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Uma perspectiva para o movimento de greve da USP



Texto do panfleto distribuído na assembléia dos estudantes da USP realizada na POLI em 23/11/2011.
Do norte da África aos EUA, passando por toda a Europa, o mundo vem conhecendo nos últimos 12 meses mobilizações de massas sem precedentes. Desde a derrubada dos ditadores na Tunísia e no Egito, que levou ao incêndio social em todos os países árabes, até a ocupação da Assembléia Legislativa de Wisconsin nos EUA e agora o movimento Ocuppy Wall Streetque se espalha por todo o território da nação mais rica do mundo, passando pelas dezenas de greves gerais de 24 ou 48 horas na Grécia e outras na França e Itália, além das manifestações gigantescas na Espanha, Inglaterra (está convocada para amanhã, 24/11, uma greve geral em Portugal), uma clara mensagem vem sendo construída pelos povos: Não aceitamos mais que a maioria da riqueza produzida por nós fique nas mãos de uma minoria.



A crise econômica que arrasa a Europa e EUA ainda não atingiu o seu ápice e não mostrou toda a sua força na América Latina, muito menos no Brasil. Mas isso vai mudar.


Historicamente a juventude tem demonstrado ser uma espécie de termômetro da luta de classes, expressando sua insatisfação, mesmo que de maneira confusa e desorganizada, antes dos batalhões da classe trabalhadora, capazes de fato de mudar a ordem das coisas. E isso se faz mais verdadeiro nas últimas décadas em que na maioria dos países a classe trabalhadora tem sido controlada por dirigentes conciliadores e reformistas que ainda gozam de muita confiança entre os trabalhadores. Mas isso também não pode durar pra sempre. A classe trabalhadora mundial carece de uma direção revolucionária. É só isso o que falta para pôr fim ao sistema que afoga em guerras, miséria e sofrimento bilhões de seres humanos em todo o planeta.



Mesmo assim, os povos seguem seu movimento. Elegem aqui e acolá governos “de esquerda” nos quais depositam suas fichas e fazem suas experiências. Na América Latina e na Europa (e mesmo nos EUA com as ilusões em Obama) isso ficou bastante evidente. Mas o movimento das massas nos últimos meses mostra que a maré está mudando. Os estudantes no Chile dão exemplo disso.


Na USP, o que está acontecendo é justamente a expressão deste movimento geral, só que adaptado às circunstâncias específicas da comunidade universitária. O processo de privatização e a conseqüente militarização da USP são expressão do movimento mais geral do Capital Financeiro Internacional que precisa destruir forças produtivas, aumentar a exploração do trabalho em escala mundial e reprimir ao máximo os movimentos de resistência dos povos para poder superar a crise econômica atual e experimentar novo ciclo de crescimento capitalista – somente para depois afundar em nova crise.


É preciso que o movimento estudantil da USP tenha claro quais forças se movem por trás dos acontecimentos recentes. Helicópteros e forças táticas especiais não são usados para prender meia dúzia de usuários de maconha ou mesmo para efetuar reintegração de posse de um prédio público ocupado por algumas dezenas de estudantes – muito menos para fazer a segurança de um campus universitário. O que está em questão é quem manda na universidade: o público ou o privado.


Rodas – o reitor derrotado nas eleições e mesmo assim empossado pelo governador – e as tropas militares sob seu comando representam claramente os interesses privados dentro da universidade e querem estabelecer sua hegemonia à força. O movimento estudantil e o movimento sindical dos funcionários e professores devem se constituir na ponta de lança dos interesses públicos no interior da universidade. Nesse sentido é preciso que o movimento avance e supere a noção de público como aquilo que é de propriedade coletiva, mas controlado por cargos estatais que nada mais são do que agentes do capital travestidos de funcionários públicos – afinal o que é o Rodas?


É preciso avançar para o conceito de “Universidade Pública sob o controle dos professores, funcionários e estudantes”. Para tal urge uma estatuinte soberana construída de tal forma a fazer o mais amplo debate em toda a universidade. Entretanto, para isso a tarefa imediata é expulsar a PM do Campus. Não é possível realizar uma estatuinte democrática numa universidade ocupada militarmente, onde a polícia a mando do reitor age como repressor social e ideológico.


Mas a revogação do convênio firmado pelo reitor com a PM e a retirada definitiva das tropas só será alcançada com o fortalecimento e aprofundamento da greve. E isso só se dará à medida em que os professores aderirem à greve. A postura da Adusp até agora é inaceitável. Nenhum professor da USP que defenda os preceitos básicos da democracia deveria aceitar ministrar uma aula sequer enquanto o campus estiver sob o controle da PM! A Adusp deveria assumir seu papel de entidade de classe e conclamar todos os professores à greve imediata por tempo indeterminado. Enquanto isso não ocorre, nós, estudantes, devemos nos dirigir – através das entidades estudantis e do comando de greve eleito – aos professores e à Adusp propondo a greve insistentemente. Um excelente ponto de apoio é a declaração assinada por alguns professores da FFLCH e da ECA que publicamos aqui em nosso panfleto (leia aqui). É com o espírito de indignação desses professores que temos que chegar ao conjunto dos docentes da USP.


Com uma greve de estudantes, funcionários e professores não há dúvidas de que nem o Rodas e nem a PM se sustentam na universidade. Já em paralelo devemos formar comitês pró-estatuinte a partir dos comandos de greve, que distribuam cópias do atual estatuto da USP e organizem debates sobre que universidade queremos. Colocar tudo em questão é que abrirá a saída para o nosso movimento que já é a maioria dentro da universidade. Os estudantes que, ameaçados pelo calendário de provas e trabalhos ainda não aderiram à greve, poderão ser convencidos à medida que a greve se fortalecer e as comissões estudantis de greve conseguirem os acordos com professores simpáticos ao movimento. Nenhuma aula até que a Polícia Militar saia do Campus! Venceremos!


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Leia aqui como foi a última assembléia dos estudantes da USP:

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