10º Encontro Mulheres Pelo Socialismo Florianópolis

O Movimento Mulheres pelo Socialismo (MPS) Florianópolis/SC tem se reunido virtualmente de maneira quinzenal. A reunião virtual do dia 30 de julho abordou e deu continuidade na discussão da brochura intitulada “O Marxismo e a Luta contra Ideias Estranhas à Classe Trabalhadora”, da coleção Marxismo ou Feminismo, produzida pelo MPS.

Dentre os tópicos discutidos destacam-se: Feminismo, Questão Nacional, Racismo e Políticas Identitárias. Estes tópicos foram explanados de maneira prática e sintética para que todos os presentes, militantes e não militantes, ao longo do encontro, entendessem a perspectiva marxista sobre as questões citadas. Entretanto, cabe destacar que as discussões não se encerraram neste momento, pois compreendem um contínuo estudo e debate, para uma visão aprofundada do tema.

Além disso, o encontro contou com a presença de novos contatos que foram provocados pela temática. Os participantes sentiram-se à vontade para questionar e encararam os encaminhamentos finais com compromisso e interesse.

O informe teve como ponto de partida as novas ideias que querem revisar toda a marcha do pensamento revolucionário. Nós do MPS confrontamos essas ideias, que são burguesas e reacionárias, e defendemos a teoria marxista como uma ferramenta revolucionária. 

Essas novas ideias enfatizam as subjetividades e os significados individuais dos fatos da realidade, como se nenhum ponto da realidade pudesse ser explicado de forma coletiva. Desta forma, elas acabam nos dividindo na luta a partir das nossas diferenças, ao invés de nos unir pelo o que temos em comum. E para essa divisão provocada na classe trabalhadora damos o nome de políticas identitárias. Esse modo de encarar a realidade só permite a manifestação a partir das chamadas opressões e sentimento individuais, legitimando apenas as falas sobre o conhecimento do indivíduo de si mesmo e da sua experiência, que serve apenas para destruir o movimento dos trabalhadores, já que mais distancia do que aproxima os que desejam lutar contra todas as formas de opressões, ou seja, da exploração de uma classe sobre a outra.

É neste contexto que surgem as expressões de “lugar de fala” e de “apropriação cultural”. Estas expressões, ao invés de unir, nos separa. Muitos movimentos feministas só permitem que mulheres participem do debate, como se a culpa fosse dos homens e não do capitalismo! Como lutar contra o machismo sem ter, ombro a ombro, nossos camaradas homens para o debate? Posso lutar junto à todas as mulheres somente por serem mulheres? Então a ministra Damaris está do nosso lado? Nossas lutas tem um viés de classe! Estamos juntas a todas mulheres e homens TRABALHADORES, que desejam acabar com a causa de todas os problemas: o capitalismo!

O exemplo trazido pela informante para elucidar a crítica entre os participantes foi a interseccionalidade, estudo que trata da intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados de dominação ou discriminação. Ou seja, mulheres trabalhadoras discutindo entre si para elencar quem tem a maior sobreposição de “opressão”, dominação ou discriminação. A interseccionalidade é usada portanto para separar e dividir essas mulheres trabalhadoras em suas diferenças e características individuais, ao invés de uni-las contra o capitalismo, real gerador da exploração.

O MPS critica essas novas ideias, pois elas não lutam pela real emancipação da humanidade, a emancipação de mulheres e homens trabalhadores. Esse posicionamento nos levou a outro ponto proposto pelo informe: o de declarar que não somos feministas. Nós queremos superar as limitações do feminismo burguês e pequeno-burguês e ligar todos a um movimento geral da classe trabalhadora para transformar a sociedade. E para isso podemos e devemos confrontar o machismo, mas nunca dissociado da luta de classes.

Assim, a tarefa dos MPS é ajudar na derrubada do capitalismo e na transição para o socialismo, eliminando qualquer barreira que impeça as pessoas de fazerem parte dessa luta, seja por seu gênero ou etnia.

Foi essencial para o encontro abordar com nitidez o que é ser marxista. E com essa certeza explicar o viés reivindicatório do MPS. O movimento busca eliminar as barreiras que impedem a mulher trabalhadora de compor a luta de classe, por exemplo discutindo creches públicas, licença maternidade e paternidade, lavanderias públicas etc. Estas são reivindicações transitórias dentro do próprio capitalismo, já que o movimento compreende que não devemos esperar outra sociedade para que direitos sociais sejam efetivados. Não se trata de discutir só o gênero, mas todo o sistema estruturado que faz com que a mulher trabalhadora não consiga lutar ombro à ombro com os trabalhadores do mundo. Assim, somos contra as cotas para as mulheres na política como solução para sua participação pura e simplesmente, pois não basta termos espaço, mas antes precisamos de condições para discutir políticas, o que requer libertar a mulher da dupla ou tripla jornada de trabalho entre outras coisas.

Foto: Tumisu, Pixabay

Como acabar com a violência que assola todos os anos milhares de mulheres ao redor do mundo? Entendendo que a luta é contra o capitalismo que se utiliza do machismo e o reforça para pagar menos às mulheres, para demitir as aquelas que voltam da licença maternidade, quee as deixam dependentes financeiramente do companheiro que o ataca em casa. O capitalismo não dá saída para as mulheres trabalhadoras. A única saída é com a unidade de classes! Dando poder aos trabalhadores na medida em que atacam os capitalistas onde dói, parando as produções e consequentemente o lucro.

Ainda dentro dessa perspectiva, a informante gerou uma reflexão nos participantes sobre o uso do radicalismo terminológico e suas acrobacias verbais que buscam neutralizar as formas masculinas e femininas substituindo o que demarca o gênero por “@”, “x” ou “e”. Ela questionou qual seria a contribuição dessa substituição na luta pela emancipação da mulher trabalhadora. O que mudaria caso tivesse dado “Boa Noite à todES” ao iniciar o informe. Alguns participantes responderam que conhecem pessoas que usam e que se sentem melhor individualmente com essa “nova” terminologia. Outra participante trouxe a problemática que esse uso cria nas traduções e nos aplicativos e legendas para cego ver. A informante contribui na resposta enfatizando que para mudar a consciência dos indivíduos e assim mudar sua condição material é preciso fazer mais do que apenas substituir letras. Mudar a linguagem não muda nada, já que nem sempre reflete uma mudança de ação. Mudar a linguagem por si só para evoluir na condição material é um enfoque idealista. É lógico que a linguagem muda e evolui, mas porque reflete as mudanças do mundo real, o contrário não é verdadeiro. A emancipação não pode ser alcançada meramente imaginando que não existe mais gênero. Por fim, ressaltou que não temos qualquer objeção a que qualquer pessoa se identifique como quiser, que mude seu sexo, que inclusive isso deve estar disponível para quem o desejar no sistema público de saúde, mas, no entanto, este ponto não esgota ou soluciona a questão. É preciso mudar a sociedade!

Outro grande tópico trazido para o encontro foi a “Questão Nacional”. A brochura faz uma analogia, compara a Questão Nacional às Políticas de Identidade, pois combatemos qualquer forma de violência ou discriminação, inclusive quando ela está relacionada à nacionalidade. E é exatamente por isso que defendemos as nações atrasadas contra os Estados imperialistas, mas lembrando sempre que a nacionalidade, igualmente ao identitarismo, está subordinada a questão operária. Dito isso, nota-se que o direito das nações a se auto determinarem, não é de fato absoluto, pois esse direito sempre estará subordinado aos interesses da Revolução Proletária Internacional. É lógico que tentar resolver todas as questões nacionais nos marcos do capitalismo por meio desta garantia não é eficaz contra o mesmo. Porém, utilizar-se do direito à autodeterminação dos povos nas lutas nacionais contra o imperialismo faz sentido e nos permite traçar um programa contra essa extensão do campo de exploração capitalista.

O mundo como conhecemos hoje, foi dividido em nações pela burguesia para que os capitalistas pudessem proteger seus mercados e manter seus regime de exploração. Então, é usando da autodeterminação dos povos que nós não vamos aceitar que as nações do mundo sejam compostas por trabalhadores oprimidos. Temos que desencadear uma luta contra a burguesia e ser implacáveis, resistindo a todas as tentativas de exploração dos trabalhadores.

Assim, chegamos à conclusão que lutar como unidade contra a política burguesa não nos impede de incluir nas nossas reivindicações programáticas questões específicas. Porém, não podemos fazer delas a nossa causa, elas são as consequências desse sistema opressor e por isso não tem de fato como resolvê-las se não derrubarmos o capitalismo.

O tópico “Racismo e Política de Divisão” foi tratado em seguida e possibilitou conectar a questão nacional com a política “América Primeiro” dos EUA. Uma política nacionalista que gera um estado de ânimo de medo entre os imigrantes e os não-brancos, que são culpados pelo desemprego e pobreza no país. Essa é uma estratégia praticada pela classe dominante com o objetivo de debilitar a classe trabalhadora, dividindo a luta.

Unir a luta não significa que as questões raciais têm que ser abandonadas da discussão, mas que devem ser discutidas para conscientizar a classe proletária do real inimigo, o capitalismo. Nós marxistas lutamos contra o racismo, mas não devemos aceitar uma ideologia unilateral que atrapalha e dificulta a luta unificada. A informante provocou os participantes sobre quais são os caminhos para a construção da unidade de todos os setores explorados para combater as mazelas que o sistema impõe hoje para preparar, com a luta e organização, o caminho para a derrubada do capitalismo.

O Movimento Negro Socialista (MNS) foi citado, assim como algumas de suas reivindicações. Ao mesmo tempo que o referido movimento está discutindo e reivindicando suas pautas, têm consciência que o problema da repressão policial e da dificuldade de entrar numa universidade não é culpa do seu colega branco, é do capitalismo! E assim como nós do MPS, o MNS usa a teoria marxista para diminuir as barreiras impeditivas de compor a luta pela derrubada do capitalismo.

A obsessão da política de identidade, que quer nos colocar em categorias é interessante pro mercado, que busca criar produtos e eventos para que nos identifiquemos a partir de nossa individualidade. Mas camaradas, nós já somos únicos por sermos quem somos! Não temos que encontrar alguém igual a nós em cada característica do seu indivíduo para darmos a mão e ir à luta. Ninguém vai compartilhar igualmente todos os problemas. Mas uma coisa é certa, a causa de todos esses problemas individuais que cada um experimenta na vida é culpa desse sistema podre. As violência contra a mulher, a discriminação racial ou de gênero e outros problemas são importantes e devem ser combatidos porque são reais, mas não podem tirar espaço da questão central que é derrubar o sistema capitalista. E como podemos fazer disso uma realidade, partindo das condições atuais impostas?

A Esquerda Marxista, organização política que impulsiona e apoia o MPS, busca construir um partido revolucionário para que seja uma ferramenta da classe trabalhadora para tomar o poder e transformar a sociedade. Não podemos nos enganar e pensar que esse partido revolucionário será uma cópia em miniatura da nova sociedade, mas será o catalisador para criá-la.Apoiados num partido revolucionário, com teoria, programa, perspectivas, organizado, com democracia interna e responsabilidades poderemos quebrar com essa busca pela liberdade e felicidade que sempre retorna ao mesmo lugar, dentro do capitalismo. Não há saídas dentro da própria lógica do capital. 

A luta contra o sistema opressor é colocada em prática denunciando ao capitalismo a partir de reivindicações organizadas. Seja a partir de reivindicações por conquistas mínimas, do dia a dia, seja por conquistas máximas, como o socialismo e a sociedade sem classes. Para conquistar essa sociedade temos o Programa de Transição de Trotsky, o qual nos apoiamos e que nos guia na substituição do capitalismo pelo um socialismo.

Ao final do informe o convite para conhecer a plataforma política do Mulheres pelo Socialismo foi estendida até à Esquerda Marxista, enfatizando que só como unidade podemos usar as efetivas estratégias contra as ideias estranhas à classe trabalhadora e derrubar esse sistema opressor.

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