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Uma nova situação no Brasil, o caráter das manifestações, as forças sociais em cena e os rumos do movimento

As manifestações populares contra o reajuste das tarifas de transporte público foram enfrentadas inicialmente pelos governantes com repressão pura e dura. A repressão desatada nas manifestações quinta-feira, 13/06/2013, teve seu ponto culminante em São Paulo onde a polícia realizou uma verdadeira operação de guerra contra a população.  Mas, ao invés de desbaratar a manifestação, a repressão encontrou resistência e se chocou com uma impressionante solidariedade de toda a população. No dia seguinte a burguesia e os governantes foram obrigados a inflexionar e tratar de outra forma a situação.

Uma nova situação política se abriu no Brasil. No Boletim semanal Foice & Martelo nº 8, antes das grandes manifestações, a Esquerda Marxista confirmava as análises de sua Conferência nacional (http://marxismo.org.br/?q=content/informe-politico-conferencia-nacional-da-esquerda-marxista-2013) e explicava que uma nova situação se anunciava no Brasil, contra e apesar dos discursos ufanistas dos dirigentes do PT e da CUT.

A repressão espantosa ocorrida teve o condão de fazer explodir a situação. Ela aconteceu em praticamente todos os estados, simultaneamente. E no dia seguinte pela manhã, 14/06/2013, Haddad cinicamente declarava que A polícia segue protocolos. Quando o protocolo é obedecido, as coisas caminham bem. No dia de ontem, segundo as imagens e os relatos, parece que esses protocolos não foram observados…”. Já o ministro da justiça, José Eduardo Cardoso, anunciava apoio à repressão oferecendo tropas federais à Alckmin, do PSDB de SP (http://www.marxismo.org.br/?q=content/de-que-pt-e-o-ministro-jose-eduardo-cardozo-que-apoia-repressao-de-alckmin). Evidentemente que estas duas declarações tinham o objetivo de mostrar que TODOS estavam juntos na repressão e no enfrentamento com os manifestantes sufocando o movimento.

Entretanto, a reação popular foi magnífica e com manifestações gigantescas tomaram as cidades e impuseram um recuo aos governantes. A repressão e os governantes foram isolados e a polícia impedida de atuar abertamente. Haddad e Alckmin anunciam a revogação do aumento tendo sido antecipados por diversos prefeitos e foram seguidos imediatamente por outros.  Novas e ainda maiores manifestações ocorreram no dia 20 de junho comemorando a vitória e apresentando novas reivindicações. As manifestações se alastraram e já moveram milhões em todo o Brasil. Elas continuam, apesar da evidente falta de direção.

O espanto da burguesia e dos dirigentes reformistas que abandonaram a classe trabalhadora e a juventude

O mal estar da civilização, a falta de perspectivas, a angústia de viver no inferno capitalista que só organiza catástrofes, veio à tona e não vai desaparecer de cena com discursos demagógicos dos governantes. O ódio contra um sistema que nada mais oferece às massas que sofrimento sem fim se expressa na revolta da juventude e na simpatia popular. Os 20 centavos foram apenas a gota d´agua.  É o capitalismo que não tem saída.

São os partidos de direita que nada tem a dizer à juventude e aos trabalhadores. São os partidos de esquerda, em primeiro lugar o PT, o PCdoB, que chegam aos governos e governam como todos os capitalistas.  E cantam glórias ao avanço do capital internacional sobre a nação e a classe trabalhadora, distribuem o dinheiro público e continuam as privatizações, enquanto se vangloriam de ter tirado 40 milhões de brasileiros da miséria porque aumentaram a renda destes deserdados para cima de R$70,00/mês. Setenta reais!

Quem pode culpar a juventude porque tem ojeriza dos atuais partidos, que não se sinta representada por eles e seja manobrada pela burguesia, que quer exatamente afastar a revolta juvenil da saída política necessária?

Governantes, a burguesia e sua mídia, dirigentes partidários reformistas e sindicalistas colaboradores da burguesia, todos estavam surpreendidos e em pânico. O ministro chefe, Gilberto Carvalho, declara “Seria pretensão achar que a gente compreende o que está acontecendo”.  E isto é certo, eles não estão entendendo nada do que se passa nas ruas.

Até ontem eles não se cansavam de recitar que o Brasil era a 5ª potencia mundial, o PIB crescia, não havia mais miseráveis, os pobres e os trabalhadores estavam “virando classe média” e que mais capitalismo era igual a mais felicidade.

Zé Dirceu chegou a declarar em seu blog que antipatizava (sic!) com o movimento pela redução das tarifas e as manifestações: “… minha posição, que até ontem tinha sido de desconfiança e mesmo antipatia com o movimento, pelos brotes de violência desnecessária” (Blog do Zé, 14/06/2013). No mesmo dia escrevia: O MPL é o organizador dos quatro protestos realizados na capital (cada um descambando para maior violência que o outro) contra o aumento das passagens do transporte público”. Como se tivessem “descambado” por seu próprio caráter, quando toda a violência era nitidamente provocada pela polícia.

Verdade seja dita que a partir daí condenou a repressão ordenada por Alckmin. Mas, não deu um pio sobre a ajuda oferecida pelo ministro José Eduardo Cardozo ao sanguinário governador de São Paulo. Um dia depois tenta livrar a cara do ministro atacando Alckmin como o único responsável e publicando: “Autoridades de todo o país, entre as quais os ministros da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo e dos Direitos Humanos, Maria do Rosário,  condenaram a atuação da PM de São Paulo. “Não ficou bem para a polícia”, disse Cardozo”. É como Haddad, ele acha que não “ficou bem” não “seguir os protocolos”.  

 O suposto comunista Aldo Rebelo, ministro da FIFA e da Executiva do PCdoB, declarou que “Não vamos permitir que nenhuma dessas manifestações atrapalhe nenhum dos eventos que nos comprometemos a realizar. Quem achar que pode impedir a realização desses eventos enfrentará a determinação do governo de impedir.”

Até o mundo cair sobre a cabeça deles.   Agora é quase impossível encontrar um dirigente, um burguês ou um reacionário que não “apoie” as manifestações tentando captura-las e controlar o incêndio. É o pânico. O medo de que as massas descontroladas ponham tudo em cheque e destrocem as instituições reacionárias e antidemocráticas que governam este país. Zé Dirceu, que mesmo perseguido e condenado fraudulentamente pelo STF não desiste de colaborar e sustentar as instituições burguesas reacionárias declara em seu blog, citando André Singer: “Ou seja, é preciso “canalizar a revolta contra as instituições para uma participação que as revitalize, e não que as destrua”.  Revitalizar as fortalezas do inimigo de classe, impressionante!

É espantoso o medo da revolução e o apego ao capital e suas instituições, desenvolvido pelos dirigentes reformadores do capital. E continuam cinicamente a falar em socialismo…, um dia, claro!

O caráter das manifestações, a ação de grupos fascistas e a realidade por trás do barulho da fumaça

É bem evidente que estas manifestações tomaram um caráter de participação da juventude e de setores da pequena burguesia. Inclusive da pequena burguesia empurrada pelo moralismo de direita, tão bem alimentado pela farsa do julgamento do dito mensalão e que não encontrou resistência alguma dos dirigentes do PT e da CUT, e nem dos governantes Lula e Dilma. Aí se expressa o profundo rechaço das massas jovens aos partidos que dizem uma coisa e fazem outra, que falam em socialismo, mas apenas trabalham duro para os capitalistas. Mas, de forma alguma isto muda o caráter profundamente popular das manifestações, e que é a expressão das necessidades profundas do povo trabalhador e da juventude que não são atendidas pelos capitalistas e seus lacaios.

A mídia burguesa tenta controlar as manifestações através do discurso “contra a violência” quando ela parte dos jovens e da criminalização de “baderneiros” falando de parcelas de jovens que a situação levou ao desespero e reagem sem rumo e sem objetivo. Dilma se soma à cantoria da “não violência” como a questão central.  E não dá nenhuma resposta ao movimento.

O grupo anarquista pequeno-burguês (para eles tanto faz se as empresas de transporte são publicas ou privadas, desde que tenha passe livre) que se autodenomina MPL usurpando o nome do antigo movimento de Frente Única pelo Passe Livre, o verdadeiro MPL, junto com outros grupos anarquistas chegou a ameaçar sindicatos e outros agrupamentos de atacar seus carros de som porque “o microfone é autoritário”.  O resultado se viu. Manifestações sem orientação, com o MPL e outros grupos anarquistas fazendo o que bem entendiam, manipulando as massas na rua e permitindo que punks e outros desvairados atacassem a polícia dando-lhes um álibi quando a PM já estava decidida e preparada para reprimir. O resultado se conhece.

Abriu-se caminho para a mídia tentar impor palavras de ordem tipo “sem partido” e “sem bandeiras”, “tudo pelo Brasil”, “contra a PEC 37”, etc. Um combate para sufocar as organizações operárias e populares. E nas manifestações a cobertura da mídia permitiu e ajudou a PM a cumprir um papel decisivo arrastando organizações de direita, neonazistas, carecas, nacionalistas, e outras. 

Mas, todas estas organizações são politica e numericamente insignificantes. Após a operação militar que expulsou as organizações operárias e populares, os partidos de esquerda, da manifestação do dia 20, na Paulista, em SP, e no RJ, uma enorme gritaria pela internet avisava da iminência dos fascistas controlarem tudo e de um golpe fascista, etc. Muitos chegavam mesmo a dizer que os fascistas tinham tomado as manifestações.

Se isso tivesse acontecido um período de guerra civil ou de reação total se abriria no Brasil imediatamente. Mas, isso está longe de ser verdade.

Quem fez o trabalho sujo foi a PM disfarçada de manifestante

Tanto em SP como no RJ não foram organizações fascistas que retiraram a esquerda das manifestações. Foi uma operação organizada pelas PMs. Com centenas de policiais a paisana, disfarçados de manifestantes, apoiada por grupúsculos fascistas e nacionalistas, a PM entrou em SP na manifestação primeiro fazendo uma barreira por trás da esquerda, depois bloqueou a frente com outra barreira e após ter espremido todos, moveu as duas alas em cunha para empurrar todos para fora da avenida.  Foi uma verdadeira operação militar.

Nenhum grupo fascista no Brasil tem capacidade, experiência de combate de rua, militância e organização para “expulsar a esquerda” de uma manifestação séria. Foi uma operação militar da única força de repressão especializada em enfrentar as manifestações, a PM. É claro que a PM é ligada e amiga de todo tipo de micro grupo político ultrarreacionário e os convocou. Enquanto uns gritavam, ameaçavam, inclusive com facas, e arrastavam jovens pequeno-burgueses na gritaria, a PM disfarçada fazia o trabalho sério de “limpar a manifestação”, para que se apresentasse como uma vitória de direita sobre a esquerda, como se a massa de manifestantes tivesse expulsado a esquerda.

Não há organizações fascistas de massa no Brasil e nem mesmo capazes de fazer uma operação cirúrgica numa manifestação com foram as três realizadas simultaneamente na mesma manifestação, em SP, no dia 20. Uma retirou o bloco MST, CUT, PT e PCdoB. Outra retirou o bloco PSTU, PSOL, PCB, PCO, etc. A terceira retirou o MPL e anarquistas da cabeça da manifestação. Mesmo Hitler só teve organizações fascistas capazes de enfrentar a esquerda nas ruas após anos e anos de combate e de desmoralização da esquerda pela política dos governantes social democratas e pelo divisionismo do PC Alemão.

Em todo caso, mesmo esta operação militar só pode ter sucesso porque os dirigentes do PT, do PCdoB, da CUT e do MST, não se apresentaram. Não estavam lá e não mobilizaram uma palha. Os sindicatos continuam aceitando a ordem de não ter carro de som, de não ter uma coordenação e uma orientação, permitindo que qualquer um desagregue a manifestação.  Quem pode acreditar que uma manifestação onde os batalhões pesados da classe operária, os aparatos poderosos dos sindicatos e partidos sejam mobilizados de verdade, aí poderiam se impor estes policiais e os bandos fascistas?

O fato é que os atuais dirigentes, intoxicados de reformismo e colaboração de classes não desejam mobilizar e muito menos organizar as massas. Eles estão acostumados ao tapetão e são refratários ás lutas de verdade, ainda mais se se dirigem contra os governos que eles adoram. Quando reagem ao clamor das ruas é para salvar sua própria pele e tentar vazar pressão da panela. 

É por isso que a Esquerda marxista, que desde o início teve uma posição inflexível de não abaixar as bandeiras, de preferir uma derrota física antes que uma desmoralização política defende a unidade das organizações em defesa do direito de expressão e das liberdades democráticas.  Mas, não tem nenhuma palavra de ordem “unitária” com as outras organizações. A Esquerda Marxista levanta suas próprias palavras de ordem porque entende que elas sã a expressão das necessidades profundas do movimento de massas e de seus objetivos históricos na luta contra o capital e pelo socialismo.

Ao contrário do que pretende o irresponsável MPL, em todos os lugares onde se conformou um Comitê unitário e democrático as manifestações não puderam ser desorganizadas e nem tomadas pela direita e as bandeiras e faixas da esquerda seguiram levantadas.  Há inúmeros exemplos, como em Florianópolis e Joinville, em Santa Catarina, assim como em outras cidades do país. Só após ser expulso pela PM, circundada por fascistas, da manifestação em São Paulo, este grupo anarquista pequeno-burguês, MPL, girou e agora busca se defender junto com as organizações de esquerda.  Eles serão defendidos porque o movimento operário revolucionário, e a tradição operária brasileira, se movem por princípios e pelos interesses gerais do proletariado. Não por interesses mesquinhos de seitas.

O MPL está apreendendo a duras penas (esperamos que sim), que mesmo sendo promovido, fraudulentamente, permanentemente, pela mídia burguesa, governo federal e outros, como sendo a direção e “porta-voz” do movimento, isso não lhe dá um passaporte em relação à PM e aos grupos fascistas.

O PSTU, que como os PC Alemão em 1931/33, não via diferença entre o SPD (Socialdemocrata, que arrastava a maioria da classe operária) e o partido nacional-socialista, nazista, de Hitler, também não vê diferenças entre o PT e o PSDB. O PSTU arrastado pela confusão diz uma coisa e faz outra.  Em um excelente artigo combativo o dirigente do PSTU, Valério Arcary, convoca os militantes a não abaixar as bandeiras vermelhas e a resistir. Já no Comitê Unitário de Florianópolis o PSTU se pronuncia por esconder as bandeiras, e junto com outras correntes declaram que “se a Esquerda Marxista quiser ir para as manifestações com suas bandeiras, irá por sua conta e risco, e assumirá sozinha as consequências”.

Só para informar: A Esquerda Marxista foi com suas bandeiras erguidas e as manteve do começo ao fim resistindo a todos os provocadores.  Ao final, na manifestação de 24/06/2013, quem teve que se retirar foi a direita e uma centena de jovens tucanos foi com suas plaquinhas contra a PEC 37 para a frente da casa do governador, enquanto milhares seguiam as bandeiras da esquerda e dos sindicatos pelo centro de Florianópolis.

O rio transbordou e as águas não vão voltar facilmente ao velho leito

A CUT, e as outras centrais, foram obrigadas a correr atrás e endurecer o tom convocando, para 11/07/2013, um dia de “Manifestações, Greves e Atos”, que os jornais burgueses apresentaram como uma convocatória à Greve Geral. A base do PT está indignada com a direção e disposta para o combate contra a direita. As reivindicações mais sentidas ainda não foram atendidas, e nada pode ser resolvido com a crise se acentuando e a continuidade da política pró-capitalista do governo. Mais desonerações, mais dinheiro público para empresários, mais privatizações e desmanche dos serviços públicos é uma receita perfeita para a próxima explosão, que vai atingir o PT em cheio.

A única saída para o PT é “Virar À Esquerda e Reatar com o Socialismo” expulsando os capitalistas do governo. Toda força para preparar o 11 de julho com greves e manifestações.  Nós estaremos lá. Erguer bem alto as bandeiras vermelhas do socialismo.  Este é nosso combate para não sermos engolfados pelo caos e o sofrimento em que o capitalismo, sistema internacional de opressão e exploração, mantem a humanidade. Nenhuma reforma política deste sistema e deste estado burguês pode resolver os problemas das massas trabalhadoras e da juventude. Os marxistas bolcheviques não querem reformar o estado burguês e o capitalismo. Pretendemos destruí-los e estabelecer o Governo da República dos Conselhos, gerindo democraticamente uma economia de propriedade estatal, coletiva e planificada no interesse da maioria. Mais que nunca estamos frente ao dilema “Socialismo ou Barbárie”.  Só a revolução socialista pode iluminar o caminho da Humanidade.

Ainda é tempo. Uma reação organizada, na base petista e cutista, deve exigir a expulsão dos capitalistas do governo, o atendimento de todas as reivindicações, fim do pagamento da Dívida Externa e Interna, estatização do sistema financeiro, Saúde e Educação Pública em todos os níveis com o fim do vestibular e vagas para todos, Reforma Agrária imediata, reestatização de todos os serviços e empresas privatizadas, estatização do transporte coletivo e tarifa zero, anulação de todas as perseguições, processos e condenações contra os movimentos populares.

Para conquistar isso só podemos contar com as forças independentes da classe trabalhadora e da juventude. Por isso é preciso reunir e organizar todos os que desejam dedicar sua vida à causa do proletariado, do comunismo e do fim do regime da propriedade privada dos meios de produção, organizando uma corrente revolucionária que derrote a colaboração de classes e os capitalistas. A explicação do significado profundo da atual virada na situação, seu caráter internacional, que forças agem nesta luta e a crítica fraterna, mas clara das posições capituladoras ou sectárias, é a chave deste combate para organizar e mobilizar a juventude e os trabalhadores mais conscientes. 

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