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Venezuela: 6º Congresso Nacional da CMR

Os marxistas venezuelanos a um passo de um salto qualitativo.

Depois de um excelente ato de abertura na Sexta-Feira, 15 de Maio, no auditório principal da SIDOR (siderúrgica de Orinoco), o 6º Congresso Nacional da CMR (Corrente Marxista Revolucionária) teve início no Sábado, dia 16, na Sala A do edifício de Recursos Humanos da siderúrgica. O fato de o congresso ser celebrado na siderúrgica reestatizada recentemente como resultado da luta feroz dos trabalhadores da SIDOR, é uma amostra das raízes que a CMR fincou dentro do movimento revolucionário. A atmosfera era de entusiasmo, mas também de expectativa. Os camaradas estavam ansiosos em participar das discussões do congresso e em ver quais decisões seriam tomadas.

Desde o início era possível sentir que este congresso abria um novo capítulo na construção da CMR. Começando com um pequeno núcleo de camaradas em Dezembro de 2003, a CMR desenvolveu-se em uma organização que, apesar de ainda relativamente pequena, está presente na maioria das regiões do país, e que construiu importantes pontos de apoio em setores chave do movimento operário e sindical, no movimento das fábricas ocupadas, no movimento estudantil e nas fileiras do PSUV e juventudes do PSUV.

Participaram do congresso 140 camaradas durante um final de semana, vindos de 11 estados diferentes: Caracas (DF), Anzoátegui, Monagas, Portuguesa, Miranda, Lara, Vargas, Bolívar, Mérida, Táchira e Zulía. A celebração do congresso em Ciudad Guayana, no leste do país, fez com que muitos camaradas, incluindo as delegações de Táchira, Mérida e Zulía, tivessem que viajar mais de 20 horas de ônibus para poder participar do congresso.

A composição dos participantes, delegados e convidados, também indica o grau de implantação da CMR no movimento revolucionário. Uma ampla delegação de ativistas operários da indústria automobilística e de autopeças do estado de Anzoátegui estava presente, não somente da Mitsubishi e Vivex, onde nossos camaradas desempenham um papel de direção, como também na fábrica Macusa, cujos trabalhadores, recentemente, ocuparam a empresa. Também havia uma importante delegação de trabalhadores da INVEVAL, fábrica sob controle operário no estado Miranda, assim como camaradas da PDVSA Monagas e Zulía. Também participaram trabalhadores das grandes fábricas da indústria básica do estado Bolívar, incluindo os militantes da Frente Revolucionária de Trabalhadores Siderúrgicos da SIDOR, além de trabalhadores da CVG, Venalum e Alcasa. Foram enviadas saudações dos trabalhadores das empresas ocupadas Franelas Gotcha e INAF, que não puderam enviar nenhum representante.

A impressionante composição operária do congresso era complementada por uma participação igualmente impressionante de jovens estudantes, trabalhadores e ativistas da juventude do PSUV. De Táchira participou um grupo numeroso de jovens, incluindo Freddy Acevedo, um conhecido jovem dirigente do PSUV do estado, além de uma delegação do Comando Estudantil Simon Bolívar que participaram como convidados. De Miranda, Mérida e Caracas participaram também uma série de dirigentes regionais da J-PSUV, que recentemente ingressaram na Corrente. Também havia uma delegação de jovens estudantes da UBV (Universidade Bolivariana de Venezuela) de Ciudad Bolívar.

Além desta combinação de jovens e trabalhadores, também é importante destacar a presença de um número de veteranos ativistas do movimento revolucionário venezuelano. Alguns deles haviam militado no passado no MIR, no PCV, na Causa R ou em outras organizações de esquerda. O que todos eles têm em comum é que se mantiveram fiéis à causa revolucionária durante os anos mais difíceis, depois da queda do stalinismo, quando a maioria dos dirigentes destas organizações traiu o movimento. Este é o porquê, de neste momento, encontrarem seu lugar nas fileiras da CMR.

Por último, mas não menos importante, tivemos a presença de uma série de convidados internacionais, estrangeiros residentes na Venezuela, do Brasil, México, Dinamarca, Grã-Bretanha e Espanha. Os camaradas colombianos, que estão dando os primeiros passos na direção da construção de uma seção da CMI, não puderam participar por questões de segurança e de vistos.

Discutindo perspectivas

A primeira sessão do sábado foi a discussão sobre perspectivas mundiais, apresentada por Jorge Martin do Secretariado Internacional da CMI. O documento de perspectivas havia sido preparado de antemão e distribuído a todos os militantes, foi discutido previamente em todas as células da organização, além de terem sido eleitos 43 delegados.

Jorge explicou a gravidade da atual crise do capitalismo, embora assinalasse que não existe uma “crise final do capitalismo”, “se a classe trabalhadora não tomar o poder, o capitalismo saíra desta crise, colocando-a sobre os ombros dos trabalhadores”. Insistiu também, que esta é uma clássica crise de superprodução que já teve um impacto decisivo na consciência de milhões de trabalhadores em todo o mundo. Já foram realizadas diversas greves gerais em países, tais como, Grécia, Itália, França e também assistimos a lutas defensivas muito duras, incluindo ocupações de fábrica. O período em que entramos é um período de revolução e contra-revolução, de intensificação da luta de classes, de guerras e conflitos entre as nações, onde as organizações tradicionais do movimento operário, políticas e sindicais, se transformarão de cima a baixo, abrindo enormes oportunidades para as idéias do marxismo revolucionário, com a condição de que sejamos capazes de construir uma organização de quadros firmemente enraizada na classe trabalhadora. Nesta sessão houve numerosas intervenções sobre um amplo arcabouço de temas, incluindo a situação dos EUA depois da eleição de Obama, a situação na Colômbia onde assistimos a uma ofensiva da classe trabalhadora, a teoria da revolução permanente etc.

Na seqüência foi dado um informe do trabalho e dos avanços da Corrente Marxista Internacional no último ano, com especial atenção ao desenvolvimento de nosso trabalho no continente americano, onde passamos de um só grupo de camaradas no México, há dez anos, ao ponto que chegamos agora, quando temos camaradas nos EUA, Canadá, México, Honduras, El Salvador, Equador, Peru, Venezuela, Bolívia, Brasil e Argentina, assim como simpatizantes e camaradas próximos em outros países.

Depois do informe internacional foi feita uma coleta entusiasmada, foi coletada a impressionante cifra de mais de BsF 10.000 (cerca de R$ 4.500), mais que o dobro do congresso anterior, demonstrando que a CMR está se construindo sobre as bases das melhores tradições de sacrifício revolucionário do movimento operário.

À tarde houve uma discussão sobre a revolução venezuelana e suas perspectivas, com uma introdução de Leonardo Badell. Leonardo insistiu em que a revolução bolivariana, apesar de ter alcançado importantes avanços no terreno social, ainda não foi completada. A economia continua sendo uma economia capitalista, e o estado ainda é, fundamentalmente, o mesmo estado capitalista da IV república, como pode ser demonstrado com os diversos exemplos de sabotagem por parte da burocracia contra os trabalhadores da INVEVAL, o assassinato dos trabalhadores da Mitsubishi sob as mãos da polícia de Anzoátegui, e muitos outros. Enquanto estes obstáculos não forem superados a revolução enfrentará o perigo de ser derrotada. A Venezuela está sendo duramente golpeada pela crise internacional do capitalismo, o que põe fim a ilusão de que é possível construir o “socialismo petroleiro”, ou seja, que é possível financiar o progresso social com a renda do petróleo, sem encarar o problema da propriedade dos meios de produção.

Depois da derrota no referendo da emenda constitucional, a oligarquia encontra-se debilitada em sua capacidade de mobilização. Inclusive quando um de seus dirigentes mais destacados, Rosales, foi acusado de corrupção e fugiu do país, a oposição não foi capaz de mobilizar sua base nas ruas de maneira significativa.

O principal perigo da revolução mora nas próprias fileiras do movimento bolivariano, o perigo da burocracia contra-revolucionária e dos setores reformistas da direção que não confiam na capacidade da classe trabalhadora e no povo revolucionário para avançar em direção ao socialismo – que no fundo não acreditam. A classe trabalhadora é que deve tomar a iniciativa e colocar-se à frente da revolução, expropriando a terra, os bancos e as principais indústrias sob controle dos trabalhadores, e organizar um novo Estado apoiado nos conselhos de trabalhadores e nos conselhos comunitários para administrar todos os assuntos públicos.

O debate foi muito vivo, com a participação de camaradas de diferentes partes da Venezuela. O cerne comum da maioria das intervenções foi a crescente frustração e impaciência do povo revolucionário e particularmente da classe trabalhadora na medida em que os discursos sobre o socialismo não se traduzem em fatos. Os camaradas da INVEVAL, PDVSA, Mitsubishi, relataram as lutas dos trabalhadores, refutando o desatino reformista de que “a classe trabalhadora não tem capacidade ou consciência para avançar em direção ao socialismo” ou até mesmo de que na Venezuela a classe trabalhadora não existe (!!).

Informe organizativo e tarefas

O camarada Pablo Cormenzana apresentou o informe organizativo, explicando tanto os avanços do último ano como os desafios que a CMR enfrenta. Pablo resumiu as atividades e as iniciativas da CMR, começando pelo espetacular giro de Alan Woods no mês de Junho de 2008, que visitou 10 estados do país, com uma audiência de 4.500 pessoas somando todos os eventos. Depois disso, no mês de Setembro, os camaradas da CMR fizeram uma intervenção em grande escala no congresso de fundação da J-PSUV, onde apresentaram um documento programático aos 1300 delegados que participaram do congresso. Depois desta intervenção organizamos o Encontro de Jovens Marxistas, com a participação de 85 jovens de todo o país, realizado na Vivex, fábrica de autopeças ocupada pelos trabalhadores, em Barcelona.

Em Novembro, os camaradas organizaram uma conferência sindical da CMR com cerca de 70 ativistas operários, que fortaleceu a presença da CMR nos diferentes sindicatos e locais de trabalho. Assim, pudemos organizar reuniões similares em Zulía e com os trabalhadores da SIDOR em Bolívar.

Pablo também explicou a enorme autoridade que a CMR adquiriu através do trabalho das fábricas ocupadas. A FRETECO (Frente Revolucionária de Trabalhadores de Empresas em Co-Gestão e Ocupadas) foi uma ferramenta vital neste sentido. Começando pela INVEVAL, fomos capazes de conectar com os trabalhadores de outras fábricas ocupadas como INAF, Gotcha e Vivex, que foi ocupada em Novembro e que fabrica vidros para a indústria automobilística.

Os camaradas da CMR na fábrica da Mitsubishi em Barcelona, Anzoátegui, executaram um trabalho exemplar. A ocupação da fábrica durou quase dois meses, inclusive resistiram ao assalto desastroso por parte da polícia de Anzoátegui, em 29 de janeiro, para desalojar os trabalhadores, que resultou na morte de dois trabalhadores. Ao final os camaradas chegaram a um acordo com o patrão, sob forte pressão do ministério do trabalho. Embora este acordo represente uma vitória parcial para os trabalhadores, que ganharam muitas de suas reivindicações, os camaradas insistiram que tudo isso não era mais que uma trégua contra os capitalistas multinacionais.

Além disso, os camaradas dedicaram um grande esforço para a publicação e distribuição de livros marxistas. Na Feira do Livro de Caracas, em Novembro de 2008, os camaradas bateram um novo recorde, vendendo BsF 13.500 em material. Do último livro de Alan Woods “Reformismo ou Revolução – resposta a Heinz Dieterich” foram vendidos mais de 1.500 exemplares na Venezuela e foi recomendado publicamente pelo presidente Chávez em diversas ocasiões. Os camaradas também aproveitaram o Congresso para lançar o novo livro de Pablo Cormenzana, “A Batalha da INVEVAL”, que descreve em detalhes a história da ocupação e expropriação desta fábrica de válvulas que agora funciona sob controle operário, e tira as lições mais importantes desta luta.

Estes são apenas alguns exemplos que dão uma idéia do trabalho da CMR no último ano, foi também relatado o trabalho em cada uma das células da CMR nos diferentes estados e fábricas.

Comissões sobre o PSUV, o movimento sindical, finanças e jornal

O Domingo foi dedicado às mesas de trabalho sobre os diferentes aspectos do trabalho da CMR. Em uma delas foi feito o balanço do último ano desde o congresso de fundação do PSUV, por parte do camarada Euler Calzadilla, que explicou a intervenção dos marxistas no partido e em sua organização juvenil. A comissão era especialmente importante tendo em vista o plano para um novo congresso do partido no mês de Setembro. A CMR lutará para assegurar que este congresso seja autenticamente democrático e que a discussão seja feita sobre as bases das idéias, ao mesmo tempo em que propõe um ponto de vista marxista revolucionário ao mesmo.

Na comissão sobre o jornal da CMR, Leonardo Badell explicou como o El Militante cresceu, desde um jornal bimestral com uma tiragem de 1.000 exemplares a um jornal mensal com uma tiragem de 5.000 exemplares, que permitiu que sua audiência crescesse em nível nacional. Também insistiu na necessidade de fortalecer uma rede de correspondentes operários em todas as fábricas.

As outras duas comissões deram um panorama muito bom do trabalho da CMR no terreno das finanças e do movimento operário. A comissão sindical foi particularmente viva dado que todos expunham as experiências da luta em todo o país, demonstrando na prática como a classe trabalhadora venezuelana está na vanguarda da classe trabalhadora mundial desde um ponto de vista de sua consciência de classe, e como na realidade o que lhe falta é uma direção à altura das circunstâncias, já que todas as facções da direção da UNT estão emaranhadas em disputas personalistas. Nelson Rodríguez da INVEVAL, Yeant Sabino da Vivex, Félix Martinez da Mitsubishi, a camarada da PDVSA em Zulía, todos insistiram nesta idéia e explicaram que na realidade os trabalhadores da base desejam a unidade sobre a base de um programa de luta. A comissão também discutiu o II Encontro Latino-Americano de Fábricas Recuperadas pelos Trabalhadores a ser realizado em Caracas, no último final de semana de Junho, e que também deveria ser usado como fórum para discutir a situação do movimento sindical venezuelano e a necessidade da unidade sobre a base da luta pelo socialismo.

Encerramento

No Domingo à tarde o congresso chegou a seu final. Antes do encerramento por parte dos delegados internacionais, os organizadores do congresso expressaram seu agradecimento aos camaradas da Frente Revolucionária dos Trabalhadores da Siderurgia cuja ajuda foi crucial para celebração do congresso na SIDOR. Os camaradas presentearam a FRTS com dois livros marxistas, e eles expressaram seu entusiasmo sobre o congresso, felicitaram a CMR por seu trabalho no último período e o camarada que falou em nome da Frente comprometeu-se a construir uma célula marxista na fábrica. Também foi feita uma coleta em apoio aos trabalhadores da Vivex, que há mais seis meses ocupam a fábrica – foi arrecadado mais de BsF 1.100.

Logo após, Juan Ignacio Ramos da Espanha e Jorge Martin do SI da CMI fizeram algumas reflexões finais. Juan Ignacio assinalou que estava há duas semanas na Venezuela, mas o lugar onde pôde sentir o pulsar revolucionário de maneira mais forte era precisamente no congresso da CMR. “Este congresso está muito longe do ambiente que é respirado nos ministérios ou entre os funcionários burocratas, aqui é possível sentir as autênticas aspirações revolucionárias das massas exploradas”.

Jorge Martín lembrou aos participantes o enorme caminho percorrido desde o modesto início da CMR em Dezembro de 2003. Contudo, este é apenas o início. A CMR, como parte da CMI, ainda está lutando para ampliar seu núcleo de quadros e agrupar em suas fileiras os melhores elementos da vanguarda do movimento revolucionário. Somente uma Corrente Marxista Revolucionária forte no PSUV e nos sindicatos poderá assegurar que a classe trabalhadora complete sua revolução de maneira decisiva, expropriando o poder econômico da burguesia, dos banqueiros e dos latifundiários.

Depois deste discurso, o congresso foi encerrado com um emocionante canto da Internacional, o hino da classe trabalhadora mundial.

Escrito pelo Correspondente em Puerto Ordaz
19 de Maio de 2009

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