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Venezuela, de 18 de abril: Preparando novos passos e discutindo o papel do controle operário

 

O camarada Alexandre Mandl (membro do Conselho de Fábrica da Flaskô e da direção da Esquerda Marxista) segue na Venezuela, agora realizando alguns debates sobre a importância do controle operário e resgatando a história da luta das fábricas ocupadas no Brasil. Abaixo o relato do dia de ontem.

O camarada Alexandre Mandl (membro do Conselho de Fábrica da Flaskô e da direção da Esquerda Marxista) segue na Venezuela, agora realizando alguns debates sobre a importância do controle operário e resgatando a história da luta das fábricas ocupadas no Brasil. Abaixo o relato do dia de ontem.

Alguns aspectos interessantes que aconteceram hoje:

Primeiro:

Ao mesmo tempo em que Capriles protocolou somente hoje, formalmente, o pedido de recontagem dos votos, a população do Estado de Miranda – do qual ele é o governador, mas que está afastado há dois anos para fazer campanha; apresentou um pedido formal ao CNE para que ele se manifeste publicamente se vai voltar a ser governador ou não; se decidirá abandonar seu cargo, uma vez que, até agora, ele não voltou para exercer seu mandato. Isso é uma forma divertida e provocativa, mas com reais fundamentos democráticos, de que ele, se é governador, deve governar, porque, senão, será caracterizado abandono de sua função.

Com o protocolo em mãos, o CNE pode ver exatamente o que Capriles diz, e apenas se reforça a baboseira que está argumentando. A suposta fraude é banal. Veja esse breve texto que explica o erro infantil e a clara má-fé em induzir ao erro o CNE, a população em geral, buscando criar uma matriz de opinião agressiva contra as eleições:

http://www.aporrea.org/actualidad/n227163.html

Segundo:

Hoje faleceu mais uma militante do PSUV que foi atacada pelos golpistas fascistas. Maduro esteve nos enterros dos demais companheiros e disse que essas mortes foram resultados de um plano de golpe que o setor de inteligência conseguiu derrubar, e que eles, apesar de civis, morreram como guerreiros do Exército bolivariano revolucionário.

A violência chamada por Capriles ainda deverá ter outras consequências. Houve um ato hoje de jornalistas  –http://www.aporrea.org/oposicion/n227217.html e de advogados, denunciando a responsabilidade criminal de Capriles pelas mortes, tendo em vista que chamou o povo às ruas para provocar “La muerte del chavismo” e “que descarguen su arrechera en las calles”. Vejam – http://www.aporrea.org/oposicion/n227208.html

Além da responsabilidade criminal, indica-se que há uma preparação para pedir o impeachment de Capriles como governador, por desrespeito básico aos seus deveres constitucionais outorgados pelo mandato –http://www.aporrea.org/actualidad/n227145.html

 

Terceiro:

Hoje houve alguns pontos de concentração de chavistas, principalmente para já sinalizar a grande manifestação que ocorrerá amanhã (hoje) em frente à Assembleia Nacional, quando será dada a posse ao presidente eleito, Nicolás Maduro.

Houve um pedido da oposição para que a Assembleia Nacional não fizesse essa diplomação, assim como ao TSJ (Tribunal Superior de Justiça – equivalente ao STF). Ambos disseram que tal pleito não possui qualquer razão de ser e, mais uma vez, que deve ser respeitado o CNE e o direito democrático das urnas.

Agora à noite, o centro de Caracas, de forma espontânea, estava tomado por chavistas, com músicas e festas, com queima de fogos e tudo, celebrando a festa de amanhã – que, por sinal, é feriado.

Não há, necessariamente, um clima de tensão que tinha, mas ainda há pontualmente agressões e violência, continuam algumas ações fascistas, com ataques em rádios comunitárias, ataques a um jornalista da VTV, agressões verbais nas ruas, ou seja, ainda há tensões e os chavistas estão dizendo que ainda “não podem baixar a guarda”.

 Quarto:

Somente os EUA continua reafirmando que não reconhece os resultados. Interessante, portanto, que durante o dia, houve uma série de reportagens para dizer como se dá a eleição nos EUA, e como Bush e Obama foram eleitos. Chega a ser ridículo como é descarado o ataque imperialista que financia isso.

Nas ruas se ouve cada vez mais um ódio “al imperialismo y a lós yanquis de mierda”. Acho que essa questão deverá se acentuar no próximo período, porque Maduro disse ontem, quando falava de Obama, o quanto Chávez o respeitava, apesar de discordar em muitos aspectos. E o Maduro ressaltou foi que essa ação sustentada financeiramente e politicamente pelos EUA é um desrespeito à memória de Chávez e que é uma traição a um homem de caráter, etc. Isso agitou bem os chavistas… 

Quinto:

Interessante que a Espanha não tinha acatado os resultados eleitorais até ontem, quando saiu uma nota oficial. Engraçado, porque há dois dias Maduro dizendo das necessidades de avançar nas expropriações e ter mais controle de setores estratégicos, citou nominalmente a Repsol, dizendo para que “ficassem espertos”, afirmando que “nosostros sabemos lo que debemos hacer”.

Com isso, ontem saiu a nota oficial da Espanha e hoje eles lançam mais uma nota, dizendo que, respeitosamente, conclamam Maduro como presidente – http://www.aporrea.org/venezuelaexterior/n227209.html . Chega a ser patético…

Sexto:

Hoje fiz duas apresentações sobre a história do Movimento das Fábricas Ocupadas do Brasil, narrando a resistência da Flaskô, mas, muito mais do que isso, apresentando a necessidade da estatização sob controle operário (nacionalizacion bajo control obrero), trazendo a base teórica e as experiências reais da classe trabalhadora em toda sua história. O convite foi feito na terça-feira, pelo atual vice-ministro, Guy Vernaez. Pela manhã foi na sede do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, e, à tarde, especificamente, para um grupo do CODECYT (Coordenação de Projetos de Desenvolvimento em Ciência e Tecnologia), que estão responsáveis pelos trabalhos junto às fábricas ocupadas na Venezuela. Na primeira havia cerca de 40 trabalhadores, a na segunda cerca de 30.

Ou seja, tratava-se de uma grande atividade, de muita importância, não somente para narrar nossa história no Brasil, mostrando, inclusive, o caráter do governo Lula que realizou a intervenção na Cipla e Interfibra, mas, essencialmente, para ajudar os camaradas da Frente Bicentenaria de Fabricas Recuperadas da Venezuela (www.controlobrero.org) e os camaradas da seção venezuelana da Corrente Marxista Internacional (www.luchadeclasses.org.ve) , que também estiveram presentes nas atividades.

Os trabalhadores gostaram muito, perguntando várias questões, sendo que a atividade estava programa para ser feita em 1 hora cada, e durou mais de 3 horas cada. Havia trabalhadores que representavam a verdadeira burocracia do Estado, e foram interessantes suas reações. Alguns, honestamente e entusiasmados, entenderam o que devem fazer. Outros, também honestamente, é verdade, em suas expressões ou perguntas, deixavam claro que estavam cumprindo muito mais um papel de contenção social do que ajudar, efetivamente, as fábricas que são ocupadas e lutam pela nacionalização.

Os trabalhadores ficaram maravilhados em conhecer nossa história de unidade latino-americana na defesa das fábricas ocupadas, bem como a relação política e econômica da Cipla com a Petrocasa, discutindo, inclusive, possibilidade de retomar alguns acordos via Flaskô, com alguns importantes encaminhamentos e bons contatos.

Por fim, todos se manifestaram a favor dos pleitos da Flaskô, se comprometendo em apoiar a Conferência de 10 anos da Flaskô em junho de 2013, mas, principalmente, pela declaração de interesse social da Fábrica Ocupada Flaskô e à qualquer fábrica que for ocupada pelos trabalhadores, assim como contra qualquer criminalização do movimento das fábricas ocupadas.

Sétimo:

Por último, depois que saímos dessas atividades, fomos para a fábrica Azertia, que está ocupada há 5 meses, mas ainda não voltou à produzir. Eles estão preocupados, assim como sempre nós estivemos, em voltar a produzir sob controle operário. Fizemos uma boa conversa, mas estavam apenas alguns trabalhadores. Marcamos que sábado voltarei para participar de uma assembleia geral especificamente convocada para tanto.

A fábrica é extremamente estratégica porque é uma gráfica que imprime papel moeda, tickets alimentação, cheques dos bancos oficiais, etc. Então, o debate para que seja nacionalizada e colocada sob controle operário será fundamental para avançar a reivindicação da expropriação dos bancos. Vamos ver como essa luta avançará. A Frente Bicentenária está acompanhando de perto essa realidade há mais de 8 meses, quando começaram as greves e o caminho para seu fechamento.

Oitavo e último ponto de hoje:

Maduro disse hoje novamente que se a direita radicalizar, ele também vai radicalizar. Nós discutimos muito isso, ressaltando que a radicalização não é uma condição, ou uma ação diante de condições da direita. Deverá radicalizar porque essa é a única forma de garantir que o processo da revolução venezuelano avance, expropriando os capitalistas. Como um trabalhador da Azertia disse, ou Maduro avança, pressionado pelos movimentos nas ruas, ou perderá as próximas eleições. E para isso, terá que romper com os burocratas e os reformistas. Ou seja, se Maduro não fizer isso será derrotado por um dos lados… ou será derrotado pelas eleições formais, onde Capriles teve praticamente 50% dos votos, ou será atropelado pelas bases chavistas, que estão exigindo que a revolução avance ao socialismo.

Isso, como estamos dizendo desde seu discurso de posse, considerando a votação apertada, somente acelerou o que reivindicamos há anos ao próprio Chávez e à classe trabalhadora Venezuela – precisamos completar a revolução.

E foi com esse recado que a entrevista de Alan Woods à Telesur se concentra e foi tema de debates com alguns companheiros por aqui. Quem ainda não viu, recomendo:

http://www.youtube.com/watch?v=9_mRcrfVMXM

E ainda, o texto de balanço feito pela Corrente Marxista Internacional, o qual assino embaixo:

http://www.marxismo.org.br/?q=content/eleicoes-presidenciais-venezuelanas-uma-estreita-vitoria-da-revolucao-o-que-vem-depois

Foi com esse chamado que discutimos basicamente o dia de hoje – o papel do controle operário para a luta do socialismo, com a planificação econômica a partir da nacionalização sob controle operário.

 

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