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A Revolução Alemã de 1918 e as lições para a luta das mulheres

A revolução alemã de 1918 é pouco estudada, talvez por ter sido derrotada, mas suas lições são fundamentais para nossa organização e luta nos dias de hoje. 

Compreender os erros daqueles que levaram a classe trabalhadora alemã à derrota, abrindo caminho para a ascensão do nazismo e contribuindo decisivamente para o isolamento da revolução Russa é uma tarefa à qual todo revolucionário deve se propor.

Entender a força da classe trabalhadora alemã naquele momento, o gigantesco aparato do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), os papéis desempenhados pela Liga Espartaquista e pelo recém criado Partido Comunista Alemão (KPD) é necessário para que aprendamos com a história e possamos olhar para o futuro da classe trabalhadora a partir dos ensinamentos das lutas passadas.

São muitas as lições da Revolução Alemã e nesse texto, vamos nos dedicar à destacar o papel das mulheres nessa luta. Revolucionárias que dedicaram suas vidas à vitória da classe trabalhadora e que, na maioria dos casos, são ignoradas pela história burguesa.

Clara Zetkin e Rosa Luxemburgo são as figuras mais destacadas pela história, mas existem pesquisas que buscam outras mulheres que viveram intensamente esse momento de forma decidida.

Antes de prosseguir, é preciso compreender o papel da 1ª Guerra Mundial no desenvolvimento da Revolução. Com a ida de centenas de milhares de homens para a frente de batalha, as mulheres passaram a ocupar postos de trabalho fora do ambiente doméstico, recebendo, na maioria dos casos, salários inferiores àqueles pagos aos homens que desempenhavam essas funções. Além disso, a miséria que crescia e a necessidade delas sustentarem sozinhas suas famílias, fez com que as manifestações pelo fim da guerra e por comida se tornassem um espaço de organização, difusão de ideias e de luta.

Ainda em 1917, os trabalhadores começam a organizar greves e motins pedindo o fim da guerra. A Liga Espartaquista emite um chamado geral para as greves e mulheres que reivindicam pão na cidade de Leipzig são presas.

Em Munique, a polícia alertava para o crescimento diário das manifestações de mulheres contra as terríveis condições de vida e, assim como em outras cidades, causavam preocupação nas autoridades que temiam a utilização dessas manifestações para a organização revolucionária dessas mulheres.

Mesmo em Kiel, cidade portuária na qual se deu o estopim da revolução em 1918, as mulheres marchavam nas ruas, cantando músicas revolucionárias e carregando bandeiras. 

Muitas mulheres ocupavam funções administrativas e políticas nos sindicatos e nos novos órgãos criados pelos revolucionários e outras trabalhavam em prol da revolução de forma clandestina, na divulgação de panfletos socialistas e de propaganda contra a guerra.

Aqui é importante destacar que mulheres burguesas e trabalhadoras se colocavam – como Rosa e Clara já esclareciam naqueles anos – em posições antagônicas na luta de classes. Enquanto as mulheres burguesas, da classe média e liberais organizavam grupos engajados no trabalho necessário à manutenção da “guerra patriótica”, as mulheres trabalhadoras organizavam movimentos de solidariedade internacional e se arriscavam no trabalho clandestino da divulgação das ideias antiguerra, socialistas e revolucionárias.

Em 1915, Clara Zetkin organizou uma Conferência da Internacional Socialista de Mulheres em Berna, contando com a participação de mulheres de diversos países da Europa que, para tal, colocaram suas vidas em risco, viajando em meio à guerra, encontrando outras mulheres de países “inimigos”. O Manifesto produzido clamava pelo fim da guerra imperialista e chamava os grupos socialistas de todos os países envolvidos à união e à luta pelo socialismo. 

Em função de suas atividades consideradas ilegais, muitas mulheres foram presas, incluindo Rosa Luxemburgo, que permaneceu na prisão entre 1916 e 1918. Fato que não a impediu de organizar a oposição ao SPD e a Liga Espartaquista, que daria origem ao KPD.

Cabe aqui ressaltar o importante papel de Rosa na luta revolucionária alemã e o papel nefasto do SPD que permitiu sua morte, em 1919, pelas mãos da milícia contrarrevolucionária dos Freikorps. Ela foi brutalmente assassinada por eles, tendo seu corpo jogado no canal Landwehr, em Berlim, reaparecendo depois de seis meses.

Inspirada pela vitoriosa Revolução Russa de 1917, a classe trabalhadora alemã desenvolveu seus órgãos de poder, disputando por meses a direção política do país com o governo antirrevolucionário e de colaboração de classes liderado pelo SPD. Dentre as conquistas da Revolução Alemã, o Conselho dos Comissários do Povo proclamava: 

Todas as votações para corporações públicas devem, desde já, ser realizadas, segundo o mesmo direito eleitoral geral, secreto, direto, com base no sistema proporcional, por todas as pessoas do sexo masculino e feminino com pelo menos 20 anos de idade.

Estava instituído portanto, o direito das mulheres ao voto, direito que foi estabelecido em diversos países capitalistas somente décadas depois. Assim como na Rússia, foram as mulheres trabalhadoras, em luta e ao lado da sua classe, que conquistaram esse direito reivindicado há décadas pelos movimentos pequeno-burgueses e liberais das mulheres europeias.  

Porém, mesmo esse direito elementar dentro da democracia burguesa demonstra que, assim como os demais direitos conquistados no capitalismo, sua existência não é garantida ou não é sinônimo de uma verdadeira emancipação da mulher. Como demonstrado pela duvidosa lei aprovada depois, na Constituição de Weimar, Artigo 109, Parágrafo 2º, no qual afirmava-se que homens e mulheres tinham, em princípio, os mesmos direitos e deveres como cidadãos.

Portanto, devemos tomar como lição o fato de que, assim como as conquistas da Revolução Russa pereceram diante do stalinismo e, na Alemanha, diante das ações contrarrevolucionárias do SPD e da destruição violenta dos Conselhos de Trabalhadores e Soldados, restaurando o poder nas mãos do Exército e da burguesia alemã, somente através da tomada revolucionária do poder pelos trabalhadores será possível nos emanciparmos de fato, nos desenvolvendo como indivíduos em todas as nossas potencialidades. 

Outra lição fundamental que devemos aprender com a Revolução Alemã é a necessidade de um partido revolucionário que seja capaz de, junto com a classe trabalhadora, tomar a história para si, possibilitando a superação do capitalismo e a construção de um outro mundo, um mundo socialista.

Que possamos aprender com a nossa história e construir um novo futuro para a classe trabalhadora!

Junte-se ao Mulheres pelo Socialismo e à Esquerda Marxista! Temos um mundo a ganhar!

Fontes: 

<https://www.dw.com/pt-br/h%C3%A1-100-anos-mulheres-alem%C3%A3s-conquistavam-o-direito-ao-voto/a-46231258>

<https://jacobinmag.com/2019/01/women-german-revolution-rosa-luxemburg-feminism>

<https://theconversation.com/beyond-rosa-luxemburg-five-more-women-of-the-german-revolution-you-need-to-know-about-109209> 

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