A ficção de Marighella e os métodos do guerrilheiro urbano

Em polvorosos, as direções de esquerda, os setores liberais da imprensa e muitas pessoas honestas que se entusiasmaram ao assistir o longa-metragem exaltam Marighella (2021), dirigido por Wagner Moura, como um “ato de resistência”, uma “necessidade histórica” e um tributo à vida e obra do guerrilheiro dos Anos de Chumbo. Por outro lado, é tarefa dos marxistas realizar análises e contribuições para a luta de classes firmadas no materialismo histórico-dialético. Este é o objetivo deste artigo, não se tratando, portanto, de uma crítica cinematográfica ou com o intuito de declarar Marighella um “herói” ou “vilão”, mas abordando seu papel e métodos políticos, além das ideologias racialistas da ficção apresentada por Wagner Moura. 

O esclarecimento se faz importante devido às políticas de Marighella, que versavam a defesa da guerrilha (urbana e rural) – até mesmo como uma superioridade moral -, a negação ao Partido revolucionário, o heroísmo individual, a luta armada inconsequente, os assaltos, invasões, emboscadas, execuções, sequestros, sabotagens e terrorismo (MARIGHELLA, p. 29, 2003) e outros sérios problemas políticos, que necessitam de respostas alicerçadas na história da luta de classes e no marxismo. Tal qual as inverdades encenadas no cinema, que absorveram o racialismo e buscaram transformar Marighella inclusive em um homem ligado às crenças afro-cristãs, mas principalmente em apresentar romanticamente o pai, o marido, o filho nostálgico da mãe baiana e o herói que não era “nem maoísta, nem leninista, nem trotskista, mas um brasileiro”. Humanizações triviais que apenas compõem algumas imprecisões históricas deste filme.

Guerrilha ou revolução?

“O marxismo distingue-se de todas as formas primitivas de socialismo pelo fato de ele não amarrar o movimento a qualquer forma determinada e única de luta. Ele reconhece as mais diferentes formas de luta, e além disso não as inventa, mas apenas generaliza, organiza, dá consciência àquelas formas de luta das classes revolucionárias que surgem por si no curso do movimento. Absolutamente hostil a todas as fórmulas abstractas, a todas as receitas doutrinárias, o marxismo exige uma atitude atenta em relação à luta de massas em curso, a qual, com o desenvolvimento do movimento, com o crescimento da consciência das massas, com a agudização das crises económicas e políticas, gera métodos sempre novos e cada vez mais diversos de defesa e de ataque. Por isso o marxismo não renuncia absolutamente a nenhuma das formas de luta” (LENIN, 1906).

Antes da crítica que o marxismo realiza ao método guerrilheiro é preciso alertar que não descartamos nenhum tipo de ação revolucionária. Para a atuação, devemos observar os contextos específicos e a movimentação das massas trabalhadoras para cada forma de agir na luta de classes. Oposto a isso é a determinação de um grupo ou indivíduos isolados e apartados da realidade concreta, que por pressões das mais variáveis, lançam mão da guerrilha e da luta armada inconsequente, como vemos em Marighella.

Essas ressalvas podem ser vistas, por exemplo, em dois artigos. O primeiro de Lenin, intitulado “A Guerra de Guerrilhas”, de 1906, e o segundo de Trotsky, chamado “Guerrilheirismo e o Exército Regular”, datado da década de 1920. As considerações de Lenin tomam como exemplo a revolução russa iniciada na transição do século 19 para o 20, onde aponta que a tática de luta armada – ou guerra de guerrilha – tem maior adesão do lumpenproletariado, de elementos sem classe definida e de grupos anarquistas. Contudo, Lenin entende que apesar de normalmente esse método ser negativo para a luta revolucionária, ele pode ser possível em uma circunstância. Esse é o seu relato do caso da Letônia, que passou por uma insurreição em dezembro de 1905, junto da revolução em Moscou no mesmo ano. Isto é, a luta armada como resultado da atuação das massas e seu partido, que no território Letão era o Partido Operário Social-democrata, após os trabalhadores imporem sua força por meio de uma insurreição. 

“O velho terrorismo russo foi obra do intelectual conspirador; agora a luta de guerrilhas é travada, regra geral, pelo operário dum grupo de combate ou simplesmente pelo operário desempregado” (LENIN, 1906).

Na mesma linha, Trotsky compreendeu a possibilidade da luta armada quando analisou a Guerra Civil revolucionária na Rússia, após outubro de 1917. O dirigente do Exército Vermelho também realizou a distinção entre o guerrilheirismo e o comumente método de guerrilha que surge de “ações insurgentes semi-espontâneas”. O guerrilheirismo ou a guerra de guerrilha, segundo Trotsky: 

“pode ser um método de operação para unidades móveis bem formadas, por toda a autonomia que gozam, estão estritamente subordinadas a um quartel general operacional” (TROTSKY).

Ou seja, novamente como parte de um processo revolucionário das massas, onde este quartel general operacional significa o Exército operário, que por sua vez é subordinado ao partido e à vanguarda proletária. Nunca uma ação conspiratória de um pequeno grupo que nega o partido e a ação coletiva das massas. 

Dessa forma, estas não foram as mesmas conjunturas históricas que a brasileira dos anos 1960-70, muito menos as abordagem teórico-política onde Carlos Marighella e sua organização atuaram como guerrilheiros. Como acúmulo do seu método, em junho de 1969, Marighella publicou um de seus textos mais conhecidos, intitulado “Minimanual do Guerrilheiro Urbano”. Antes desta publicação, outras foram lançadas fora do país devido a censura, como o filme de Moura mostra em um trecho onde um jornalista francês presenteia Marighella com seus livros chancelados pelo filósofo pequeno-burguês Jean-Paul Sartre. 

Na realidade, não se pode considerar Marighella um autor marxista, muito menos que tenha contribuído com algo com a ciência proletária. Seus textos (e poesias) não possuíam em conteúdo o materialismo histórico, muitas vezes sendo análises de conjuntura generalizantes do país quanto às questões candentes dos anos 1950 e 1960, como a concentração de terra, a fome, as reformas e outros materiais de agitação política. Expressar um vocabulário revolucionário não transforma o texto em uma obra revolucionária, muito menos marxista.  Contudo, é certo que suas linhas falavam de sua prática guerrilheira, sua cruzada contra a centralização ao Partido Comunista Brasileiro, especialmente a partir de 1964, quando a guerrilha tornou-se seu motivo de viver. É inegável que o filme de Wagner Moura foi capaz de demonstrar esses atritos, evidentemente sem uma profunda discussão dos erros políticos do PCB, como suas alianças com a burguesia nacional e o etapismo oriundo das ordens de Moscou, mas com toda força em apresentar Marighella como o homem correto contra seu partido. 

Carlos Marighella / Imagem: Comissão da Verdade SP

Nesses momentos de imposição, o Marighella interpretado por Seu Jorge vestia uma capa de revolucionário inabalável que ao dar a vida à guerrilha, abandonando filho e mulher, seria o exemplo mais avançado de um “patriota comunista”, esse frankenstein muito comum entre as esquerdas do século 20. O filme, comprando essa ideia nacionalista, chega no ápice patriótico em sua última cena, onde os atores que interpretaram os militantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN) cantam, em ciranda e a plenos pulmões, o hino nacional brasileiro.

E esse homem “amoroso, leal e honesto”, cativador de jovens comunistas, corretamente compreendeu que a política do PCB não representava qualquer combate ao capitalismo e à ditadura militar. Porém, adotou como seu farol a tática de guerrilha, historicamente avessa ao desenvolvimento da sociedade, à história do movimento operário, à construção de um partido centralizado e ao proletariado como a vanguarda do processo revolucionário. 

Na realidade, a história nos mostra que esse método da guerrilha só faz afastar os revolucionários das massas trabalhadoras e os tornam alvos fáceis do Estado burguês e seus capangas. De certo modo, isso também é expressado pelo filme de Wagner Moura, especialmente quando os militantes da ALN passam a ser mortos pelos policiais liderados pelo delegado Lúcio – um dos personagens símbolos do racialismo no filme, interpretado por Bruno Gagliasso. 

Ressalta-se que alternativas como a guerrilha surgiram e tomaram força naquele contexto latino-americano devido a crise das direções do proletariado, onde os partidos comunistas já não significavam nada além de conchavos com os “setores progressistas” e defesas da democracia liberal e a IV Internacional, após 1940, transformava-se passo a passo em pó. O romantismo que carrega a conspiração e luta armada de um pequeno grupo de revolucionários corajosos nestas circunstâncias é gigantesca, especialmente para a juventude. Se hoje, ao assistirmos filmes como Marighella, milhares de jovens sem perspectiva no capitalismo e ávidos por revoluções exaltam e fantasiam honestamente com este tipo de tática de luta, temos de compreender a potência que tais ações possuíram após as históricas e vitoriosas Revoluções Chinesa (1949) e Cubana (1959).

Aliás, estes dois processos revolucionários são cruciais para trajetórias como as de Marighella – e seus erros. Mas especialmente as historiografias impregnadas pelo stalinismo que contaram estas revoluções. Oposto do que se apresenta comumente, seja pela esquerda, seja pela burguesia como ataques e supostos “terrorismos”, as revoluções chinesa e cubana foram conquistas pelo envolvimento da classe trabalhadora, dos operários e camponeses, com greves gerais em série e manifestações maciças. 

Na política não existe vácuo, pois sempre alguém preenche quando há a ausência de direção, por isso, em Cuba, por exemplo, o grupo político de Guevara e Castro foi capaz de expressar o que as massas queriam tornando-se dirigentes da revolução. Após a revolução, Guevara acreditou que a vitória teria sido da guerrilha, ao invés das massas revolucionárias, e acabou infelizmente capturado e assassinado precocemente na Bolívia, em uma tentativa inconsequente de luta armada, tal como Marighella. Não foram, portanto, obras de heroísmos individuais ou de grupos guerrilheiros, que embebidos de coragem e bravura indomável tomaram o poder em um golpe e construíram o socialismo. Longe disso.

No Brasil, tentativas destes métodos guerrilheiros terminaram na derrota desastrosa no Araguaia, além do suposto combate da ALN, dirigida por Marighella, ou do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), que tiveram como seu auge o sequestro de Charles Elbrick, embaixador imperialista, mas como resultado apenas mais repressão para a classe trabalhadora brasileira, piorando as condições do povo com toda a censura, violência e morte imposta pelos militares e a burguesia. Ao contrário deste método, as ditaduras militares no Brasil e em todo o continente foram derrotadas com organização e luta das massas, a partir de greves, manifestações de multidões e aprendizados colocados em prática pelo movimento operário. O Partido dos Trabalhadores, um dos principais resultados de todo esse processo vitorioso contra a ditadura, foi forjado desta forma. 

Grupo de guerrilheiros no Araguaia na década de 1970

No filme, há uma cena onde Marighella é expulso do PCB por um personagem fictício – que na trama interpreta um editor de jornal de grande circulação e dirigente do Partidão -, onde também há uma resposta correta do personagem de Seu Jorge para a justificativa do PCB sobre uma suposta inexistência de condições objetivas para a “radicalização política”. O Marighella do filme lista as condições materiais que evidenciavam a necessidade não só do combate à ditadura, mas da superação do capitalismo. Entretanto, baseado em sua tática, esta resposta serviria apenas para justificar a luta armada desconexa da realidade dos trabalhadores. 

Com o marxismo, ao contrário disso, aprendemos que, de fato, as condições objetivas já amadureceram há muito para o socialismo, mas que apenas tais condições não fazem com que o capitalismo, este modo produtivo que rege a sociedade mundial há mais de dois séculos, seja definitivamente derrotado. Para tanto, é preciso a construção de um partido revolucionário, centralizado, organizado e com influências de massas, capaz de dirigir e ser assimilado pela classe trabalhadora e sua vanguarda, o operariado. As condições, a classe, o partido e a direção precisam convergir no momento histórico de uma situação revolucionária. Praticamente todos os elementos estavam disponíveis naquele período da vida brasileira e mundial, tal como estão em nosso tempo com a crise sem precedentes do capitalismo, porém, as direções conciliadoras e com graves erros políticos impedem a superação deste sistema. 

Isto é, a culpa não é dos trabalhadores. Não foi em 1964, não foi entre 2016 e 2018 e não é em 2021. O proletariado segue produzindo e buscando transformações para esta vida miserável, mas não possui a direção capaz de organizá-la corretamente. É fundamental termos clareza disso, pois é recorrente que dirigentes políticos e a historiografia (ou cinematografia) destas direções culpem a classe pelo atraso da sociedade ou pela repressão do Estado burguês. Isso fica claro nos primeiros segundos do filme de Wagner Moura, quando uma imagem da ditadura militar é legendada com: “o golpe teve apoio de grande parte da população”, além de “a justificativa era acabar com a corrupção e deter a  ‘ameaça comunista’”, como uma das tentativas do filme em traçar um paralelo deste período de golpe militar com o discurso petista sobre o suposto golpe de 2016 e a ascensão bolsonarista. 

Estas afirmações são fraudulentas. A suposta “grande parte da população” na realidade era a pequena-burguesia do país, especialmente urbana, influenciada pela Igreja e o imperialismo. A classe trabalhadora, a verdadeira grande parte da população, estava colocando a sociedade em ebulição com suas organizações operárias, camponesas e estudantis, que obrigaram até mesmo um latifundiário como João Goulart a prometer as fatídicas reformas de base.

Tal como a verdade histórica muitas vezes torna-se irrelevante para as narrativas dessas direções, que deturpam a história para justificar suas políticas, Marighella também desprezava o marxismo e a teoria, como ele mesmo expressou em vários momentos. E não apenas seu personagem no filme, mas o próprio em seus textos, como no próprio “Minimanual do Guerrilheiro Urbano”. 

“Eu desejo que todos que leram este manual e decidiram que não podem permanecer inativos, sigam as instruções e juntem-se a luta agora. Eu solicito isto porque, baixo qualquer teoria e qualquer circunstâncias, a obrigação de todo revolucionário é fazer a revolução” (MARIGHELLA, p. 3, 2003). 

Como explicou Lenin, sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário. Mas para Marighella, a guerrilha possuía quase que forças sobrenaturais de elevação moral e heróica que transformava qualquer indignado em guerrilheiro revolucionário. Provavelmente este pensamento tenha surgido das crendices de Marighella, como a de ser praticamente imortal por ter sido banhado por sua mãe com folhas sagradas dos santos negros quando criança, como mostra um diálogo do filme. Aliás, a superioridade da guerrilha seria tanta que os militantes da ALN, reproduzindo o mantra de Marighella, chegavam a dizer que “não era preciso permissão para atos revolucionários”. Claro, a não ser que tais atos fossem contrários ao que o herói maior tivesse acordado.  

Ainda em seu “minimanual”, Marighella ressignificou o terrorismo, assumindo pra si a alcunha e afirmando que, naquele momento, ser “terrorista e violento” havia “adquirido uma nova roupagem”, tornando-se “uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada” (MARIGHELLA, p. 3, 2003). Distante dessa concepção deturpada de honra e ato revolucionário, os marxistas combatem o terrorismo e compreendem que a violência deve se impor contra a burguesia a partir de um movimento das massas trabalhadoras e sua revolução. 

A violência não pode ser um fetiche para os revolucionários, nem um método razoável a ser feito por um pequeno grupo armado, que supostamente possui superioridade moral para combater o Estado e seus capangas. Nesta perspectiva, inclui-se para os marxistas o resultado político de atos terroristas, como empreendidos por Marighella e a ALN, pois possibilitam a burguesia e suas instituições a se colocarem como vítimas e defensoras da democracia contra os supostos revolucionários que perturbam a ordem e a paz social. Sabemos que na realidade é o contrário o que acontece, a burguesia nunca hesitou em usar da violência, da guerra, da tortura, da perseguição e de todos os métodos mais aviltantes e desumanos contra os trabalhadores. Contudo, a ideologia dominante de uma sociedade é a ideologia da classe dominante e, assim, a burguesia produz mais dela para o proletariado se afastar dos revolucionários quando métodos como os descritos no “Minimanual do Guerrilheiro Urbano” são postos em prática.

Portanto, ressaltamos que não reside qualquer sentimento cristão, defesa do pacifismo pequeno-burguês ou algo que o valha nesta posição dos marxistas. Há apenas a compreensão de que ações terroristas, sejam individuais ou de grupelhos, não contribuem em nada com o combate ao capitalismo, muito menos são políticas comunistas. Nós defendemos o armamento geral da classe trabalhadora para que possamos nos proteger da polícia e dos elementos atrasados da sociedade e, principalmente, para impor a ofensiva contra a burguesia. Isto é, enquanto classe, onde os trabalhadores terão responsabilidade coletiva por suas armas e atos, jamais individualmente com o mero intuito de defesa da propriedade privada.

O filme: racialismo e agitação 

Como dissemos no início, este artigo não se propõe a realizar uma crítica cinematográfica. O julgamento de qualidade do filme pode ser subjetivo nesse caso, principalmente se o espectador esperava um thriller para vender facilmente com inspirações (cópias industriais?) dos longas Tropa de Elite (2007; 2010), de José Padilha. Ainda assim, não podemos nos furtar de mencionar alguns elementos do filme que ultrapassam as importantes discussões estéticas, de atuação etc., sendo questões políticas. 

Marighella (à dir.) em 1962

A primeira escolha de Wagner Moura para interpretar Marighella foi o icônico Mano Brown, inclusive por ter a mesma tonalidade da cor da pele e semelhanças físicas, mas o músico declinou do convite. Com isso, como também é amplamente sabido, a escolha final para que Seu Jorge vivesse o guerrilheiro teve influência de dirigentes do movimento negro liberal, que exigiam um ator “mais negro” que o próprio homenageado era. Além disso, já no início do longa, há uma demonstração de como o filme absorveu o racialismo. Quando Marighella é apresentado, destacam-no como neto de escravos sudaneses, ocultando o fato de ser filho de imigrante italiano, ligado ao anarquismo, por isso era “mais branco”. Então, ter Seu Jorge, um “negro retinto” conhecido no mundo inteiro tanto pela música quanto por suas atuações em filmes internacionais, foi significativo para a mensagem racialista do filme de Wagner Moura. 

O racialismo e seus defensores se multiplicam na assim chamada esquerda, em diversos partidos e organizações. São elementos reacionários para a luta revolucionária, inimigos de classe que se utilizam da cor da pele da classe trabalhadora, especialmente da juventude negra, para dividir-nos como se os inimigos fossem os próprios jovens e trabalhadores mais ou menos negros e os brancos. 

Para os racialistas, uma propaganda de um banco que fale em “transformar o sistema” sendo atuada por uma “negra retinta” é um “ato revolucionário”. Vejam só, tem como resultado quase como a guerrilha urbana de Marighella: afastar a classe trabalhadora dos revolucionários, dividir nossos interesses e fazer terrorismo contra o socialismo, já que é possível transformar o capitalismo tornando-o negro, inclusivo e humano. Ora, se isso já é extraordinário para estes elementos, imaginemos o que significa construir em um filme polêmico, internacionalmente visto e de agitação política, que o herói de superioridade moral e que deu a vida contra a ditadura militar era um neto de escravos, “negro retinto” e afeito ao sincretismo afro-cristão, ao invés de um negro “mais embranquecido”, filho de um anarquista italiano e ateu. É avassalador para os racialistas.

Evidentemente que não foi apenas o personagem de Marighella que sofreu adulterações históricas. Há outras questões no filme que reforçam o racialismo, como a já mencionada ode às crenças africanas até a possibilidade de Jesus também ter sido um “negro retinto” porque foi escondido no Egito, quando criança, pois, segundo o filme, todos os moradores do Egito em tempos bíblicos eram negros como Seu Jorge… 

Há também a construção do delegado que persegue Marighella. Este, uma cópia grotesca e constrangedora de Capitão Nascimento – personagem de Wagner Moura em Tropa de Elite -, é um maníaco que matava, torturava e adulterava provas sem qualquer piedade, especialmente contra negros. Sabemos muito bem que este é o método da polícia burguesa no Brasil e no mundo, por isso a Esquerda Marxista defende o fim da Polícia Militar e todas as demais instituições de repressão do Estado e da classe dominante, ao contrário destes racialistas, incluindo muitos atores do elenco e do próprio diretor que defendem a desmilitarização e humanização das polícias. Entretanto, no filme, a exploração de um delegado descontrolado, assassino e essencialmente racista tem o intuito de expressar que estes elementos da polícia são individualmente assim. São quase que distúrbios de caráter de maus elementos que comandam as corporações, não que essas próprias instituições e seu intrínseco papel para o capitalismo são racistas e criminosos, mas que seus indivíduos são brancos, logo, automaticamente racistas.

Os marxistas se posicionaram e continuamos fazendo diante destas espécies de deturpações da luta de classes. É imprescindível e primordial que construamos a unidade entre a classe trabalhadora para combater e destruir definitivamente todos os tipos de opressões. Para tanto, não são as políticas de representatividade – seja ela qual for: mulheres, mulheres negras, LBGTs, homens negros ou “negros retintos” -, muito menos fraudar ou ocultar a história para impor representatividades, que iremos conquistar tais vitórias. Somente a partir de um programa político revolucionário e socialista, firmado no marxismo, que conseguiremos superar esses atrasos e horrores opressores da humanidade. 

Sabemos que estas representatividades, mensagens racialistas e métodos, especialmente, culturais cativam o público. O filme Marighella potencializa isso porque trata de “um tempo… página infeliz da nossa História”, onde o país foi “subtraído em tenebrosas transações”, como escreveu Chico Buarque. Um período de dor, tortura e morte impostas pela ditadura empresarial-militar, que teve como uma das inúmeras respostas os equivocados métodos do guerrilheiro urbano. 

Certamente, ao assistir o filme, os espectadores podem se sentir inflamados e entusiasmados, devido ao estágio decrépito do capitalismo em que vivemos e pela ávida necessidade de superar esse sistema. Porém, também é nosso papel, dos marxistas, entender o histórico método de Agitação e Propaganda, apresentando por Lenin em “O que Fazer?”,onde agitação se sintetiza na difusão de uma ideia para muitas pessoas e propaganda na difusão de uma ideia para poucas pessoas. Isto é, são ações de divulgação da política socialista para as massas trabalhadoras em prol da revolução. Diferente disso, as representações do filme e os métodos de Marighella não significam realmente atos e difusões revolucionárias. Assim, com este longa e toda a discussão que ele provoca, aprendemos que a encenação de uma agitação de uma revolução – ou do combate à ditadura militar – pode empolgar, mas nem toda agitação política é propaganda revolucionária para ser por nós assumida e comemorada. Esse é o caso de Marighella, na ficção e no real.

Referências:

LENIN, Vladimir. A Guerra de Guerrilhas, 1906. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/lenin/1906/09/30.htm>.

TROTSKY, Leon. Guerrilheirismo e o Exército Regular. Esquerda Marxista, 2020. Disponível em: <https://www.marxismo.org.br/guerrilheirismo-e-o-exercito-regular/>. 

MARIGHELLA, Carlos. Manual do Guerrilheiro Urbano (1969). Sabotagem, digitalização 2003. Disponível em: <https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=sites&srcid=Zm9yZWR1Y2F0aW9uLmNvbS5icnx0ZWNub2xvZ2lhLWRhLWluZm9ybWFjYW98Z3g6NDIxNjY3Njc3ZTQ5MDk5OA>. Acesso em: 07 dez. 2021. 

PENNA, Arthur. Morte de Che Guevara e a crítica à luta armada. Esquerda Marxista, 2016. Disponível em: <https://www.marxismo.org.br/morte-de-che-guevara-e-a-critica-a-luta-armada/>. 

ARSENEAU, Julien. A classe, o partido e a direção: como organizar a revolução (parte 1). Esquerda Marxista, 2021. Disponível em: <https://www.marxismo.org.br/a-classe-o-partido-e-a-direcao-como-organizar-a-revolucao-parte-1/>.

Esquerda Marxista. A facada em Bolsonaro, o Mercado e o Terrorismo individual. Esquerda Marxista, 2018. Disponível em: <https://www.marxismo.org.br/a-facada-em-bolsonaro-o-mercado-e-o-terrorismo-individual/>. 

PLEKHANOV, George. O papel do indivíduo na história. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

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