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Wall Street: urubu tá voando baixo

Pânico alcança nível histórico no crédito. Vivemos ‘desafio sem precedentes’, diz Bush.

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A partir desta semana enriquecemos o site da Esquerda Marxista passando a publicar regularmente o Boletim “Crítica Semanal da Economia”, do economista José Martins*. Este Boletim de economia política dos trabalhadores é publicado há 20 anos regularmente. É um importante instrumento de análise e de desvendamento dos mecanismos, problemas e crises da economia capitalista e suas conseqüências para a classe trabalhadora. O objetivo explícito deste excelente trabalho de José Martins é a ajuda científica e consciente à classe operária em sua luta contra o capital e pelo fim do regime da propriedade privada dos grandes meios de produção, pelo socialismo. A Esquerda Marxista e seus leitores só têm a ganhar com o início desta colaboração pela qual nos sentimos honrados e agradecidos.
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Todo mundo parece estar de acordo com uma coisa: depois dos acontecimentos ocorridos nos últimos dias em Wall Street, o sistema financeiro mundial nunca mais será o mesmo. Este 15 de Setembro de 2008 pode ser lembrado como o “11 de Setembro” do sistema financeiro. Sem exagero. Afinal, naquele dia pôde-se catalogar no boletim necrológico do capital que três dos principais bancos de investimentos dos EUA – Bear Stearns, Lehman Brothers e Merryll Lynch – tinham desaparecido do mapa. Pelo menos como entidades independentes.

O grupo de seguros American International Group (AIG), outro gigante mundial, também está pela bola sete; o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) ainda tentou um resgate, no meio da semana, mais de US$ 80 bilhões na jogada, mas fracassou.

Os próximos na fila do corredor da morte, pasmem, são o Goldman Sachs e o Morgan Stanley, os dois maiores bancos de investimento do mundo. No meio da semana, o valor do capital das duas empresas, medido pelas ações negociadas na Bolsa, estava se pulverizando velozmente. A mesma trajetória percorrida pelos seus sólidos e falecidos parceiros listados acima. E devem – como aconteceu com a anexação do Bear Stearns pelo JPMorgan e a Merryll Lynch, nesta semana, pelo Bank of America, procurar urgentemente se “enterrar em um balanço seguro” de algum desses mastodontes bancos comerciais. Caso contrário, serão fatiados e devorados por centenas de grandes e até pequenos urubus em todo o mundo, como está ocorrendo explicitamente com o falecido Lehman Brothers. Chegou a ser noticiado, na semana, que os brasileiros Itaú e o Unibanco estavam interessados em ficar com os restos mortais do AIG e do Merryll no Brasil. Alguém ainda duvida que o sistema financeiro mundial não é mais o mesmo?

Segundo o FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation – Agência Federal de Seguro de Depósitos), órgão do governo norte-americano responsável por garantir as operações do setor bancário, 28 bancos pediram falência nos EUA neste ano, sem contar o pedido desta semana do Lehman Brothers. A percepção dos homens do mercado é que mais uma centena pode ir à lona nos próximos meses. Isso não é coisa pequena, e muito menos acontece a toda hora. Aliás, nunca aconteceu.

LUCRO OU SEGURANÇA?

Vislumbra-se no horizonte de curto-prazo um novo 1929, devidamente ampliado para as atuais dimensões cem vezes maior do capital mundial. Pode ser que não, pode ser que tudo isso talvez ainda possa ser prorrogado (apenas prorrogado) por certo tempo. Mas esse cenário de fé nas habilidades regulatórias do Tesouro de Paulson e do Fed de Bernanke é o menos provável neste momento.

O fato é que o moderno, inovador e sólido sistema financeiro dos EUA está derretendo diante dos assustados olhos do mundo capitalista: “O pânico nos mercados de crédito atingiu intensidade histórica, ontem, provocando uma fuga rumo à segurança de intensidade nunca vista desde a Segunda Guerra (1939-45). Os barômetros de problemas financeiros atingiram picos históricos em todo o mundo. O rendimento dos títulos de curto-prazo do Tesouro americano atingiu sua marca mais baixa desde os ataques aéreos alemães contra Londres. Os empréstimos interbancários estão literalmente paralisados, e os investidores estão correndo para retirar seus fundos de qualquer instituição ou setor cujo futuro tenha sido colocado em dúvida… A busca por lucro foi abandonada enquanto os operadores corriam para a segurança dos títulos de curto-prazo do Tesouro, e o rendimento da nota de três meses caiu a apenas 0,03% – semelhante aos níveis que caracterizaram a “década perdida” do Japão. A última ocasião em que o rendimento esteve tão baixo foi em janeiro de 1941. As ações dos dois últimos bancos de investimento de grande porte que mantiveram sua independência nos Estados Unidos, o Morgan Stanley e o Goldman Sachs, despencaram devido à elevação do custo de garantia de suas dívidas, o que coloca em risco a capacidade de ambos se financiarem com recursos do mercado” (Financial Times / Folha de SP, 18/9/2008).

Essa descrição do fenômeno é altamente criteriosa. Salienta os sinais mais importantes de uma crise financeira. De uma gigantesca crise financeira, como esta que se vive no momento atual. Nestes momentos de pânico, deve-se acompanhar em primeiro lugar o rendimento dos títulos do Tesouro. E o preço do ouro. São mais importantes para a análise do que os populares índices das bolsas de valores.

O ouro é essa “relíquia bárbara” que ressurge nos períodos de crise com força, como a última e a mais concreta forma-valor do equivalente universal das trocas entre as mercadorias. Antes desta especialíssima semana, o preço do ouro girava em torno de US$ 700 a onça troy. No final da Quinta-Feira, 18, alcançava US$ 901,30. Isso reflete um processo mais geral de crise, em que se rompe a unidade da valorização: o abstrato valor de troca distancia-se abruptamente do concreto valor de uso. A unidade contraditória do duplo caráter do trabalho contido na mercadoria só poderá ser restaurada de forma altamente violenta.

ALGUÉM PAGA PRA VER?

Os capitalistas preferiam um rendimento praticamente nulo (0,03%) do título do Tesouro de curto-prazo (três meses) a uma taxa de juro interbancário que alcançava no dia 15 o “patamar de pânico” de 5,25%. Na semana anterior, essa taxa ainda girava em torno de um “patamar civilizado” de 2,25%, pouco acima da meta de 2% do Fed. Desde o dia 15, a cena diária mais comum em Wall Street é o caminhão do Bernanke estacionado descarregando uma média de US$ 50 bilhões para tentar trazer a taxa de juros para as proximidades da meta de 2%.

Mas, diz acertadamente Luiz Sergio Guimarães na Sexta-Feira, 19, em sua coluna diária: “Uma crise de confiança não se resolve com dinheiro. Será preciso uma faxina completa em todas as carteiras. Não basta, como fez o Federal Reserve (Fed) na manhã de ontem, estacionar um caminhão em Wall Street carregado com US$ 250 bilhões. Se a crise é de confiança, o destino do veículo é ocupar poucas e espaçosas garagens, sem transitar pelas vielas mais carentes” (Valor Econômico, 19/9/2008).

Embora o pensamento vulgar pense o contrário, essa “faxina completa em todas as carteiras” de que fala Guimarães não é um expediente meramente técnico, uma “teoria dos jogos”, coisa fácil de fazer. Os japoneses que o digam. Acontece que essa “faxina” quer dizer, na prática, deixar as empresas à sua própria sorte, livres para uma bestial (e universal) quebradeira.

Lembremos também ao pensamento vulgar que estamos tratando da Economia Política. Então, os capitalistas deveriam estar politicamente decididos a liberar as forças mais primitivas, caóticas, internas ao processo de acumulação, abrindo-se então um período altamente destrutivo e violento em todos os sentidos – econômico, político, geopolítico e finalmente, social. Todo mundo bem informado sabe como começa essa restauração daquela unidade perdida entre “quantidade e preços” – enigma indecifrável para os economistas vulgares – mas ninguém (realmente ninguém) sabe como termina.

Os capitalistas estão decididos a pagar para ver? Longe disso. Nunca pagaram, em nenhum momento da história desse regime. Sabem há muito tempo que no longo-prazo todos eles estarão mortos. Assim, enquanto a realidade permitir, é mais prudente jogar os “junk bonds” [porcaria, títulos sem valor] para debaixo do tapete agora, e deixar a necessária “faxina completa” para o próximo ciclo. É o que estão fazendo há muito tempo.

É por causa desse pragmatismo frente às crises periódicas que o apelido de Greenspan (Presidente do Fed de 1987 a 2004) é de “assoprador de bolhas”. O fato é que ninguém faria diferente. Só nos manuais de asneiras econômicas é possível se imaginar saudáveis situações de “destruição criativa” e outras frescuras acadêmicas.

CAMINHÕES DE DINHEIRO

Os capitalistas (e a sabedoria popular) continuam achando que qualquer crise financeira pode ser resolvida com dinheiro, com frotas de caminhões (ou de helicópteros) do Tesouro e do Fed carregadas de dinheiro.

Eles não têm muito tempo para pensar se a realidade não é mais a mesma dos ciclos anteriores, em que eles ainda podiam assoprar impunemente bolhas cada vez maiores. Como bravos capitalistas, tratam de agir antes e pensar depois. Como? Assoprando agora bolhas muitíssimas vezes maiores que as de Greenspan: entre Quinta e Sexta-Feira o governo dos EUA anunciou um acordo entre o Executivo e o Congresso de um astronômico plano de resgate dos ativos subprime podres do sistema imobiliário:

“O secretário do Tesouro anunciou a criação de um fundo de ‘centenas de bilhões de dólares’ para estancar a crise dos mercados financeiros mundiais. O fundo será responsável por adquirir os créditos podres do mercado imobiliário – os empréstimos de alto risco que não vêm sendo pagos pelos mutuários. Segundo Paulson, há cerca de 5 milhões de americanos com problemas para pagar o financiamento ou que já tiveram os imóveis retomados pelos bancos” (Globo.com, 19/9/2008).

E se alguém disser aos responsáveis por esse pacote que a causa da atual crise financeira mundial não é a existência dos “créditos podres do mercado imobiliário” que o governo dos Estados Unidos pretende adquirir com “centenas de bilhões de dólares” que devem ser pagos com o estouro definitivo do orçamento público? Diagnóstico errado, remédio errado e, como resultado, agravamento ainda maior da doença.

Supõe-se, também, que, com esse pacote, entre mortos e feridos salvam-se todos. Volta tudo e todos a circular como antes da crise. Tenta-se, na verdade, a mesma coisa que se fazia Greenspan nos ciclos anteriores: evitar a “faxina completa” e a conseqüente quebradeira global. Tenta-se evitar, sem qualquer prejuízo para a classe capitalista, que ocorra agora, na maior economia do planeta, a catástrofe econômica que aconteceu, por exemplo, na Argentina no último período de crise, entre 2000 e 2002.

As bolsas de todo mundo reagiram ao anúncio do pacote de Washington com uma estrondosa disparada. As asiáticas (incluindo as falidas de Xangai e Shenzen) subiram em média 10% na madrugada de Sexta-Feira. As demais bolsas do mundo ocidental seguiram a mesmo ritmo insano no decorrer do dia.

Esse histerismo dos capitalistas tem fôlego curto, pois se assenta no desconhecimento das causas e dos remédios para o problema real. Logo voltarão ao estado depressivo, quer dizer, ao leito natural do final de um ciclo periódico muito especial, que, objetivamente falando, pode levar o sistema global a uma catástrofe cem vezes mais potente que a de 1929.

O que está em jogo, aqui, é mais do que uma questão teórica; é um problema crucial que só o próprio desdobramento da realidade da superprodução de capital poderá equacionar. Não será necessário esperar muito tempo para conferir essa disputa fatal para o futuro da humanidade. Nas próximas semanas já teremos os primeiros sinais das verdadeiras tensões internas de arrebentamento do sistema.

* José Martins é economista, doutor em economia pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne), professor universitário na área de Economia Política Internacional, redator do boletim Crítica Semanal da Economia, autor de vários livros, dentre os quais “A Riqueza do Capital e a Miséria das Nações” (1994); “Limites do Irracional: globalização e crise econômica mundial” (1999); “Império do Terror – Estados Unidos, ciclos econômicos e guerras no início do século XXI” (2006).

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