Início / Especial Venezuela | Ver Mais / Venezuela: “consulta” da oposição em 16 de julho contra-atacada por uma demonstração de força chavista
Chavistas se manifestam em Petare. Foto: PIC AVN

Venezuela: “consulta” da oposição em 16 de julho contra-atacada por uma demonstração de força chavista

A oposição reacionária da Venezuela colocou todo o seu peso por trás de uma “consulta” que, supostamente, iria mostrar que a esmagadora maioria dos venezuelanos não apenas rejeita a Assembleia Constituinte proposta por Maduro, como também quer que o exército intervenha e que se forme um “governo de unidade nacional”. Sua mobilização no dia foi considerável, mas ficou longe de suas próprias expectativas. A verdadeira notícia foi a participação maciça, no mesmo dia, no ensaio oficial das eleições da Assembleia Constituinte, que foi uma demonstração de força para o chavismo.

Comecemos com a “consulta” da oposição que havia sido previamente descrita como um referendo e um plebiscito e que, apesar de ser convocada pela Assembleia Nacional dominada pela oposição, não tinha nenhum status legal nem garantias reais. Os meios de comunicação internacional ressaltaram muito o fato de que essa consulta foi organizada “contra os desejos do regime”, mas, na realidade, o governo não fez nenhuma tentativa para impedir a realização da consulta, que, ademais, contou com o apoio logístico das Prefeituras e Governadorias da oposição, bem como da Assembleia Nacional e com o respaldo da classe capitalista.

Cinco ex-presidentes de direita de diferentes países latino-americanos (todos eles envolvidos em escândalos de corrupção e na utilização de repressão brutal contra os trabalhadores e camponeses em seus próprios países) foram à Venezuela para “observar” a consulta e fizeram discursos incendiários no fim do dia, exigindo que Maduro “prestasse atenção à vontade expressa do povo e fosse embora”. Não foram impedidos de viajar à Venezuela, apesar de seu caráter provocativo.

A oposição foi capaz de mobilizar um grande número de pessoas. Isso não se contesta. Mesmo em algumas zonas chavistas da capital havia filas em suas mesas eleitorais, como em El Valle, Antímano e Catia, por exemplo. No entanto, é necessário precisar as circunstâncias. Em Catia (Paróquia Sucre do município Libertador), em 2013, o registro eleitoral continha mais de 290 mil pessoas, das quais 39% (91 mil) votaram a favor da oposição. Ontem, a oposição tinha uma mesa de votação para sua consulta nesta zona. Naturalmente, se tentarmos fazer com que mais de 90 mil pessoas votem em um só ponto de votação, em 9 horas, haverá longas filas!

Como já explicamos, a consulta da oposição não tinha garantias, como o reconheceram os próprios dirigentes da oposição, que admitiram que as pessoas podiam votar mais de uma vez, mas que apelavam para sua “consciência moral” para que não o fizessem. Já circula um vídeo que mostra uma pessoa que votou três vezes em uma hora no bastião reacionário de Chacao.

Ademais, como foi anunciado, no final do dia queimaram as cédulas e os registros de votação, supostamente para “proteger as pessoas da repressão”, mas, na realidade, garantindo que, independentemente do resultado anunciado, ninguém jamais o possa verificar ou auditar. Para uma oposição que esteve acusando a revolução bolivariana de fraude eleitoral durante os últimos 15 anos, não está nada mal!

O que foi notável, no entanto, foi a mobilização da base chavista para o ensaio das eleições da Assembleia Constituinte. De fato, tanto o governo quanto as massas chavistas consideraram que não se tratava de um ensaio para se ver como funcionaria o processo, mas, mais do que isso, o consideraram como uma demonstração de força, como uma oportunidade para mostrar à oposição reacionária, que andou envolvida em distúrbios violentos e ações terroristas durante mais de 100 dias, que rejeitam fundamentalmente sua tentativa de derrubar o governo.

As filas do lado de fora dos colégios eleitorais oficiais do Conselho Nacional Eleitoral para o ensaio eram enormes em todo o país, inclusive nas grandes cidades onde a oposição é forte, em algumas delas controla a Prefeitura e as governadorias regionais e onde esteve constantemente nas ruas durante mais de três meses, como Barquisimeto, Valencia, Mérida etc. Em muitos casos, como em Catia la Mar (Vargas), em Maracaibo (Zulia), em alguns bairros de Caracas, como El Valle ou Lídice, as filas eram tão compridas que as mesas permaneceram abertas até as 8 horas da noite, em vez de fecharem às 4 horas da tarde, como estava previsto. Particularmente significativa foi a participação em Petare, uma paróquia que votou pela oposição nas recentes eleições (ver vídeo abaixo). Recebemos informações de Mérida sobre muitas pessoas fazendo fila durante horas e finalmente indo para casa sem participar do ensaio.

É importante destacar este ponto por duas razões. Em primeiro lugar, porque os meios de comunicação internacionais ignoraram completamente o processo oficial de ensaio ou preferiram mentir deliberadamente para dizer que a participação havia sido muito baixa. Por exemplo, El País escreve: “este jornal pôde comprovar através de um passeio por Caracas a escassa afluência a alguns colégios eleitorais que acolheram o ensaio convocado no mesmo dia pelo chavismo para a votação da Assembleia Constituinte. Havia locais que se mostravam vazios, apesar dos esforços dos meios audiovisuais do Estado em mostrar uma avalanche de participantes que não era bem isso”. Não sabemos de onde tirou sua informação Alfredo Meza, o correspondente do jornal, mas este não é um informe veraz do que realmente aconteceu. Sabemos disso porque na galeria de fotos publicada pelo próprio El País há quatro fotos de longas filas chavistas para o ensaio, embora no pé da foto se afirme que eram chavistas “esperando na rua para participar na consulta proposta pelos opositores”!!!

Para se fazer uma ideia com relação ao estado de ânimo ver, por exemplo, este vídeo abaixo, filmado em La Vega, Caracas, pelo condutor de Zurda Konducta, Oswaldo Rivero. Duvido muito que Alfredo Meza tenha ido alguma vez a La Vega, mas, infelizmente para a oposição, Caracas é mais que Altamira.

A segunda razão da importância desta mobilização chavista é porque revela que há uma reação saudável por parte de muitos na base chavista, entre os trabalhadores e os pobres que, apesar de todas as dificuldades econômicas, sabem que, se a direita chegar ao poder, vão pagar muito caro. É um instinto de classe muito saudável e que é alimentado pela raiva com a situação que tiveram que viver nos últimos três meses de violência constante da oposição e de bloqueios de vias realizados por um pequeno número de pessoas que os mantém reféns contra a sua vontade, e pela atmosfera de linchamento contra os chavistas que a oposição criou.

Evidentemente, a oposição não esperava tal reação e isto os deixou inseguros. Demoraram horas para anunciar os resultados. Numa clara demonstração de divisões entre suas diferentes facções, antes que os resultados fossem anunciados, diferentes figuras da oposição já os analisavam em um ou outro sentido.

Então, qual foi o “resultado” da consulta da oposição? Declararam oficialmente que haviam participado 7.186.170 pessoas. Suponhamos por um momento que a cifra é verdadeira. Isso seria menos dos 14 milhões que eles mesmos anunciaram, poucos dias antes, que iriam participar, e também abaixo da cifra mais conservadora anunciada por Capriles como prova decisiva do êxito da jornada. A oposição também anunciou que “com este resultado Maduro teria perdido um referendo revogatório”, referindo-se à Constituição que estabelece que um referendo revogatório será vinculante para o Presidente em exercício se mais pessoas tendessem a votar por sua revogação do que as que o elegeram. Infelizmente para a oposição, Maduro foi eleito com 7.587.579 votos em 2013 e, portanto, não seria revogado com estas cifras. Não só isso, também a cifra que inventaram é de fato menos que a obtida pelo candidato da oposição nessa eleição presidencial, que somou 7.363.980 votos.

Mas examinemos a plausibilidade do “resultado” anunciado. Segundo a oposição, havia 2.000 centros de votação, com um total de 14.000 cabines de votação, que permaneceram abertas durante 9 horas, de 7 da manhã às 4 da tarde. Alguns pontos ficaram abertos até mais tarde, mas muitos já estavam vazios muito antes. Vamos calcular: 7.186.170 votos/14.000 cabines/9 horas = 57 votos por hora e por cabine = 1 voto a cada minuto e 5 segundos em cada uma das cabines de votação durante 9 horas sem parar! Nesse minuto e 5 segundos, cada eleitor tinha que ir à mesa, mostrar sua identificação, fazer com que seus dados fossem anotados no registro eleitoral, receber sua cédula de votação, preenchê-la, dobrá-la e colocá-la na urna. Este seria um feito extraordinário para a oposição, um feito que quebra todos os recordes eleitorais e também algumas leis da física!

Só para dar um exemplo: na Espanha há 63.000 venezuelanos, segundo o censo de janeiro de 2017. Destes, uns 9.000 estão abaixo da idade de votar, restando 54.000. A oposição, no entanto, afirma que 91.981 venezuelanos participaram na consulta na Espanha. Contudo, pode haver algumas discrepâncias entre o censo e as cifras reais de venezuelanos na Espanha, mas quase mais de 38.000 dos que estão no censo? Podemos manter sérias e justificadas dúvidas sobre estes dados.

Na realidade, podemos dizer que o “referendo” da oposição foi um tiro que lhe saiu pela culatra. No momento em que este artigo estava sendo escrito, os líderes da oposição ainda não haviam se apresentado para dizer quais seriam os próximos passos que pretendem tomar. Sua retórica antes do 16 de julho era violenta. A consulta devia ser a “hora zero” para um levantamento nacional e para a derrubada do governo antes das eleições da Assembleia Constituinte de 30 de julho. Ainda podem tentar, mas agora parece menos provável que o consigam. Naturalmente, isso não quer dizer que vão deixar de tentar. Tanto a Espanha quanto os EUA já estão falando de sanções contra a Venezuela (talvez dirigidas a funcionários escolhidos) “se a Assembleia Constituinte for adiante”.

No entanto, os principais problemas subjacentes continuam aí: uma profunda crise econômica, o esgotamento das reservas de divisas (agora, pela primeira vez, abaixo dos 10 bilhões de dólares), uma inflação muito alta, uma rápida desvalorização da moeda, todos fatores que se combinam para provocar o desgaste da base social da revolução bolivariana.

Em posição débil, o governo continua com sua política de conciliação de classes que, por sua vez, combinada à corrupção generalizada de altos funcionários e ao burocratismo na forma como dirige o movimento, está desgastando e desmoralizando a base chavista. Frente a todas estas dificuldades, a direção bolivariana, em vez de se basear na atividade revolucionária das massas, para golpear a reação, confia nas forças do Estado e faz apelos à paz e ao diálogo. O nível de mobilização revolucionária independente da esquerda chavista foi muito débil e se concentrou principalmente nas zonas rurais.

O resultado da “consulta” de 16 de julho, no plano imediato, provavelmente terá o efeito de debilitar a ofensiva contrarrevolucionária, mas, a menos que se abordem os problemas fundamentais, isto será apenas temporário.

Publicado em 17 de julho de 2017, no site da Corrente Marxista Internacional (CMI), sob o título “Venezuela: July 16 Opposition “consultation” countered by a Chavista show of strength“.

Tradução Fabiano Leite.

Deixe seu comentário

Leia também...

Qual o destino de Podemos? – Em defesa da democracia interna e de uma política de classe

A crise revolucionária na Catalunha está apertando o espaço de Unidos Podemos a níveis sem …