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Zé Dirceu: De perseguido político a defensor da repressão

Luiz Bicalho
O que define uma ditadura é o fato de que os direitos democráticos mais elementares são desrespeitados. Quando estamos em uma democracia, e se começa a desrespeitar estes direitos, revela-se certa tendência inversa à democracia.
Zé Dirceu, que quando era estudante, foi um dos organizadores da luta contra a ditadura, foi perseguido e teve que se exilar, inclusive trocar de identidade, fazer operação plástica, assumindo outra fisionomia. Agora ele resolve defender a repressão brutal à greve dos policiais e escreveu em seu blog (http://www.zedirceu.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=14511&Itemid=2):


Com a mudança de comportamento das autoridades – desde a forma como encarar o problema à possibilidade de começar a cumprir as punições estabelecidas pela Justiça (na Bahia) e disciplinares (no Rio) – as greves nas polícias no Brasil entram numa nova fase. Na Bahia o movimento esmaece e no Rio ficou na tentativa, obteve inexpressiva adesão.


Paralisações de policiais são consideradas motim e a tendência do Judiciário é negar o direito de greve às polícias civis e militares, já que são corpos armados dos Estados, uma policia judiciária das unidades federadas como a Policia Federal (PF) é da União. Pela Constituição, polícias são um efetivo preventivo e de presença ostensiva organizada como reserva das Forças Armadas.

No caso da tentativa de greve no Rio, a mudança de comportamento das autoridades já pode ser nitidamente observada e a decisão já esta sendo colocada em prática. PMs em greve são simplesmente detidos e respondem a inquérito policial militar (IPMs), enquadrados por cometerem crime militar.”

Bombeiro em greve chora por seus companheiros presos

Sim, é verdade. Existe algo de podre no meio da polícia, isso sempre existiu. A PM foi moldada durante a ditadura como a polícia “de choque”, armada até os dentes e educada no “atire primeiro, pergunte depois”. É a polícia que serve para destruir bairros populares como Pinheirinho, bater em trabalhadores em greve ou simplesmente entrar em bairros populares atirando no que vê e no que não vê. Também lá foram construídos os Esquadrões da Morte, sinistros, como meio de aplicar a pena de morte sem lei nem julgamento.
Depois, com a derrubada da ditadura, esta polícia, o seu treinamento, foram muito poucos modificados. E sobraram para todos os lados as notícias que aparecem nos jornais: os justiceiros, as “milícias”, os “mascarados” que matam impunemente trabalhadores e jovens, “confundidos” muitas vezes com gente a serviço dos traficantes de drogas.
Na Bahia, durante a greve, a Folha de São Paulo fez um levantamento: mais da metade das mortes violentas foram com tiros na cabeça, denotando execução. Muitos depoimentos relatam que as mortes foram antecedidas por um “cortejo” sinistro formado por carros com vidros fumês e lotados de mascarados lembrando os Esquadrões da Morte. A Hidra levanta a cabeça quando sente que o controle diminuiu.
Mas, se existe a necessidade imediata da dissolução de todas as PM, do fim da militarização da polícia, do seu controle pelos sindicatos e organizações populares, rumo a uma polícia que possa nascer da organização da classe trabalhadora, para defendê-la e não para atacá-la como é hoje, o que propõe Zé Dirceu é justamente o contrário: ele quer retornar a polícia do tempo da ditadura!
Assim, Zé Dirceu fica feliz por que na greve do Rio PMs são simplesmente detidos e responsabilizados por cometerem crime militar. Felicita o judiciário por entender que Polícia não pode fazer greve e parabeniza os governos do Rio e Bahia por aumentarem a repressão contra os PMs. Alias, o que o blog esconde é que na greve do Rio quem mais aderiu foram os bombeiros, que a greve começou com um cabo bombeiro preso, que mais de 100 bombeiros foram presos administrativamente, que mais de 11 dirigentes da greve foram jogados na cadeia do “Bangu 1” junto com os traficantes. Sim, o Zé Dirceu de hoje esqueceu que a repressão se dirige contra os trabalhadores e a história de que polícia não pode fazer greve porque é armada, serve para prender bombeiro que está armado com…mangueiras de água e equipamentos de salva vidas.

Mais ainda, José Dirceu critica a “politização” dos sindicatos! Diz ele:Pelo contrário, as questões centrais continuam na agenda: a politização das entidades; líderes dos policiais candidatos a cargos legislativos nas eleições municipais deste ano e se preparando para as próximas; e a exploração dessa situação tanto por estes postulantes ao pleito, quanto por oportunistas que usam a greve para fazer política”. Com isso rompe com toda fundação do PT que nasce justamente da politização da classe trabalhadora, da politização dos sindicatos que compreendem que além de lutar por salários é necessária a luta política para mudar o país. Zé Dirceu, talvez até sem pensar, critica aquilo que deu origem ao partido que um dia ele presidiu. Afinal, para os que continuam a lutar pelo socialismo, politizar é importante, inclusive para as forças armadas. Para os que defendem práticas ditatoriais, é melhor que todos sejam despolitizados e ignorantes políticos.

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2 Comentários

  1. O Zé Dirceu não fez somente uma plástica facial, fez também uma plástica político-ideológica. Não se sabe mais se é carne ou peixe; talvez, nem ele mesmo.

  2. Nem carne nem peixe. Um dos mais competentes dirigentes que o estalinismo deixou como legado no Brasil. Um dos principais, senão o principal criador da teoria do acumulo de forças que desembocou na mais aberta politica de aliança e colaboração de classes,politica esta que combatemos desde seu nascedouro.