Moradores de Kiev realizam exercício militar organizado pelo grupo de extrema-direita Setor Direito / Imagem: UMIT

A compreensão messiânica do papel dos trabalhadores na guerra na Ucrânia

O presente artigo tem como objetivo polemizar com o principal posicionamento da LIT-QI (que tem como sua seção brasileira o PSTU) sobre a guerra da Ucrânia. Após assumir posição política parecida para o conflito na Síria, quando foi reivindicado armas do imperialismo para grupos de “resistência”, a LIT-QI propagandeia agora o fortalecimento da “resistência ucraniana” em sua luta contra a opressão russa. Para isso, reivindica novamente armas das potências imperialistas em oposição ao “pacifismo”.

Pacifismo

Pacifismo é uma compreensão oportunista de certos dirigentes sobre os acontecimentos políticos que, apoiados no sentimento de ojeriza geral do proletariado à guerra e à matança entre grupos armados, colocam como sendo interessante à classe trabalhadora a paz entre as classes e as nações. Sob o manto da rejeição à guerra foram construídas várias teorias para convencer os trabalhadores de que eles deveriam levar suas reivindicações para dentro dos parlamentos burgueses e embrenhar-se em uma luta à longuíssimo prazo por reformas sociais progressivas; embelezada ou não com a ideia de um horizonte socialista.

Sem confiança alguma na capacidade de vitória dos trabalhadores e na sua mobilização e organização de massas, ao verem a sua atuação parlamentar “progressista” ameaçada, os pacifistas no movimento operário encaram o transbordamento do conflito entre as classes para o conflito armado como um “suicídio político”. Dizem: “Armas? Não! São perigosas pois provocam a reação e levam à morte nossos companheiros”. As teorias pacifistas foram duramente combatidas pelos bolcheviques. Mas não só. A defesa bolchevique da revolução armada, lideradas pelas organizações operárias e com ampla participação das massas, se mostrou acertada na prática, na própria forma na qual o poder foi tomado na Rússia pelos trabalhadores.

Os sovietes lutaram pela paz com armas na mão. Através de milícias vermelhas e de setores das forças armadas que reconheciam o poder dos sovietes, os bolcheviques lideraram uma tomada armada ao poder que resultou em pouquíssimo derramamento de sangue, e que teve como conclusão a saída da Rússia da primeira guerra mundial. Ao final, a história mostrou que o pacifismo é o da conciliação de classes dentro do movimento operário, servindo à burguesia para sua manutenção como classe dominante.

Por que há guerra?

Mas por que a guerra está tão entranhada no cotidiano mundial a ponto de causar uma certa anestesia com o que é exposto nos noticiários?

A sociedade capitalista depende da guerra para sobreviver. Isso acontece porque a acumulação capitalista, a certa altura, após eliminar grande parte da disputa concorrencial dentro países e substituí-la pelo domínio econômico de cartéis ligados a bancos com estreitos laços com os governos, transforma-se em uma feroz disputa pelo mercado mundial.

Os antigos capitalistas que produziam cegamente aos mercados hoje se refletem apenas no pequeno burguês, impotente e com medo de encontrar a falência na próxima esquina. A classe de grandes capitalistas é formada, há mais de 100 anos, por oligarcas das finanças dispostos a tudo para a defesa de seus negócios. Ao se lançarem em aventuras fora dos seus países e apoiados pelos seus Estados nacionais, a mera existência da oligarquia financeira atesta que o capitalismo atingiu uma nova fase: a imperialista. Para manter e ampliar as taxas de lucro dos seus capitais, os grandes capitalistas vão ao exterior coligados em pequenas fratrias econômicas, os cartéis. É questão de tempo para dominarem mais e mais fatias de mercados e territórios.

Levando a disputa pelo mercado mundial às últimas consequências, e tendo em conta que a manipulação nacional dos mercados se torna insuficiente para evitar novas crises, a oligarquia financeira constrói máquinas de guerra – que são as forças armadas nacionais, milícias e grupos paramilitares a elas associadas – com o objetivo de garantir a primazia do seu capital com relação ao de outras burguesias nacionais. Temos então um teatro onde uma série de acordos e quebras de acordos ocorrem a todo momento entre diversos oligarcas e Estados em torno da repartição internacional de territórios, recursos (essencialmente matérias primas, mas também repartição da força de trabalho e do mais-valor em potencial por ela produzido) e mercados.

Vamos agora diretamente ao texto.

Teatro de operações: há como os trabalhadores ucranianos pegarem em armas?

“Somente a mobilização independente dos trabalhadores [grifo nosso] pode derrotar a invasão russa. A paz somente será conseguida com a derrota militar de Putin, não afirmar isso é semear ilusões. Defender que os trabalhadores não peguem em armas para sua autodefesa, em caso de guerra é uma política impotente e derrotista para a classe [grifo nosso], nesta em que deveria se transformar em uma luta revolucionaria.” (LIT-QI. Armas para a resistência ucraniana! Disponível em litci.org acesso em 22/03/2022)

Para a LIT-QI a invasão Russa ao território ucraniano se trata de uma invasão de uma nação opressora, exploradora, a outra explorada, portanto oprimida. Diante disso, perguntamos: Quais as condições concretas para o estabelecimento de uma resistência própria do povo ucraniano contra a invasão Russa e dessa resistência conseguir se expressar também na forma de milícias territoriais descentralizadas e controladas por trabalhadores semi-independentes ou por organizações políticas proletárias como sindicatos e associações diversas? Como garantir que essa resistência seja independente do governo, da OTAN e das organizações fascistas?

Lembremos que logo após o Euromaden a Ucrânia passou por uma “descomunização” – proibição pelo governo de partidos ligados ao comunismo, assassinato de lideranças e sindicalistas por milícias fascistas apoiadas pelo Estado –, e que nesse momento de guerra todo partido ou movimento político de oposição a Zelensky pode ser encarado como colaboracionista com os agressores. Sob lei marcial após a invasão Russa, a repressão política interna, que já não era leve, agora está autorizada a fazer praticamente qualquer coisa. Dezenas de parlamentares já foram expulsos e todos os partidos sem representação parlamentar que tem em seu nome a palavra “socialista” ou “esquerda” foram banidos.

Então o que seria derrotar Putin com as armas do imperialismo para a LITQI? Agitar para que os trabalhadores ingressem nas fileiras do exército ucraniano para que, sob o comando de generais mercenários ao serviço das potências ocidentais ou prontos para mudarem de lado em caso de vitória de Putin, arrisquem suas vidas em nome da “luta contra a opressão nacional? Os trabalhadores estariam oprimidos no primeiro segundo que aceitassem ser comandados por estes generais.

Bem, mas há milícias que estão lutando contra o exército invasor e elas são gigantescas, poderiam argumentar. Recentemente, o The Washington Post divulgou uma matéria sobre as “Війська територіальної оборони” (Forças de Defesa Territoriais), classificando-as como milícias de civis armados.

Mas basta pesquisar grosseiramente para perceber que as Forças de Defesa Territoriais não são meras milícias de insurgentes civis que lutam contra tropas invasoras. Na realidade são um braço do exército ucraniano, uma infantaria leve com mais de uma centena de milhares de combatentes que não tem independência alguma em sua ação. Logo, seria exatíssimo dizer que são uma divisão das forças armadas regulares. E mais, elas são alimentadas não só por voluntários, mas também por reservistas e convocados pelo serviço militar obrigatório. Elas respondem aos mesmos generais que as tropas regulares.

Ademais, hoje também fazem parte das forças armadas ucranianas diversos grupos de  paramilitares fascistas e neonazistas que se formaram durante o Euromaden (Setor Direito, Patriotas da Ucrânia, Brotherhood, Svoboda, Maidan Autodefesa etc.) e que ganharam experiência no que ficou conhecido como “operação antiterrorista”, criada pelo governo para combater os separatistas pró-Rússia no leste.

Como as armas poderiam ser um elemento revolucionário

Não existe na Ucrânia um partido de massas ou organização política dos trabalhadores capaz de formar suas próprias milícias para combater a invasão russa de maneira independente dos imperialismos norte-americano e europeu, assim como do seu agente direto, Zelensky.

Com a pequena força política dos comunistas ucranianos e sob o presente clima de repressão contra qualquer oposição ao governo ou movimento de auto-organização dos trabalhadores, é impossível montar uma força armada independente de revolucionários ou uma única milícia operária baseada em uma fábrica ou bairro sequer.

Caso surgisse, tal agrupamento seria imediatamente esmagado pelas forças armadas ucranianas e suas tropas auxiliares, com pouco ou nenhum prejuízo às frentes de batalha. Essa é a política da burguesia ucraniana para as organizações dos trabalhadores. Contudo, para a LIT/PSTU, a Ucrânia vive uma democracia desde que o governo pró-Rússia foi derrubado em 2014:

“Na Ucrânia a revolução democrática chegou em 2014 e derrubou o ditador fantoche de Moscou, Yanucovich.  Estabeleceu uma democracia burguesa.” (LIT-QI. Armas para a resistência ucraniana! Disponível em litci.org acesso em 22/03/2022)

Eis o progresso atingido pela “democracia burguesa” que foi criada em 2014 pela “revolução democrática”. Para a direção da LIT-QI, o estabelecimento de uma “democracia burguesa” e a “revolução democrática” parece se desenhar como um elemento regressivo na história e na luta de classes, que piora as condições de organização dos trabalhadores.

Reivindicar “mobilização independente dos trabalhadores” é sempre importante, sob qualquer condição política, a LIT-QI acerta ao sair em sua defesa. Mas com armas nas mãos, fornecidas pelo governo ou pelo imperialismo, os trabalhadores ucranianos terão de tudo, menos uma mobilização independente. Pior: adiarão essa mobilização independente ao terem suas lideranças perseguidas e aniquiladas fisicamente. Não é o momento de pegar em armas, e isso não tem nada a ver com pacifismo, mas com senso de realidade política.

Formar grupos de combate de operários liderados pelos melhores quadros do movimento operário é, nesse momento, colocá-los como uma tropa sitiada por todos os lados: militarmente pelo governo ucraniano e pelo governo russo, e economicamente e politicamente pelo imperialismo. Antes mesmos de conseguirem combater os russos, teriam que se entender com outros ucranianos armados e com as massas iludidas com a política burguesa de europeização da Ucrânia.

Pedir armas para o imperialismo é semear ilusões

No momento, a Ucrânia é um palco de operações de um conflito militar entre dois países: Estados Unidos – apoiados pela União Europeia – e Rússia – apoiada timidamente pela China e outros países com pequena força econômica e militar. Defende a LIT/PSTU:

“Temos de exigir dos governos, especialmente dos países imperialistas, que entreguem para a resistência ucraniana, armas e todos os materiais necessários, sem nenhuma condição. Estando totalmente contra a entrada das tropas da OTAN no país, e mais ainda, nunca, submetendo o comando das milícias aos oficiais imperialistas.” (LIT-QI. Armas para a resistência ucraniana! Disponível em litci.org acesso em 22/03/2022)

Aqui há pelo menos duas confusões. Primeiro que não se define quem são os “países imperialistas”. A Rússia seria um deles? Pelo contexto da discussão, imaginamos que não, pois exigir armas da Rússia para combater o exército russo seria um contrassenso. Segundo que pedir armas a qualquer governo, “especialmente dos imperialistas”, leva a mensagem aos trabalhadores de que, se apoiado por eles, poderiam desempenhar um papel melhor na luta de classes. Como se, desesperadas por qualquer motivo e contra um inimigo que têm em comum com os trabalhadores de algum território, as potências imperialistas fossem entregar armas nas mãos daqueles que, a partir delas, organizar-se-ão para derrotá-las logo em seguida.

Ora, será que o imperialismo é mesmo capaz de fornecer armas para a resistência ucraniana? Como a própria nota da LIT-QI assinala, não. Segundo ela, as piores armas estão sendo enviadas pela Espanha e Itália para o campo de batalha. Os Estados Unidos certamente também não estão entregando o melhor do que têm para combater a Rússia. Um sinal de prudência. Visto o despreparo da resistência e a capitulação futura inevitável de Zelensky em caso de derrota, seria irresponsável municiar excessivamente o país agora, algo como criar uma nova Síria, cheia de grupos insurgentes se combatendo em uma guerra civil prolongada, ou, em último caso, seria acabar vendo suas próprias armas indo para as mãos de Putin ou de um governo opositor.

A única solução para evitar a derrota do exército ucraniano seria o envio direto para a Ucrânia de tropas americanas com o apoio da OTAN. Mas essa opção é inviável pelas consequências de um combate direto entre duas nações nucleares e pela perspectiva de uma revolução ocorrer nos EUA a partir de um movimento antiguerra que se misture a um movimento contra as consequências da crise econômica.

Diante do que aqui foi posto, qual o ganho em consciência de classe em agitar que o imperialismo pode armar os trabalhadores ucranianos? Nenhum, é semear a confusão através da criação da fantasia de uma classe trabalhadora armada, independentemente do contexto político e por quem, é capaz de avançar nas suas lutas. Como se as armas, por si só, fizessem a classe trabalhadora se pôr em combate contra seu inimigo histórico capitalista e seus governos reacionários. A LIT-QI tem uma visão messiânica do papel da classe trabalhadora na luta de classes. As armas aí funcionam como um poder mágico, que tudo poderia resolver.

Antes de pensar no poder das armas é preciso pensar em como criar uma organização política revolucionária com influência de massas no movimento operário, ou como as armas poderiam ajudar na sua construção. Reconhecer que a luta de classes funciona por uma dinâmica própria e que ela pode levar o movimento proletário a saltar etapas na sua organização política – acelerando o próprio tempo histórico – é muito diferente de afirmar que o proletariado vai sempre travar uma luta ofensiva, sem recuos, se estiver armado.

Utilizando uma metáfora, diríamos que a política da LIT-QI para os trabalhadores na Ucrânia afirma que atravessar o rio revolto da guerra, caso eles estejam bem-equipados com equipamentos de nado, significa se lançar ao rio e ir até a outra margem. É preciso construir pontes ou vão todos morrer afogados, independente do equipamento que estão utilizando. Obviamente, se o rio secar ou as águas se tornarem calmas, propagandear a segurança fornecida pelas pontes ou reclamar das roupas molhadas seria só construir um conjunto de desculpas para não a defesa de que não se deve atravessar o rio. O avesso do do pacifismo não é o aventureirismo militar.

Nem mesmo se um OVNI despejasse toneladas de armas avançadas nas mãos das principais lideranças sindicais e operárias elas serviriam para construir qualquer força independente. Imediatamente todas as armas seriam tomadas pelas tropas dirigidas pelos generais mercenários pró-imperialismo, que, por sinal, estão prontos para assumir qualquer lado nas negociações de paz futuras, aguardando apenas para analisar qual deles pagará melhor.

A luta pela retirada imediata das tropas russas e pelo fim do envio de armamentos pelas potências imperialistas para a Ucrânia é o que pode se transformar na luta, inclusive armada, contra os governos reacionários de Putin e Zelensky. Armas não criam consciência de classe nem organizam os trabalhadores por si só. São apenas um instrumento. Instrumento necessário para a luta decisiva e que deve ser abordado sem nenhum tabu, mas incapaz de fazer, por si só, a balança da luta de classes pender para o lado dos trabalhadores.

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