Barricada em frente ao prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL/USP). Foto: Jornal da USP

A Batalha Estudantil da Rua Maria Antônia

“Foi como se esquecessem o leite fervendo sobre o fogão. Em 1968, o mundo transbordou. Foi como se tudo fosse terminar no dia seguinte. A história avançava com velocidade, fúria e criatividade. Nada seria como antes. Ninguém ficaria parado” (Gilberto Amendola, autor de Maria Antônia: A história de uma guerra, 2008).

O ano de 1968 é singular para a história do século XX. A luta de classes se acirrou em todo o mundo, com as massas gerando revoltas e os exploradores, suas reações. No Brasil, uma Ditadura Militar imposta pelo imperialismo e pelas classes dominantes do país havia completado 4 anos e entrado em sua fase mais sombria, em 13 de dezembro. A instauração do Ato Institucional n° 5 era o passo a ser dado para o Estado e a burguesia intensificarem a repressão contra a classe trabalhadora e a juventude, que se revoltaram e se organizaram diante daquela situação. Uma das demonstrações deste clima de antagonismos sociais no Brasil foi a, assim chamada, Batalha da Rua Maria Antônia, no centro da cidade de São Paulo, entre 2 e 3 de outubro de 1968.

É importante relembrar que, em 28 de março, o secundarista Edson Luís já havia sido assassinado pelas forças repressivas militares, aumentando a ira popular contra a ditadura, além da Passeata dos Cem Mil de 26 de junho, ambas no Rio de Janeiro. Estes emblemáticos acontecimentos tornaram-se símbolos de luta para o movimento estudantil que possuía seu núcleo organizativo justamente na rua Maria Antônia, em São Paulo, onde era sediada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP – atual FFLCH).

Porém, essa rua não era a casa apenas desses departamentos da universidade pública e das atividades do movimento estudantil progressista, pois era também o endereço da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde, estrategicamente, se instalou uma célula do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), grupo paramilitar fundado em 1963 na Faculdade de Direito no Largo São Francisco (USP).

Esse grupo se destacou, inicialmente, em universidades, mas sua ação logo se amplificou na sociedade ao ajudar na organização da Marcha da Família com Deus Pela Liberdade, entre 19 de março e 8 de junho de 1964. Antes da Batalha da Maria Antônia, outra reconhecida ação terrorista do CCC foi a invasão ao Teatro Galpão, também em São Paulo, em julho de 1968. No episódio, esse reacionários espancaram os atores e o público da peça Roda Viva, incluindo a humilhação contra a atriz Marília Pêra, que foi despida e posta na rua pelos anticomunistas, que repetiram os crimes no Rio Grande do Sul, acrescentando sequestro e tortura aos atores.

No caso da batalha da Maria Antônia, essa convergência de situações produziram um conflito generalizado entre os estudantes. Os principais resultados foram a morte do secundarista José Guimarães, por um tiro disparado do prédio da Mackenzie, que, segundo o grupo Tortura Nunca Mais, foi efetuado por Osni Ricardo, membro do CCC e do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS),  dezenas de feridos, o incêndio do prédio da USP por coquetéis molotov arremessados pelos reacionários e a rápida transferência da faculdade da USP para a Cidade Universitária do Butantã.

Ressalta-se que o estopim para o conflito se deu às 10 horas da manhã de 2 de outubro, devido à tática de “pedágio estudantil”, objetivando o financiamento das entidades, realizada pela direção da União Estadual dos Estudantes (UEE), dirigida por José Dirceu, e por estudantes secundaristas. Como protesto ao pedágio, estudantes do Mackenzie arremessaram ovos nos secundaristas e nos uspianos, começando as brigas físicas que se desenvolveram com pedras, paus, bombas e armas.

Contudo, essa foi apenas a gota que transbordou o copo, pois, desde julho, o prédio da USP estava sob uma ocupação estudantil para a realização de assembleias visando ações contra a ditadura, as discussões sobre a Reforma Universitária, a garantia de cursos com programas políticos e leituras de autores marxistas, e para a construção do 30° Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em março ocorreram breves hostilidades, aumentadas mês a mês por causa do combate do CCC contra a agitação política dos estudantes de esquerda, nesse contexto das disputas pelas reformas universitárias, que recebiam, tanto as imposições do regime militar e seus defensores, quanto as respostas dos estudantes progressistas.

Assim, com barricadas levantadas e todos os objetos disponíveis às mãos, a rua que separa as universidades e toda essa conjuntura virou uma zona de guerra. Ambos os prédios tiveram suas fachadas danificadas, mas a destruição deu-se no prédio da USP e de tudo que estava ao redor, como carros e lojas. As reitorias das universidades chamaram a Segurança Pública que, inicialmente, foi incapaz de dispersar a multidão em guerra, mas que não demorou para invadir os prédios, prendendo os estudantes, principalmente os da USP.

O governo militar utilizou o ocorrido como pretexto para aumentar a repressão e acelerar os planos para desmembramento do movimento estudantil pulsante na rua Maria Antônia. Exemplos desses ataques governamentais foram as obras para o campus do Butantã, a prisão de mil delegados no Congresso da UNE em 12 de outubro, em Ibiúna, incluindo José Dirceu (UEE), Luís Travassos (UNE) e Vladimir Palmeira (dirigente estudantil da Passeata dos Cem Mil), além da operação de guerra dos militares no Conjunto Residencial da USP (CRUSP), que também era situado nesta rua, em 17 de dezembro, e, nacionalmente, o AI-5, que deu poderes absolutos ao ditador general Artur da Costa e Silva.

Portanto, as forças policiais auxiliaram os membros do CCC e outros estudantes reacionários do Mackenzie nessa batalha. Esses elementos mantinham profundas relações com os órgãos oficiais de repressão, além da conivência das demais autoridades públicas e da imprensa burguesa. O Jornal da Tarde, em outubro de 1968, apontou que o CCC possuía cerca de 5 mil membros, em todo o país, com preparo militar (SANTOS, p. 168, 2015), reforçando a repressão do Estado sem que os generais sujassem tanto suas mãos, ao menos diretamente.

Capa do Jornal da Tarde.

Vale salientar que essa batalha é frequentemente apresentada como um conflito entre a “esquerda USP” e a “direita Mackenzie”. Entretanto, apesar de sua reitoria e estrutura, a Universidade Mackenzie possuía uma ampla mobilização estudantil de organizações de esquerda, especialmente na Faculdade de Arquitetura, que também recebeu ataques da célula do CCC. Claro que não foram apenas membros do CCC que combateram os uspianos e secundaristas; outros estudantes da Mackenzie também se juntaram, por vezes pelo sentido de “defender sua universidade”, mas considerar que todos os estudantes da universidade presbiteriana eram reacionários, bem como todos de FFCL-USP eram progressistas, é uma equivocada generalização.

Fundamentalmente, o histórico episódio da Batalha da Rua Maria Antônia, que completa 53 anos em outubro de 2021, não deve ser visto por nós, jovens da contemporaneidade, somente como um exemplo da repressão e da atuação de grupos reacionários como o CCC, por mais violentos que possam ser. Esse acontecimento, que nunca será esquecido, antes de qualquer coisa, foi uma expressão da capacidade de organização e luta política dos estudantes, pois a batalha deu-se apenas como um caso de uma conjuntura de intensas mobilizações, debates, assembleias e atuação concreta da unidade entre secundaristas, universitários e trabalhadores. O programa das direções poderia ser confuso, os métodos, não os mais avançados e revolucionários, mas a força e a história construída pelo movimento estudantil brasileiro nos anos 1960 deve nutrir nossa atuação no presente, com seus erros e acertos.

A Liberdade e Luta, organização de jovens revolucionários, que tem como base de seu programa político as resoluções do Congresso de Refundação da UNE de 1979 e a formação no marxismo, propõe ao movimento estudantil justamente o aprendizado na história dos combates e combatentes. Como defendeu Lênin, em 1922, a tarefa primordial da juventude é aprender, principalmente para saber agir ombro a ombro com a classe trabalhadora na luta pelo socialismo. É isso que devemos realizar, tendo a liberdade como nossa meta e a luta como nosso método.

Referência:

SANTOS, Rafaela Mateus Antunes dos. O outro lado da Rua Maria Antônia: a atuação das juventudes de direita em 1960. Orientadores: Norberto Osvaldo Ferreras. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Departamento de História, 2015.

Para saber mais:

Apresentação da brochura “A luta pela educação pública, gratuita e para todos” (Maritania Camargo, 07/06/2021)

A juventude e a ditadura militar de 1964 (Evandro Colzani, 01/07/2012)

Liberdade e Luta, um passado presente (Michel Goulart da Silva, 06/10/2020)

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