmo que as vacinas apresentem resultados conclusivos de eficácia e segurança até o fim de 2020, serão necessários muitos meses mais até que toda a população esteja imunizada. Ainda assim, mesmo com a vacina pronta, não sabemos por quanto tempo teremos que conviver com o coronavírus, já que ninguém sabe até o momento quanto tempo durará a imunização e se o vírus pode ou não sofrer novas mutações.

Milhões de trabalhadores no Brasil não tiveram o direito ao isolamento social, enfrentaram o transporte público lotado e nem tiveram o direito a condições sanitárias adequadas em seus locais de trabalho. A burguesia nativa continuará pressionando para que a economia não feche, nem sequer parcialmente. Vão pressionar para manter o comércio aberto nas festas de fim de ano mesmo com o aumento do número de mortes.

No dia 20 de novembro, segundo dados das autoridades sanitárias do estado do Rio de Janeiro, havia 58 pessoas com Covid-19 na fila de um leito de UTI, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Com esses dados podemos afirmar que voltaram a morrer pessoas no Rio de Janeiro sem ter o direito a um respirador. Mesmo com estes números alarmantes, até o fechamento desta edição do jornal, o governo estadual não havia tomado nenhuma medida, por mais branda que fosse, para aumentar o isolamento social. A economia está funcionando do mesmo jeito que nos meses anteriores, quando o número de óbitos cedeu um pouco. Continuam contando com a sorte para que os números voltem a cair por obra do acaso.

As festas de fim de ano se aproximam e mesmo que os primeiros lotes fiquem prontos, obviamente não teremos vacinas disponíveis para todos. A burguesia continuará menosprezando a gravidade da pandemia para que a máquina de gerar lucro não pare, como sempre fizeram, mesmo que isto custe a vida dos trabalhadores e seus familiares. O Brasil e o mundo sairão da pandemia ainda mais desiguais e bárbaros. Somente a classe trabalhadora pode deter esse processo e encontrar uma saída digna para a humanidade.

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